Estudo Sobre a Palavra de Deus - Tiago


John Nelson Darby

Tradução de Martins do Vale

Estudo Sobre a Palavra de Deus

TIAGO

Tradutor Martins do Vale

Editor Josué da Silva Matos

2019

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EPÍSTOLA DE S. TIAGO

CAPÍTULO 1

A Epístola de S. Tiago não se dirige à Assembleia e não se reveste da autoridade apostólica acerca daqueles a quem é enviada.

E uma exortação prática que reconhece ainda as doze tribos e a relação dos Cristãos hebreus com elas, tal como Jonas se dirigia aos Gentios, embora o povo Judeu tivesse o seu lugar na presença de Deus. Assim o Espírito de Deus reconhece ainda aqui a relação de Deus com Israel (tal como no caso de Jonas; reconhece algumas relações como os Gentios), e os direitos de Deus que são inalteráveis, quaisquer que eles sejam, aliás, os privilégios especiais concedidos à Igreja ou a Israel, respectivamente.

Historicamente, sabemos que os Cristãos hebraicos continuam Judeus até ao fim da história do Novo Testamento. Eles eram mesmo zelosos pela lei! Coisa estranha para nós, mas que Deus suportou por algum tempo.

A doutrina do Cristianismo não constitui o tema desta Epístola, mas dá a Deus o Seu lugar na consciência, e a respeito de tudo o que nos rodeia. Cinge assim os rins do Cristão, colocando também diante dele a próxima vinda do Senhor e a disciplina que Ele exerce atualmente—disciplina a respeito da qual a Igreja de Deus devia ter inteligência e atividade fundada sobre ela. Também o mundo, e tudo aquilo que neste mundo eleva e dá aparência de grandeza, é julgado do ponto de vista de Deus.

Algumas observações acerca da posição dos Cristãos, isto é, acerca da maneira como esta posição é considerada em relação a Israel, ajudar-nos-ão a compreender esta porção da Palavra de Deus.

Israel é ainda considerado como sendo o povo de Deus. A nação judaica tem, para a fé de Tiago, a relação que Deus lhe tinha dado com Ele próprio.

Tiago dirige-se aos Cristãos considerando-os como fazendo ainda parte de um povo cujos laços com Deus não estavam até então judicialmente quebrados; mas, entre eles, eram somente os Cristãos que tinham a fé no verdadeiro Messias, que dava o Espírito. De entre o povo, somente eles e o apóstolo reconheciam Jesus como sendo o Senhor de glória. A parte os versículos 14 e 15 do capítulo 5, a Epístola não contém nenhuma exortação que, como edificamos espiritual, ultrapasse o que podia ser dito a um judeu piedoso. Supõe, é verdade, que as pessoas às quais se dirige têm fé no Senhor Jesus; mas não as chama ao que é exclusivamente próprio do Cristianismo e depende dos seus privilégios. As exortações decorrem de uma fonte mais elevada e respiram uma atmosfera mais celestial; mas o efeito que elas têm por alvo atingir consiste em provas reais da religião neste mundo. As exortações são de tal ordem que poderiam ser ouvidas na igreja professante, vasto corpo semelhante a Israel, no meio do qual existem alguns verdadeiros Cristãos.

Esta Epístola não se baseia nas relações cristãs neste mundo.

Reconhece-as, mas apenas como um fato particular entre outros que têm direitos sobre a consciência do escritor. Supõe que aqueles a quem é dirigida estão em conhecida relação com Deus, que se não põe em dúvida, que vem de longa data, e no meio da qual o Cristianismo foi introduzido.

É importante notar a medida moral de vida que esta Epístola apresenta. A partir do momento em que apreendemos a posição em que ela considera os crentes, o discernismo da verdade sobre este ponto não é difícil. É a mesma medida moral de vida que Cristo apresentava, quando andava em Israel, colocando diante dos Seus discípulos a luz e as relações com Deus, que resultavam, para eles, da Sua presença.

Sem dúvida, Ele estava agora ausente; mas esta luz e estas relações são mantidas como medida de responsabilidade — e é o que o regresso do Senhor fará valer em Julgamento, contra aqueles que se recusam a andar de harmonia com esta luz e com estas relações. Até esse dia, os fiéis devem ter paciência no meio da opressão que sofrem da parte dos Judeus, que blasfemam ainda o Santo Nome sobre eles invocado.

É o inverno da Epístola aos Hebreus, a respeito da relação dos crentes com o povo judeu; não moralmente, mas por causa da proximidade do Julgamento na época em que a Epístola aos Hebreus foi escrita.

Os princípios fundamentais da posição de que acabamos de falar são estes: A lei na sua espiritualidade e na sua perfeição, tal como Cristo a expôs e resumiu; uma vida comunicada, que tem os princípios morais da lei, uma vida divina; a revelação do Nome do Pai. Tudo isto era verdade, quando o Senhor estava sobre a Terra, e era o terreno sobre o qual Ele tinha colocado os Seus discípulos, por muito pobre que fosse o conhecimento que eles tinham desse fato. Tinha-lhes dito que, após a Sua morte, deviam ser testemunhas de tudo o que tinham visto e ouvido, distinguindo esse testemunho daquele que havia de dar o Espírito Santo. É isto o que Tiago ensina aqui, juntando- lhe ainda a promessa do Senhor a respeito do Seu regresso. É a doutrina de Cristo acerca do comportamento no meio de Israel, de harmonia com a luz e as verdades que He tinha introduzido; e, uma vez que Ele estava ainda ausente, uma exortação à perseverança e à paciência nesse procedimento, esperando o momento em que Ele faria valer, por meio do julgamento daqueles que oprimiam os fiéis, os princípios segundo os quais estes andavam.

Embora o Julgamento executado contra Jerusalém tenha mudado, sob este aspecto, a posição do Remanescente de Israel, a vida de Cristo fica sempre o nosso modelo, e nós temos de esperar com paciência que o Senhor venha.

A Epístola não se refere à associação do Cristão com Cristo assunto ao Céu, nem, por consequência, ao pensamento que nós iremos ao Seu encontro nos ares, como Paulo ensinou.

Mas o que ela encerra é sempre verdade; e aquele que diz que habita n'Ele (em Cristo), deve andar como Ele andou.

O Julgamento ia abater-se sobre o povo faz compreender a maneira como Tiago fala no mundo, dos ricos, que se regozijavam da sua porção do mundo, e da posição do Remanescente crente, oprimido e sofrendo no meio do povo incrédulo; compreendemos a razão porque ele começa pelas tribulações e delas fala tão frequentemente, e também porque insiste nas provas práticas da fé. Ele vê ainda todo o Israel em conjunto; mas alguns havia que tinham recebido a fé no Senhor de glória, e eram tentados a sobre-estimar os grandes e os ricos de Israel. No entanto, sendo todos ainda Judeus, compreende-se facilmente que enquanto uns criam verdadeiramente e confessavam que Jesus era o Cristo, outros havia que, embora dizendo-se cristãos, seguiam as ordenanças judaicas; deste modo os simples professantes podiam fazer o mesmo, sem que houvesse neles a menor mudança vital, demostrada pelas suas obras. É evidente que uma tal fé não tem o mínimo valor. E precisamente a fé daqueles que hoje enaltecem o valor das obras — é uma profissão morta da verdade do Cristianismo.

Para estes, ser gerado pela Palavra da Verdade é uma coisa tão desconhecida e estranha como o era para os judeus de que Tiago fala.

Os crentes eram assim colocados no meio de Israel, com alguns que não eram senão simples professantes.

Compreende-se, pois, facilmente, a razão porque o apóstolo se dirige à massa do povo como sendo aqueles que podiam ter parte nos privilégios que existiam no meio deles; como se dirige aos Cristãos como havendo um lugar especial para eles, e como adverte ao mesmo tempo aqueles que professam crer em Cristo. A aplicação prática da Epístola em todos os tempos, e, em particular, naqueles em que um corpo numeroso pretende ter direito aos privilégios do povo de Deus, por herança, é das mais fáceis e de uma clareza perfeita. De resto, a Epístola tem uma força muito particular para toda a consciência individual: Julga a posição em que nos encontramos, os pensamentos e as intenções do coração.

A Epístola começa, pois, por uma exortação a regozijarem-se nas provações, porque estas são um meio de produzirem a paciência. Em suma, este assunto das provações prossegue até ao fim do verso 20 do capítulo 1, onde o pensamento se volta para a necessidade de pôr um freio a tudo aquilo que se opõe à paciência, e para o verdadeiro caráter de uma alma que se considera na presença de Deus.

Esta exortação, como conjunto, vai até ao fim do capítulo. A ligação dos raciocínios do apóstolo nem sempre é fácil de reconhecer.

Encontra-se a chave no estado moral de que ele se ocupa, e eu farei o possível para a tornar tão sensível quanto possível.

O assunto, de um modo geral, é este: Devemos andar na presença de Deus para mostrarmos a realidades da nossa profissão de fé, em contraste com a união com o mundo; é a religião prática. A paciência deve, pois, ter a sua obra perfeita. Deste modo a vontade própria é subjugada e a vontade de Deus é totalmente aceita; por consequência, nada falta à vida prática da alma. O crente pode sofrer, mas espera pacientemente no Senhor. É o que Cristo fez; era a Sua perfeição. Esperava sempre a vontade de Deus, nunca fazendo a Sua própria. Deste modo a Sua obediência era perfeita; era o homem perfeitamente posto à prova. De fato, carecemos muitas vezes de inteligência para sabermos o que devemos fazer.

Aqui, diz o apóstolo, o recurso é claro: temos de pedir sabedoria a Deus. E Ele dá a todos liberadamente; e, quanto a nós, somente devemos contar com a Sua fidelidade e com uma resposta às nossas orações. De outro modo, o coração é enganador, a nossa dependência está noutro lado e não em Deus, e os nossos desejos têm outro objeto — e não Ele.

Mas se procurarmos unicamente o que Deus quer e o que Deus faz, dependeremos d'Ele com um coração firme para cumprirmos a Sua vontade; e quanto às circunstâncias deste mundo, que poderiam fazer-nos crer que é inútil depender de Deus, "elas desaparecem como a flor dos campos". Devemos ter a consciência de que o nosso lugar, segundo Deus, não é deste mundo; aquele que é de baixa condição social deve regozijar-se pelo fato de o Cristianismo o dignificar, assim como o rico se deve regozijar pelo fato de o Cristianismo o tornar humilde. Não é nas riquezas que devemos regozijar-nos, pois breve se esgotam, mas sim nos exercícios de coração, de que o apóstolo fala, porque, após termos sido provados, receberemos a coroa de vida. A vida daquele que é provado e em quem esta vida se desenvolve na obediência a toda a vontade de Deus é mais digna do que a de um homem que prefere satisfazer os desejos do seu coração em luxúria…

Ora, quanto a essas tentações, nas quais as cobiças do coração fazem cair os homens, escusado seria dizer que elas não vêm de Deus.

É o coração do homem que lhes dá origem, e elas, pelo pecado, conduzem à morte. Que ninguém se engane sobre este ponto: O que tenta o coração interiormente vem do próprio homem, do mais recôndito da sua alma. Os dons perfeitos e bons vêm todos de Deus — e Deus é imutável; Deus somente faz o que é bom. Por conseguinte, deu-nos uma nova natureza, fruto da sua própria vontade, operando em nós pela Palavra da Verdade, a fim de que sejamos uma espécie de primícias das Suas criaturas (v.18). O que for trevas não pode vir do Pai das luzes. Pela Palavra da Verdade, Ele nos gerou para sermos as primeiras e as mais excelentes testemunhas desse poder de bem que resplandecerá mais tarde na nova Criação, de que nós somos as primícias. É a antítese da origem dos desejos corruptos.

A Palavra da Verdade é a boa semente da vida, assim como a vontade própria é o berço das nossas cobiças. A energia desta vontade não poderia produzir os frutos da natureza divina, nem a ira do homem realizar a justiça de Deus.

Por conseguinte, nós somos chamados para sermos dóceis, prontos a escutar, lentos a falar, tardios para a ira, a rejeitar toda a mancha da carne, toda a energia da iniquidade, e a receber com doçura a Palavra — Palavra que, sendo inteiramente a Palavra de Deus, se identifica com a nova natureza que está em nós (é plantada em nós), formando-a e desenvolvendo-a segundo a Sua própria perfeição, porque esta mesma natureza tira a sua origem de Deus pela Palavra.

Esta Palavra da Verdade não é como uma lei que está fora de nós e que, estando em oposição com a nossa natureza pecadora, nos condena.

Ela salva a alma; é viva e vivificante, e opera de uma maneira viva numa natureza que dela emana e que ela forma e ilumina.

Mas é necessário pôr em prática a Palavra; é preciso que não se ouça apenas de ouvido esta Palavra, mas que ela produza os frutos práticos que são a prova de que ela opera real e vitalmente no coração. De outro modo ela não é senão um espelho onde nos vemos talvez por um momento, para depois esquecermos o que vimos. Aquele que atenta na lei perfeita, que é a da liberdade, e que nela persevera, fazendo a obra que ela apresenta, será abençoado na atividade real e obediente que nele se desenvolve.

Esta lei é perfeita, porque a Palavra de Deus, tudo o que o Espírito de Deus exprimiu, é a expressão da natureza e do caráter de Deus, do que He é e do que Ele quer, porque, quando é plenamente revelado (e até então o homem não pode conhecê-Lo plenamente), Ele quer o que Ele é, e isto necessariamente.

Esta lei é a lei da liberdade, porque a mesma Palavra, que revela o que Deus é e o que Ele quer, nos tornou participantes, pela graça, da natureza divina; de sorte que não andar segundo esta Palavra seria não andar segundo a nossa própria nova natureza.

Ora, andar segundo a nossa própria nova natureza — e é a natureza de Deus — é sermos guiados pela Sua Palavra, é a verdadeira liberdade.

A lei dada no Sinai, escrita, não no coração, mas fora do homem, exprimia o que o comportamento e o coração do homem deviam ser, segundo a vontade de Deus; reprime e condena todos os movimentos do homem natural, e não pode permitir-lhe ter vontade própria, porque ele, deve fazer só a vontade de Deus.

Há, portanto uma outra vontade, e, por conseguinte, a lei é, para ele, uma servidão, uma lei de condenação e de morte. Mas Deus, tendo-nos gerado pela Palavra da Verdade, a natureza que nos deu, na qualidade de assim nascidos de Deus, tem gostos e desejos conformes a essa Palavra; é mesmo dessa Palavra.

A Palavra, na sua própria perfeição, desenvolve esta natureza, forma-a, ilumina-a, como dissemos já; mas a própria natureza tem a sua liberdade, seguindo o que esta Palavra diz.

Foi assim com Cristo. Se alguém tivesse podido privá-Lo da Sua liberdade—o que, espiritualmente, era impossível — isso seria sido impedi-Lo de fazer a vontade de Deus, Seu Pai.

Dá-se o mesmo com o novo homem (este novo homem é Cristo, como vida em nós), que é criado em nós, de harmonia com a vontade de Deus, em Justiça e em verdadeira santidade, produzidas em nós pela Palavra que é a perfeita revelação de Deus, do conjunto da natureza divina do homem — aquilo de que Cristo, a Palavra viva, a imagem do Deus invisível, é a manifestação e o modelo. A liberdade do novo homem é a liberdade de fazer a vontade de Deus, de imitar Deus no Seu caráter, como sendo Seu querido filho, segundo como esse caráter foi apresentado em Cristo.

A lei da liberdade é esse caráter, tal como é revelado na Palavra; e a nova natureza encontra a sua alegria e a sua satisfação nesse caráter de Deus revelado em Cristo, como tira a sua existência da Palavra que O revela e do Deus que ali é revelado. Tal é "a lei da liberdade" (v.25), o caráter do próprio Deus em nós, formado pela operação de uma natureza gerada pela Palavra que O revela, e moldando-se sobre esta mesma Palavra.

O primeiro e o mais seguro indício que trai o homem interior é a língua. Um homem que aparenta estar em relação com Deus e honrá-Lo, mas não sabe refrear a língua, enganasse a si mesmo e é vã a sua religião. A religião pura e perante Deus o Pai consiste na solicitude por aqueles que, atingidos pelo salário do pecado nos mais temos liames do coração, são privados dos seus amparos naturais; e em nos guardarmos da corrupção do mundo (v.27). Em lugar de fazermos esforços para nos elevarmos e para nos fazermos valer num mundo de vaidades, longe de Deus, as nossas atividades devem voltar-se — tal como Deus o faz — para os infelizes que, na sua aflição, têm necessidade de socorro; e guardarmo-nos a nós próprios de um mundo onde tudo mancha, onde tudo é contrário à nova natureza, que é a nossa vida, e ao caráter de Deus, tal como nós O conhecemos pela Palavra.

CAPÍTULO 2

O apóstolo entra agora no que concerne aos que faziam profissão de crerem que Jesus era o Cristo, o Senhor. Antes, no capítulo1, tinha falado da nova natureza em relação com Deus; aqui, a profissão da fé em Cristo é colocada em presença da mesma pedra-de-toque — a realidade dos frutos produzidos por ela, em contraste com este mundo. Todos esses princípios, o valor do Nome de Jesus, a essência da lei tal como Cristo a apresentou, e a lei da liberdade, são postos em evidência para julgar da realidade da fé professada, ou para convencer o professante de que ele não a possuía.

Duas coisas são aqui reprovadas: Em primeiro lugar, a que diz respeito à aparência das pessoas, e em segundo lugar a ausência das boas obras que devem ser a prova de sinceridade da profissão. Portanto, e em primeiro lugar, o apóstolo censura as atenções dispensadas à aparência das pessoas: Professa- se que se tem fé no Senhor Jesus, mas está-se animado do espírito do mundo! O apóstolo esclarece: Deus escolheu os pobres, enriquecendo-os de fé e fazendo-os herdeiros do reino; isto porque os professantes os tinham desprezado. Esses ricos blasfemavam o Nome de Cristo e perseguiam os Cristãos. Em segundo lugar, Tiago refere-se ao sumário prático da lei, de que Jesus tinha falado, à lei real.

Violava-se a própria lei, favorecendo os ricos.

Ora, a lei não admite nenhuma infração aos seus mandamentos, porque se trata da autoridade do Legislador.

E evidente que, desprezando os pobres, não se ama ao próximo como a nós mesmos. Em terceiro lugar, devemos andar como andam aqueles cuja responsabilidade é medida pela lei da liberdade, como aqueles que, possuindo uma natureza que gosta e ama o que é de Deus, são libertados de tudo o que Lhe é contrário, de modo que são indesculpáveis se admitem princípios que não são os do próprio Deus. Esta introdução da natureza divina leva o apóstolo a falar da misericórdia na qual o próprio Deus Se glorifica. O homem que não mostra misericórdia será o objeto do Julgamento que ele amou.

A segunda parte do capítulo liga-se a este pensamento, porque o apóstolo começa o seu discurso pelas obras, como provas da fé, falando dessa misericórdia que responde à natureza e ao caráter de Deus, dos quais o verdadeiro Cristão, como nascido de Deus, foi feito participante. A profissão de ter fé, sem esta vida, cuja existência é provada pelas obras, não pode aproveitar a ninguém.

Isto é bastante claro. Eu digo: a profissão de ter fé, porque a Epístola o diz: "Se alguém dizer que tem fé" (v.14). Está aqui a chave desta parte da Epístola. Ele diz que tem fé; onde está a prova? Está "nas obras". E é desta maneira que o apóstolo as usa.

Um homem diz que tem fé. Mas a fé não é uma coisa que nós possamos ver. E por isso que dizemos, e com razão: Mostra-me a tua fé. É a evidência da fé que é pedida ao homem; não é senão pelos frutos que nós podemos torná-la evidente aos homens, porque a fé em si mesma não se vê. Mas se eu produzo esses frutos, é bem certo que a raiz está em mim; de outro modo, os frutos não apareceriam.

Portanto, a fé não se revela por si mesma aos outros, e não pode ser reconhecida pelos homens sem as obras; mas as obras, frutos da fé, demostram a sua existência.

O que se segue faz ver que o apóstolo fala da profissão de uma doutrina, verdadeira talvez em si mesma, de certas verdades que se confessam; porque é uma fé real que é considerada — uma certeza de conhecimento e de convicção que têm os demónios na unidade de Deus. Eles não duvidam desta unidade, mas não há nenhum vínculo entre o seu coração e Deus por meio de uma nova natureza; na verdade, estão bem longe disso!…

O apóstolo confirma este fato apresentando o caso dos homens em quem a oposição com a natureza divina não é tão aparente.

A fé, esta fé que reconhece a verdade a respeito de Cristo, sem as obras é morta; quer dizer, uma fé que não produz nenhuns frutos é morta.

Vê-se claramente (v.16) que a fé de que o apóstolo fala é uma profissão desprovida de realidade, o verso19mostra que esta fé pode ser uma certeza, sem fingimento, de que a coisa que se crê é verdadeira; mas falta inteiramente a vida gerada pela Palavra de Deus, de modo a ser formada uma relação entre a alma e Deus.

Porque esta vida que vem da Palavra: É fé.

Sendo gerados de Deus, temos uma nova vida.

Esta vida opera, quer dizer, a fé opera, segundo a relação com Deus, nas obras que dela decorrem naturalmente e que prestam testemunho à fé que as produziu.

Desde o verso20até ao fim do capítulo, o apóstolo apresenta novas provas da sua tese, fundadas sobre o último princípio que acabo de enunciar. Ora, essas provas não têm nada a ver com os frutos de uma natureza amável (porque as há, e que nos pertencem como criaturas), pois não vêm de uma vida que tem por origem a palavra de Deus, pela qual Ele nos gerou.

Os frutos, de que fala o apóstolo, dão testemunho pelo seu próprio caráter à fé que os produziu.

Abraão ofereceu o seu filho; Raabe recebeu os mensageiros de Israel, associando-se ao povo de Deus, quando tudo era contra ele, e separando-se ela mesma do seu próprio povo pela fé. Sacrificar tudo por Deus, abandonar tudo por amor do Seu povo, ainda antes de ele ter alcançado uma simples vitória, e então quando todo o mundo estava obstinado na sua força — tais são os frutos da fé.

Um confiou em Deus, e creu, da maneira mais absoluta, contra tudo o que a natureza pode oferecer, contra tudo aquilo com que a natureza pode contar; a outra reconheceu o povo de Deus, quando tudo era contra ele. Mas nem uma nem outra coisa eram o fruto de uma natureza amável, nem de um sentimento natural do bem, nada daquilo que os homens chamam boas obras. Um era um f pai que ia matar o seu próprio e único filho; a outra era uma má mulher, traindo o seu país.

Certamente as Escrituras são cumpridas, dizendo que Abraão creu em Deus. Com efeito, como poderia ele ter agido daquela maneira, se não tivesse crido em Deus? As suas obras puseram o selo sobre a sua fé — e a fé sem obras é como o corpo sem alma, uma forma exterior privada da vida que o anima. A fé atua nas obras, porque sem ela as obras são uma nulidade; não são as da nova vida — e as obras complementam a fé que atua nelas, porque apesar da provação, e na provação, a fé está em atividade. As obras da lei não têm ali nenhuma parte; a lei exterior, que exige, não é uma vida que produz (fora desta natureza divina) essas disposições santas e amorosas que, tendo Deus e o Seu povo por objeto, estimam que nada mais tem valor.

Notar-se-á que Tiago não diz nunca que as obras nos justificam perante Deus, porque Deus pode ver a fé sem as suas obras. Quando a vida existe lá, Deus o sabe. Ela exerce-se a Seu respeito, para Ele, confiando na Sua Palavra e n'Ele mesmo, recebendo o Seu testemunho através de tudo, apesar de tudo, por dentro e por fora. Esta é a fé que Deus vê e conhece. Mas desde que se trate do homem, desde que seja preciso dizer: "mostra-me", então a fé, a vida, mostram-se nas obras.

CAPÍTULO 3

Neste capítulo, o apóstolo dedica de novo uma grande atenção à língua, como sendo o índice que revela mais rapidamente o estado do coração, e que mostra se o novo homem está em ação, se a natureza e a vontade própria estão refreadas.

Mas não há quase nada neste capítulo que exija uma atenção mais cuidada, embora se encontrem nele muitas coisas que requerem uma atenção especial.

Se a vida divina se encontra numa alma, o conhecimento não se evidenciará com palavras, mas sim no comportamento e por obras onde a doçura da verdadeira sabedoria se fará notar. O azedume e as querelas não são os frutos de uma sabedoria que vem de Cima, sendo antes frutos terrestres, da natureza do homem e do Inimigo.

A sabedoria que vem do Alto, tendo o seu lugar na vida, no coração, é caracterizada por três coisas: primeiramente, é pura, porque o coração está em comunhão com Deus, conversa com Deus; portanto, a pureza divina encontra-se necessariamente nela. Depois, é pacifica, doce, pronta a ceder à vontade de outrem, enfim, é plena de boas obras e movida por um princípio que tira a sua origem e os seus motivos de Cima. Pratica o bem sem parcialidade, isto é, a sua ação não é guiada pelas circunstâncias que influenciam a came e as paixões dos homens.

Pela mesma razão, eia é sincera e sem o menor fingimento. A pureza, a ausência de vontade própria e de egoísmo, a atividade na esfera do bem — tais são os caracteres da sabedoria celeste.

As direções para refrear a língua como primeiro movimento e expressão da vontade do homem natural, estendem-se aos crentes.

Não deve haver entre eles, embora seja essa a disposição interior do homem, muitos doutores. Todos errados; e ensinar os outros, errando nós mesmos, não faz senão aumentar a nossa condenação. A vaidade pode alimentar- se facilmente ensinando os outros — o que é bem diferente de uma vida ativada pelo poder da verdade. O Espírito Santo distribui os Seus dons como Lhe apraz. O apóstolo viu aqui muita vaidade nos que ensinavam — e não o dom recebido para ensinar.

CAPÍTULO 4

Em tudo o que se segue temos ainda o julgamento da natureza não refreada, da vontade sob as suas diversas formas: Os conflitos que vêm das cobiças do coração natural, as súplicas dirigidas a Deus, provindo da mesma fonte, e os desejos da carne e do espírito que se desenvolvem e encontram a sua esfera na amizade do mundo, que é inimizade contra Deus. A natureza do homem ambiciona com inveja; é cheia de inveja acerca dos outros.

Mas Deus dá maior graça (v.6). Existe uma força que atua contra essa natureza, se nos sentirmos contentes, felizes por sermos pequenos, humildes, de não sermos nada neste mundo.

A graça e o favor de Deus estão com os que assim se sentem, porque Ele resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. A este respeito, Tiago desenvolve a ação de uma alma dirigida pelo Espírito de Deus, no meio de uma multidão incrédula e egoísta, à qual ela estava associada (v.7-10), porque ele supõe que os crentes, aos quais se dirige, ainda estão em relação com a lei.

Dizendo mal do nosso irmão, ao qual a lei dava um lugar diante Deus, dizemos mal da própria lei, (1) segundo a qual esse irmão tinha um tão grande valor. O Julgamento pertencia a Deus, que tinha dado a lei, e que saberia reivindicar a Sua autoridade, assim como conceder a libertação e a salvação.

(1) Comparar com 1 Tessalonicenses4:8, onde o Espirito Santo toma o lugar da lei.

Versos 13-16 São censurados o esquecimento de Deus e a vontade própria, e postas em evidência a falsa confiança decorrente do fato de contarmos com a nossa própria capacidade para fazermos o que queremos, e a ausência de dependência de Deus.

O último verso é uma conclusão geral, fundada sobre o princípio já indicado no capítulo 3, verso1, e sobre o que é dito a respeito da fé. O conhecimento do bem, sem a prática desse mesmo bem, faz com que a ausência da obra, que poderia ter sido feita, seja um pecado positivo. A ação do novo homem está ausente; mas a do velho homem está bem presente porque, tendo o bem diante dos olhos e sabendo que deveríamos fazê-lo, não o fazemos; não há em nós nenhuma disposição para o praticar, não queremos fazê-lo!…

CAPÍTULO 5

As duas classes existentes em Israel são nitidamente desenhadas aqui, em contraste uma com a outra; depois o apóstolo fala do comportamento que deve ter o Cristão, quando é castigado pelo Senhor.

A vinda do Senhor é apresentada aqui como sendo o término da situação deles, tanto dos ricos, incrédulos e opressores, em Israel, como do pobre Remanescente crente. Os ricos têm amontoado tesouros para os últimos dias; os pobres, oprimidos por eles, devem ter paciência, até que o próprio Senhor venha libertá-los. Aliás — diz o apóstolo — a libertação não tardará. O agricultor espera a chuva e o tempo da recolha; O Cristão aguarda a vinda do seu Senhor.

Esta paciência, já o fizermos notar, caracteriza a marcha da fé: Verificou-se esse fato nos profetas; e, noutros casos, temos por bem- aventurados os que sofreram por causa do Nome do Senhor. Jó instruiu-nos acerca dos caminhos do Senhor: Ele teve de ter paciência; mas o fim que o Senhor lhe destinou foi, para ele, de bênção e de terna compaixão.

Esta espera da vinda do Senhor constitui uma solene advertência, e, ao mesmo tempo, um encorajamento mais poderoso, mantendo, porém, o verdadeiro caráter da vida prática cristã.

Mostra também onde terminará o egoísmo, a vontade própria, e refreia todo o movimento dessa vontade nos crentes. Os sentimento dos irmãos uns para com os outros são colocados sob a alvaguarda dessa mesma verdade. Não se deve ter um espírito de descontentamento nem de murmuração contra os outros, mais favorecidos talvez pelas circunstâncias exteriores em que se encontram colocados: o Juiz está à porta!…

Os juramentos mostram ainda mais o esquecimento de Deus e, por conseguinte, a ação da vontade própria da natureza. O sim deve ser sim, e o não, não. A ação da natureza divina na consciência da presença de Deus e a repressão de toda a vontade do homem e da natureza pecadora, eis o que o escritor desta Epístola deseja.

Ora, o Cristianismo tem recursos tanto para a alegria como para o desgosto. Está alguém aflito? Ore. Deus está pronto a ouvir. Está alguém contente? Cante louvores. Está alguém doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo- o com azeite, e a correção será retirada, e os pecados pelos quais ele fora punido, segundo o governo de Deus, serão perdoados, pelo que concerne a esse governo, porque aqui se trata apenas disto: a imputação do pecado em condenação não tem lugar aqui.

A eficácia da oração da fé é aqui colocada perante nós, mas é em relação com a atitude da sinceridade do coração. O governo de Deus exerce-se a respeito do Seu povo. Ele repreende os Seus por meio de doenças, se assim o entender — e é importante que a verdade no homem interior seja mantida.

Escondemos as nossas faltas; gostaríamos de andar como se tudo corresse bem em nós, mas Deus julga o Seu povo, penetrando no mais recôndito do seu ser.

Assim, o crente é, por vezes, mantido em laços de aflição. Deste modo Deus dá-lhe a conhecer quer as suas faltas, quer a sua vontade própria, não refreada. O homem "também na sua cama é com dores castigado, e com a incessante contenda dos seus ossos" (33:19). Então a Igreja de Deus intervém em caridade, e segundo a ordem estabelecida, por intermédio dos presbíteros; o doente remete-se a Deus, reconhecendo o seu estado de necessidades; a caridade da Igreja exerce-se e leva perante Deus aquele que está sendo castigado, segundo a relação em que ela mesma se encontra — porque é ali que a Igreja se encontra. A fé torna produtora esta relação de graça; o doente é curado. Se pecados, e não apenas a necessidade de disciplina, acarretarem esse castigo, esses pecados não impedirão a cura do doente; ser- lhes-ão perdoados.

Tiago apresenta em seguida o princípio, como direção para todos em geral, que os Cristãos devem abrir os seus corações uns aos outros, a fim de manterem a verdade no homem interior quanto a si mesmo; e devem orar uns pelos outros, a fim de que a caridade esteja sempre em pleno exercício quanto às faltas de outrem.

A graça e a verdade são assim espiritualmente formadas na Igreja, assim como uma perfeita união de coração entre os Cristãos, de modo que as próprias faltas se tornam uma ocasião para o exercício da caridade, como o são para Deus em relação a nós; e que haja plena confiança entre uns e outros, segundo esta caridade, tal como é sentida com um Deus que restaura e que perdoa. Que belo quadro de princípios divinos, animando os homens e fazendo os agir de harmonia com a natureza do próprio Deus e a influência do Seu amor sobre o coração! Convém notar que não se trata de confissão aos presbíteros. Isso representaria uma confiança nos homens, uma confiança oficial.

Deus quer a operação da caridade divina em todos. A confissão recíproca de uns aos outros mostra a condição da Igreja; e Deus queria ver a Igreja num estado tal que o amor reinasse nela, de tal sorte que estivesse bastante perto d'Ele para tratar o pecador de acordo com a graça que nos revelou, e que este amor divino fosse de tal modo realizado que a sinceridade perfeita e interior fosse produzida pela confiança e pela operação desta graça. A confissão oficial não só é oposta a tudo isto, como também o destrói. Quão divina é a sabedoria que omitiu a confissão ao falar dos presbíteros, mas que a recomenda como sendo a expressão viva e voluntária do coração! Isto leva-nos também ao valor da oração enérgica do homem justo. E a sua proximidade de Deus e, por conseguinte, a consciência que ele tem do que Deus é, que (por graça e pela operação do Espírito) lhe dá este poder. Deus tem em conta os homens; faze-o de harmonia com o Seu infinito amor. Tem em conta a confiança que tem n'Ele, a fé que tem na Sua Palavra um coração que pense e que atue segundo um ajusta apreciação do que Ele é. E sempre a fé que torna sensível aquilo que se não vê — o próprio Deus, que atua segundo a revelação que deu de Si mesmo, Ora, o homem que, no sentido prático, é justo pela graça, está perto de Deus. Na qualidade de justo, não tem de tratar com Deus a seu respeito acerca do pecado, que manteria o seu coração a distância; o seu coração tem liberdade para se aproximar de Deus, segundo a santa natureza do próprio Deus, em favor dos outros. E sendo movido pela natureza divina que o anima e que o toma capaz de apreciar Deus, procura de harmonia com a atividade desta natureza, fazer prevalecer as suas preces junto de Deus, seja para o bem dos outros, seja para a glória do próprio Deus no Seu serviço. Ora, Deus respondo segundo esta mesma natureza, abençoando esta confiança e a ela respondendo para manifestar o que Ele é para a fé, a fim de a encorajar, sancionando a sua atividade e pondo o Seu selo sobre aquele que anda pela fé (2).

(2) É bom notar que isto é apresentado cm relação com as vias governamentais de Deus, e assim, é sob o título do Senhor, lugar que Cristo ocupa de uma maneira especial, embora aqui este termo seja empregado de uma maneira legal. Compare-se o verso11com a referência judaica geral da passagem.

Para nós, nós temos um só Deus, o Pai, e um só Senhor, Jesus Cristo. Ele tomou-se Senhor e Cristo, e toda a língua confessará que Jesus Cristo é Senhor.

O Espírito de Deus atua, como sabemos, em tudo, mas o apóstolo não fala aqui d'Ele. Trata do efeito prático e apresenta o homem tal como ele é, atuando sob a influência desta natureza, na sua energia positiva em relação a Deus e perto d'Ele, de sorte que atua em toda a sua intensidade, sendo movida pelo poder dessa proximidade.

Mas, se considerarmos a ação do Espírito, estes pensamentos são confirmados. O homem justo não entristece o Santo Espírito, e o Espírito opera nele segundo o Seu próprio poder, não tendo de pôr previamente a sua consciência em regra com Deus, mas atuando no homem de harmonia com o poder da Sua comunhão com Deus.

Finalmente, temos a certeza de que a oração ardente e enérgica do homem justo é de uma grande eficácia: É a operação da fé que conhece Deus, que conta com Ele e d'Ele se aproxima.

O exemplo de Elias é interessante (e há outros exemplos semelhantes), mostrando como o Espírito Santo atua interiormente num homem em quem vemos a manifestação exterior do poder de Deus. A história relata-nos a declaração de Elias: "Tão certo como vive o Senhor, Deus de Israel, perante cuja face estou, que, nestes anos, nem orvalho nem a chuva haverá, senão segundo a minha palavra" (1 Reis 17:1). Eis a autoridade, o poder, exercidos em nome de Jeová.

Neste Epístola, a operação secreta, o que se passa entre a alma de Deus, é posta em evidência. O homem justo orou, e Deus atendeu a sua oração. Temos o mesmo testemunho da parte de Jesus junto do túmulo de Lázaro.

Somente, neste último caso, as duas coisas estão reunidas, exceto a oração não nos ser dada, a não ser que ela esteja no suspiro inexprimível do espírito de Cristo (ver João11).

Comparando o capítulo 2da Epístola aos Gálatas com a narrativa do capítulo15de Atos, encontramos que foi uma revelação da parte de Deus que determinou o procedimento de Paulo quando subiu a Jerusalém, quaisquer que tenham sido os motivos exteriores que, aliás, eram conhecidos de todos. Por exemplos tais como aqueles que o apóstolo propõe à Assembleia, e por aqueles de Elias e do Senhor Jesus, é-nos revelado um Deus vivo, atuante, interessando-Se pelo que se passa no seio do Seu povo.

A Epístola mostra-nos também a atividade do amor para com aqueles que se extraviam. Se alguém se afasta da verdade e houver quem o reconduza pela graça (por muito simples que a sua ação possa ser), saiba aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador salvará da morte uma alma; e, consequentemente, serão cobertos todos esses pecados que se apresentam na sua odiosa natureza perante os olhos de Deus, e que ofendem a Sua glória e o Seu coração pela sua presença no Seu universo. Se a alma for levada a Deus peia graça, todos os seus.

pecados são perdoados, desaparecendo de diante da face de Deus. Aqui o apóstolo, como em qualquer outro lugar, não fala do poder que atua nesta obra de amor, mas sim do fato.

Aplica-o aos casos que se tinham manifestado entre eles, mas pondo um princípio universal quanto ao efeito da atividade da graça na alma que dela está animada. A alma extraviada é salva; os seus pecados são tirados de diante dos olhos de Deus.

A caridade na Igreja suprime, por assim dizer, os pecados que, sem ela, quebrariam a união e subjugariam essa mesma caridade, aparecendo em toda a sua torpeza e em toda a sua malignidade diante de Deus; ao passo que, descobertos pelo amor na Igreja, eles não vão mais longe, sendo dissolvidos, por assim dizer (quanto ao estado de coisas diante de Deus neste mundo), e postos de lado por essa caridade que eles não puderam vencer. O pecado é vencido pelo amor que dele se ocupou; desaparece; é tragado por esse amor. A caridade cobre assim uma multidão de pecados.

Aqui, trata-se da sua ação na conversão de um pecador.

Fim dos comentários de Tiago de: J. N. Darby Comentários de Tiago de E. S. McNair Bíblia Explicado, Pgs. 477à 480 – CPAD Tiago (Mateus4:21) chamado o “justo”, mencionado por Paulo, junto com Cefas e João, como “coluna”, da igreja em Jerusalém (Gl1:9).

Era filho de Alfeu, e primo (ou. Segundo o uso entre os judeus, "irmão") do Senhor Jesus.

Entende-se haver três “Tiagos” no N.T. e que esse mamado "irmão do Senhor" não é o mesmo Tiago, filho de Alfeu]. Parece ter sido, como homem religioso, austero, legal, cerimonial (At21:18-24).

Data. A tradição coloca o martírio de Tiago no ano 62. A sua epístola não dá demonstração das maiores revelações referentes á Igreja e da doutrina distintiva da graça feita pelo apóstolo Paulo, nem sequer das discussões concernentes á relação dos convertidos de entre os gentios para com a lei de Moisés, que culminaram no primeiro concilio da Igreja (At15), que Tiago presidiu. Isto dá a entender que sua epístola foi a primeira carta dirigida aos cristãos.

Tema. Por "as doze tribos que andam dispersas" devemos entender, não os israelitas, mas os judeus convertidos entre a Dispersão. A igreja começou com eles (At2:5-11). Tiago, que parece não ter saído de Jerusalém, sentiria uma especial responsabilidade por essas ovelhas dispersas. Eles ainda frequentavam a sinagoga, ou chamavam suas próprias assembleias por esse nome (Tg2:2). Parece, por Tiago2:1-8. que ainda usavam o estilo dos tribunais da sinagoga para julgar casos entre eles. A epístola é, pois.

muito elementar. Supor que Tiago2:14-26é uma polêmica contra a doutrina paulina da justificação pela fé, é absurdo: ainda não tinham sido escritas, nem Gálatas nem Romanos.

O tema de Tiago é "religião" (grego "threskeia" - serviço religioso exterior) como a expressão e prova da fé. Ele não apresenta as obras em contraste com a fé, mas afirma que a fé sempre produz as obras de acordo com o que se cré.

As divisões são cinco:

1) A prova da fé (caps.1e 2).

2) A realidade da fé provada pela língua (3:1-18).

3) Reprovação do mundanismo (4:1-17).

4) Advertências aos ricos (5:1-6).

5) Exortação (5:7-20) - (Scofield).

ANÁLISE DE TIAGO

Superscrição (1:1)

  1. Passando por provações (15).

  2. A prática da verdade (27).

  3. O respeito a pessoas (13).

  4. A relação entre obras e fé (26).

  5. O domínio da língua (3).

  6. Fonte e remédio do mal (12).

  7. Incerteza e disciplina da vida (13a 5:11).

Apresentação (5:12-20)

Sobre juramentos (5:12).

Sobre oração (5:13-18).

Sobre salvação (5:19:20).

A MENSAGEM DE TIAGO

"Não há contradição entre Tiago e Paulo; contemplam a mesma coisa de pontos de vista diferentes.

Paulo ocupa-se com a justificação inicialque tem lugar quando um homem pela fé aceita Jesus Cristo como Salvador; Tiago, com a justificação progressiva que tem lugar quando um homem pelas suas boas obras prova a realidade da sua fé. Com Paulo o terreno da justificação é objetivo - encontra-se em Cristo; com Tiago e subjetivo – encontra-se no próprio homem. O ponto de convergência destes dois aspectos é que as obras que justificam são obras que nascem da fé em Cristo" (Campbell).

"Esta epístola tem sido combatida pelo que não diz. Carece mais do que qualquer outra de elementos distintivamente cristãos e espirituais.

Somente duas vezes Tiago emprega a palavra "evangelho". Nem uma vez ele alude á redenção, á encarnação, á ressurreição, ou à ascensão. Os próprios preceitos da moral não ensinados sem as constantes alusões aos motivos essencialmente cristãos que nunca faltam nos escritos de Paulo, e que constituem a base de todos os apelos em Pedro e João. Porém não foi esse o aspecto da verdade que foi dado a Tiago para salientar; se outros foram incumbidos de falar da doutrina cristã, Tiago foi incumbido de enfatizar a ética cristã.

Ele apresenta essencialmente o ensino de Cristo, por isso há pouco ensino referente a Cristo" (Beyschlag).

"Tem-se dito que esta carta é baseada no Sermão da Montanha, e. examinando-a com cuidado, verificamos que. até certo ponto, esse alvitre se justifica" ( Scroggie).

Capitulo 1O propósito das provações (1-12). Podemos observar que a provação muitas vezes traz proveito, se não material, ao menos moral. As pessoas provadas desenvolvem coragem, paciência, resolução, recurso, serenidade de espírito, se passam pelas provações com Deus.

Por isso podemos contar a provação como coisa vantajosa (v.2), sabendo que dela resultará benefício espiritual (vv .3,4).

Vemos que o pobre pode ser provado por inesperada riqueza (v.9), e o rico por pobreza inesperada, mas "bem-aventurado o homem que suporta a provação" (v.12).

"Há dois aspectos da tentação ou provação (v12): essa que vem por sofrimento e a que vem por sedução. Assim, a perseguição e os prazeres do pecado não provações, embora geralmente falamos destes últimos como 'tentação'.

Enquanto estiver fora de nós, a tentação pode ser resistida, mas se encontrar resposta no coração, ai está o pecado. Nesse sentido nosso bendito Senhor não podia ser tentado, pois nada havia nele para responder á sedução. As ' diversas tentações' do versículo3. são, sem dúvida, provações de sofrimento, embora a provação possa vir de outra maneira" (S. Ridout).

A tentação não vem de Deus (13-21) é o ensino destes versículos. Nem tampouco se afirma, aqui, que ela vem do Diabo, mas antes das nossas concupiscências.

O versículo18dá-nosum ensino precioso sobre o novo nascimento: a "palavra da verdade", revelando Deus ás nossas almas, produz um novo ser espiritual.

O versículo 21 merece ser meditado e ponderado.

Ensina-nos a rejeitar para podermos receber – como o lavrador costuma limpar a terra antes de semear - e depois considera a revelação de Deus como "enxertada" em nós, para que assim haja novidade de vida e fruto agradável a Deus.

A prova da obediência e a prova da religião verdadeira (22-27). Neste trecho encontramos a expressão "a lei da liberdade", uma lei mais santa, mais poderosa do que qualquer código de regulamentos.

Um médico cristão de Londres ilustrou a lei da liberdade por uma experiência interessante. Ele recebeu de presente um magnífico cão de raça, e costumava, a princípio, levá-lo a passear todas as tardes, preso por uma corrente. Isto continuou por algumas semanas, até o cão se acostumar com ele. Então, um dia, saíram sem a corrente.

Logo que o cão se achou na rua, sem a "lei" da corrente para segurá-lo, correu, cora grandes saltos, para longe. Parecia que fugira para sempre, porém tal não sucedeu. Em seguida voltou, e muito satisfeito, acompanhou seu dono, submisso á sua direção.

Uma lei mais forte do que a corrente o prendia agora: era a lei da amizade. Não queria mais afastar-se do dono que amava.

Dizia, então, esse crente que havia em Londres três classes de cachorros: os cachorros vagabundos, que tinham liberdade sem lei; os cachorros presos por corrente, que tinham lei sem liberdade; os cachorros presos pelo amor, com a "lei da liberdade", que podiam, mas não mais queriam fugir.

Os cristãos que esperam encontrar no Novo Testamento um novo código de leis e regulamentos, não têm compreendido a "lei da liberdade" cristã, que ensina o discípulo sincero a consultar, não um livro de regras, mas a vontade de um Salvador amado.

Capitulo 2A prova do amor fraternal (1-13). O ensino deste trecho é, evidentemente, que a pessoa digna de nossa estima será quem tiver valor espiritual, e não apenas aparência proveniente da roupa ou do dinheiro.

Notemos as duas leis referidas aqui: a lei real – de amar o próximo como a si mesmo, e (outra vez) a lei da liberdade.

Os "ricos" que Tiago considera aqui são iníquos e opressores. Felizmente nem todos os ricos não assim, alguns há que sabem servir a vontade de Deus com seu dinheiro.

A prova das boas obras (14-26). Sobre este trecho o dr. Scroggie escreve: "Estes versículos ensinam:

1) A inutilidade de uma mera crença (14-17). A única espécie de fé que é proveitosa é a praticante (14-16).

Mera profissão não somente é sem proveito, mas desmoraliza (15-16). A fé do Evangelho é como árvore que produz fruto.

2) Há a necessidade de a fé genuína demonstrar a sua existência (18,19). A afirmação de ser crente deve poder ser provada (14-18), e provada por obras, não palavras. A única demonstração da fé é a sua operação (18). Fé sem fruto não vale mais que obras mortas. A prova que uma árvore é frutífera é o fruto que dá. A crença dos demônios é uma ilustração de fé sem fruto (19). Semelhante fé é intelectual, não experimental; teórica, não prática.

3) A prova de que a justificação é mediante a fé que opera (20-26) - primeiro, no caso de Abraão (21-24), depois, no caso de Raabe (25). Paulo também cita (Rm4:3) a passagem em Gênesis 15:6sobre a qual Tiago edifica seu argumento no versículo 23, mas cada qual a emprega a seu modo. Paulo a contempla do ponto de vista da promessa. Tiago do ponto de vista do incidente sobre o monte Moriá. Provavelmente uns 50 anos mais tarde. Os dois pontos de vista têm cabimento. A conclusão de todo o argumento é que a fé sem obras é como o corpo sem espirito (26). É viva e operosa a nossa fé? Precisamos distinguir entre "obras da fé" e o que o mundo chama "boas obras” ou esmolas.

Obras da fé não o procedimento que resulta de alguma coisa que temos visto ou ouvido ou compreendido de Deus.

Além dos dois exemplos dados neste capitulo, podemos achar muitas ilustrações de obras da fé no capitulo onze de Hebreus.

Capitulo 3A verdadeira fé dominará a língua (1-12). No capítulo 1:19encontramos o resumo do ensino deste trecho: "Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar”.

Podemos achar estranho doze versículos serem dedicados á língua, mas quando refletimos nas consequências das conversas boas e más, havemos de concordar que não é demais.

Devemos cuidar de: 1) o que falamos; 2) como falamos; 3) o que e de quem falamos; 4) quando falamos; 5) quando nos convém calar.

É verdade, como diz Tiago, que uma língua desgovernada é ura "mundo de iniquidade", mas sabemos também que uma conversa sadia, santa, inteligente pode ser de inestimável valor.

Mas quando reprovamos a língua perversa, devemos sempre lembrar que as palavras apenas revelam o que está no coração: "Do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34). Para que nossa conversa seja boa e proveitosa precisa haver bons pensamentos e desejos.

A sabedoria que vem do alto (13:18). Desta sabedoria cristã podemos aprender muitas coisas, a saber:

a) Seus contrastes: o que não é - não é ciência; nem produto de muitos estudos; nem a prudência do amor próprio.

b) Suas origens: resulta da nova natureza espiritual do crente; desenvolve-se pela sua constante comunhão com Deus; é instruída pelo estudo da Palavra; vem "do alto" - da preocupação, não com interesses e política mundanos, mas com o reino de Deus e sua justiça.

c) Suas características: é pura, pacífica, moderada, tratável, misericordiosa, frutífera, imparcial (v.17).

d) Seus valores: torna o crente um bom vizinho; faz dele uma testemunha da verdade; reprova o pecado no mundo; ensina o crente a tratar bem os seus semelhantes (v.13).

Vemos pelo que diz das duas "sabedorias" que podemos entender que representam dois "ensinos": um terreno, animal e diabólico, e o outro espiritual - a saber, o que aprendemos de Deus.

Capítulo 4Diversos a visos (1-12). Primeiro, contra contendas entre irmãos; segundo, contra o mundanismo na igreja: terceiro, contra a insubmissão a Deus; quarto, contra a maledicência.

Podemos estudar: a) a existência de tais males nas igrejas; b) o seu perigo e prejuízo; c) o seu remédio; d) como evitar a sua repetição.

Convém notar-se a diferença entre a amizade com o mundo, reprovada no versículo4, e amor para com o mundo que Cristo revelou (Jo3:16).

A tradução do versículo5é muito incerta. Pode ser que devamos ler: "Porventura o espirito que em nós habita tem ciúmes?" Neste caso o argumento do apóstolo é que o Espírito Santo de Deus não é ciumento, por isso, se havia entre seus leitores pessoas ciumentas e cobiçosas (v.

2), não tinham aprendido estas coisas com Deus.

Mas Bullinger dá um sentido inteiramente diferente: "Cuidais vós que a Escritura fala em vão que o espirito dentro de nós deseja com ciúmes? Mas ele dá uma graça maior".

Explica Bullinger que: Aqui “pneuma”, espírito.

é empregada psicologicamente, referindo-se aos movimentos invisíveis da mente, que são chamados, 'pneuma' por metonímia, em contraste com o corpo, que é visível.

"Estes movimentos são sempre maus continuamente. como a Escritura diz. (Veja-se Gênesis 6:5; 8:21. etc.) Ê isso mesmo que diz o versículo anterior (v.4). que é reforçado aqui por uma referência ao testemunho geral do V.

T. com respeito à natureza velha ou homem natural. (Veja-se Mateus15:13; João 3:6; Romanos7:18; 8:5.7; 1 Coríntios 2:14. etc.)" Uma vida de acordo com a vontade de Deus (13-17). Este trecho nos mostra que a característica do crente é a submissão à vontade de Deus em todos os detalhes da vida (v.15).

Nenhum plano que deixa de consultar essa vontade pode ter bom êxito.

Os pecados de omissão referidos no versículo17merecem ser ponderados. Ao fim do dia. O crente desejando, na sua oração, confessar a Deus os seus pecados, pode não recordar ter praticado qualquer mal. Contudo é bem possível ter de reconhecer que não fez todo o bem possível durante o dia.

Capitulo 5Os ricos censurados (1-6). Não devemos pensar que esta enérgica apóstrofe dos ricos malvados seja dirigida aos leitores crentes.

Pelo contrário, o escritor, depois de ocupar-se particularmente com seus irmãos oprimidos pelos ricos (2:6), agora, por um momento, vira- se para esses opressores, e faz sua denúncia fulminante.

"O denominador comum de todos os crimes aqui atribuídos aos ricos é o egoísmo". E esse mesmo egoísmo é capaz de manifestar-se em alguém que não seja rico! Paciência na perspectiva da vinda do Senhor (7-11). Há uma dupla necessidade de paciência: a) quando somos perseguidos pelos ímpios (vv.

7:8), e b) quando há diferenças de opinião entre crentes (vv. 9-11). Há muitas coisas que devem animar nossa paciência. Nestes trechos mencionam se os seguintes: os processos da natureza (7), a volta do Senhor (8), o exemplo dos profetas (10), e a experiência de Jó (11).

Conselhos finais (12-20). Merece nossa especial atenção o precioso ensino aqui sobre a confissão dos pecados. Devido ao escandaloso abuso do confessionário no romanismo, a confissão dos pecados entre os crentes tem caído em desuso, e o importante ensino de Tiago5:14-16tem sido negligenciado.

E precisamos notar a intima relação entre a confissão dos pecados, a oração dos anciãos da igreja, e a cura do doente.

Há uns 40 anos, um irmão moço, simpático, inteligente e espiritual caiu doente de uma enfermidade misteriosa que dois médicos não podiam definir nem curar.

Aos domingos os crentes da vizinhança costumavam reunir-se na mesma casa onde o moço jazia doente, e perguntei-lhe se não sentia o desejo de chamar os irmãos mais velhos para orarem sobre ele? Respondeu que sim, e, antes de orarmos, li esta escritura, que tão intimamente liga a cura do corpo com a confissão do pecado. Perguntei-lhe se não se lembrava de algum pecado que devia confessar? Ele respondeu que tinha muitos pecados, mas não se lembrava de qualquer que devia confessar nesse momento. Oramos todos, mas sem poder e sem resultado.

No domingo seguinte repetiu-se o mesmo processo, as mesmas perguntas, as mesmas preces e a mesma falta de resultado. E a enfermidade misteriosa aumentava. Na terça- feira seguinte o moço chamou-nos, pela manhã cedo, e confessou um pecado bastante grave.

Disse-nos que se tinha arrependido muito e tinha confessado seu pecado a Deus, mas agora sentia que isso não era suficiente; que devia confessar sua culpa aos irmãos. Oramos então com mais confiança, e o doente melhorou lentamente e viveu mais alguns anos, dando sempre um bom testemunho cristão.

Devemos confessar os nossos pecados a Deus, mas não nos esqueçamos do importante ensino: "Confessai vossos pecados uns aos outros”.

Alguns tem procurado evitar o claro ensino desta escritura, dizendo que, no caso de ter ofendido nosso irmão, devemos confessar o pecado a ele. Mas (embora isso seja a verdade) o trecho não diz palavra alguma desse irmão ofendido, e não convém acrescentar a Escritura alguma coisa que ela não contém.

Devemos atender ao importante ensino sobre a salvação no versículo 20.

A explicação de F. W Grant é a seguinte: “E a restauração de um crente desviado que se contempla aqui. A palavra ‘converter’ naturalmente faz-nos pensar na conversão de um descrente, mas o Senhor falou da ‘conversão’ de Pedro quando este se tinha desviado da verdade. Na linguagem de Tiago, se não na de Hebreus também, um homem convertido pode ser ainda pecador. Em Corinto muitos estavam fracos e doentes, e muitos dormiam (na morte) por causa dos seus pecados.

Deste modo cobre-se uma multidão de pecados, não somente pelo amor que individualmente cobre pecados, como lemos em outro lugar, mas pelo trabalho desse amor na restauração de uma alma, que é a maneira acertada, no governo de Deus, para se cobrir uma multidão de pecados".

Fim dos Comentários de Tiago John Nelson Darby nasceu como filho mais novo de uma família aristocrática irlandesa famosa em 18 de novembro de 1800 na cidade de Westminster (Londres). O seu pai, Lord John Darby of Leap Castle (Kings County) era descendente de uma antiga família normanda; a sua mãe, que ele já perdeu enquanto ainda bem novo, descendia da conhecida família Vaughan do País de Gales. O fato de que o famoso general-demarinha, Lord Nelson, foi padrinho do pequeno João a pedido dos pais, mostra como essa família era de renome. Á honra do Lord recebeu o segundo nome Nelson.

Enquanto rapaz, John Nelson Darby estudou em Westminster School e, a desejo de seu pai, a partir de 1815 fez faculdade em Trinity College, Dublin, Irlanda. A primeira parte de seus estudos terminou em 1819 com condecoração: Recebeu a "Classical Gold Medal". Em seguida fez faculdade de direito que terminou em 1822. Por causa da sua consciência, John Nelson Darby renunciou às perspectivas excelentes oferecidas nessa profissão. Já em 1820 entrou em profunda crise interna. Levou uma vida ascética, jejuando, fazendo exercícios religiosos e atendendo regularmente aos cultos na igreja, porém não chegou à clareza de fé. Em uma carta procedente do ano 1871 John Nelson Darby escreve: "Depois de ter me convertido pela graça do Senhor, ainda passei uns seis ou sete anos debaixo da vara disciplinadora da Lei. Senti que Cristo é o único Salvador, porém ainda pude afirmar de possuí-Lo ou de estar salvo por meio dEle. Estava orando, jejuando, dando esmolas — coisas que sempre são boas quando feitas numa maneira espiritual —, mas não possuí paz interior. Ainda assim senti de que se o Filho de Deus Se deu a Si Mesmo por mim, então pertencia a Ele com corpo e alma, com posses e bens. Finalmente, Deus me deixou entender que estava em Cristo, unido com Ele pelo Espírito Santo".

Não sabemos nada certo referente aos seus estudos nos anos 1822 a 1825, senão que se ocupava com o pensamento de optar por uma carreira eclesiástica. O seu pai ficou tão indignado com isso ao ponto de deserdar o filho. Um tio, porém, lhe deixou de herança uma considerável fortuna de sorte que ele durante toda a sua vida era independente. No ano 1825 foi ordenado diácono ("deacon") e no ano seguinte sacerdote da Igreja Anglicana. A sua primeira paróquia foi Calary em County Wicklow na Irlanda. Enquanto ali, se esforçava bastante de cuidar com devoção dos membros da paróquia que moravam, na sua maioria, bem dispersos e eram pobres.

Durante esse tempo, a sua posição quanto a igreja do estado já foi abalada, como mostra o seu primeiro panfleto que data do ano 1827 ("Considerations addressed to the Archbishop of Dublin etc." — "Considerações dirigidas ao Arcebispo de Dublin etc."). Nesse panfleto, ele tomou posição contra a exigência do Arcebispo Magee, que queria que os católicos que naqueles dias passaram em massa para a Igreja Anglicana, jurassem lealdade ao rei britânico.

A sua determinação e ação destemida teve por resultado uma repreensão oficial. Mais e mais foi desconcertado com respeito à igreja do estado.

Por ocasião de uma cavalgada pela paróquia, caiu do cavalo e foi ferido tanto na perna que havia de permanecer em Dublin durante todo o inverno de 18271828 para tratamento. Esse tempo utilizou para estudo intenso da Bíblia. Foi ali que encontrou, aparentemente, a verdadeira e profunda paz com Deus que há tantos anos lhe faltara, como a carta citada revela. Durante a sua permanência em Dublin, chegou a conhecer John Gifford Bellet, Dr. Edward Cronin, FrancisHutchinson e Mr. Brooke. Em seguida da sua volta à paróquia renunciou ao ofício de sacerdote, embora ainda não se desligasse da igreja oficial. Assumiu um cargo na "Missão Interna" (uma instituição apoiada pela Igreja Anglicana destinada à obra missionária dentro do país) e anunciou até 1832 o evangelho aos católicos da Irlanda de maneira muito abençoada. De várias fontes apreendemos que ele se reuniu com os novos amigos por diversas vezes desde o inverno 1827/ 1828 para o partir do pão.

Um desses amigos era Anthony Norris Grove.

Tornaram-se cada vez mais claros para os amigos os pensamentos de Deus referente à Igreja (eclésia) do Deus vivo, à volta de Cristo, à ação do Espírito Santo bem como aos dons e ofícios na Igreja.

Nesse tempo, entre 1827 e 1832, aconteciam também as reuniões conhecidas por conferências de "Powerscourt". Essas ajudaram para esclarecer o ponto de vista bíblico dos assuntos em questão, e finalmente John Nelson Darby se desligou oficialmente da Igreja Anglicana.

Os conhecimentos adquiridos por ele e seus amigos eram resultado de estudos bíblicos feitos com diligência e sobriedade. Eles conservaram firmemente todas as bases da fé cristã. O seu alvo foi anunciar novamente o evangelho em sua simplicidade, pureza e plenitude originais. Além das grandes verdades da Reformação — parcialmente já perdidas outra vez naqueles dias — John Nelson Darby e seus irmãos proclamaram verdades esquecidas ou obscurecidas desde os dias dos apóstolos, a saber:

1 — a Igreja (eclésia) de Deus, o Corpo de Cristo engloba todos os verdadeiros crentes que, desde o dia de Pentecostes em Atos2estão ligados a Cristo, sua Cabeça no céu por meio do Espírito Santo (Ef4:4).

2 — Essa unidade encontra a sua expressão na Ceia do Senhor à Sua Mesa (1Co10:17).

3 — A volta do Senhor para arrebatamento dos crentes antes dos juízos finais é o próximo grande evento esperado pelos cristãos (1Co15:51-54; 1Ts 4:16-5:2).

4 — Todos os crentes são sacerdotes e têm livre acesso a Deus, o Pai (1Pe2:5). O Senhor, porém, deu à Sua Igreja dons especiais para a sua edificação (Ef4:11-12) — dons esses que devem ser distinguidos dos ofícios (anciãos / presbíteros e diáconos, cuja denominação oficial hoje não é mais possível devido à ausência dos apóstolos, embora a sua função, o seu ministério, ainda é exercido por irmãos reconhecíveis como tais — a partir de "devido" é acréscimo do tradutor).

São essas apenas algumas poucas das importantes verdades das Sagradas Escrituras novamente reconhecidas e realizadas naqueles dias.

Para isso, após o seu desligamento da igreja oficial, se abriu um campo amplo de trabalho para John Nelson Darby. Já em 1830 a obra se estendeu de Dublin a Limerick e outras cidades irlandesas. Também em Cambridge, Oxford e Plymouth (nome esse que, em parte, até hoje ainda está sendo mencionado em íntima ligação com os "irmãos") bem como em Londres surgiram maiores ou menores testemunhos da Igreja. John Nelson Darby viajou por todo o país no serviço do Senhor.

No ano 1837, John Nelson Darby iniciou as suas atividades na Suíça, onde trabalhou abençoadamente em Genebra e Lausanne. Nos anos 1840 a 1845 viajou outra vez pela Suíça e França. Ali a obra, de uma maneira semelhante, se espalhou.

Nos anos 1847 a 1853 diversas viagens o levaram a esses países, onde serviu às congregações e reuniu os irmãos nas conferências para o estudo da Palavra de Deus.

No início do ano 1853 ouviu de um grupo de crentes da região Renânia na Alemanha. Em seguida houve uma troca de cartas com Carl Brockhaus resultando em uma visita de John Nelson Darby a Elberfeld em 1854. Durante a viagem, John Nelson Darby ficou por alguns dias nos Países Baixos, fazendo a primeira visita aos irmãos em Haarlem, Amsterdam e Winterswijk. Esses irmãos também estavam se reunindo em separação das denominações eclesiásticas existentes. Na primavera de 1855, novamente foi a Elberfeld, para iniciar a tradução do Novo Testamento para o alemão. Em conjunto com Carl Brockhaus e Julius Anton von Poseck traduziu inicialmente o Novo Testamento. Nos anos 1869 a 1870 também traduziram o Velho Testamento para o alemão. Nessa ocasião, Hermanus Cornelius Voorhoeve (da Holanda) ocupou o lugar de Julius Anton von Poseck.

Os anos 1855 a 1857, John Nelson Darby passou primordialmente no continente europeu, principalmente estava na França, na Alemanha (nos anos 1855 e 1857), nos Países Baixos e na Suíça. Nos anos seguintes,1858 a 1859, permaneceu em Londres, onde trabalhou na tradução do Novo Testamento para o francês impresso finalmente em 1859 em Vevey. A Bíblia completa em francês foi completada em 1881 com a colaboração de alguns irmãos.

Enquanto isso, traduziu e publicou, em 1870, uma tradução para o inglês do Novo Testamento (o Velho Testamento, mais tarde, foi completado seguindo as suas instruções deixadas para trás).

No ano 1861 escreveu a um amigo: "Você sabe que sonhei de um novo campo de trabalho — algo onde ainda não estive e aonde o evangelho, tal como eu o entendo, ainda não tem sido levado. Não me alegro em ir a um campo onde já trabalhei. Se tornou para mim algo velho. Amo anunciar o Nome do Senhor a pessoas que ainda não O conhecem." Esse desejo se cumpriu no final do ano 1862.

Nos anos 1862-63,1866 a 1868, 1870, 1872-73 e finalmente em 1874 a 1877 visitou os Estados unidos e o Canadá. Durante a última viagem também chegou a visitar a Nova Zelândia.

Depois de sua última viagem para além-mar, John Nelson Darby visitou mais uma vez a Alemanha (1878), a Suíça, a Itália e a França. Na avançada idade de 79 anos voltou à Inglaterra, onde ainda trabalhou como escritor até o seu falecimento em 1882.

As suas obras completas (editados por seu amigo William Kelly) englobam 34 volumes ("Collected Writings of J. N. Darby").

Acrescentam-se ainda 7 volumes de notas e comentários ("Notes and Comments"), 3 volumes de miscelânias ("Miscellaneous Writings") e 3volumes de cartas ("Letters").

A sua obra mais conhecida e talvez a mais preciosa é a "Sinopsis dos livros da Bíblia" ("Sinopsis of the Books of the Bible"), na qual John Nelson Darby dá uma panorâmica de toda a Bíblia.

Ele igualmente é conhecido como poeta. Conhecido são os seus "Spiritual Songs" ("Hinos Espirituais") e os muitos hinos no hinário inglês dos irmãos.

Nos últimos meses do ano 1880 John Nelson Darby sofreu muito. Teve problemas de respiração bem como de coração. Em dezembro houve uma leve melhora da forma que pôde escrever a um conhecido: "Pela bondade de Deus estou indo muito melhor. Na verdade nem entendo que estive tão perto da morte.

Embora não com muita frequência, ainda assim posso ir às reuniões. Também posso fazer o meu trabalho costumeiro. É certo que nos meses que seguirão haverá uma mudança acontecendo comigo frente a minha iminente despedida desse mundo, porém não há mudança com vistas à doutrina e os meus pontos de vista. Isso não mudou; tudo encontrei confirmado.

É um doce e lindo pensamento, que tudo aquilo que ensinei o fiz em Deus. No meu interior tenho certeza de que pertenço a um outro mundo… por quanto tempo ainda pertencerá a mim não sei. Para a saída, a palavra do amado Senhor é importante: "Não são do mundo, como eu do mundo não sou" (Jo17:16). — Nesse sentido a mudança é perceptível e estou a esperando." No ano 1881, John Nelson darby ainda estava trabalhando na edição de seu hinário inglês. No dia 15 de dezembro de 1881, escreveu o prefácio para a Bíblia francesa que foi publicada em 1882. No final de janeiro, a sua constituição física lhe permitiu cumprir apenas a metade de suas tarefas diárias. Nas últimas semanas foi recebido e cuidado na casa do irmão Hammond em Bournemouth. Foi ali que ele faleceu no dia 29 de abril de 1882. Numa lápide simples e branca do cemitério de Bournemouth se lê as palavras: John Nelson Darby Como um desconhecido e bem-conhecido.

faleceu no Senhor em 29 de abril de 1882 81 anos 2 Coríntios 5:21 “Senhor, me deixa esperar em Ti, a minha vida seja consagrada a Ti, desconhecido aqui na terra, servo Teu, então herdar a felicidade do céu.” J. N. D.

A Assembleia Celestiale o Acampamento Terrenal

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