QUINTA CARTA — Obra de Literatura

PARECEU-ME necessário escrever a você uma vez mais para tratar de alguns assuntos ligados à obra de evangelização, os quais ultimamente vêm chamando minha atenção. Há três ramos distintos da obra que gostaria de ver ocupando um lugar claro e de maior proeminência entre nós. Estou me referindo à obra de literatura, à pregação do evangelho e à escola dominical.

Surpreende-me ver que o Senhor está despertando as atenções para a importância da obra de literatura como um valioso meio na obra de evangelização; mas me pergunto se estamos envolvidos nisso com toda a seriedade. Por que digo isto? Será que os livros e folhetos não nos interessam mais e perderam seu valor aos nossos olhos? Ou será que a falta está na maneira como é conduzida a obra de literatura? Em minha opinião parece estar faltando algo no que se refere a este último ponto.

Gostaria muito de ver um depósito de literatura bem administrado em cada cidade; por “bem administrado” eu entendo algo que é assumido e levado adiante como um serviço direto ao Senhor, em sincero amor para com as almas; em profundo interesse pela disseminação da verdade e, ao mesmo tempo, como uma boa empresa. Já vi vários depósitos de literatura desmoronarem por faltar habilidade para negócios em seus responsáveis. Pareciam pessoas bem fervorosas e sinceras, mas incapazes de conduzir um negócio. Em suma, eram pessoas em cujas mãos qualquer empresa teria ido à falência. Por esta razão, em muitos lugares há um fracasso dos mais deploráveis nesta tão valiosa e interessante obra que é cuidar de um depósito de literatura.

E qual a melhor maneira de alcançar as pessoas para as quais os folhetos e livros são preparados? Creio que é tendo os livros e folhetos expostos para a venda em vitrines, onde quer que isto seja possível, a fim de que as pessoas possam vê-los quando passarem e, parando, possam entrar e comprar o que quiserem. Muitos foram alcançados desta maneira. Não tenho dúvidas de que muitos foram salvos e abençoados por meio de folhetos que foram vistos pela primeira vez em uma vitrine ou expostos sobre um balcão. Mas onde não existe essa possibilidade, é natural que o salão de reuniões da assembleia seja o depósito de literatura.

Existe claramente uma real necessidade de um depósito de literatura em cada grande cidade, dirigido por alguém que tenha jeito para negócios e que seja capaz de conversar com as pessoas acerca dos folhetos, podendo recomendar aquilo que possa ser de auxílio àqueles que ansiosamente procuram pela verdade. Sinto que há muita coisa boa que pode ser feita nesta área. os cristãos da cidade poderiam saber onde ir buscar folhetos, não só para sua leitura pessoal, mas também para distribuição. Certamente, se há alguma coisa digna de ser feita, é digna de ser bem feita; e se isto não se aplicar à obra de literatura, não sei a que se aplicará.

A obra de literatura deve ser levada adiante como um serviço feito diretamente para Cristo. E tenho certeza de que onde quer que ela seja assim conduzida, em energia, zelo e integridade, o Senhor a honrará e fará dela uma bênção. Será que não há ninguém que queira assumir esta obra tão abençoada, não por causa da remuneração, mas por causa de Cristo? Será que não há ninguém que queira se dedicar a ela numa fé singela, esperando no Deus vivo?

Aqui está a raiz da questão, querido irmão. Pois neste ramo da obra, assim como em cada outro ramo, necessitamos daqueles que confiem em Deus e que se neguem a si mesmos. Parece-me que seria um grande ponto a favor da obra de literatura se esta fosse colocada no seu devido lugar e vista como uma parte integral do trabalho evangelístico; assumida com responsabilidade para com o Senhor, e levada adiante na energia da fé no Deus vivo. Cada ramo da obra do evangelho — a obra de literatura, a pregação, a escola dominical — deve ser levado adiante desta maneira. É bom e saudável contarmos com comunhão — completa e cordial comunhão, em todo o nosso serviço; mas se ficarmos esperando por comunhão e cooperação para podermos começar uma obra, que tanto está dentro da esfera da responsabilidade pessoal quanto coletiva, vamos acabar ficando para trás — ou é provável que a obra nem mesmo seja feita.

Devo ter oportunidade de voltar a tratar mais detalhadamente sobre este ponto, quando passar a escrever sobre a pregação e a escola dominical. Tudo o que desejo até aqui é deixar claro o fato de que a obra de literatura é um ramo, e um ramo de grande importância e eficiência, da obra evangelística. Se isto for plenamente entendido por todos, teremos dado um grande passo. Devo confessar, querido irmão, que meu senso moral tem sido, com frequência, profundamente escandalizado pelo estilo frio e comercial com que a publicação e venda de livros e folhetos é tratada — um estilo que talvez seja adequado a um mero negócio comercial, mas que é dos mais ofensivos quando adotado naquilo que diz respeito à obra de Deus. Admito plenamente — e até luto por isto — que o bom gerenciamento de um depósito de literatura exija uma boa parcela de habilidade para negócios, além de princípios comerciais honestos. Mas, ao mesmo tempo, estou convicto de que a obra de literatura nunca estará no seu devido lugar — nunca terá entendido o seu espírito e nunca alcançará o fim desejado — enquanto não estiver firmemente fixada em seus fundamentos santos, e enquanto não for vista como uma parte integral da mais gloriosa obra para a qual somos chamados — a evangelização ativa, fervorosa e perseverante.

E este trabalho deve ser assumido com o senso da responsabilidade para com Cristo, e na energia da fé no Deus vivo. Não haverá nenhum proveito se uma assembleia, ou alguém abastado, escolher algum apadrinhado, entregando-lhe a direção do empreendimento a fim de prover-lhe um meio de ganhar o seu sustento. É algo bendito que todos tenham comunhão na obra; mas estou completamente convencido que o trabalho deve ser assumido como um serviço direto a Cristo, e levado adiante em amor pelas almas e com um verdadeiro interesse na propagação da verdade. Espero voltar a escrever para tratar dos outros dois ramos de meu tema.