Devo mentir para não me expor?

Você diz que mora em uma vizinhança de fofoqueiros que adoram saber tudo de sua vida. Por isso, quando no elevador encontra vizinhos que ficam fazendo perguntas sobre sua vida você prefere dizer mentiras a deixar que saibam detalhes de sua família, preferências pessoais, etc.

Se alguém perguntar sua senha bancária, então diga não. Se perguntar quanto você ganha pode dizer tranquilamente que prefere não revelar. Algumas empresas chegam a incluir no contrato de trabalho a proibição de revelar salários. Se a pessoa quiser saber um segredo ou algo muito íntimo, diga apenas que prefere não dizer.

Há várias maneiras de se dizer não sem ser indelicado: “Ainda estou trabalhando para resolver isso...”, “Assim que eu conseguir enxergar com clareza digo a você...”, “Não tenho certeza se a outra pessoa envolvida gostaria que eu revelasse o que aconteceu...”, etc. Mas se alguém perguntar se é casado, se tem filhos ou se gosta de jogar futebol, não vejo razão para não dizer ou querer evitar a pessoa. Mentir, nem pensar!

Se você for realmente salvo por Cristo irá enxergar nisso não uma invasão de sua privacidade, mas uma oportunidade para iniciar uma conversa e falar à pessoa do amor de Deus. Ponha na cabeça que você não é nenhuma celebridade, portanto que mal há em seus vizinhos ficarem sabendo algo a seu respeito? O cristão transparente não tem nada a esconder. Se as pessoas vão usar o que descobrirem para fofocarem o problema é delas para com Deus, não é seu.

É sempre bom olharmos para o Senhor quando buscarmos um modo de proceder nesta vida. O Senhor era transparente? Sim. Será que ele mentia quando lhe perguntavam alguma coisa? Não. Afinal, a própria vinda de Jesus ao mundo é a maior prova da transparência de Deus, ao querer se revelar ao homem. É claro que Deus já sabia o que nós, seres humanos, iríamos fazer com seu Filho, mas isso não o impediu de enviá-lo ao mundo.

Pense assim: se alguém quisesse conhecer Jesus na intimidade, será que ele permitiria? É claro que sim, pois a muitos que o conheceram enquanto andou aqui, e o conhecem hoje, ele revelou sua verdadeira natureza divina. “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30). E mesmo aos seus inimigos ele deixava clara sua transparência: “Qual de vocês pode me acusar de algum pecado? Se estou falando a verdade, porque vocês não creem em mim?” (Jo 8:46).

É claro que muito do que se podia conhecer de Cristo estava vedado aos olhos dos incrédulos, não porque ele não fosse transparente, mas porque os ímpios se recusavam a enxergar. Porém seus discípulos tinham o privilégio de conhecê-lo:

(Jo 15:15) “Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer“.

A transparência de Jesus era tamanha que séculos antes de ter vindo ao mundo Deus já revelava quem ele era, como nasceria aqui, como viveria e como morreria. Mais uma vez a incredulidade era a única barreira para conhecê-lo.

(Jo 5:39-40) “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam ; E não quereis vir a mim para terdes vida”.

O apóstolo Paulo também dá prova de sua transparência ao revelar: “E, se sou rude na palavra, não o sou, contudo na ciência; mas já em todas as coisas nos temos feito conhecer totalmente entre vós“ (2 Co 11:6).

Por isso é bom você fazer uma autoanálise para ver se essa sua maneira de ser não é apenas uma das facetas do egoísmo. O cristão não deve querer guardar tudo para si, sejam as informações sobre sua vida, sejam as coisas que possui. Conheço pessoas que nunca dão as roupas que não servem; guardam tudo o que usaram desde criança. Será que pretendem ser enterradas em um contêiner em lugar de caixão?

Mas pode ser que seu medo da transparência esteja em querer esconder suas fraquezas e falhas, o que acaba fazendo de seu medo sua maior fraqueza. Pessoas religiosas são assim como os fariseus: têm pavor que as pessoas descubram quem elas realmente são por debaixo da aparência de falsa dignidade. Se os apóstolos não fossem transparentes, como poderíamos saber de todos os erros que cometeram e estão gravados nos evangelhos? E se os profetas do Antigo Testamento não fossem transparentes, como iríamos conhecer toda a podridão dos israelitas descritos ali?

Uso em meus treinamentos de oratória, duas cenas de um vídeo de um filme que mostra a vida do cantor rapper Eminem. Na primeira cena ele está participando de um duelo entre rappers e depois de ser massacrado com as rimas violentas de seu adversário, tem um branco total e fica mudo na sua vez de revidar. Na segunda cena, antes que seu adversário traga todos os podres a seu respeito na letra improvisada, é ele quem se adianta a cantar suas desventuras e defeitos, terminando com a frase dirigida ao adversário: “Agora diga a eles alguma coisa que ainda não saibam a meu respeito”. Então foi a vez do adversário ficar mudo.

Minha lição aos participantes do treinamento é: comecem uma palestra falando de si mesmos e de preferência contando alguma falha ou caso engraçado em que você fez papel de bobo. Isto faz com que a plateia enxergue você como uma pessoa transparente e normal e aceite melhor o que você irá falar, ao invés de vê-lo como um soberbo e orgulhoso de saltos altos e de nariz empinado.

Um cristão não tem medo da transparência porque ele sabe que não está aqui para defender sua reputação, mas para apresentar Cristo às pessoas. Se a sua vida está um bagaço, então o melhor é ele se acertar diante de Deus e dos homens e dar um bom testemunho de Jesus, que neste mundo é representado justamente pelos que professam crer nele. Mesmo assim, basta ler o capítulo 11 de Hebreus para perceber que foram homens cheios de falhas que Deus usou no passado.

(Tg 5:17) “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra”.

Que as pessoas podem fazer um mau uso das coisas que descobrirem a seu respeito não há como negar. Mas elas também podem fazer o mesmo das coisas que não descobrirem e simplesmente imaginarem, porque em toda comunicação as pessoas nem sempre escutam o que falamos, mas sim o que pensam que falamos ou imaginam a partir do que não revelamos.

É por isso que você pode dizer a alguém que acabou de voltar de uma viagem no exterior e a pessoa pensar consigo mesma: “E esse aí tem dinheiro para viajar ao exterior? Conversa fiada...”. Ou dizer que nunca viajou para o exterior e seu vizinho pensar consigo: “Imagina que esse aí nunca viajou! Deve conhecer o mundo inteiro...”.