O que Respondi Volume 08 (Parte 2)


Mario Persona

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O que acha do universalismo?

O universalismo vai contra o ensino das Escrituras e é claramente uma doutrina demoníaca, apesar de hoje ser aceito em muitos círculos da cristandade. O que o universalismo afirma é que no final todos serão salvos pela misericórdia e graça de Deus e que essa salvação não estaria limitada a uma decisão tomada nesta vida, mas também no pós vida ou simplesmente baseada na misericórdia divina. Nós, brasileiros, temos uma expressão na política que explica de forma magnífica o universalismo melhor que muitos teólogos e enciclopédias cristãs são capazes de fazer: “Universalismo quer dizer que no final vai tudo acabar em pizza”.

Os que professam o universalismo estão espalhados pelas faculdades de teologia ensinando suas doutrinas, como William Barclay, que traz o pomposo título de “Professor de Divindade e Crítica Bíblica” da Universidade de Glasgow. Ele é autor de vários livros e comentários bíblicos, de uma tradução do Novo Testamento e de uma série de estudos bíblicos. Este homem é apenas mais um exemplar das “aves” ou agentes de Satanás que o Senhor alertou que iriam fazer seus ninhos na grande árvore em que se tornou o aspecto exterior do Reino tipificado pelo pé de mostarda da parábola, ou cujo fermento viria a fermentar toda a massa dando a ela um crescimento artificial e inclusivo a toda espécie de erro.

O universalismo também permeia publicações consideradas inofensivas por serem “ficção cristã”, ou “romance cristão”, ou “alegoria cristã”, etc. Um exemplo expressivo é o livro “A Cabana”, escrito por dois universalistas que polvilham suas doutrinas de forma homeopática e suas páginas. Aqui vale a frase: “Veneno de rato é 99% milho e 1% estricnina”. Mesmo assim mata.

Ao invés de ensinar aqui o que o Universalismo acredita prefiro apenas comentar o real sentido de uma das passagens que essa doutrina usa na tentativa de fundamentar sua tese de que todos serão salvos no final, independente de crerem ou não no Salvador. Uma passagem largamente usada é esta:

(Jo 12:32) “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim”.

Esta passagem não tem nada a ver com uma salvação universal no final. Para entender o versículo é preciso ver em que contexto ele foi dito, o que fica claro na passagem abaixo:

(Jo 12:19-21) “Disseram, pois, os fariseus entre si: Vedes que nada aproveitais? Eis que toda a gente vai após ele. Ora, havia alguns gregos, entre os que tinham subido a adorar no dia da festa. Estes, pois, dirigiram-se a Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus”.

Jesus está falando da universalidade de sua vinda e de sua morte na cruz? Sim. Jesus está falando de todos serem salvos no final por sua vinda e obra serem universais? Não. Os judeus se achavam orgulhosamente numa posição de superioridade e exclusividade por terem sido os guardiões dos oráculos de Deus, e por isso desprezavam outros povos e também os menos letrados. Quando alguns gregos (aqui podem ser gentios convertidos ao judaísmo ou mesmo judeus estrangeiros) revelam seu desejo de ver a Jesus, o Senhor aponta para a universalidade de sua obra, cujas consequências diriam respeito a todos, para salvação e para juízo.

No versículo 32 ele fala especificamente do modo como viria a morrer e é a terceira menção que ele faz de ser levantado. A primeira em João 8:28 ( “Quando levantardes o Filho do Homem então conhecereis quem eu sou” ) referindo-se ao caráter sacrificial e sacerdotal da cruz; a segunda em João3:14 ( “E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado“ ) que mostra suas credenciais como enviado de Deus (assim como Moisés), o que é confirmado por João 8:26-28 ( “Quando levantardes o Filho do Homem então conhecereis que EU SOU“ ), e finalmente nesta passagem de João 12:32-33, em que ele é visto em seu caráter de Juiz, Rei e Senhor de todos (“E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim”).

O versículo em João12:32 não fala de salvação, mas da amplitude de seu poder e autoridade que decorrem da cruz, o que obviamente inclui todos os seres. Fala também (e principalmente) da amplitude de seu juízo, pois a cruz significa também o juízo deste mundo, quando Deus colocou um fim no homem em seu estado natural. A menos que alguém venha a nascer de novo, ou seja, ter nova vida e ser assim participante da nova criação, não há salvação para tal pessoa.

Ao ser levantado na cruz pelas mãos da humanidade como um todo (todos estavam representados na cena da crucificação) isso fez com que todos se encontrassem culpados de sua rejeição e morte. O versículo 31 confirma este caráter: “Agora é o juízo deste mundo”. Isto quer dizer que o mundo a partir da cruz não estaria mais sendo provado, testado ou experimentado como fora nos séculos anteriores, mas estaria agora sob uma sentença de juízo. O mundo foi achado culpado da morte do Filho de Deus e sua morte dá a Jesus o direito de atrair todos a si para que recebam o justo juízo. Devemos nos lembrar de que “como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo , assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos , aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação“ (Hb 9:27-28).

Esta passagem é clara ao indicar o que espera o homem após a morte: juízo , a menos que ele tenha sido livrado do juízo pela fé em Cristo Jesus, o que é mostrado em João 5:24: “Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em juízo , mas passou da morte para a vida”. A classe dos salvos aparece no versículo 28 da passagem de Hebreus 9, como os “muitos” (não todos) cujos pecados foram levados por Jesus na cruz. Ele morreu por todos, mas levou apenas os pecados de “muitos” , os que o esperam, não para juízo, mas para salvação.

Outras passagens usadas pelos universalistas na tentativa de darem fundamento às suas ideias são Romanos 11:32, 1 Co 15:22, 1 Coríntios 15:28, 1 Timóteo 2:4-6, as quais comentarei oportunamente.

Mas boa parte da doutrina universalista não é fundamentada na Bíblia (e nem poderia ser), mas em raciocínios piegas que seriam motivo de riso em qualquer corte humana, quanto mais diante do Juiz de todos os homens. Um dos argumentos costuma apelar para a tradução de certas palavras gregas para tentar dizer que “eterno” não significa para sempre. Outro tenta mostrar que uma punição eterna iria contra a graça e a bondade de Deus, as quais no final acabariam por “vencer” ao salvar a todos os homens. Existe ainda um argumento que é o mais piegas de todos, e William Barclay o expressa assim em um de seus livros:

“Deus não é apenas Rei e Juiz, mas Deus é Pai, ele é certamente muito mais Pai do que qualquer outra coisa. Nenhum pai viveria feliz enquanto existissem membros de sua família sofrendo eternamente. Nenhum pai consideraria um triunfo excluir os membros desobedientes de sua família. O único triunfo de um pai é saber que toda a sua família está em casa. A única vitória que o amor pode desfrutar está no dia em que sua oferta de amor for correspondida por uma resposta de amor. O único triunfo final possível é que o universo amado por Deus e apaixonado por ele”.

Isso pode ficar muito bonito nesses cartões com frases que encontramos na Internet, mas a pergunta é: quem disse que Deus é Pai de todos os seres humanos? Deus nunca disse isso. Partindo de uma premissa falsa ele constrói seu argumento emocional na tentativa de extrair lágrimas dos olhos dos incautos e fazê-los acreditar que no final tudo acabará em pizza.

O que a Palavra de Deus afirma com todas as letras é que “a todos quantos o receberam [a Jesus], deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu Nome ; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1:12-13). Quem são os filhos de Deus? Aí diz que são os que creem em Jesus. Quem William Barclay diz que são os filhos de Deus? Todos, sem distinção. A quem você dá crédito?

A Palavra de Deus afirma claramente que os filhos de Deus são apenas os que um dia receberam a Jesus e creram nele (o que ocorre em vida, e não após a morte) foi dado por Deus o poder de serem feitos filhos de Deus, os quais são fruto de um novo nascimento ordenado por Deus. Apenas isto já divide a humanidade em duas classes: os filhos de Deus e os que são meras criaturas de Deus. Se você ainda não creu em Jesus como seu Salvador e Senhor, é melhor fazer isto imediatamente. Não queira pagar para ver quem está com a razão, os universalistas ou a Palavra de Deus. Esta é a que prevalecerá no final.

(Jo 12:48) “Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa [palavra] o há de julgar no último dia”.

(Atos 17:31) “Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos”.

(Mc 9:43) “E, se a tua mão te escandalizar, corta-a: melhor é para ti entrares na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga“.

Por que existiria um fogo que nunca se apaga se não existisse uma condenação eterna?


Para ser salvo preciso dar tudo aos pobres?

Depois de entender que o Reino de Deus e a vida eterna são coisas distintas, você ficou em dúvida na passagem de Marcos 10:17, onde o jovem rico pergunta sobre vida eterna e Jesus, depois de responder ao jovem que prefere não segui-lo, comenta como é difícil um rico entrar no Reino de Deus.

(Mc 10:17) “E, pondo-se Jesus a caminho, correu um homem ao seu encontro e, ajoelhando-se, perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna ? Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e tua mãe. Então, ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude. E Jesus, fitando-o, o amou e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades. Então, Jesus, olhando ao redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!“.

Quando o jovem pergunta a Jesus o que precisa fazer para receber a vida eterna, é importante entender que ele não está falando da mesma vida eterna que hoje o crente em Cristo possui. As esperanças de um judeu estavam conectadas à vida neste mundo e era o que a Lei prometia. Se um judeu guardasse a lei ele teria saúde, prosperidade e vida longa, além de contar com o favor de Deus no fim de seus dias aqui.

Portanto, a noção de “vida eterna” para um judeu era diferente da que é ensinada para o cristão. As promessas de vida no Antigo Testamento tinham o significado de uma vida que não termina, mas não é o mesmo que temos em Cristo: a própria vida que vem de Deus, que não tem começo e nem fim. A perspectiva de vida eterna para um judeu era viver para sempre no reino terrenal de Cristo, comendo e bebendo com fartura, para o que ele deveria guardar a lei.

(Lv 18:5) “Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles“.

(Sl 22:25-31) “O meu louvor será de ti na grande congregação; pagarei os meus votos perante os que o temem. Os mansos comerão e se fartarão ; louvarão ao Senhor os que o buscam; o vosso coração viverá eternamente. Todos os limites da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor; e todas as famílias das nações adorarão perante a tua face. Porque o reino é do Senhor, e ele domina entre as nações…. Uma semente [descendência] o servirá; será declarada ao Senhor a cada geração. Chegarão e anunciarão a sua justiça ao povo que nascer, porquanto ele o fez”.

Quando vamos à doutrina que é dada à igreja, vemos uma noção totalmente diferente de vida, que não tem nada a ver com a vida na terra. A vida eterna está em Cristo, não em algo que façamos em obediência a Deus , e não tem nada a ver com vida perene aqui como era prometido aos israelitas. Para o cristão a vida eterna é agora uma possessão, porém no sentido de uma esperança ou certeza, mas é na ressurreição que efetivamente deverá desfrutar dessa vida.

(Jo 17:1-3) “Tendo Jesus falado estas coisas, levantou os olhos ao céu e disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti, assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste“.

(1 João 5:11-13-20) “E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida. Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus. Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna“.

Ainda que a promessa dada aos judeus fosse de que aqueles que guardassem a Lei viveriam, é importante entender que ninguém era capaz de guardar a Lei, porque ela tinha sido dada para que o pecado tomasse vulto aos olhos dos homens e de Deus. A Lei é a placa de contramão; ela não coloca você na direção certa, apenas aponta que você está na direção errada e será multado por isso. O que Jesus faz aqui é testar o coração desse homem, que achava estar cumprindo a Lei. Da lista de mandamentos que o Senhor menciona o jovem diz ter cumprido todos.

(Mc 10:19-20) “Tu sabes os mandamentos: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não defraudarás alguém; honra a teu pai e a tua mãe. Ele, porém, respondendo, lhe disse: Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade“.

Destes mandamentos, cinco são negativos ( “Não farás isso e aquilo…” ) e um é positivo ( “Honra a teu pai e a tua mãe”). Então o Senhor coloca outro mandamento positivo, um que exigia ação do jovem e que, segundo aprendemos de outras passagens, resumia todos os mandamentos da Lei:

“E um deles, doutor da lei, interrogou-o para o experimentar, dizendo: Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas“. ( Mateus 22:35-40).

Como saber se aquele jovem rico amava realmente o próximo como a si mesmo? Provando-o para ver se ele seria capaz de abrir mão exatamente daquilo que era mais importante para ele (e Jesus sabia o que era, pois conhece bem nosso coração).

(Mc 10:21-23) “E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres , e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me. Mas ele, pesaroso desta palavra, retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades. Então Jesus, olhando em redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!”.

Jesus não estava com isso mostrando que a salvação só se obtém abrindo mão de todas as posses terrenas, mas sim que é impossível que alguém cumpra todos os mandamentos e preceitos da Lei de Deus. Apenas quando alguém reconhece isso é que irá crer em Jesus, ciente de que em si mesmo não encontra justiça necessária para ser justificado por Deus. A salvação é pela fé, e não pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Mas se alguém ama mais a sua vida ou os seus bens do que a Deus, certamente o Senhor irá trabalhar nesse coração, pois qualquer coisa que coloquemos acima de Deus é idolatria.


Devo parar de trabalhar?

Sua dúvida é se um cristão não pode ter uma ocupação ou trabalho secular, devendo dedicar-se única e exclusivamente ao evangelho. A dúvida surgiu depois que você leu o versículo em 2 Timóteo 2:4, que diz: “Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, porque o seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou”. A resposta imediata é “NÃO” , você não deve deixar de trabalhar, pois a mesma Bíblia ensina que devemos trabalhar, e a passagem abaixo escrita pelo mesmo apóstolo Paulo mostra isto:

(2Ts 3:7-12) “Porque vós mesmos sabeis como convém imitar-nos, pois que não nos houvemos desordenadamente entre vós, nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmos exemplo, para nos imitardes. Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão“.

Há cristãos que se ocupam exclusivamente da obra do evangelho porque Deus assim os sustenta para este fim. Eles esperam em Deus sem pedir dinheiro a ninguém, e mesmo assim Deus os sustenta. Outros, como Paulo, gastam parte do seu tempo com um trabalho secular e parte com a obra de Deus, pois Deus provê o suficiente para seu sustento. Hoje surgiu uma terceira classe, a dos “religiosos profissionais”, aqueles que descobrem que “abrir uma igreja” se tornou um bom negócio e fazem isso com espírito mercenário. Aí passam a obrigar seus seguidores a custear um estilo de vida que geralmente é muito mais caro do que o dos próprios membros de sua congregação, que trabalham duro para pagar os caprichos do “pastor” ou da “pastora”.

O negócio “igreja” acabou sendo tão lucrativo que hoje existe uma alcateia imensa dos que “entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré” (Jd 1:11). O “caminho e Caim” é trilhado por aqueles que pregam que a salvação depende de algo que você faça, de suas contribuições em tempo e dinheiro para a “igreja”. O “engano do prêmio de Balaão” é a ganância dos que não tem escrúpulos em causar dano àqueles que são do Senhor se isto lhes trouxer algum lucro. Balaão havia sido contratado cinco vezes por Balaque para amaldiçoar Israel, e estava bem disposto a fazer isso pelo dinheiro. Porém, na hora, Deus mudou a maldição em bênção para Israel e juízo para Balaão e seu contratante. Os que “pereceram na contradição de Coré” são os que usurpam para si uma posição que Deus não lhes outorgou. Foi o que fez Coré, questionando a liderança de Moisés e Arão e com isso angariou seguidores.

Mas, voltando à sua dúvida, talvez outra tradução esclareça que a questão está, não no trabalho secular, mas em ser enrolado ou embaraçado por ele. Veja como está na versão Almeida Corrigida: “Ninguém que milita se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra”. Ou seja, a prioridade do soldado deve ser aquele que o alistou para a guerra.

No caso do cristão, ele foi “alistado” por Cristo para o “bom combate” , e isto envolve todos os aspectos da carreira cristã, como o amor e o cuidado que deve ter à família, aos amigos e também a diligência com que deve cumprir suas responsabilidades profissionais. Um soldado que se comporte de maneira irresponsável irá prejudicar a imagem de sua pátria que o alistou. Um cristão pouco dedicado fará o mesmo com Cristo.

Encontramos entre os primeiros cristãos muitos que tinham um trabalho secular e ao mesmo tempo estavam empenhados na obra do evangelho. Paulo era um deles, pois sua profissão era fabricar tendas. Mas veja que o exemplo do soldado é apenas o primeiro que Paulo usa, pois é seguido pelo exemplo do esportista e do lavrador. O soldado está sempre pronto a cumprir ordens, e mesmo quando cuida de seus afazeres familiares ou profissionais, basta uma convocação para ele correr defender sua pátria. No Brasil todos os disponíveis para o combate, mesmo quando não estão mais servindo as forças armadas, são considerados na reserva.

O exemplo seguinte é o do atleta. Assim como o cristão deve estar sempre alerta para servir, como faz o soldado, não se deixando embaraçar pelas coisas desta vida, o atleta tem no alvo a sua completa atenção. Você nunca viu um corredor nas Olimpíadas olhando para o lado e ocupado com a plateia. Ele olha adiante, para a linha de chegada. No caso do atleta, o ensino para o cristão é que deve competir de acordo com as regras. Sendo assim, de nada adianta empenharmos nossos esforços naquilo que a Palavra de Deus, a nossa “regra”, não ensina. Aqueles que estão empenhados em algum trabalho “religioso” que não tenha respaldo bíblico estão perdendo tempo.

Finalmente é dado o exemplo do lavrador, no sentido de ser o primeiro a gozar dos frutos de seu trabalho. Mas ninguém se engane: o trabalho mais cansativo e que exige maior paciência é trabalhar na lavoura de manhã à noite. O envolvimento com as coisas de Deus exige diligência como de um soldado, foco e conhecimento das regras como de um atleta, e trabalho duro, paciência e persistência como de um lavrador.


Por que os pastores não entendem estas coisas?

Após ter lido o livro “A ordem de Deus” você diz ter sido esclarecido sobre muitos pontos relativos ao corpo de Cristo e se diz perplexo por estas verdades não serem compreendidas pelos pastores. O raciocínio lógico seria acreditar que por eles fazerem cursos de teologia deveriam estar cientes dessas coisas.

Cursos e faculdades de teologia são invenções humanas, e basta ver um dos títulos que elas outorgam para entender isso: “Doutor em Divindade”. Alguém em sã consciência poderia aceitar um título assim, considerando-se um perfeito entendedor da Divindade?

(1 Co 8:2) “E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber”.

Considerando que essas faculdades criam uma casta de homens considerados superiores em conhecimento aos cristãos comuns, isto acaba também entrando em conflito com passagens como:

(Mt 11:25) “Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos”.

(1 Co 2:4-5) “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus”.

(1 Co 2:13-15) “As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais. Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido”.

Fica evidente que existe um abismo entre o “sistema de ensino” da sabedoria humana e o aprendizado das coisas de Deus, o qual só pode ocorrer mediante o Espírito Santo. Portanto, não é estudando arqueologia, história, antropologia ou línguas antigas que alguém chega ao conhecimento da verdade, mas pela aplicação, pelo Espírito, da Palavra de Deus no coração do crente.

Os evangelhos estão cheios de exemplos de pessoas incultas que reconheceram em Jesus o Messias prometido pelos profetas, enquanto os doutores da Lei e até mesmo os discípulos em algumas ocasiões não enxergavam isso. É instrutivo o capítulo 18 de Lucas, onde temos alguns contrastes evidentes entre aqueles que estão humanamente capacitados e aqueles que são capacitados pelo Espírito Santo.

em Lucas 18:9-14 temos um fariseu cheio de si e de práticas religiosas, e um publicano humilhado diante de Deus. Qual conhecia melhor a Deus? na sequência (Lc 18:15-25) há um jovem rico e versado na Lei cuja bagagem de conhecimento e obediência aos mandamentos é colocada em contraste com os meninos dos quais Jesus diz ser o Reino. O que poderia saber uma criança quando comparada a um ilustre príncipe dos judeus?

Então vemos em Lucas 18:31-43 os discípulos perplexos com as afirmações de Jesus de que deveria ir a Jerusalém para ser morto e um pobre cego que, mendigando, nem precisou de seus olhos naturais para reconhecer que estava diante do Filho de Davi, título que dava a Jesus a ascendência real e o devido reconhecimento de ser ele o escolhido de Deus para o trono. Antes que ele tivesse sua visão natural curada, seus olhos da fé já tinham visto o que olhos de carne não podem ver.

As escolas e faculdades de teologia podem ter tido uma origem bem intencionada, mas não vejo na Palavra de Deus fundamento para elas. O objetivo do cristão é conhecer a Cristo, não esta ou aquela doutrina ou arqueologia, antropologia, línguas antigas, etc. Se alguém quiser aprender estas coisas, que frequente uma escola secular e aprenda, e se for cristão use esse conhecimento humano para a glória de Deus, como faz com o dinheiro, a profissão, os talentos naturais, etc.

Não devemos nos esquecer de que as faculdades de teologia vêm de séculos e já existiam muito antes da reforma protestante. Aliás, no catolicismo elas eram até mais coerentes, pois tinham o objetivo de resguardar as doutrinas católicas, mesmo as equivocadas, e não fazer como as modernas escolas teológicas, que apresentam aos seus estudantes um cardápio do tipo “alguns creem em A, outros creem em B e outros em C”, como se a verdade fosse uma questão de escolha do homem.

Alguém poderia alegar que 2 Timóteo 2:2 serve de aval para a fundação dessas escolas: “E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros”. Este é realmente o papel de todo aquele que aprende da Palavra de Deus: ensinar a outros. Mas onde isto é feito de acordo com a Palavra de Deus? Posso encontrar algumas situações:

Nas reuniões da igreja, onde o ensino não é de um para muitos como no modelo denominacional católico ou protestante, mas de muitos para muitos:

(1 Co 14:31) “Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados”.

No lar:

(1 Co 14:35) “E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos”.

(2Tm 3:14-15) “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras , que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus”.

(Tt 2:3-5) “As mulheres idosas , semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem; Para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos, A serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada”.

Em cartas e livros:

(2Ts 2:15) “Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa“.

(Cl 4:16) “E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodiceia lede-a vós também”.

(1Ts 5:27) “Pelo Senhor vos conjuro que esta epístola seja lida a todos os santos irmãos”.

(1 João 5:13) “Estas coisas vos escrevi a vós , os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna, e para que creiais no nome do Filho de Deus”.

(2Tm 4:13) “Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos“.

No ministério daqueles que têm o dom (não o diploma) de ensinar:

(Atos 11:25-26) “E partiu Barnabé para Tarso, a buscar Saulo; e, achando-o, o conduziu para Antioquia. E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinaram muita gente ; e em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos”.

Alguém poderia alegar que este último exemplo é perfeito para indicar a validade das faculdades teológicas. Será? O que vemos neste e em outros casos são homens usados por Deus no exercício de seus dons, e Paulo era um caso singular, e não diplomados em escolas teológicas ministrando a alunos das mesmas escolas. É muito simples ver o absurdo disso: como alguém poderia considerar-se “diplomado” no conhecimento de Cristo? E como avaliar o aprendizado da Palavra de Deus usando métodos humanos de ensino, como provas escritas, notas, disciplinas, etc.? É o conhecimento de Cristo que devemos buscar na Palavra, não de disciplinas como história ou geografia.

Maria assentada aos pés de Jesus encontrou a melhor parte sem frequentar nenhuma faculdade de teologia.

(Lc 10:39-42) “E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe que me ajude. E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada”.

Pedro e João foram reconhecidos como detentores de um conhecimento que não vinha deles por terem estado com Jesus:

(Atos 4:13) “Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos , maravilharam-se e reconheceram que eles haviam estado com Jesus“.

Mas vamos à sua dúvida que é sobre a razão de os pastores não entenderem estas coisas que você aprendeu no livro “A ordem de Deus”. A dificuldade de um pastor compreender é grande, porque a primeira coisa que ele precisaria fazer, se entendesse, seria abandonar sua posição, já que ela não existe nas Escrituras. Existe o dom de pastor e existe o ofício de presbítero, mas no primeiro caso trata-se de um dom dado pelo Senhor, não por uma junta de homens com poderes para ordená-lo, e não se trata de alguém que fique à frente de uma congregação, mas de um que tem um coração de cuidado para com as ovelhas.

Além disso, os dons, como o de pastor, evangelista e mestre, não eram locais, mas universais. Ou seja, um pastor não era aquele responsável por uma congregação local, mas alguém ocupado com as ovelhas de Cristo onde quer que elas estivessem. Quanto aos presbíteros, eram sempre mais de um e divididos por cidades, não por denominações. Se quiser entender melhor isto sugiro que volte a ler os capítulos do próprio livro que leu onde é explicado o lugar de cada dom (como evangelistas, pastores e mestres) e de cada ofício (como presbíteros, bispos ou anciãos, que são tratados como sinônimos).

Como pode ver, está tudo errado no que os homens instituíram, e ao ler “A Ordem de Deus” isso salta aos olhos. Evidentemente, um clérigo, seja ele pastor, padre, presbítero ou qualquer título inventado pelos homens, ficará relutante em adotar a ordem bíblica pois isso significa em muitos casos “perder o emprego” e todas as regalias que o cargo traz, como o ser tratado como “o mais igual entre os iguais” (ouvi dizer que esta era uma expressão usada em monastérios católicos para designar o monge superior, por não poderem considerar ninguém superior de fato entre eles).

Visitei o site que indicou (Mary Schultze), mas ela adota a posição de muitos cristãos (inclusive pastores) que é a crítica ao sistema e a permanência nele. Muitos fazem assim, se esquecendo da importância que Deus dá ao apartar-se do erro. Alguns pastores chegam a apartar-se, mas apenas para iniciar uma nova denominação ou até uma igreja sem denominação, da qual acabam sendo “o mais igual entre os iguais”.

Se tiver facilidade com o inglês sugiro este ótimo texto de C. H. Mackintosh: One-sided Theology, do qual seleciono uma parte que diz:

“Ele [Deus], bendito seja o seu Nome, não se prendeu aos estreitos limites de alguma escola de doutrina, seja ela alta [calvinista], baixa [arminiana] ou moderada. Deus se revelou. Ele expôs os profundos e preciosos segredos de seu coração. Ele descortinou seus conselhos eternos relativos à Igreja, a Israel, aos gentios e à criação como um todo. Os homens podem tentar confinar o oceano em baldes que eles próprios criaram, do mesmo modo como tentam confinar o vasto espectro da revelação divina dentro dos frágeis recipientes dos sistemas humanos de doutrina. É impossível fazê-lo e jamais deveria ser tentado. O melhor é deixar de lado os sistemas e escolas de divindade e aproximar-se como uma criança da eterna fonte das Sagradas Escrituras, e ali beber dos ensinos vivos do Espírito de Deus”.

“Nada é mais prejudicial à verdade de Deus, mais estéril para a alma, ou mais subversivo para qualquer crescimento e progresso espiritual do que a mera teologia, seja ela alta ou baixa, calvinista ou arminiana. É impossível que alguém progrida além dos limites do sistema ao qual está ligado. Se sou instruído nos ‘cinco pontos’ como ‘a fé dos eleitos de Deus’, não poderei sequer pensar em buscar algo além disso, desaparecendo assim de meu campo de visão o mais glorioso campo de verdade celestial. Fico atrofiado, estreito, parcial; e corro o riso de cair naquele estado de espírito estéril e pedregoso que acaba me deixando ocupado com meros pontos doutrinários ao invés de ocupar-me com Cristo. Um discípulo da alta escola [calvinista] de doutrina não ouvirá falar de um evangelho anunciado a todo o mundo, do amor de Deus para o mundo, das boas novas para cada criatura sob os céus. Tudo o que possui é um evangelho para os eleitos. Por outro lado, um discípulo da baixa escola, ou arminiana, não escutará da segurança eterna do povo de Deus. Sua salvação dependerá em parte de Cristo e em parte de si mesmo. De acordo com esse sistema doutrinário, a canção dos redimidos deveria ser alterada. Ao invés de ‘Digno é o Cordeiro’ seríamos obrigados a acrescentar ‘…e digno somos nós’. Podemos estar salvos hoje, porém perdidos amanhã. Tudo isso desonra a Deus e priva o cristão de qualquer paz verdadeira”.

“Não escrevemos com a intenção de ofender o leitor, longe de nós tal pensamento. Não estamos falando de pessoas, mas de escolas de doutrina e sistemas de divindade, os quais gostaríamos sinceramente de exortar nossos amados santos a abandonarem de uma vez para sempre. Nenhum deles contém a completa verdade de Deus. Existem certos elementos de verdade em todos eles, mas a verdade geralmente está neutralizada pelo erro, e mesmo que encontrássemos um sistema que não apresentasse nada além da verdade, ainda assim ele não conteria toda a verdade. O efeito desses sistemas sobre a alma é o mais pernicioso possível, pois levam as pessoas a se gabarem de possuírem a verdade de Deus, quando na verdade possuem apenas um sistema humano parcial”.

“Volto a dizer que raramente encontramos um discípulo sequer de qualquer escola de doutrina que possa encarar as Escrituras como um todo. Ele irá citar passagens favoritas de modo contínuo e reiterado, mas descartará como inadequada uma grande parte das Escrituras”. (C. H. Mackintosh - 1820-1896).


O que você acha do testemunho desta ex-artista?

Assisti o vídeo que você enviou apenas até a metade, portanto talvez minhas conclusões possam estar equivocadas e você poderá confirmar ou não. O mundo religioso gosta muito de testemunhos, e eles podem ajudar a converter pessoas, mas é preciso sempre ficar atento e discernir se o testemunho está sendo para exaltar a Cristo ou a pessoa que dá o testemunho.

Mesmo assim, embora encontre testemunhos de conversão sendo contados pelo próprio protagonista, como Paulo faz algumas vezes em Atos não vejo que isto fosse o assunto de uma reunião da igreja, onde o foco nunca deve ser colocado na pessoa, mas em Cristo. Outra coisa a ser considerada é se a conversão foi real. Nos EUA (e agora no Brasil) é comum encontrarmos artistas em decadência que se “convertem” e voltam para a mídia, agora atraindo um público fiel de evangélicos ou católicos. Deus conhece os corações, mas alguns logo revelam nunca terem se convertido, mas apenas adotado uma estratégia mercadológica.

Outro ponto importante é ver se o testemunho não serve de alternativa para a carne. Digo isto porque muitos cristãos que evitam filmes e livros de violência e sexo acabam expostos a estas mesmas coisas quando assistem ou leem testemunhos de ex-marginais, ex-garotas de programas, ex-traficantes, etc. Uma vez comecei a ler um livro da conversão de uma ex-prostituta e logo percebi que o livro “evangélico” era, na verdade, uma aula de prostituição. Apenas no último e breve capítulo ela falava de sua conversão. O resto não era muito diferente de um livro escrito por alguma garota de programa, obviamente sem as cenas explícitas. Mas vamos às minhas observações do testemunho do vídeo:

​1. Não posso contestar que ela tenha tido uma experiência maravilhosa, pois experiências a gente não contesta, apenas escuta e respeita. O que a gente pode contestar é se a interpretação da experiência é correta ou não de acordo com a Palavra de Deus. As crianças que viram Nossa Senhora de Fátima em Portugal certamente viram algo. Elas interpretaram como sendo Maria (Nossa Senhora), mas eu não creio nessa interpretação. Acredito até que elas tenham visto um anjo maligno, já que o resultado daquela visão foi a conversão de milhões à idolatria.

​2. O que eu disse não significa que o que ela viu ou ouviu não tenha sido Jesus, mas tenho certo receio dessas conversões impactantes, pois elas mandam uma mensagem que pode enganar as pessoas. Quero dizer que se alguém não tiver uma visão maravilhosa de Jesus vai achar que não se converteu de verdade. Minha conversão foi impactante pelas “coincidências” que me levaram a Cristo, embora não tenha sentido o chão tremer. Meus filhos se converteram na infância e nem sabem exatamente como foi aquele momento, mas nem por isso se consideram menos convertidos (hoje são adultos).

​3. Em nenhum momento ela falou o evangelho (1 Co 15:1-2) que inclui Jesus morrendo por nossos pecados e ressuscitando pela nossa justificação. Ao longo dos anos e em contato com muitos convertidos das mais diferentes maneiras, sempre presto atenção para saber se a pessoa creu realmente no evangelho ou numa experiência. Evangelho sem sangue não é evangelho, mesmo que resulte em mudança de vida. Muita gente tem experiências maravilhosas no budismo, no islamismo, no espiritismo e acabam mudando de vida, mas isso não significa que tenha sido uma conversão a Cristo ou que estejam salvas.

Talvez ela tenha falado do sangue, do perdão dos pecados, da morte de Jesus, da cruz, etc. porque eu não vi até o final.


Deus não ama pecadores?

Você escreveu que Deus não ama pecadores porque pecadores têm pecado! Se Deus não ama pecadores, quem ele ama afinal? Como Deus poderia ter amado o mundo? Teria ele amado as plantas e os bichos e deixado de lado a humanidade por ser pecadora? Pelo jeito você não faz ideia do que seja o amor divino, o amor que ama o próprio inimigo; o amor que intercede pelos algozes.

(Lc 23:34) “E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.

Seu longo e elaborado raciocínio cheira a enxofre; é bem no estilo dos fariseus que tinham repugnância pelos pecadores por se acharem justos e corretos em todo o seu andar. Se Deus não ama pecadores como poderá amar você? Sim, pois se você confessa ter sido salvo por Cristo isto não significa que tenha deixado de ser pecador.

Existe em você ainda a velha natureza cuja especialidade é pecar. E não venha me dizer que você não peca, porque esta já seria uma grande mentira, um grande pecado. E se você ainda é um pecador, como então poderá (segundo seus raciocínios) desfrutar do amor de Deus? Ou será que Deus ama você só quando está dormindo e não corre o risco de dizer uma palavra torpe, agredir alguém ou ter desejos impuros? Aí você estaria com um problema, pois nem com você dormindo Deus poderia amá-lo. Já teve sonhos eróticos?

(1 João 1:8) “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós”.

(1 Rs 8:46) “Quando pecarem contra ti ( pois não há homem que não peque )”.

Uma boa figura da condição de um servo de Deus é o que acontece com Moisés em seu encontro com Deus. Deus tinha dado a Moisés poder para fazer três sinais na presença de Faraó, para convencer o soberano egípcio. Um era transformar a vara em serpente, outro enfiar a mão no peito por debaixo das vestes e ela sair leprosa, outro transformar a água do Nilo em sangue.

O sinal da mão leprosa Moisés não fez na presença de Faraó, talvez porque aquele sinal fosse muito mais para dar uma lição em Moisés do que em Faraó. Deus estava lhe ensinando que, apesar de todos os privilégios que estava recebendo, ele continuava pecador. O pecado (simbolizado pela lepra) continuava ali em seu peito, latente e pronto para se manifestar. Somos bem assim: não queremos que os outros saibam o que realmente existe em nosso coração.

(Ex 4:6) “E disse-lhe mais o Senhor: Mete agora a mão no peito. E, tirando-a, eis que sua mão estava leprosa, branca como a neve”.

Você talvez estranhe esta minha reação tempestiva, mas ela é perfeitamente cabível diante de tamanha heresia. Eu jamais responderia assim a uma prostituta, um ladrão ou qualquer pessoa que o Senhor certamente trataria bem e receberia em seus braços. Ele ama pecadores. Mas suas ideias merecem a mesma reação que Jesus tinha quando diante de fariseus que justificavam a si mesmos e se achavam melhores do que as pessoas comuns.

(Lc 18:9) “E disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros”.

(Mt 9:13) “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento”.

(Mt 23:28-29) “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos,”.

Imagine um Deus que pede que amemos nossos inimigos sem que ele próprio possa amar os pecadores inimigos dele?! Seríamos então mais capazes do que Deus? Isso é como o espiritismo que ensina que os homens devem perdoar uns aos outros, mas nega que Deus possa perdoar o pecador, para isso Kardec manda seus seguidores reencarnarem. Na concepção espírita Deus é menos capaz que um bom espírita que pode perdoar seus ofensores. Deus não.

Aliás, em seu perfil no Facebook você se diz cristão e lá está cheio de mensagens suas defendendo a “fé reformada”. Porém, em meio a elas você postou um pensamento assinado por “André Luiz” (suposto espírito que falava com Chico Xavier) com um link para “Espiritismo Consolador”. Agora posso entender a salada que deve estar sua mente, uma mistura de protestantismo com a justiça própria que o espiritismo prega.

(Mt 5:44) “Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;”.

Voltando ao pedido de Deus para amarmos nossos inimigos, como podemos amar nossos inimigos se não for com o mesmo amor de Deus, já que não existe em nós tal poder ou qualidade?!

(1 João 4:19) “Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro”.

(1 João 4:12) “Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor”.

(1 João 4:16) “E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele”.

Pelo jeito você ainda não entendeu a “dispensação da graça de Deus”. A declaração de Deus é sim genérica e abrangente: Deus ama pecadores. Caso contrário a quem ele amaria se, ao olhar para a criação arruinada, não visse ninguém senão pecadores? Como ele daria o seu Filho para morrer por pecadores se não os amasse? Como ele teria feito provisão para salvar o mundo todo (apesar de sabermos que nem todos serão salvos) se não fosse por um amor tão abrangente que incluísse o mundo inteiro? (1 João 2:2) “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”.

Quer saber que “mundo” era esse que Deus amou ao ponto de entregar o seu Filho? Este aqui:

(Rm 3:9-19) “Já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado ; como está escrito: não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; E não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos. Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus.

Deus não apenas ama os pecadores, mas o fato de amar pecadores e ter entregue seu Filho para morrer é prova de seu amor para conosco.

(Rm 5:8) “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores“.

(Jo 3:16) “Porque Deus amou o mundo [humanidade] de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

(1 João 4:19) “Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro“. (Primeiro quando? Obviamente quando ainda estávamos perdidos)

(1 João 3:16) “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós”.


Como lidar com visitantes?

Situações em que somos visitados por irmãos das denominações podem ser constrangedoras, mas nessas horas, independentemente do modo como agirmos, devemos investigar nosso coração e perguntar: “Estou agindo assim para agradar os irmãos visitantes?” ou “Estou agindo assim para agradar os irmãos com os quais tenho comunhão?”. Podemos errar agindo tanto de um modo como do outro, porque em nenhum dos casos estamos fazendo aquilo para o Senhor, para sua glória. “E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai… E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens” (Cl 3:17-23).

De qualquer maneira, eu sei que as visitas de irmãos denominacionais em nossa casa, quando estamos apartados dos sistemas religiosos, podem ser realmente constrangedoras, e hoje é mais provável acontecer esse constrangimento com a visita de crentes do que de incrédulos. Quando temos visitas de incrédulos e explicamos a eles o costume da família, de ler a Bíblia ou orar ou cantar hinos, eles educadamente aceitam e ficam calados.

Mas quando são cristãos, e principalmente pentecostais, alguns não respeitam o modo como agimos e acabam querendo impor seus costumes, que geralmente são escandalosos (mudança no tom da voz, gritos exagerados de “aleluias”, uso de jargões que não têm respaldo bíblico, “profetadas” do tipo “O Espírito está me revelando blábláblá….”, etc.).

No dia em que minha mãe faleceu, ela já nem respondia mais a estímulos e sua vida estava visivelmente se esvaindo. Eu e minhas irmãs estávamos no quarto dela aguardando sua partida para o Senhor e combinamos de não chorarmos ou fazermos espetáculo naqueles últimos momentos. Sempre nos lembrávamos do que minha mãe contava, de quando a mãe dela (nossa avó) estava morrendo, minha mãe, que na época tinha uns 15 ou 16 anos, estava ao lado da cama “rezando” insistentemente em voz alta. Então, para surpresa de todos, minha avó abriu os olhos e disse: “Ruth, pare de rezar. Você não está deixando eu partir em paz”. Nunca sabemos o quanto uma pessoa moribunda está ouvindo e entendendo do que se passa ao redor.

Por isso tínhamos combinado de ficar em silêncio, pois não havia mais nada a fazer e, apesar de aparentemente adormecida pela fraqueza ou pela ação da morfina, ela poderia ainda estar escutando o que se passava no quarto e querer se apegar à vida, só prolongando seu sofrimento. Com mais de setenta anos, seu organismo já estava tomado pelo câncer que passou dos ossos para o pulmão. Seria um ato de misericórdia Deus levá-la para estar com Cristo. Dois dias antes, ainda lúcida, ela tinha até escolhido o vestido com o qual queria ser enterrada e dado as últimas instruções para nós cuidarmos de suas coisas. Minha mãe estava realmente em paz nos momentos em que antecederam seu encontro com o Senhor Jesus.

Aí chegaram alguns “obreiros” da denominação da empregada de minha mãe e queriam entrar no quarto para orarem pela cura dela. Não deixei e expliquei a eles que ela já estava morrendo e era uma questão de minutos (como realmente foi) para que ela entrasse na presença do Senhor. O “líder” deles não gostou nem um pouco e ainda contestou, querendo discutir que nunca era tarde demais, que a oração era poderosa e coisas do tipo.

Logo me lembrei do que uns “obreiros” da mesma denominação haviam feito com meu avô, pai de minha mãe. Depois de ter extraído o estômago, por causa de um câncer, e já moribundo e com tubos entrando em seu abdome, foi levado para casa para morrer. Foi a mesma história: uma empregada trouxe “obreiros” de sua denominação que insistiam que minha avó permitisse que eles levassem meu avô (ou trouxessem uma piscina de montar) para que fosse batizado por imersão, o que minha avó obviamente não permitiu. A respostas daqueles “obreiros” foi que então meu avô estaria perdido eternamente por não ter o “verdadeiro” batismo.

Portanto sempre existe algum constrangimento quando ficamos numa situação quando nos deparamos com cristãos vindos dessa confusão que é hoje a “grande casa” de 2 Timóteo 2, onde há vasos de honra e de desonra. Por isso é preciso que a família esteja bem coesa nesses momentos, principalmente para que o inimigo não acrescente mais um problema: o de criar um conflito também entre marido e mulher, pais e filhos.

Outro ponto que me vem à mente é o fato de nós mesmos reagirmos de forma inadequada diante de situações assim. O marido de minha filha, que é norte-americano, costuma dizer que conseguiu tirar minha filha do Brasil mas não o Brasil de minha filha. Isto porque apesar de ela morar nos EUA, falar fluentemente o inglês e estar totalmente ambientada aos costumes daquele país, em seu coração ainda bate um coração brasileiro e as coisas do Brasil ainda a encantam.

Isto também é verdade com respeito aos que saíram de uma denominação religiosa para congregar somente ao nome do Senhor, sem o sistema, o clero e outras coisas típicas das religiões. Mesmo tendo saído do sistema religioso, nem sempre o sistema religioso sai deles. Então é comum a pessoa trazer à tona costumes religiosos, principalmente em situações de stress. Uma análise rápida e imparcial pode claramente revelar costumes e maneiras de agir que mais lembram os fariseus do que o Senhor misericordioso que conhecemos nos evangelhos.

Vem-me à mente o versículo: (Mt 23:4-5) “Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los; E fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes”. Pessoas religiosas são bem assim: legalistas ( “atam pesados fardos” ), sem misericórdia ( “nos ombros dos [outros] homens” ), hipócritas ( “eles, porém, nem com o dedo querem movê-los” ), exibicionistas ( “fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens” ) e gostam de aparentar piedade como alerta Paulo a Timóteo em 2Tm 3:5 ( “pois… alargam as franjas das suas vestes” ).

As franjas das vestes eram, na verdade, roupas desfiadas pelo constante caminhar no deserto arrastando a barra das vestes no chão, um sinal de que o povo havia sido tirado por Deus do Egito para ser levado à terra prometida (Nm 15:38-41). A barra desfiada era para lembrá-los de seu caráter de humilhação e dependência de Deus, mas os fariseus faziam o desfiado ficar maior para mostrar que eram mais humildes do que os outros (é parecido com o que fazem alguns muçulmanos hoje, que batem constantemente a testa no chão nas orações para criar uma cicatriz e tornar visível a todos que são homens de oração).

Portanto devemos manter uma vigilância constante de nosso modo de agir para não nos tornarmos fariseus quando na presença de outras pessoas, como se quiséssemos dizer a elas: “Ei, vejam vocês, eu sou diferente! Eu estou congregado fora das denominações!”. Nessas horas o zelo sem entendimento atropela a misericórdia e acabamos apenas criando contendas, tanto com os visitantes como até com nossos irmãos e familiares.

Às vezes o que vem à tona nessas horas é o vocabulário, pois muitos denominacionais adoram chamar os irmãos de “irmão Fulano” ou “irmã Sicrana” na frente de incrédulos como forma de forçar uma distinção, colocando o “irmão” como se fosse um título de classe, tipo “professor” ou “doutor”. Isto não é muito diferente do que fazem monges e freiras, que chamam de irmãos apenas os que pertencem às suas ordens.

Quando lemos o último capítulo da carta aos Romanos vemos que Paulo não usa “irmão” antes de nenhum dos 30 nomes de irmãos que menciona ali. Apenas para Febe ele acrescenta “nossa irmã”. Na sequência, Tércio, que foi quem escreveu o que Paulo ditava, menciona três nomes próprios, mas apenas em um acrescenta “irmão”, no caso de Quarto.

Outro exemplo da adoção de algo até bíblico para criar distinção é o ósculo ou beijo entre irmãos. Algumas denominações usam o “ósculo” como forma de se distinguirem dos demais, mesmo daqueles que creem no Senhor (alguns nem mesmo consideram irmãos os de fora de sua organização religiosa). O ósculo que a Palavra de Deus menciona é “ósculo santo” e não um instrumento de discriminação e farisaísmo. (1Ts 5:26) “Saudai a TODOS os irmãos com ósculo santo”. Não se trata de uma lei, pois o cristão não vive dentro de um sistema legalista de mandamentos e regras. Também está muito evidente não se tratar de um ato de segregação, pois ali diz “a TODOS os irmãos”.

Outras denominações usam uma saudação característica, como “paz do Senhor” ou “paz de Cristo” para se diferenciarem de outros cristãos, não fazendo a mesma saudação, ou por não os considerarem irmãos de fato ou por acharem que sejam cristãos de uma categoria inferior. Falando a seus discípulos, o Senhor deixou claro: (Mt 23:8) “Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos“.

Outras vezes nos deixamos levar por uma forma legalista de agir trazida da religião de onde saímos. A diferença é que simplesmente acabamos adotando leis e regras diferentes daquelas às quais estávamos habituados no sistema religioso, mas não deixam de ser igualmente leis e regras. Por exemplo: a mulher deve cobrir a cabeça quando orar ou profetizar (falar do Senhor)? Sim, porque vemos isto claramente na doutrina dada pelos apóstolos (1 Co 11:1-16). Não é difícil de ser obedecido por qualquer mulher em qualquer situação, pois às vezes até a mão serve como cobertura na hora de dar graças pelo alimento em um restaurante, por exemplo. Mas seria isto uma lei ou mandamento que devesse ser aplicado como se vivêssemos no Antigo Testamento? Certamente não, pois hoje vivemos não mais na lei, mas na graça.

Dou um exemplo: você está de moto numa via movimentada e em alta velocidade e se lembra de que naquele exato momento uma pessoa muito querida está entrando na sala de operações de um hospital para uma cirurgia complicada. Imediatamente vem o desejo de orar por aquela pessoa, bem ali, em sua moto a cem por hora numa estrada movimentada e sem acostamento. Mas o problema é que você é homem e está de capacete, ou seja, com a cabeça coberta, o que a Bíblia diz que não é a maneira apropriada para um homem orar (1 Co 11:4). Você deixa de elevar a Deus o nome daquele enfermo em uma rápida oração em pensamento, ou simplesmente se nega a fazer isso priorizando o fato de estar com a cabeça coberta?

Sim, você pode até parar mais à frente, tirar o capacete e orar, mas o Senhor certamente entenderia sua situação se antes tivesse pedido que guiasse as mãos dos médicos, ainda que tivesse feito isto de capacete a cem por hora numa moto. Lançar aos céus uma oração rápida de cima da moto teria sido um ato de misericórdia. Estacionar quando pudesse para tirar o capacete e orar teria sido “dizimar a hortelã, o endro e o cominho”, parodiando o versículo a seguir:

(Mt 23:23-28) “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé ; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas. Condutores cegos! Que coais um mosquito e engolis um camelo.”

(Os 6:6) “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos”.


Posso aplicar este versículo em qualquer caso?

É preciso sempre bom senso antes de aplicar um versículo a uma determinada situação. Não é por algo estar na Bíblia que serve para qualquer situação. Sua dúvida está relacionada a uma irmã que não quis cobrir a cabeça por estar na presença de outras irmãs que não agem assim na denominação em que frequentam. Vamos ao versículo que citou: (Rm 16:17-18) “E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples“.

Paulo está falando aqui de hereges, pessoas que deliberadamente promovem divisões entre os irmãos querendo atrair discípulos após si. Este versículo está relacionado com Colossenses 2: “E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas… Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens , segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Cl 2:4-8).

Os que promovem dissensões (ou divisões, facções, heresias) e escândalos (no original tem o sentido de armadilhas) fazem isso (agora lendo Colossenses) “segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo”. Isto é, são pessoas legalistas que querem fazer a carne (o homem natural) agir de maneira religiosa. Era este o grande problema que a igreja enfrentava no início por causa dos cristãos judaizantes, aqueles que haviam se convertido e trazido do judaísmo uma série de costumes, os quais queriam impor sobre os irmãos (para esses existe a carta aos Gálatas e aos Hebreus).

Como eu disse, o versículo não poderia ser aplicado a essa irmã, pois ela não estava querendo promover divisões e armadilhas com suaves palavras, filosofias ou tradições. E também fica difícil querer aplicar às irmãs que a visitavam, pois se elas trouxeram algum costume na hora de cantar hinos ou orar foi fruto de ignorância de como ensina a Palavra de Deus. Não podemos esperar que alguém no sistema denominacional (em especial o pentecostal) entenda certas coisas, por estarem carregados dos costumes, doutrinas e jargões de suas denominações.

Alguém poderia alegar que numa situação assim deveríamos agir como fez Paulo com Pedro, resistindo na cara por Pedro querer agir como se fosse judeu na frente dos judeus. Vamos ver a passagem:

(Gl 2:11-14) “E, chegando Pedro à Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível. Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho , disse a Pedro na presença de todos: se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?”

Fica claro que a situação é bem diferente, pois ali envolvia uma questão séria. Se Deus estava agora unindo judeus e gentios em um só corpo, querer fazer distinção entre os que faziam parte deste corpo era algo abominável aos olhos de Deus (isto não é diferente do que fazem algumas denominações, que só chamam de irmãos os que fazem parte de seu quadro de membros, ao qual se referem como “irmandade”). Por isso Paulo precisou intervir de forma enérgica para proteger uma doutrina que é fundamental, a de que há um só corpo e nele não existe a parede que dividia judeus e gentios. Mas se ler outra passagem verá que o próprio Paulo dizia procurar fazer-se judeu para agradar os judeus.

(1 Co 9:19-23) “Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais. E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns. E eu faço isto por causa do evangelho , para ser também participante dele”.

Aqui, porém, ele fala no sentido de alcançar os perdidos e não de seu relacionamento entre irmãos (que era o caso de Pedro). Paulo, por amor dos judeus que ainda estavam perdidos, procurava agir e falar como eles para se aproximar deles em amor. O mesmo fazia para com os gentios, obviamente em todos os casos não desobedecendo à Palavra de Deus. Um bom exemplo disso é quando ele visita o Areópago em Atos 17. Apesar de encontrar centenas de estátuas dos mais diferentes deuses gregos, ele não perdeu seu tempo criticando os falsos deuses, mas foi direto falar do pedestal que não tinha imagem alguma e os gregos dedicavam ao “Deus verdadeiro”. Sua mensagem era sempre positiva.

Mas voltando ao caso de Pedro, ele agiu daquele jeito (adotando hábitos judeus quando na presença de irmãos cristãos judeus) para “fazer média”, como costumamos dizer, com os irmãos judeus. Ele não estava preocupado com a honra e glória de Deus, mas com sua própria imagem. Talvez ele pensasse: “O que esses irmãos judeus irão pensar de mim se me virem comendo com gentios?”. Mas ele poderia também errar de outro modo, fazendo questão de comer com gentios para chocar os judeus visitantes. De uma forma ou de outra ele estava agindo de si e para si. Nada daquilo tinha a ver com o Senhor e a sua glória. Não importa se o modo de agir está certo ou errado, mas sim o motivo de agirmos assim. Veja isto:

(Mt 23:23-28) “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas. Condutores cegos! Que coais um mosquito e engolis um camelo”.

É claro que os fariseus agiam corretamente dando o dízimo da hortelã e outras coisas pequenas, pois o Senhor mesmo afirma que eles deviam fazer estas coisas (é bom lembrar que o contexto é dos Evangelhos, ou seja, de um tempo ainda na Lei mosaica, quando havia um Templo, sacerdotes, dízimos, sacrifícios de animais, etc.). Mas o problema era que eles faziam as coisas tangíveis ou palpáveis e negligenciavam as intangíveis ou menos evidentes, como o juízo, a misericórdia e a fé. Duas vezes em Mateus (9:13 e 12:7) o Senhor cita o profeta Oséias 6:6: “Porque eu quero a misericórdia , e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos”.


A mulher deve evitar o véu para não escandalizar?

Sua dúvida é: “Uma mulher que crê no Senhor e entende que deve orar ou profetizar (falar da Palavra) com a cabeça coberta como ensina 1 Coríntios 11, poderia deixar de fazer isso para não escandalizar outras mulheres que não entendem da mesma maneira?”

Fiquei preocupado de não ter compreendido sua dúvida da outra vez e acabei escrevendo um e-mail enorme. Depois dividi em dois assuntos e publiquei no Respondi.com.br achando que poderia servir para mais alguém. E já serviu. Um leitor escreveu muito bravo dizendo que não vai mais me chamar de irmão e nem me saudar com a Paz do Senhor se me encontrar…

O cristão deve sim se preocupar em não escandalizar as pessoas e o difícil para isso é que não temos uma lista de lugares e situações com instruções específicas de como agir. Vamos precisar depender da Palavra, do Espírito e às vezes do bom senso. É o caso da oração instantânea feita numa moto a 100 por hora por um homem de capacete (com a cabeça coberta) que dei de exemplo no outro e-mail. De qualquer modo o cristão deve sempre ser discreto, mas não frouxo, no modo como pratica sua fé, para evitar escandalizar. “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus” (1 Co 10:32).

Escrevo isto principalmente pensando naqueles que fazem de tudo para propagar aos quatro ventos que são cristãos. Não estou falando especificamente dos que procuram levar uma vida de bom testemunho ou que pregam o evangelho. Estou me referindo aos que adotam uma série de jargões, slogans, roupas e adereços, não para dizer ao mundo “Crê no Senhor Jesus” , mas “Vejam todos, eu sou cristão”. Este foi o assunto principal de minha resposta anterior.

Existe uma diferença. Um (o que procura viver um bom testemunho ou pregar o evangelho) aponta para Cristo, outro aponta para si mesmo ou para sua própria fé, e isto pode denotar insegurança. São pessoas que não se sentem contentes crendo em algo sozinhas e só se sentem fortes e poderosas quando bancadas em suas crenças por uma multidão.

O problema é que pessoas assim, quando encontram resistência ou indiferença, acabam se tornando agressivas e discriminatórias. Se forem radicais, seu jeito de reduzir o número dos que se opõem ou são indiferentes à sua própria fé é matando todos eles, e não faltam exemplos na história da cristandade de ações desse tipo.

Há também aqueles que, de tanto lerem histórias de perseguições contra cristãos em países comunistas ou islâmicos, acham que só estarão vivendo a vida cristã correta se forem perseguidos. Aí se tornam agressivos ou chatos em seu testemunho, como quem quer “comprar briga”. Quando são rejeitados, demitidos, xingados ou até espancados por sua inconveniência e impertinência, aí se sentem felizes e logo se justificam usando o versículo: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3:12).

Então o que precisamos é de obediência à Palavra e também de bom senso e discrição para fazer as coisas para o Senhor e não para os homens. Dou um exemplo: por ser palestrante, tenho muitas oportunidades de falar a multidões de às vezes mais de mil pessoas. A Bíblia diz: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2 Tm 4:2). Por que não aproveitar aquele público todo e incluir o evangelho em minhas palestras? Porque seria errado.

No meu entender, se eu usasse das palestras para falar de minha fé estaria traindo a confiança da empresa que me contratou e está me pagando, não para eu pregar o evangelho, mas para falar de vendas, carreira ou negócios. Ela está comprando meu tempo e não posso gastar um pedaço daquele tempo, que naquele momento pertence, não à mim, mas à empresa que me contratou, para incluir algo que não esteja no contrato. Seria como eu ter um açougue e para cada freguês que fosse comprar um quilo de carne eu entregasse o pacote contendo setecentos gramas de carne e um evangelho de trezentos gramas.

Pode ter certeza: já fui criticado mais de uma vez por cristãos que viram alguma palestra minha e ficaram frustrados por eu não ter falado do evangelho. Acho até que alguns que vão a palestras minhas abertas ao público acham que estão indo ouvir uma pregação. Os comentários costumam ser “Você nem aproveitou para pregar o evangelho, e tinha tanta gente ali… Nem parece que você é cristão…”. Sem contar um que, no final, veio até mim com uma “profetada” mais ou menos assim: “O Espírito está me revelando que você deveria ter pregado o evangelho e não pregou!”. É claro que isso veio com aquela voz de autoridade como se eu estivesse diante do próprio Deus e não pudesse nem discordar.

Mas, depois de todas as voltas que dei vamos voltar à sua pergunta:

“Uma mulher que crê no Senhor e entende que deve orar ou profetizar (falar da Palavra) com a cabeça coberta como ensina 1 Co 11, poderia deixar de fazer isso para não escandalizar outras mulheres que não entendem da mesma maneira?”

No meu entendimento ela deveria sim cobrir a cabeça em todas essas ocasiões, sempre que isto for possível (e este “sempre que possível” é relembrando o caso do homem de capacete na moto), porque não faz isso por causa de homens, mas por causa dos anjos. Os anjos estão em todo lugar, é em todo lugar (e não só nas reuniões da assembleia) que ela deve obedecer esta ordenança. É até por isso que o véu costuma ser parte integrante do vestido de noiva, embora a maioria das noivas desconheça sua origem e significado.

Mas é preciso esclarecer algumas coisas. Primeiro, a passagem em 1 Coríntios 11:1-16 não diz no original “cobrir a cabeça com véu”, mas ter a cabeça velada, isto é, coberta ou escondida.

Portanto não é de um objeto “véu” que o texto fala, mas do ato de velar ou cobrir, o que pode ser feito com qualquer coisa além de um véu. As irmãs costumam usar um véu de tecido fino por ser leve e fácil de guardar, mas pode ser um chapéu, como era o costume no passado e ainda é nas assembleias nos Andes, onde as irmãs já tem o costume de usar um chapéu “coco” típico do povo nativo da região. Pode ser um pano qualquer, um lenço de cabelo, um guardanapo, revista ou até a mão. Até fraldas eu já vi sendo usadas (não as descartáveis). Se algo cobre a cabeça, então a cabeça está coberta ou velada (escondida). Muitas irmãs que conheço e que almoçam fora todos os dias colocam a mão sobre a cabeça na hora de dar graças pelo alimento.

Outra coisa importante é entender que a mulher deve cobrir a cabeça “por causa dos anjos” (1 Co 11:10), e não por causa dos homens. Portanto o ato de cobrir a cabeça nada tem a ver com a cultura e os costumes. Já ouvi todo tipo de desculpa, e a clássica é a que tenta explicar que em Corinto existiam prostitutas de cabeça rapada e a ordem seria apenas para elas. No entendimento desses, hoje a mulher só teria de cobrir a cabeça se fosse prostituta e corintiana (no sentido de habitante de Corinto, evidentemente).

Como se não faltassem argumentos esdrúxulos, existem ainda alguns que usam esta passagem para dizer que a mulheres agora já podem tirar o véu: “Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado” (2 Co 3:16). Neste caso nem vale a pena comentar algo tirado com tamanha ignorância de seu contexto.

A razão de a mulher cobrir a cabeça e o homem descobrir a cabeça ao orar ou profetizar está na ordem explicada nos primeiros versículos. Deus -> Cristo -> Homem -> Mulher. O homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta ou velada desonra sua cabeça (Cristo). O homem não se cobre por ser a imagem e glória de Deus (vers. 7) e a mulher se cobre por ser a glória do homem e por ela ter vindo do homem. Mas antes que alguém acuse a Bíblia de fazer discriminação, o texto lembra que é apenas uma questão de ordem (até governos, empresas e escolas têm essa ordem de colocar um sobre outro em cargos ou posições de responsabilidade). “Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor“ (1 Co 11:11).

Outra coisa importante é entender que o texto não diz que o cabelo lhe foi dado como substituto da cobertura, mas como se fosse um véu. Para entender, é só analisar a ordem dada ao homem: não orar com a cabeça coberta. Se considerarmos que o cabelo é a cobertura, então a dedução lógica seria que todo homem deve rapar sua cabeça antes de orar, porque, afinal, este é também o exemplo dado no caso da mulher.

(1 Co 11:5-6) “Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça , porque é como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre [com véu], tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu [cobertura]“.

Se o cabelo fosse realmente o véu do qual o apóstolo está falando, seria estranho dizer algo que poderia ser lido também assim: “se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o cabelo”. Não faria sentido o apóstolo Paulo gastar tantas palavras só para dizer que o cabelo é o véu da mulher. Bastaria ele dizer que as mulheres não deveriam rapar a cabeça. Se numa época quando o costume já era o de as mulheres não saírem de casa sem um pano na cabeça, como era costume os homens não saírem na rua sem chapéu até os anos 50, por que ele iria gastar dezesseis versículos falando do assunto?

Portanto, assim como estaria fora de ordem um homem orar com a cabeça coberta por um chapéu ou boné, é fora de ordem a mulher cristã orar sem cobrir a cabeça, independente do que ela use para fazer isso.

Mas aí você poderia perguntar: “Não caberia aqui o mesmo argumento que você usou para não pregar o evangelho em suas palestras?”

Não, porque as palestras eu faço para meus clientes, e a oração nós fazemos a Deus, e não a homens. E o evangelho eu já prego de outras maneiras, em outras situações. Pensar que o cristão tenha a obrigação de pregar o evangelho sempre que estiver na presença de mais pessoas faria de todos nós devedores neste sentido, pois aí teríamos que viver pregando na rua, no ônibus, no metrô, no avião, na sala de aula, no escritório… Eu ficaria preocupado em viajar num avião com um piloto cristão que, ao invés de se concentrar nos instrumentos, ficasse o tempo todo pregando o evangelho pelo interfone para uma audiência que num voo internacional pode passar de 500 pessoas. E imagine o Kaká falando de Cristo para os outros 21 jogadores mais juiz e bandeirinhas, ao mesmo tempo em que corre pelo gramado em pleno jogo. Ele desmaiaria sem fôlego antes do final do primeiro tempo.

Portanto, se uma irmã em Cristo quiser, na sua simplicidade, atender ao que o Senhor pediu a ela para fazer por causa dos anjos, e ao mesmo tempo não chamar atenção para as pessoas e escandalizá-las (as vezes o efeito é contrário e elas podem querer saber mais), que cubra a cabeça com a mão durante uma oração rápida. Ou para algo mais prolongado e se ainda estiver insegura quanto ao impacto que poderá causar nos outros presentes que não entendem da mesma forma, que peça licença, vá à toalete e volte com um belo lenço na cabeça, que seria sempre bom ter na bolsa.

Veja o lado bom disso! Pode ser até que as outras mulheres achem que está na moda e passem a imitá-la. Quando D. João VI transferiu para o Brasil o seu reino e toda a corte, na longa e suja viagem de navio as mulheres foram atacadas por piolhos e precisaram rapar a cabeça para exterminarem a peste. Quando desembarcaram no Rio em março de 1808, todas com lenço na cabeça para esconderem a careca, surpreenderam as brasileiras chiques que aguardavam no porto a chegada da corte.

No dia seguinte todas as mulheres do Rio estavam de cabeça coberta por lenços, achando que aquela era a última moda na Europa.

Leia também “Por Causa dos Anjos”, de Paul Wilson


Crentes e incrédulos serão igualmente julgados?

Depois de ler um texto meu onde eu dizia que o crente não passará por juízo, mas apenas os incrédulos se apresentarão diante do grande trono branco de Deus, sua dúvida surgiu ao ler Romanos 14:9-12, onde aparentemente diz que todos, sem distinção, serão julgados por suas obras. Você deve ter usado a versão Almeida Revista e Corrigida, que diz no versículo 10 em diante: “Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo. Porque está escrito: como eu vivo, diz o Senhor, que todo o joelho se dobrará a mim, e toda a língua confessará a Deus. De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus“.

A versão que usou não é a melhor. O correto aí é “tribunal de Deus“ e não “tribunal de Cristo“. Veja no final algumas outras versões. O erro de tradução “tribunal de Cristo” vem da versão King James que usa um determinado manuscrito onde está assim. Mas nos melhores manuscritos aparece “de Deus”. O tribunal de Cristo é para os salvos, onde suas obras serão julgadas (não os seus pecados, porque estes já foram julgados e condenados em Cristo na cruz).

(Rm 14:9-12) “Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos. Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus. Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus”.

O sentido de Romanos é geral e está falando de todos os homens. Então, sim, é correto dizer que todos terão de dar contas de si mesmos a Deus um dia, só que os crentes farão isso já salvos e os incrédulos farão isso sem chances de serem salvos, mas apenas para receberem a sentença. Que os crentes não passarão pelo juízo fica muito claro de outras passagens falando especificamente do que crê.

(ARA) “Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus”.

(Biblia) “Por que julgas, então, o teu irmão? Ou por que desprezas o teu irmão? Todos temos que comparecer perante o tribunal de Deus”.

(BRASIL) “Tu, porém, porque julgas a teu irmão? Ou tu também, porque desprezas a teu irmão? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus”.

(CNBB) “E tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, por que desprezas teu irmão? Pois é diante do tribunal de Deus que todos compareceremos”.

(Darby) “But thou, why judgest thou thy brother? Or again, thou, why dost thou make little of thy brother? For we shall all be placed before the judgment-seat of God”.

(FDB) “Mais toi, pourquoi juges-tu ton frère? Ou aussi toi, pourquoi méprises-tu ton frère? Car nous comparaîtrons tous devant le tribunal de Dieu;”.

(IRL) “Ma tu, perché giudichi il tuo fratello? E anche tu perché disprezzi il tuo fratello? Poiché tutti compariremo davanti al tribunale di Dio;”.

(NVI) “Portanto, você, por que julga seu irmão? E por que despreza seu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus”.

(PAST) “Quanto a você, por que julga o seu irmão? E você, por que despreza o seu irmão? Todos nós devemos comparecer diante do tribunal de Deus”.

(PJFA) “Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Deus”.


Como ser batizado com fogo?

Você diz que foi batizada com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas seu desejo é “ser batizada com fogo, ou seja, selada em evidências de novas línguas”. Você diz ainda que está buscando e orando, mas não consegue alcançar isso e pergunta se fazer jejum poderia ajudar.

Espero sinceramente que você nunca seja batizada com fogo, porque o batismo com fogo é o juízo eterno. Os pentecostais interpretam erroneamente a passagem e ficam pedindo fogo. Ainda bem que Deus não atende o pedido deles.

Existe até um hino que diz “Manda fogo, Senhor, que eu quero sentir o Teu poder”. Ainda bem que o Senhor não faz o que pedem os que cantam assim, pois na Bíblia o fogo está sempre conectado com juízo. Isso ocorre por um erro de interpretação de Atos 2, onde as línguas não são “línguas de fogo” , mas são “línguas como de fogo” (ou parecidas com fogo) , e de Mateus 3, onde o fogo ali é erroneamente interpretado como o batismo do Espírito Santo ocorrido no Dia de Pentecostes.

Se você observar atentamente o texto de Mateus 3, verá que João Batista está se dirigindo alternadamente tanto a salvos como a perdidos, falando também alternadamente de salvação e juízo (o fogo representa o juízo de Deus). Acrescentei as palavras [entre chaves] para você entender essa alternância:

“Mas, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus que vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura ? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento [Os salvos]… E já está posto o machado a raiz das árvores; toda árvore, pois que não produz bom fruto [Os perdidos], é cortada e lançada no fogo [o juízo]. Eu, na verdade, vos batizo em água, na base do arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu, que nem sou digno de levar-lhe as alparcas; ele vos batizará no Espírito Santo [Os salvos], e em fogo [Os perdidos]. A sua pá ele tem na mão, e limpará bem a sua eira; recolherá o seu trigo [Os salvos] ao celeiro, mas queimará a palha [Os perdidos] em fogo inextinguível“.

Quanto ao batismo do Espírito Santo que você deseja receber, e ainda com a “evidência” de falar em línguas estranhas, este é também um equívoco muito grande da doutrina pentecostal. Quem espera receber hoje o batismo do Espírito chegou dois mil anos atrasado, porque esse batismo ocorreu uma vez no dia de Pentecostes (Atos 2). Se você já foi salva pela fé em Cristo você foi selada com o Espírito Santo, e não batizada com o Espírito Santo. Se você não tem o Espírito de Cristo, então nem ainda é dele! “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9).


Quem são os líderes?

Você escreveu que em algum texto meu, afirmo não existirem líderes na igreja, porém ao ler uma tradução que fiz do livro “Um só corpo na prática”, de Bruce Anstey, encontrou várias passagens falando de líderes e não se referindo a denominações. Sua dúvida é: existem ou não existem líderes?

Sua dúvida certamente surgiu depois de você ter lido algum texto meu onde eu falava “da falta de fundamento bíblico para o líder” no sentido do homem à frente da congregação. Eu não estaria falando de pessoas responsáveis pelo bem estar da assembleia, que fazem um trabalho de anciãos ou bispos (ainda que não sejam denominados como tais), que é o caso das passagens do livro que leu.

Realmente na Palavra não encontramos “o líder” de uma congregação, mas encontramos pessoas que lideram no sentido de guias (plural). É neste sentido que líderes são mencionados em algumas passagens, como nestes versículos com os nomes de “guias”, “pastores” ou “chefes” (diferenças nas traduções):

Versão Almeida Atualizada

(Hb 13:7) “Lembrai-vos dos vossos guias , os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente o fim da sua vida, imitai a fé que tiveram”.

(Hb 13:17) “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros”.

(Hb 13:24) “Saudai todos os vossos guias , bem como todos os santos. Os da Itália vos saúdam”.

Versão Almeida Corrigida

(Hb 13:7) “Lembrai-vos dos vossos pastores , que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver”.

(Hb 13:17) “Obedecei a vossos pastores , e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil”.

(Hb 13:24) “Saudai a todos os vossos chefes e a todos os santos. Os da Itália vos saúdam”.


Se a carne é fraca, como viver a vida cristã?

É comum usarmos a frase “A carne é fraca” para justificar nossas quedas, geralmente no âmbito sexual. Mas vamos dar uma olhadinha no contexto: “E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo. E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. E, voltando para os seus discípulos, achou-os adormecidos; e disse a Pedro: Então nem uma hora pudeste velar comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca“ (Mt 23:37-41).

Existe uma diferença enorme entre o episódio onde o Senhor Jesus fez o comentário para seus discípulos e a realidade vivida hoje por um verdadeiro salvo por Cristo. Primeiro, o contexto não era de estarem os discípulos sujeitos a alguma tentação da carne, sedutora demais para eles resistirem. Nada mais longe desta ideia. O Senhor havia apenas pedido que eles vigiassem e orassem, visto que a hora de Jesus ser preso e entregue à morte se aproximava. Eles bem que queriam vigiar e orar, mas a fraqueza do corpo físico os levou a dormir. A carne ali estava fraca de cansaço, não de ser incapaz de resistir a alguma tentação externa.

Se existe uma lição a ser aprendida da passagem é que o homem em seu estado natural é incapaz de cumprir a vontade de Deus porque a carne é fraca, o pano é velho para remendo novo e o odre é ressecado demais para conter vinho novo. Além disso o homem é da terra e o Senhor do céu, o que torna um e outro incompatíveis por natureza.

Portanto, nenhum verdadeiro cristão hoje, nascido de novo e habitado pelo Espírito Santo, pode usar o argumento “a carne é fraca” como desculpa por ter caído em uma tentação. Ele pode até admitir que seu “velho homem”, a “carne”, não pode agradar a Deus, mas este é outro assunto. Veja a condição dos discípulos do Senhor antes da cruz: a carne ainda não havia sido completamente exposta e julgada (isso ocorreu na cruz, quando Deus colocou um fim no homem em seu estado natural).

Além disso, o Espírito Santo, que é o poder para o crente andar segundo a vontade de Deus, ainda não tinha descido para habitar no homem. Os discípulos do Senhor, sem dúvida, eram nascidos de novo, isto é, tinham em si a vida divina, sem a qual nem sequer poderiam estar interessados nas coisas do céu (exceto Judas, que tinha sua própria agenda). Mas a nova vida nada pode fazer em um corpo de carne fraca por natureza.

É só pelo Espírito Santo que o homem está capacitado (no sentido de energizado por poder) para agir segundo a vontade de Deus. No Antigo Testamento (e em ocasiões especiais nos evangelhos) o Espírito Santo “energizou” os servos de Deus, mas depois de Pentecostes (Atos 2) o Espírito Santo de Deus passou a habitar em cada crente individualmente. Mas se os discípulos não tinham esse poder, por que o Senhor ordenou que orassem para não caírem em tentação? O que ele exigia deles era dependência e não confiança naquilo que eram e tinham, isto é, no velho homem. Pedro era um que sempre confiava em sua própria capacidade e vimos no que deu. Depender de Deus era de que precisavam e isto não mudou, apesar de hoje sermos muito mais privilegiados, como crentes em Cristo, por estarmos também capacitados pelo poder do Espírito. Veja que não é na força que o crente vence as tentações, mas na fraqueza:

(2 Co 12:9-10) “E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas , para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas , nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte“.

Hoje as pessoas costumam dizer: “A carne é fraca, por isso não consigo resistir”, mas Paulo teria dito “Que bom que a carne é fraca, assim não preciso me apoiar nela para resistir, mas em Cristo”.


Existem contradições nos evangelhos?

Muita gente lê a Bíblia como se fosse um texto técnico, e não como a comunicação inteligente de Deus para com o homem. Em um texto técnico o autor pode informar que Portugal e Espanha são países com determinadas características, mas em uma comunicação inteligente alguém que tenha visitado Portugal e Espanha poderá descrever sua viagem a Portugal para uma pessoa e sua viagem à Espanha para outra, porque estará comunicando-se com estas pessoas dentro de diferentes contextos. Assim é a Bíblia. Precisamos entender, não só o que Deus disse, mas o que ele quis dizer, a quem, quando, por que, em que circunstâncias, etc.

Mas vamos às aparentes contradições que você mencionou:

— Os pais de Jesus o levaram para o Egito (Mt 2:14).

— Os pais de Jesus não o levaram para o Egito (Lc 2:22, 2:39).

(Mt 2:14) “E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito”.

(Lc 2:22) “E, cumprindo-se os dias da purificação dela, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor”.

(Lc 2:39) “E, quando acabaram de cumprir tudo segundo a lei do Senhor, voltaram à Galileia, para a sua cidade de Nazaré”.

A solução é muito simples: Jesus nasceu, seus pais o circuncidaram ao oitavo dia (Lc 2:21), quarenta dias depois do parto viajaram a Jerusalém para o ritual da purificação de Maria conforme Levítico 12:1-4 e voltaram a Nazaré conforme diz Lucas.

(Lc 2:39) “E, quando acabaram de cumprir tudo segundo a lei do Senhor, voltaram à Galileia, para a sua cidade de Nazaré”.

Porém, considerando que Belém dista apenas 7 quilômetros de Jerusalém, eles podem ter ido a Nazaré depois de terem voltado a Belém, onde os magos os encontram em um prazo de até dois anos após o nascimento. Veja que Jesus nasceu em uma estrebaria, porém os magos o visitaram em uma casa e Herodes mandou matar os meninos de até dois anos, pois este seria o tempo aproximado do nascimento até a visita dos magos.

(Mt 2:11) “E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra”.

(Mt 2:16) “Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos”.

Creio que a chave para entender o que aconteceu esteja neste período longo entre o nascimento e a visita dos magos (e por conseguinte o aviso para que fugissem para o Egito). Muito provavelmente o menino Jesus caminhou alguns trechos do caminho até o Egito, pois já não era um bebê. O problema todo está no presépio, onde colocam os magos visitando o bebê Jesus numa manjedoura cercado dos pastores, quando esses visitantes devem ter estado ali com quase dois anos de diferença.

Outras viagens e roteiros de José, Maria e Jesus não são descritos nos evangelhos porque não interessam ao assunto que Deus queria comunicar, como no exemplo que dei da viagem a Portugal e Espanha.

— Jesus foi tentado por Satanás no deserto (Mc 1:12-13).

— Jesus Não foi tentado por Satanás no deserto (Jo 2:1-2).

(Mc 1:12-13) “E logo o Espírito o impeliu para o deserto. E ali esteve no deserto quarenta dias, tentado por Satanás. E vivia entre as feras, e os anjos o serviam”.

(Jo 2:1-2) “E, ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galileia; e estava ali a mãe de Jesus. E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas”.

Sinceramente eu não entendi onde você viu contradição aqui. Os assuntos são totalmente diferentes. Marcos está falando da tentação de Jesus e João está falando de um casamento no qual ele esteve. Marcos está falando de algo que ocorreu antes do ministério público de Jesus e João algo que ocorreu depois. Se você acha que os evangelhos seguem uma sequência cronológica vai ter dificuldade quando ler Lucas, que segue uma sequência moral.

— O primeiro sermão foi na montanha (Mt 5:1-2).

— O primeiro sermão foi em terra plana (Lc :17-20).

(Mt 5:1-2) “E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos; E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo…”.

(Lc 6:17) “E, descendo com eles, parou num lugar plano, e também um grande número de seus discípulos, e grande multidão de povo de toda a Judéia, e de Jerusalém, e da costa marítima de Tiro e de Sidom; os quais tinham vindo para o ouvir, e serem curados das suas enfermidades,”.

As passagens falam de duas ocasiões distintas. O fato de o ensino ser semelhante é porque era Jesus quem estava ensinando. Mas há diferenças importantes. Em Mateus ele só fala de bem aventuranças, mas em Lucas você encontra os “Ai de vós…”.

— Jesus foi crucificado a 3ª. hora (Mc 15:25).

— Jesus foi crucificado a 6ª. hora (Jo 19:14-15).

(Mc 15:25) “E era a hora terceira, e o crucificaram”.

(Jo 19:14-15) “E era a preparação da páscoa, e quase à hora sexta; e disse aos judeus: Eis aqui o vosso Rei. Mas eles bradaram: Tira, tira, crucifica-o. Disse-lhes Pilatos: Hei de crucificar o vosso Rei? Responderam os principais dos sacerdotes: Não temos rei, senão César”.

Existia uma diferença no modo como os judeus contavam as horas do dia (que é a maneira usada por Marcos) e o modo romano (usado por João). Se quiser entender melhor poderá visitar este endereço na Web que haverá uma explicação mais detalhada em inglês: http://thegospelcoalition.org/blogs/tgc:2012:09:18/you-asked-what-time-did-jesus-die/.

— 2 Ladrões zombaram de Jesus (Mt 27:44, Marcos 15:32).

— 1 Ladrão zombou de Jesus (Lc 23:39-40).

(Mt 27:44) “E o mesmo lhe lançaram também em rosto os salteadores que com ele estavam crucificados”.

(Mc 15:32) “O Cristo, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para que o vejamos e acreditemos. Também os que com ele foram crucificados o injuriavam”.

(Lc 23:39-40) “E um dos malfeitores que estavam pendurados blasfemava dele, dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós. Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação?”.

Esta também é simples: os dois zombaram de Jesus até o momento em que Lucas descreve que um deles ficou do lado de Jesus. Qualquer leitor inteligente irá juntar as duas narrativas e entenderá que neste momento o ladrão arrependido mudou de lado, porque o assunto em Lucas é justamente a conversão desse ladrão, o que não é o assunto nem de Mateus, nem de Marcos.

Se você viaja com o Benedito e com o Sebastião a Brasília e um dia se encontra com a irmã do Sebastião é bem provável que você diga a ela: “Fui a Brasília com o Sebastião, seu irmão”. E o Benedito? Não interessa falar dele porque ela nem o conhece. Como eu disse, Deus está comunicando a sua Palavra a pessoas inteligentes e estas saberão buscar nela o que realmente interessa e é importante.

— Deram vinho com Fel para Jesus beber na cruz (Mt 27:34).

— Deram vinho com Mirra para Jesus beber na cruz (Mc 15:23).

(Mt 27:34) “Deram-lhe a beber vinagre misturado com fel; mas ele, provando-o, não quis beber”.

(Mc 15:23) “E deram-lhe a beber vinho com mirra, mas ele não o tomou”.

Ele recebeu diferentes bebidas em diferentes momentos. Cada evangelho está falando de uma. Ele também recebeu vinagre, o qual bebeu. Mais uma vez: se você for a uma festa e se seus amigos perguntarem o que você bebeu, talvez você diga: “cerveja”. Mas se o seu pai perguntar, talvez você diga: “Coca-Cola”. E aí, você bebeu cerveja ou Coca-Cola? Os dois, mas a informação seletiva foi dada a cada um por causa dos diferentes contextos.

— 1 mulher foi visitar o túmulo de Jesus (Jo 20:1).

— 2 mulheres foram visitar o túmulo de Jesus (Mt 28:1).

— 3 mulheres foram visitar o túmulo de Jesus (Mc 16:1)

— + de 3 mulheres foram visitar o túmulo de Jesus (Lc 24:10)

Todas elas foram visitar o túmulo. Use as mesmas explicações anteriores que servem aqui. Temos diferentes momentos em que a ênfase é dada em diferentes mulheres e com diferentes objetivos. Você já estudou teoria dos conjuntos? Pois está na hora de repassar a matéria.

— Aos discípulos foi ordenado que fossem à Galileia depois da ressurreição (Mt 28 :10).

— Aos discípulos foi ordenado ficarem em Jerusalém depois da ressurreição (Lc 24:39).

(Mt 28:10) “Então Jesus disse-lhes: não temais; ide dizer a meus irmãos que vão à Galileia, e lá me verão”.

(Lc 24:49-51) “E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder. E levou-os fora, até Betânia; e, levantando as suas mãos, os abençoou. E aconteceu que, abençoando-os ele, se apartou deles e foi elevado ao céu”.

Entre uma passagem e outra se passaram 40 dias. A de Mateus ocorre logo após a ressurreição de Jesus e a de Lucas momentos antes de ele ascender ao céu. Portanto ele pode ter dito aos discípulos muitas coisas e aos convidados a irem a muitos diferentes lugares antes da instrução final, para que permanecessem em Jerusalém para receberem o Espírito Santo.

— Jesus subiu aos céus do Monte das Oliveiras (Atos 1:9-12).

— Jesus subiu aos céus de Betânia (Lc 24:50-51).

(Atos 1:12) “Então voltaram para Jerusalém, do monte chamado das Oliveiras, o qual está perto de Jerusalém, à distância do caminho de um sábado”.

(Lc 24:50-51) “E levou-os fora, até Betânia; e, levantando as suas mãos, os abençoou. E aconteceu que, abençoando-os ele, se apartou deles e foi elevado ao céu”.

Se você olhar um mapa verá que estes lugares são praticamente vizinhos. Como Lucas é o mesmo autor do evangelho e de Atos ele não iria cair em contradição, mas o que acontece é que ele está falando de um lugar amplo, onde estão situados o Monte das Oliveiras, Betânia e Betfagé. Se eu disser a você que estive na Zona Sul do Rio, isto pode ser verdade tanto se eu tiver visitado o Corcovado como Copacabana, apesar de estarem a mais de 5 quilômetros um do outro.

Eu espero que estas dúvidas não sejam suas, mas de alguém que postou na Internet, pois como você pode ver quem as levantou está mais a fim de encontrar, como se costuma dizer, “pelo em ovo” e “chifre em cabeça de cavalo” do que em buscar saber sinceramente o que vai acontecer se morrer hoje. Desejando sinceramente que não seja você o autor dessas supostas contradições, mas apenas curioso em saber como elas seriam resolvidas, sugiro agora que pegue sua Bíblia e passe a lê-la para saber a vontade de Deus para você. Pode ter certeza de que sua leitura será muito mais proveitosa.


Devemos buscar o batismo com o Espírito Santo?

Você leu o texto “Como ser batizado com fogo” e não concordou com o que eu disse ali. Segundo você, “O batismo com o Espírito Santo é um revestimento de poder e tem como evidência o falar em línguas estranhas”. Será? Sua afirmação estaria correta se estivesse falando do que aconteceu há dois mil anos e é descrito em Atos 2, mas não é o que você acredita. Segundo você devemos buscar tal batismo e ele acontece todos os dias com muitas pessoas e, como evidência, elas passam a falar em línguas estranhas.

Achar que o que aconteceu em Atos 2 é algo que todos os dias acontece em todos os lugares é perder de vista o significado da passagem, conforme vou tentar explicar mais abaixo. Você continua seu e-mail dizendo que “Ninguém tem base bíblica para dizer que o batismo com o Espírito Santo não deve ser buscado nos dias atuais, essas ideias são parecidas com as ideias dos testemunhas de Jeová.“.

Jesus nunca deixou data fixada para o término da busca do batismo com o Espírito Santo.

Não entendi aonde você quis chegar com essa comparação com as Testemunhas de Jeová (uma seita que não crê na divindade do Senhor Jesus). Eu jamais teria coragem de dizer que você, que afirma crer no Senhor Jesus como seu Salvador, teria qualquer coisa a ver com aquela seita maligna. Ainda que discordasse de suas ideias eu saberia que você é uma pessoa que crê na divindade do Senhor Jesus.

Mas sou obrigado a repetir: você ainda não entendeu o que aconteceu em Atos 2 e está misturando o batismo com o Espírito Santo com o selo (individual) do Espírito e também com os dons do Espírito, como se tudo fosse uma coisa só. Buscar que aconteça novamente o batismo com o Espírito Santo é como alguém que deseja seguir a carreira militar querer que o Exército Brasileiro seja novamente fundado. É impossível. O Exército já foi fundado. Agora cada novo soldado recebe a farda do Exército e é adicionada a esse “corpo” militar.

A grande dificuldade, que foi também o que deu origem ao movimento chamado pentecostal, está em não saber dividir corretamente a Palavra da Verdade colocando cada coisa em seu devido lugar.

(2Tm 2:15) “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem [divide corretamente] a palavra da verdade”.

Sugiro que procure descobrir na Bíblia a diferença entre estas quatro coisas:

  1. Batismo com o Espírito Santo

Aconteceu uma vez na formação da igreja quando todos os salvos foram “batizados em um Espírito formando um corpo”. Não se repete, pois se fosse assim cada vez que alguém recebesse o Espírito Santo um novo corpo de Cristo seria formado.

A promessa do que iria acontecer em Pentecostes (Atos 2) está aqui:

(Atos 1:5) “Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias”.

Depois, a recordação do que aconteceu no dia de Pentecostes (Atos 2) aparece aqui, quando Paulo se inclui junto com os de Corinto nesse batismo que ocorreu em Atos 2, apesar de nem Paulo, nem os irmãos de Corinto, terem estado pessoalmente lá e participado daquilo, como não esteve qualquer soldado moderno na formação do Exército Brasileiro no século 19:

(1 Co 12:13) “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo , quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito”.

Então, para que serviu o batismo em um Espírito? Para formar um corpo. Para entender a passagem acima, faça a seguinte pergunta: “Quando foi que todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo?”

  1. Selo do Espírito

Acontece quando alguém é salvo pela fé em Cristo Jesus e é algo que está garantido a todos os que creem, independente de terem sentido algo ou não. Mesmo porque “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele“ (Rm 8:9).

(Ef 1:13-14) “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória”.

De que “Espírito da promessa” ele está falando? Do mesmo Espírito Santo prometido em Joel 2:28, Atos 1:4-5 e Jo 16:7. O Espírito é o mesmo, mas o fato ocorrido em Atos 2 é outro e completamente diferente do selo individual do Espírito Santo que é garantido a cada um que crê, conforme Efésios 1:13. Em Atos 2, TODOS os crentes (inclusive os que haviam de vir) foram batizados em um Espírito formando um só corpo e aquilo coincidiu com o selo individual que receberam os que estavam ali e eram crentes em Jesus.

  1. Dons dados por Cristo

Os dons universais são os que são dados por Cristo e são apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres (ou doutores). O objetivo destes dons é a edificação do corpo de Cristo e eles são operantes em todo lugar onde seus portadores estejam.

(Ef 4:812) “Por isso diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, E deu dons aos homens… E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores , Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo;”.

Destes dons restam apenas os evangelistas, pastores e doutores (ou mestres), já que apóstolos e profetas foram usados na colocação do alicerce (estamos agora na época das paredes e não se coloca fundamento no meio de uma parede).

(Ef 2:19-22) “Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas , de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito”.

  1. Dons espirituais

(1 Co 12:1-11) “Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes… Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo… e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer”.

Na sequência o apóstolo explica que, dentre estes dons, o mais valioso para edificação é o de profecia, e o menos edificante o de línguas estrangeiras.

Mas geralmente neste ponto da conversa costumo ouvir o outro dizer: “Você não deve seguir assim tão literal, porque a letra mata, mas o Espírito vivifica” (acredita que agora mesmo recebi este argumento em outro e-mail só porque mostrei na Bíblia onde estavam as coisas?).

Portanto, sugiro que confira tudo e compare com a Palavra de Deus para evitar confundir uma coisa com outra.


Eleição, predestinação e presciência são ideias bíblicas?

Certamente, e as duas palavras aparecem logo no primeiro capítulo da carta aos Efésios e são explicadas em detalhes na epístola aos Romanos. Mas é bom lembrar que isto nada tem a ver com presciência, ou a capacidade de Deus conhecer o futuro. É errado raciocinar que, por Deus enxergar o futuro ele teria visto quem viria a crer e ser salvo e, por isso, teria eleito ou predestinado essas pessoas para a salvação. Esta ideia coloca o homem na direção e Deus como um mero secretário.

(Ef 1:3-5) “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade”.

(Ef 1:11) “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados , conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da SUA VONTADE [não nossa];”.

(Rm 9:14-16) “Que diremos pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece“.

Considerando que isso não depende de quem quer, mas de Deus, apesar de Deus saber de antemão quem seria salvo, não foi esse conhecimento prévio que o levou a eleger ou predestinar.

A resposta mais simples à sua dúvida é que temos eleição e predestinação como coisas claramente ensinadas nas Escrituras, inclusive com estas palavras. Há coisas que não entendemos perfeitamente, mas quando se trata da Palavra de Deus devemos simplesmente aceitá-las e esperarmos que um dia ele nos dê o entendimento. Mas ainda que terminemos nossa jornada aqui sem entender, também está bem assim.

Jó nunca entendeu o que aconteceu com ele (agora ele já deve ter entendido) enquanto estava nesta vida, pois seu livro termina com ele simplesmente aceitando a vontade de Deus e reconhecendo que foi bom ter passado por tudo aquilo. Mas como não foi ele quem escreveu o livro de Jó, provavelmente não tenha lido os dois primeiros capítulos que mostram o que estava por detrás de seu sofrimento: a autorização de Deus para que Satanás colocasse sua mão em tudo o que ele tinha e em sua saúde.

A grande dificuldade de entender a eleição e predestinação está no raciocínio de que Deus seria injusto por ter eleito alguns para salvação e outros para perdição. A Bíblia nunca diz isso. O que ela diz é que todos, sem exceção, estávamos igualmente perdidos. Ninguém mais que o pecado nos “predestinou” para a perdição. Não foi Deus. Porém, o amor e misericórdia de Deus ficaram demonstrados no fato de ele querer salvar alguns de seus mais ferrenhos inimigos: eu e vocês. Ninguém poderá acusar a Deus de injustiça, do mesmo modo como ninguém poderá me acusar de ser cruel por ter dado um prato de comida a um mendigo faminto enquanto há milhões perecendo de fome.

(Mt 20:15)“Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?“.


Por que não existe um homem liderando as reuniões?

Por que não deve existir um homem liderando as reuniões da igreja? Porque não encontramos na Palavra de Deus um homem liderando as reuniões. Em 1 Coríntios 14, onde é descrita a forma que devemos nos reunir, você encontra muitas pessoas participando, e nenhum homem dirigindo ou dizendo quem deve fazer isto ou aquilo. Aquele capítulo é a “receita do bolo”, por assim dizer. Veja aqui:

(1 Co 14:26) “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis , um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação. No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois, e quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete… Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem. Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro. Porque todos podereis profetizar , um após outro, para todos aprenderem e serem consolados… Porventura, a palavra de Deus se originou no meio de vós ou veio ela exclusivamente para vós outros? Se alguém se considera profeta ou espiritual, reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo”.

Não vejo como o Espírito Santo poderia ter sido mais claro em seu ensino de que o ministério nas reuniões da igreja é um ministério múltiplo, e não uma “banda de um homem só”. Mas você escreveu que em algumas partes a Bíblia diz que devemos ter um líder, como quando o Senhor diz a Pedro, “Pedro tu me amas? Apascenta minhas ovelhas” e também em Tito 1:5-16.

Sim, a passagem de Pedro realmente mostra que Deus está dizendo isto a ele antes da formação da igreja. E depois da partida de Pedro ele mesmo providenciou para que seus ensinos não fossem esquecidos, e nós hoje desfrutamos de suas cartas e este é o seu ministério continuado.

(2 Pe 1:12-15) “Por esta razão, sempre estarei pronto para trazer-vos lembrados acerca destas coisas, embora estejais certos da verdade já presente convosco e nela confirmados. Também considero justo, enquanto estou neste tabernáculo, despertar-vos com essas lembranças, certo de que estou prestes a deixar o meu tabernáculo, como efetivamente nosso Senhor Jesus Cristo me revelou. Mas, de minha parte, esforçar-me-ei, diligentemente, por fazer que, a todo tempo, mesmo depois da minha partida, conserveis lembrança de tudo“.

Mas aqui temos o ministério específico de um apóstolo (não temos mais apóstolos) e o mesmo se pode dizer dos demais que nos legaram o Novo Testamento. Mas nada disso invalida o fato de que nas reuniões da assembleia os dons são usados conforme o Espírito determina, e não com a direção de um homem à frente. Mesmo assim existe uma liderança, e é aí que entra a menção que você fez de Tito.

(Tt 1:5) “Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei”.

Mas repare que aí temos uma ordem específica de um apóstolo, com os poderes que lhe foram dados, delegando diretamente alguém (tt) para a tarefa de estabelecer presbíteros (ou bispos ou anciãos) de cidade em cidade. Hoje não temos apóstolos, não temos a mesma autoridade que tinham (por exemplo, de “entregar a Satanás” alguém para a destruição da carne - 1 Coríntios5:5) e não fomos delegados como Tito foi.

Mas teria Deus deixado a igreja sem bispos (ou presbíteros ou anciãos)? Não, existem esses irmãos responsáveis, mas é preciso atentar para alguns detalhes:

​1. Não são nomeados como eram nos tempos dos apóstolos (quem ousaria nomeá-los sem ter recebido uma ordem direta para tal?), mas são reconhecidos por seu cuidado para com a assembleia.

“Por esta causa [eu, Paulo] te deixei em Creta, para que [tu, Tito]… de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já [eu, Paulo] te mandei [a ti, Tito]” (Tt 1:5).

​2. Estes ofícios sempre aparecem no plural, nunca no singular, o que equivale dizer que seria errado designarmos “o” bispo.

(Fp 1:1) “Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus, que estão em Filipos, com os bispos e diáconos [de Filipos]”.

​3. Os bispos (ou anciãos) eram estabelecidos “de cidade em cidade” , e não “de denominação em denominação” ou “de paróquia em paróquia”. Existem, em minha cidade (e também na sua) homens nos quais o Espírito Santo de Deus colocou no coração o sentimento de serem responsáveis pelo rebanho. Não estou falando dos que são nomeados pelas religiões, apesar de poder acontecer de coincidir uma coisa com outra. Estou falando simplesmente de irmãos que revelam claramente ter este cuidado.

Quem os levantou? Numa época pós-apostólica essa ação não passa mais pelos apóstolos como era no passado, mas ainda temos o Espírito por detrás dessas escolhas. Mas seria correto chamar alguém pelo título? Não mais. Seria correto reconhecer seu trabalho? Sim. São eles “dirigentes de culto”? Nem pensar, pois já vimos que na ordem da reunião de 1 Coríntios 14, tal coisa não existe.

Mesmo assim pode ocorrer de alguns desses irmãos terem também um dom de ministério da Palavra e participarem mais ativamente das reuniões, mas pode também acontecer de um irmão mudo ter sido designado pelo Espírito de Deus para tal responsabilidade de cuidar dos assuntos da assembleia sem dizer uma palavra nas reuniões.

(Atos 20:28) “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo (e não uma faculdade de teologia ou uma junta de homens) vos constituiu bispos , para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue”.


Por que ainda não se cumpriu a profecia de que eu seria um grande pregador?

Fico contente por seu desejo de evangelizar. Porém, desculpe ter de dizer que enviar 1000 torpedos de uma só vez com alguma mensagem evangelística chama-se SPAM e é uma forma muito errada de evangelizar. Digo isto porque é diferente de você distribuir folhetos evangelísticos impressos ou colocar uma mensagem na Internet ou nas redes sociais para alguém ler, ou distribuir um boletim por e-mail para assinantes.

No caso do folheto impresso o custo é de quem distribui, não custa nada para quem recebe e a pessoa ainda pode optar por recusar. No caso da mensagem na Internet, nas redes sociais ou em um boletim por assinatura, este sistema chama-se “opt-in” que significa que o leitor optou por ler ou receber a mensagem. Não é algo enfiado goela abaixo. Mas quando você envia SPAM, seja por e-mail, seja por torpedos, você está usando os recursos da pessoa que lê, tempo, celular, linha, conexão, computador, além de ser extremamente inconveniente você fazer alguém parar de fazer o que está fazendo. Não é bom estar dirigindo e sua atenção ser desviada por uma mensagem que chega no celular. Odeio quando à noite eu me levanto por ouvir que chegou mensagem e vejo que é propaganda.

Quanto àquela mulher que lhe falou em línguas estranhas (que você não entendeu bulhufas e ela precisou traduzir) dizendo que você seria “um dos maiores pregadores do evangelho”, sinto dizer que você levou uma “profetada”. Ela provavelmente sabia ou ouviu falar de seu fervor evangelístico e atacou de profetiza. Essa gente gosta de fingir que recebe mensagens diretamente de Deus só para dizerem coisas que acariciam o ego do destinatário. Não é muito diferente do espiritismo. Você encontra um espírita e ele vai logo dizendo: “Estou sentido que você é médium! Você precisa desenvolver sua mediunidade”. E aí a pessoa começa a frequentar o centro espírita. Este truque é apenas mais um usado pelos mentalistas profissionais, aqueles que usam de truques para descobrir coisas da vida de uma pessoa.

Além disso, que história é essa de ela dizer que você seria “um dos maiores pregadores do evangelho”? Será que ela não leu no próprio evangelho como o Senhor abomina esse tipo de coisa de querer ser o maior? na cristandade existe esse costume de ficar bajulando uns aos outros, mas devemos fugir disso. Nada mais é do que a carne querendo criar um nome neste mundo.

As religiões adoram criar cargos para seus membros se sentirem alguém neste mundo. É por isso que existem tantos cargos nas igrejas, como “Presidente da Sociedade de Senhoras”, “Líder do Louvor”, “Diretor da Mocidade”, chefe disso, diretor daquilo, etc. No dia-a-dia o sujeito às vezes é um joão-ninguém, mas na igreja ele acaba se sentindo o máximo quando tem um título assim. É claro que as pessoas que estão inseridas nesse contexto nem percebem como essas coisas estão completamente fora da Bíblia, porque nasceram ali ou simplesmente engoliram o pacote todo quando se filiaram àquela religião. Antigamente era costume fazer a mesma coisa no mundo com títulos como “Comendador” (acho que já caiu de moda).

(Lc 9:46-48) “Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior. Mas Jesus, sabendo o que se lhes passava no coração, tomou uma criança, colocou-a junto a si e lhes disse: Quem receber esta criança em meu nome a mim me recebe; e quem receber a mim recebe aquele que me enviou; porque aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande”.

Quanto aos outros assuntos posso perceber que você fala bastante de si mesmo e se coloca, com razão ou não, na posição de vítima, o que é uma atitude extremamente destrutiva e só faz mal a você mesmo. Provavelmente essa preocupação consigo mesmo faz de você também a vítima perfeita para quem se aproximar de você com “profetadas”. Pare de pensar em si ou de querer fazer alguma coisa grandiosa e comece a ocupar-se com Cristo! Seja mais “Maria” e menos “Marta”.

Você diz ser capaz de perceber quando algum irmão está com um problema. Isto pode ser uma característica espiritual, mas o mais provável é que não passe de habilidade natural ou coincidência. Devemos ser sábios para não sermos enganados, às vezes por nós mesmos, nosso ego, nosso desejo de sermos aceitos, etc. Se eu for a qualquer pessoa num grupo e disser que ela está com algum tipo de problema em sua vida, você acha que a pessoa vai dizer que não? Todos estamos passando o tempo todo por algum problema!

A questão é que quando queremos acreditar em algo aquilo parece estar sempre diante de nossos olhos. É como essas manchas de umidade na parede ou em vidros, que acabam sendo transformadas em objetos de idolatria, pois as pessoas dizem enxergar ali Jesus ou Maria em uma das muitas versões como é conhecida no catolicismo romano, por exemplo, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora Aparecida, etc. Ninguém faz isso com as nuvens porque elas se dissolvem rapidamente, mas toda criança já brincou de ficar vendo pessoas e bichos nas formações de nuvens. Nós enxergamos o que queremos enxergar. Mas o cristão não vive por aquilo que vê. (2 Co 5:7) “Porque andamos por fé, e não por vista”.

Quando alguém vem falar comigo com essa conversa de que teve uma revelação do Espírito de Deus eu vou logo descartando. Alguém que comece uma conversa assim já está querendo dizer o seguinte: “Você está obrigado a acreditar em tudo o que vou dizer, caso contrário estará duvidando de Deus”. É uma forma muito desleal de desligar nosso senso crítico. A vontade que dá é dizer “OK, então se não acontecer vou apedrejar você, pois é o que devia ser feito no Antigo Testamento com profetas que não acertavam na profecia”. Outro dia recebi um e-mail de uma pessoa da Bahia que dizia ter uma revelação para mim, mas eu devia ir até lá para recebê-la. Ela mandou o e-mail e não podia mandar a revelação?

Existe um programa na TV a cabo chamado “Keith Barry, o Mentalista”. Nele Keith Barry “adivinha” coisas sobre as pessoas usando lógica, poder de dedução, observação de linguagem corporal e uma série de coisas. Não tem nada a ver com coisas espirituais e ele deixa isso bem claro. É tudo inteligência humana. Quem vê pensa que ele tem poderes paranormais, mas não. Tudo é explicado e é exatamente esse tipo de coisa que hoje impera em muitas igrejas com pregadores se fazendo passar por profetas, quando nada mais são do que mentalistas. Procure por Keith Barry no Youtube que tem muita coisa lá. Não deixe de ver este vídeo para descobrir como é fácil dar “profetadas”: http://youtu.be/rS3fdeq7sE8


Podemos usar de recursos de persuasão?

Acredito que você tenha uma opinião a respeito do assunto, pois ao fazer a pergunta supõe alguém com habilidades naturais de persuasão deixe isso de lado ao se tornar cristão. Em certo sentido, se você realmente acredita assim, o simples fato de tocar no assunto já é uma tentativa de convencer outros de que esta é a maneira correta de se proceder, e ao fazer isso também está tentando ser persuasivo. Sempre que temos uma opinião, esta opinião nos torna excludentes, pois procuraremos fazer com que a nossa opinião prevaleça, seja em um debate público ou numa festa de aniversário com parentes.

Abro um parêntese para contar uma anedota que ilustra bem como seriam as coisas se as pessoas simplesmente abrissem mão de tentar defender suas convicções. Um sujeito encontra um amigo que não via há anos, o qual vivia deprimido e envelhecido. Agora o homem está feliz e radiante, além de aparentar dez anos menos. “Que diferença! Você vivia deprimido, agora esbanja felicidade e até rejuvenesceu! Conte o segredo”. “Descobri um modo de rejuvenescer. É só você parar de discordar das pessoas e não envelhece mais”. O outro imediatamente discorda: “É impossível alguém rejuvenescer só parando de discordar dos outros!” , ao que o outro responde: “É mesmo, você tem razão”.

Se observar as epístolas dos apóstolos, em especial as de Paulo, perceberá o quanto de argumentos são apresentados na tentativa de fazer com que as pessoas creiam naquilo que estão falando. Até quando você prega o evangelho, se você realmente tiver o desejo de fazer com que a pessoa se converta acabará usando de suas melhores habilidades de comunicação para convencê-la (mesmo sabendo que no fundo é o Espírito quem convence). Se a pessoa for grega, você até irá querer aprender grego para se comunicar com ela.

Lembre-se também que o simples ato de defender-se de uma acusação, ou defender a razão da fé que você professa já é uma tentativa de persuadir ou convencer as outras pessoas de que a maneira correta de crer é a sua. Paulo usa o verbo defender aqui, e Pedro mostra que devemos estar sempre preparados para isso, o que exige obviamente usarmos o melhor que tivermos em termos de comunicação:

(1 Co 9:3) “A minha defesa perante os que me interpelam é esta…”.

(1 Pe 3:15) “Antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós“.

Nesta passagem os irmãos tentaram persuadir Paulo a não viajar a Jerusalém, mas seus esforços foram em vão porque ele estava determinado a ir (contra o aviso do Espírito Santo para que não fosse).

(Atos 21:14) “E, como não podíamos convencê-lo , nos aquietamos, dizendo: Faça-se a vontade do Senhor”.

Quando evangelizamos buscamos persuadir os homens da melhor maneira possível. Quando um bombeiro vai ao socorro de alguém que está na beirada da laje de um edifício querendo saltar, você acha que ele deveria evitar usar toda a sua capacidade de persuasão? Será que ele deveria chegar lá em cima e dizer: “Se você quiser saltar, não se preocupe que providenciarei o enterro. Mas só queria dizer que é melhor não saltar. Tchau!”. Ora, o bombeiro diria para não saltar e daria um milhão de razões para isso na tentativa de persuadi-lo a deixar seus desejos suicidas.

(2 Co 5:11) “E assim, conhecendo o temor do Senhor, persuadimos os homens e somos cabalmente conhecidos por Deus; e espero que também a vossa consciência nos reconheça”.

A resposta de Agripa a Paulo é outro exemplo, e a reação do apóstolo, demonstram o quanto Paulo estava desejoso de conquistar aqueles corações enquanto apresentava o evangelho:

(Atos 26:28-29) “E disse Agripa a Paulo: Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão! E disse Paulo: Prouvera a Deus que, ou por pouco ou por muito, não somente tu, mas também todos quantos hoje me estão ouvindo, se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias”.

Portanto, não há como evitar: se você for uma pessoa simpática, charmosa e com grande magnetismo acabará sendo mais convincente nas suas afirmações do que uma pessoa chata, sem graça e opaca em seu modo de ser. Você não precisará fazer qualquer esforço para ser persuasivo, até seu timbre de voz trabalhará neste sentido. A segunda pessoa, mesmo que se esforce, não convencerá ninguém. C. H. Mackintosh, que foi muito usado por Deus no século 19, ao falar de como pregar o evangelho em seu livro “Cartas aos Evangelistas”:“Se você tem eloquência, use-a”.

O mesmo pode ser dito caso você tenha um segundo idioma. Será que você deixaria de pregar o evangelho a pessoas de outros países por achar que estaria usando de um subterfúgio (uma segunda língua) para convencê-las?

Não é correto um cristão usar de artimanhas para persuadir as pessoas, mas não há nada de errado valer-se de uma boa capacidade de comunicação para falar às pessoas, e isto inclui uma correta entonação de voz, postura do corpo, etc. Até os elementos que em comunicação chamamos de AIDA (despertar a A tenção, criar I nteresse, gerar D esejo e partir para a A ção) acabam sendo usados informalmente numa pregação. Veja que o Senhor Jesus chamou a atenção da mulher samaritana, não indo direto no assunto logo de início, mas começando a conversa falando de água, que era o que ocupava a mente dela naquele momento. Paulo também começa sua conversa com os gregos falando do “Deus desconhecido” , que era algo que eles já tinham, ao invés de tomar o caminho das coisas negativas e ficar acusando aquele povo de idolatria (o que certamente teria fechado as portas ao evangelho).

Não é errado o cristão ter uma boa comunicação, mas é errado usar de argumentos falsos, mentir, etc. Por exemplo, eu sou um profissional de comunicação e minha especialidade é ensinar as pessoas, para o que preciso ser convincente ou de nada irá valer meu trabalho. Como palestrante e consultor eu preciso também ter a certeza do que estou falando e comunicar esta certeza, caso contrário como criarei a mesma convicção em quem escuta? Muito disso faz parte da minha própria personalidade, outras coisas adquiri com o tempo, estudo e prática. Como eu poderia “desligar” esta habilidade na hora de falar do evangelho? Não tem como, mas eu preciso, isto sim, me policiar para não usar de subterfúgios. De qualquer maneira, mesmo ao falar do evangelho eu preciso passar firmeza e certeza. Você gostaria de ser examinado por um médico que não soubesse dizer exatamente o que você tem (por falha em sua comunicação) e deixasse você em um mundo de incertezas? Isto também vale para todas as profissões, professores, advogados, vendedores…

Tudo isso eu escrevi entendendo sua pergunta, mas quis expandir um pouco o assunto até como forma de… lhe convencer de que a minha forma de pensar é a correta! Viu só como são as coisas? Mas vamos ao que você realmente quis perguntar, se é correto manipular a conversa e usar de subterfúgios na comunicação, e a resposta é NÃO! E é aí que entra 1 Coríntios 1:1-5

(1 Co 2:1-5) “E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana , mas em demonstração de Espírito e de poder; Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus“.

Esta passagem fala do tema de Paulo, do modo de comunicar este assunto e da atitude daquele que comunica. O assunto de Paulo era o testemunho de Deus, ou seja, Cristo; o modo de comunicar não era com palavras sublimes; a mensagem não incluía palavras persuasivas de sabedoria humana e a atitude do apóstolo foi de temor e grande tremor. Paulo aqui já está dando uma aula de comunicação. Veja você o que está incluído no que ele disse se fosse explicado por um professor de comunicação ao falar das 4 partes principais que compõem uma mensagem:

FONTE (Quem): Paulo, em temor e tremor, ou seja, a atitude de quem comunica. Mas numa comunicação normal a fonte precisa ter credibilidade para que as pessoas acreditem no que ela está dizendo. Embora a credibilidade ajude na comunicação das coisas de Deus, devemos sempre nos lembrar de que a convicção vem do Espírito usando o poder da Palavra de Deus. Felizmente é assim, pois de outro modo ninguém se converteria nessas religiões de pregadores picaretas, mas porque é a Palavra de Deus que está sendo pregada ali, e a Palavra de Deus tem poder, mesmo saindo de uma boca não convertida ela cumpre os propósitos de Deus.

FORMATO (Meio): Aqui era uma carta que Paulo usou, mas poderia ser por voz (hoje temos multimídia). No caso do evangelho é preciso cuidado para não se valer de meios dúbios. Por exemplo, não caberia usar uma revista pornográfica para publicar textos evangelísticos. Um meio assim seria totalmente inadequado. Pense em formato ou meio como os recursos utilizados. Um carro de som na frente de um hospital, mesmo pregando o evangelho, não seria um meio ou formato correto por transgredir a lei e incomodar pessoas enfermas que precisam de descanso. O mesmo pode ser dito de pregações de muitos decibéis cujos pregadores acabam na delegacia, quando a vizinhança incomodada chama a polícia.

ESTRUTURA (Como): Paulo explica que a sua comunicação era sem uso de palavras persuasivas ou sem fundamentar-se na sabedoria humana. Na comunicação normal isto seria levar em consideração a capacidade dos ouvintes e adequar o vocabulário ou o modo de comunicação à sua capacidade. É claro que isto também pode ser feito na comunicação do evangelho. Mas um erro seria tentar fundamentar o evangelho em fatores históricos, como alguns tentam fazer para desacreditar os escritos de Paulo. Quando ele dá instruções de como os cristãos devem andar e a igreja congregar, alguns simplesmente descartam essas instruções fundamentando-se em dados históricos, sociológicos, científicos, culturais, nacionais, etc. Então quando Paulo diz que as mulheres devem cobrir a cabeça na oração, lá vêm aquela longa explicação dos costumes dos gregos antigos para invalidar o mandamento de Deus. Quando ele diz para as mulheres permanecerem caladas nas igrejas, são usados os mesmos subterfúgios de fundamentação nos costumes e na cultura para abrir mão disso. E hoje algumas congregações já anulam o que Paulo fala sobre homossexualismo por considerarem as instruções bíblicas apenas reflexos de uma época.

CONTEÚDO (O quê): Cristo. Este é o assunto de Paulo e este deveria ser o assunto de cada cristão na sua comunicação das coisas espirituais. Hoje isto tem sido trocado por prosperidade material, saúde física, sorte no amor, etc.

Para terminar, um exemplo de comunicação fazendo exatamente o contrário do que Paulo fazia e com o objetivo, não de salvar e edificar, mas de dividir e destruir:

(Rm 16:17-18) “E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples”.

(2Tm 2:16-18) “Mas evita os falatórios profanos , porque produzirão maior impiedade. E a palavra desses roerá como gangrena ; entre os quais são Himeneu e Fileto; Os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição era já feita, e perverteram a fé de alguns”.

(Gl 5:7-8) “Corríeis bem; quem vos impediu, para que não obedeçais à verdade? Esta persuasão não vem daquele que vos chamou“.


Posso participar de uma cerimônia de batismo?

Você foi convidada por alguém da família para ser madrinha em um batismo e está em dúvida se deve ou não ir, porque esse batismo vai acontecer numa igreja católica. Este é um dos muitos casos que temos de enfrentar no nosso dia a dia e quando sou confrontado com uma situação assim devo orar e apresentar o caso diante do Senhor.

Foi o que Naamã fez. Ele havia acabado de conhecer o Deus verdadeiro e seu poder, e tinha sido curado da lepra, que na Bíblia é também uma figura do pecado. Tudo isso é uma figura maravilhosa da conversão de uma alma a Cristo, quando depois de tentar todas as alternativas encontra alguém que lhe diz algo simples demais para acreditar. Tanto é que, diante da relutância de Naamã de cumprir a ordem do profeta Eliseu, de mergulhar sete vezes no Jordão (o que Naamã achou absurdo num primeiro momento), é persuadido pelos seus próprios servos. Veja a passagem:

(2 Rs 5:11-14) “Porém, Naamã muito se indignou, e se foi, dizendo: eis que eu dizia comigo: certamente ele sairá, pôr-se-á em pé, invocará o nome do Senhor seu Deus, e passará a sua mão sobre o lugar, e restaurará o leproso. Não são porventura Abana e Farpar, rios de Damasco, melhores do que todas as águas de Israel? Não me poderia eu lavar neles, e ficar purificado? E voltou-se, e se foi com indignação. Então chegaram-se a ele os seus servos, e lhe falaram, e disseram: meu pai, se o profeta te dissesse alguma grande coisa, porventura não a farias? Quanto mais, dizendo-te ele: lava-te, e ficarás purificado. Então desceu, e mergulhou no Jordão sete vezes, conforme a palavra do homem de Deus; e a sua carne tornou-se como a carne de um menino, e ficou purificado”.

Agora temos um Naamã convertido e temente a Deus, que como qualquer pessoa que foi salva por Cristo, não quer mais fazer coisas que possam desagradar aquele que o salvou. Por isso ele apresenta uma dificuldade que sabe que encontrará em sua nova vida:

(2 Rs 5:18-19) “Nisto perdoe o Senhor a teu servo; quando meu senhor entrar na casa de Rimom para ali adorar, e ele se encostar na minha mão, e eu também tenha de me encurvar na casa de Rimom; quando assim me encurvar na casa de Rimom, nisto perdoe o Senhor a teu servo. E ele [o profeta Eliseu] lhe disse: vai em paz”.

Naamã sabia que, apesar de agora ser um adorador do Deus verdadeiro, teria de enfrentar um dilema quando retornasse ao seu trabalho junto ao rei pagão que servia. Eventualmente seria obrigado a acompanhar seu rei no templo do ídolo Rimom e, segurando a mão do rei, encurvar-se ali diante daquela imagem de pedra. O que fazer? Eliseu não lhe diz nada a respeito, simplesmente diz: “Vai em paz”.

A Bíblia não diz se Naamã continuou ou não entrando com o rei no templo do ídolo. Não entrar significaria provavelmente pena de morte, como era costume para qualquer um que contestasse uma ordem real. Mas a Bíblia também deixa claro que Eliseu não deu a Naamã uma aula contra a idolatria, ameaçando-o com fogo e enxofre caso ele voltasse a entrar no templo pagão. “Vai em paz”, foi só o que Naamã ouviu, e era em paz que devia tratar isso depois com seu próprio Deus.

Por outro lado encontramos Daniel e seus amigos recusando-se veementemente a cumprir os costumes da corte pagã onde viviam. Aquilo acabou colocando as vidas deles em risco, mas aquele era o exercício que eles próprios tinham com Deus. Aqui vale lembrar que certas coisas também dependem do grau que temos de conhecimento de Deus, o que obviamente era diferente no caso de Naamã, um pagão recém-convertido ao Deus verdadeiro, e Daniel e seus amigos, judeus nascidos e criados no judaísmo e exímios conhecedores das Escrituras. Com o conhecimento vem também a responsabilidade.

(Lc 12:48) “Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão”.

Assim deve ser com você, ore e peça a Deus a direção de como agir. Eu sei como é difícil em situações assim pendermos para um lado ou para o outro, e nem sempre agirmos da forma correta aos olhos de Deus. Existe também outro aspecto que precisa ser ponderado, que é o de outros irmãos em Cristo que possam ficar escandalizados por sua atitude.

Enxergo o batismo como o casamento, ou seja, não se trata de um culto ou ritual, mas do cumprimento de uma ordenança cristã. Apesar de o casamento ser uma instituição divina, o batismo é uma ordenança, ou seja, algo que deve ser cumprido. Não é ordenado que uma pessoa se case (a menos que queira viver com outra), mas é ordenado nesta dispensação da graça de Deus que seja batizada. O Senhor mandou que fôssemos batizados, e os pais da criança estão cumprindo essa ordem, ainda que no lugar e da forma imperfeita. Mas essa criança sairá dali batizada, ela poderá ser chamada de “cristã” a partir desse dia, ainda que não tenha crido em Cristo (e nem ter condições para isso). Ela não é mais uma pagã.

Aceitar ou não participar como madrinha irá depender mais de sua consciência para com Deus do que de uma regra, como se vivêssemos nos tempos da Lei mosaica. Em sua situação eu talvez já teria tentado explicar a meus amigos a respeito de minha fé, mas se eu estivesse no seu lugar e tivesse recebido o mesmo convite que recebeu, talvez eu até aceitasse dependendo do grau de parentesco e amizade que tivesse com as pessoas que convidaram, e principalmente para evitar colocar um tropeço recusando o convite e fazendo-os pensar que o meu “cristianismo” seja algo bizarro demais para eles aceitarem. Mas veja que eu poderia também errar pensando assim, pois há casos em que as pessoas ao invés de se ofenderem ficam tão impressionadas com a força e influência que a fé tem em sua vida que acabam querendo saber mais a respeito dessa fé.

(1 Pe 3:15) “Antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós,”.

Mas digo da possibilidade de eventualmente participar só por se tratar de um batismo, que é um cumprimento à ordenança dada pelo Senhor. Seria diferente se me convidassem para uma missa. Aí não iria, pois é um culto de adoração a Deus no lugar errado, da maneira errada e incluindo um ritual errado, que é a suposta transubstanciação do corpo e do sangue do Senhor em objetos materiais (pão e vinho). O mesmo quando sou convidado para um culto protestante. Apesar de não existir ali o ritual da suposta transubstanciação, continua sendo o modo errado de se adorar a Deus, por isso também não participaria de um culto, mas não teria problema em participar de um casamento ou batismo.

Mas entenda que estamos falando aqui de instituições (católicas ou protestantes) que são cristãs em sua essência, isto é, que professam as doutrinas básicas e fundamentais da fé cristã, que incluem a divindade de Jesus e seu sacrifício expiatório. Se estivéssemos falando de um batismo ou casamento em uma instituição espírita, mórmon das testemunhas de Jeová, budista, islâmica ou qualquer uma dessas religiões que trazem em seu corpo doutrinário a negação da divindade de Jesus, eu não iria de modo nenhum.

Já estive numa situação quando fui obrigado a assistir a uma missa durante um velório. Sem eu saber que isso iria acontecer, um padre entrou na capela onde estava sendo velado o corpo de um tio muito querido e celebrou uma missa. Como eu estava já dentro achei que não ficaria bem sair, mesmo porque a maioria ali me conhece e sabe de minha fé. Mas naquele caso eu já estava ali, não tive como evitar. E meu tio era um que eu tinha certeza ser um homem de fé, que creu no Senhor e que um dia encontrarei no céu. Mesmo católico?! Mesmo católico, e explicarei a razão disto mais adiante.

Voltando ao assunto “batismo”, a ideia de “padrinho” é uma ideia católica que surgiu da necessidade de se poder contar com alguém no caso do falecimento dos pais. Numa época quando a morte era corriqueira nas famílias, não raro eram os padrinhos que acabariam criando a criança pela qual ficavam responsáveis pela relação de batismo. Padrinho significa algo como um pai de reserva.

Os católicos de hoje nem sabem direito por que convidam alguém para padrinho. Duvido que estejam pensando em alguém para ser o pai ou a mãe reserva, para o caso de eles morrerem. Mas o convite deve ser visto como uma honra, pois geralmente os pais querem uma pessoa idônea para de alguma forma abençoar aquela criança e trazer “boa sorte” (como quando escolhemos nomes para nossos filhos: evitamos dar o mesmo nome daquele parente ou amigo que é uma péssima pessoa!).

Então, entenda que o convite é, primeiro, uma honra, porque essas pessoas que a convidaram têm uma ótima impressão a seu respeito. Aceitar ou não aceitar? Ore a respeito e espere no Senhor. Se ele lhe der paz e mostrar que isso poderá abrir portas para ganhar esse casal para Cristo, então vá. Se não, o melhor é ter uma conversa franca e explicar suas razões com muito cuidado, para não ofendê-los. Lembre-se sempre de que eles estarão fazendo isso por acharem que é a vontade de Deus, ou seja, a intenção deles é a melhor, para com Deus e para com o filho que nasceu. Antes todos os pais tivessem tal disposição. Se decidir não ir (e explicar a eles a razão), você pode tanto perder os amigos como ganhá-los, se eles perceberem que sua fé é levada tão a sério por você que pode valer a pena querer saber mais a respeito.

Um sentimento de amor, graça e compreensão ajuda nessa hora, e não aquela arrogância típica de alguns que olham de cima para baixo os que não creem igual. Eu me converti a Cristo e a pessoa que pregou para mim não falou de igreja, só de Jesus, por isso depois de convertido me tornei um assíduo frequentador das missas durante um ano, chegando até a ajudar o padre e a formar um grupo de jovens para estudarmos o evangelho (o que o padre não gostou muito, porque eu ensinava para aqueles jovens a salvação pela fé somente).

Quando Deus mostrou os muitos erros do catolicismo acabei abandonando aquela religião (como mais tarde também abandonaria a religião batista pelo mesmo motivo, apenas por erros diferentes). Mas durante um ano fui católico e realmente convertido a Cristo, tendo certeza de minha salvação e do perdão de meus pecados. Há muitos convertidos reais dentro do catolicismo. Eu fui um deles.

Como pode ver, a vida cristã não é uma lista de regras do que você pode ou não pode fazer, mas uma vida em dependência da Palavra de Deus e da direção do Espírito. Há coisas que você encontra claramente expressadas na Palavra, outras não, e este é um caso. Não existe algo nas páginas da Bíblia como “Não irás a um batismo católico”. Aí é na dependência do Espírito que você deverá ficar para saber o que decidir.

Estes versículos poderão ajudar. Aqui o assunto era outro (a guarda de certos costumes e rituais do judaísmo, de onde muitos cristãos haviam acabado de sair), mas serve como pista de como devemos agir naquelas coisas que não estão em total conflito com a Palavra. Paulo não teria dito o mesmo de circuncidar-se para ser salvo, algo que ele claramente combate em outra ocasião, ou de guardar a lei com a mesma finalidade. O que ele está tratando aqui são costumes e tradições que, se não ajudam, também não atrapalham:

(Rm 14:2-7) “Porque um crê que de tudo se pode comer, e outro, que é fraco, come legumes. O que come não despreze o que não come; e o que não come, não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu. Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar. Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o Senhor não come, e dá graças a Deus. Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si”.

(Rm 14:19-23) “Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros. Não destruas por causa da comida a obra de Deus. É verdade que tudo é limpo, mas mal vai para o homem que come com escândalo. Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça. Tens tu fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado”.

Deixo aqui apenas um alerta: receba isto como minha opinião e posição pessoal, e não como um dogma, pois você poderia ler e depois concluir: “Ah! É assim que os irmãos com os quais você congrega pensam e é assim que agem”. Se chegar a esta conclusão terá concluído errado, pois acabei de falar que não existe uma regra escrita para situações assim, mas que depende do exercício particular de cada um para com o seu Senhor. Eu não diria que depende de um exercício particular se o assunto fosse roubar, aceitar suborno, fornicar, embriagar-se, etc., porque aí temos instruções claras da Palavra de Deus nos exortando a ficarmos longe dessas práticas.


Como um católico pode ser salvo se Deus condena a idolatria?

Você pergunta como um católico pode ser salvo se Deus condena a idolatria e afirma em sua Palavra que “ficarão de fora… os idólatras” (Ap 22:15), e “nem os idólatras… herdarão o reino de Deus” (1 Co 6:10)? Você disse que sempre achou que um católico poderia ser salvo, mas que antes de morrer, Deus o tiraria do catolicismo. Vamos ver se consigo responder suas dúvidas.

As pessoas pensam que a idolatria é tão antiga quanto os homens, mas não é assim. O homem inventou a idolatria depois de perder Deus de vista. Durante séculos o conhecimento de Deus foi passado de geração para geração, e antes do dilúvio isso era bem mais fácil pela longevidade dos habitantes da terra. Mas o homem, por ser uma criatura distinta dos animais, tem também um destino diferente: o homem é perpétuo, nunca mais deixará de existir, ao contrário do animal que desaparece por ser apenas corpo e alma (emoções), sem espírito.

(Ec 3:21) “Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima, e que o fôlego dos animais vai para baixo da terra?”.

(Ec 12:7) “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”.

Mesmo depois de ter entrado o pecado na criação, o homem continuou ciente da existência de Deus e a princípio não criou deuses para si. Você se lembra de que a promessa da serpente não era de eles terem outros deuses, mas de serem eles próprios “como Deus”. Portanto, se pudermos chamar de idolatria também a veneração própria, então se pode dizer que ela tenha começado no Éden. Mas se estamos falando de deuses de pedra, barro e metal, então é bem posterior.

Não demorou para que o conhecimento de Deus fosse deixado de lado e a superstição tomasse o lugar. O homem sem Deus tem medo, e para aplacar esse medo se agarra a algo que acaba se transformando em seu ídolo. Esse algo podem ser meras criaturas (como os hindus e suas vacas sagradas), pode ser fruto de sua imaginação (duendes, fadas, elementais, elfos, etc.), demônios com os quais os homens querem se dar bem para evitar problemas (como no budismo tibetano e religiões africanas) e podem também ser outros homens mais destacados ou anjos (não os caídos), que os homens adotam por considerá-los superiores, uma categoria na qual também se encaixam seres humanos comumente chamados de “santos” no sentido religioso da palavra.

Falando no contexto bíblico, no primeiro caso cabem os egípcios, e sua adoração por gatos, escaravelhos, etc. No segundo teríamos os gregos, com seus deuses mitológicos que podem ou não ser reminiscências dos tempos em que anjos desceram à terra e tomaram mulheres para si, as quais geraram gigantes (no sentido de homens fortes e poderosos). No terceiro caso encontramos um exemplo em Atos 16:16, que infelizmente é traduzido de forma a não revelar o que movia aquela jovem possessa:

(Atos 16:16) “E aconteceu que, indo nós à oração, nos saiu ao encontro uma jovem, que tinha espírito de adivinhação [espírito de píton], a qual, adivinhando, dava grande lucro aos seus senhores”.

No grego o sentido é que aquela jovem tinha espírito de Píton, pois era uma pitonisa. Píton é serpente, portanto não fica difícil entender quem está por trás das adivinhações de pitonisas, pessoas que adivinham sob transe. Cobras píton (ou pitão) são da espécie Pythonidae ou “constritoras” e sua característica é enrolar-se na vítima, imobilizá-la, tirar seu fôlego e então apossar-se dela.

Não poderia existir definição melhor para alguém em transe mediúnico: a pessoa perde os movimentos próprios, o fôlego que produz a fala não é mais seu e fica totalmente entregue ao demônio que a subjugou. Hoje você encontra muitas pitonisas como aquela jovem de Atos mesmo em igrejas evangélicas, sem falar nas religiões espiritualistas. Todavia aprendemos de 1 Coríntios 14 que “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas” , isto é, uma pessoa movida pelo Espírito de Deus continua com seu próprio espírito humano no controle.

Em 1 Coríntios 10:20 Paulo também fala dos demônios que atuam nas pessoas, ao escrever: “Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quero que sejais participantes com os demônios”. Ele está escrevendo aos gregos, cuja idolatria podia envolver tanto a classe de animais, como de seres mitológicos, como de demônios (igual ao caso da pitonisa).

A última classe, de idolatria a homens e a anjos, você pode encontrar primeiro em Atos 10:26, quando Pedro corrige Cornélio, dizendo, “Ergue-te, que eu também sou homem”, e em Colossenses 2:18, que fala de “culto dos anjos, baseando-se em visões” , e também em Apocalipse 19:10 e 22:9, onde nas duas ocasiões o anjo rejeita a adoração do apóstolo João dizendo: “Não faças isso, eu sou conservo teu”.

Portanto é principalmente a estas classes de idolatria que a Bíblia se refere e o elemento comum em todas elas não é a fé, mas a superstição. Fé é crer no testemunho de Deus, superstição é crer no que a pessoa desejar crer. A fé neutraliza a superstição, mas é inegável que a superstição pode ser encontrada até entre os santos de Deus. Há vários exemplos disso no Antigo Testamento e há também este do apóstolo João, depois de tantos anos, ainda cometeu o deslize de prostrar-se diante do anjo para adorá-lo.

O importante é entender que mesmo em meio à superstição o homem nunca se esquece de Deus, e os gregos tinham até um altar ao “Deus desconhecido” , que foi o ponto de partida de Paulo para lhes pregar o evangelho. Os egípcios também tinham algo parecido, um Deus único e o mesmo é encontrado na religião Inca (um bom livro para entender isso é “Fator Melquisedeque” , de Don Richardson). O que muda é o grau de superstição (veja o apóstolo João, por exemplo, um veterano salvo por Cristo levando bronca de um anjo por causa de sua superstição!).

Mas o que tudo isso tem a ver com sua pergunta? Perceba que o verdadeiro Deus, que é um Deus de amor e de misericórdia, está sempre em “estado de espera”, como costumamos falar do computador com o monitor aparentemente apagado. Basta o mais leve toque para o sistema voltar à vida, e não é diferente com Deus e seu modo de agir para com o homem.

Considere isto: o homem, por mais supersticioso que seja, nunca perde a noção da existência do Deus verdadeiro, porque isto está em seu “DNA”, por assim dizer. E Deus nunca desiste do homem enquanto ele estiver vivo. O único Homem de quem Deus foi obrigado a desistir foi o seu próprio Filho, Jesus, quando foi abandonado na cruz por estar ali carregando nossos pecados e ter sido feito pecado por nós. Essa foi uma obra estranha à natureza de Deus, mas necessária para nos salvar.

(Sl 37:25) “Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo“.

(Sl 22:1) “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?“.

(Jó 34:14-15) “Se ele [Deus] pusesse o seu coração contra o homem, e recolhesse para si o seu espírito e o seu fôlego, Toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó“.

Portanto volto a afirmar: Deus não desiste do homem até o último suspiro, pois ele é misericordioso. Porém esta não é a disposição do homem, que é cruel e sempre pronto a condenar ao lago de fogo quem não frequentar uma determinada religião ou que não estiver praticando algo que ele pratica porque está em sua lista de boas obras (já reparou que o fariseu no Templo fala de jejuar de uma forma que nunca é encontrada na Bíblia? Ele havia inventado sua própria lista do que considerava boas obras).

(1 Cr 21:13) “Então disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; caia eu, pois, nas mãos do Senhor, porque são muitíssimas as suas misericórdias; mas que eu não caia nas mãos dos homens“.

Entenda que não estou dizendo aqui que podemos ser supersticiosos, idólatras ou mundanos que não há qualquer problema nisso. Estou mostrando que Deus quer salvar, e o homem não é misericordioso como seu próprio Criador. Um exemplo? Nem bem aconteceu a notícia da tragédia numa boate em Santa Maria, Rio Grande do Sul, e você já encontrava na seção de comentários dos sites de notícias pessoas “religiosas” fazendo suas acusações costumeiras, um dizendo que isso aconteceu porque os “gaúchos são muito orgulhosos”, outros porque “os jovens não deveriam estar ali dançando”, etc.

Tenho certeza de que você já ouviu esse tipo de julgamento por “religiosos” quando souberam da morte de alguém que não rezava pela mesma cartilha. É assim porque nós, ao contrário do Senhor, não somos misericordiosos, porém cruéis por natureza. E, obviamente, julgamos tudo não segundo a reta justiça, mas segundo o molde de religiosidade que criamos para nós mesmos, o que também não é diferente de superstição: acabamos querendo ser o padrão, e voltamos ao sussurro da serpente: “Sereis como Deus…”.

E Jesus, diante da morte de Lázaro, o que fez? Chorou. Aquele que voltará um dia para julgar vivos e mortos, não julgou Lázaro. Ele chorou. Ele não disse algo do tipo, “Eu disse para Lázaro diminuir o vinho…” , ou “É nisso que dá não cuidar da saúde…” , ou “Se ele tivesse fé em mim teria sido curado, mesmo eu estando longe…”.

Ele não fez igual aos “amigos” ( mui amigos… ) de Jó, que até estavam indo muito bem enquanto mantiveram suas bocas fechadas, mas depois só acrescentaram dores e sofrimentos àquele que tinha um testemunho da boca de Deus de que “ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8). Mesmo assim eles massacraram Jó com todo tipo de acusação, só para no final Deus dizer para Jó interceder por seus equivocados amigos, o que Jó obviamente fez.

Portanto, a pessoa mais pecadora da face da terra, a mais supersticiosa, a mais idólatra, se tão somente crer no testemunho que Deus dá de seu filho, ela é IMEDIATAMENTE salva. Mesmo que não tenha tido tempo de tirar as medalhinhas que carrega no pescoço ou desmontar o altar cheio de ídolos que tem em casa. Veja que foi depois de se converterem que os que seguiam artes mágicas se livraram dos objetos de sua superstição:

(Atos 19:18-19) “E muitos dos que tinham crido vinham, confessando e publicando os seus feitos. Também muitos dos que seguiam artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos e, feita a conta do seu preço, acharam que montava a cinquenta mil peças de prata”.

Uma pessoa pode já ter sido salva pela fé em Cristo, mas ainda carregar em si sentimentos supersticiosos, e é por isso que tenho a certeza de que muitos católicos que verdadeiramente creem no Salvador estão salvos e irei encontrá-los no céu. Não por serem católicos, evidentemente, mas porque em algum momento o Espírito Santo de Deus tocou neles e creram no Salvador.

E a superstição? Não precisariam largá-la para serem salvos? Não coloque o carro na frente dos bois. A limpeza vem depois, mas nunca o tempo da faxina é igual para todos. Você sabe quantos anos de idade o apóstolo João tinha quando se prostrou para adorar o anjo? Mais de 92. Se ele tivesse uns 20 anos quando começou a seguir a Jesus, veja quanto tempo ele viveu com esse sentimento supersticioso até levar a bronca do anjo. Você diria que nesse período todo João ainda não tinha tido seus pecados perdoados e a salvação garantida? Nem ousaria. E ele próprio sabia que em si mesmo tinha muitas arestas a serem lapidadas, pois escreveu:

(1 João 1:8-10) “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós”.

Mas certamente Deus, que começa a obra na vida de uma pessoa com o novo nascimento, passando pela conversão e indo por todo o trajeto da santificação prática, terá a sua “encomenda” pronta para o céu no momento em que vier buscá-la. É isto o que a Bíblia nos garante:

(1 Co 1:7-8) “…nosso Senhor Jesus Cristo, O qual vos confirmará também até ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo“.

(Fp 1:6) “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo ;”.

(Jo 14:19) “…porque eu vivo, e vós vivereis”.

(Jo 10:28) “E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão“.

Portanto, quando você ouvir alguém dizer, “Imagine que fulana está salva! Ela diz crer em Jesus, mas ainda é católica e tem todos aqueles ídolos em casa!” , ou “Nem pensar que a fé de fulano seja real! Outro dia eu o vi na porta do bar!”. O que responder? Simples: diga para a pessoa esperar até o filme terminar. Alguns filmes você não entende se sair antes e não assistir até o último minuto, que é quando tudo fica resolvido. Assim é também nas coisas de Deus. Primeiro somos completamente salvos, lavados, purificados e santificados pelo sangue de Cristo, ficando assim aptos para o céu. Depois começa em nós um processo de santificação prática, a expressão visível daquela santificação absoluta, que vai durar até o último segundo de nossa existência na terra.

Portanto, quando o assunto é superstição e idolatria, essas coisas não existem somente no catolicismo. Elas permeiam, e muito, as igrejas evangélicas, com milhões de pessoas correndo atrás de curas e milagres ao invés de se ocuparem com Cristo. Isto quando não estão ali para adorar Mamom, que hoje se apresenta na forma de um carro importado, uma mansão ou um negócio próprio. Existem salvos ali? Evidentemente, como também existem na igreja católica.

Mas e seus pregadores corrompidos pela ganância, estariam eles salvos? Deus saberia dizer. Mas é bem provável que muitos dos salvos no catolicismo e no protestantismo, que ouviram a Palavra de Deus pregada por bocas não convertidas, cheguem ao céu, deem uma olhada em redor, e perguntem: “Ué! Onde está o ‘bispo’ fulano, o ‘pastor’ sicrano, o ‘padre’ beltrano, o ‘missionário’ tal e o ‘evangelista’ tal? Eu jurava que os encontraria aqui!”.

Por outro lado também não será de surpreender que na condenação eterna existam aqueles que nunca quiseram crer em Cristo com a desculpa que esses líderes religiosos enganavam o povo, só para acabarem descobrindo que compartilharão com eles de um mesmo destino. Felizmente para todos, não é quem prega, mas a Palavra de Deus, que leva uma alma à salvação. E não é o estado visível daquele que creu em Jesus que determina seu destino eterno. É o fim de sua carreira, e isso inclui também aqueles em posição de guias do povo de Deus.

(Hb 13:7) “Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a palavra de Deus; e, considerando atentamente O FIM DA SUA VIDA , imitai a fé que tiveram“.

Agora, para tirar qualquer dúvida quanto à possibilidade de alguém que faça parte da igreja católica poder ter a salvação pela fé em Jesus considere isto. No ano 312 o Imperador Constantino decidiu unir o Império Romano sob uma igreja universal, fazendo de Roma não só a sede do Império, mas também do cristianismo. No ano 380 o Imperador Teodósio emitiu um edito chamado “De Fide Católica” na cidade de Tessalônica, o qual foi publicado em Constantinopla, declarando o cristianismo católico como a religião oficial do Império Romano.

Portanto, durante muitos séculos quem fosse cristão seria automaticamente membro da igreja católica. Foi só muito depois que surgiram alguns movimentos contrários à igreja de Roma, os quais foram duramente perseguidos e muitos massacrados. Por volta do ano mil e alguma coisa houve uma divisão que deu origem à igreja ortodoxa, que se espalhou mais pelo Oriente. A reforma protestante só viria a acontecer por volta de 1500.

Agora faça as contas (arredondando): De cerca de 400 a 1500 são 1100 anos. Ao afirmar que nenhum católico pode ser salvo (mesmo se crer em Cristo) se for católico você está afirmando que durante 1100 anos ninguém teve a salvação e nesse período a entrada para o céu esteve fechada porque o catolicismo era algo compulsório.

Felizmente a salvação não depende de estar ou não estar em alguma organização religiosa; a salvação depende apenas de crer em Cristo, o Salvador.


Você me perdoa?

Eu não preciso perdoar você porque simplesmente não vejo que tenha de algum modo me prejudicado ou ofendido. Às vezes dizemos coisas que momentaneamente podem nos causar algum sentimento de tristeza, o qual para alguns pode ser uma grande coisa, mas para outros acaba passando como uma neblina. Eu posso garantir a você que tenho pele grossa, isto é, dificilmente alguém consegue me atingir ao ponto de eu ficar “de mal” com a pessoa. É como mertiolate: se na hora arder, eu assopro até passar.

Se eu pensasse o contrário, nem continuaria publicando tudo o que publico na Web, pois a cada vídeo, áudio ou texto sempre vem alguém com os dois pés para cima de mim. Do jeito que existem doutrinas maléficas hoje no mundo já dá para imaginar com que frequência isto acontece. Já cansei de ler e-mails com frases do tipo “Você precisa se converter!” , “Peça a Deus perdão pelas coisas que escreve!”.

A questão com você não é de perdoá-lo ou não (ok, se você precisa ouvir de mim algo formal, então eu perdoo). A questão é que eu sempre prefiro evitar a comunicação com pessoas que transformam um simples pelo em cabeleira de ovo. Sinto ter de dizer isto a você (e mais uma vez ficar sujeito a levar uma retranca), mas acho você muito preocupado com coisas sem importância, e por isso fica magoado comigo ou acha que eu fico magoado com você. Atente para este versículo:

(2 Co 5:14-17) “Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”.

O que Paulo está dizendo aqui é que, de agora em diante (depois da conversão), não julgamos mais as pessoas pela aparência, pela posição, pela cor da pele, pelo gênero, pelo cargo que ocupa, ou seja, não julgamos mais de modo carnal, como fazíamos no passado em nossa natureza carnal. O cristão, que é agora nascido de novo, deve enxergar em cada um alguém por quem Cristo morreu, e naqueles que já creem, um irmão em Cristo. É evidente que podemos e devemos julgar as obras e o andar da pessoa, além das doutrinas que ela professa, caso contrário ficaríamos abertos a todo o lixo moral e doutrinário que muitos cristãos carregam, mas não devemos julgar a pessoa em si.

Até mesmo Cristo, que os discípulos haviam conhecido e visto como tantos outros de sua época tiveram a oportunidade de ver e conhecer, agora não é para ser conhecido daquele modo, ou seja, segundo a aparência exterior (ainda que Cristo fosse o Homem perfeito).

“Ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo”.

Agora nós que cremos já o conhecemos de outro modo, como o Senhor ressuscitado e glorificado nos céus à destra de Deus. Se nos evangelhos vimos Jesus andando por aqui como um pobre carpinteiro, esta é a visão que agora nós que cremos temos dele:

(Hb 2:9) “Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos”.

Quando a passagem diz que agora quem está em Cristo é nova criação (a tradução “criatura” não é a correta) não está falando de seu modo de vida, mas de sua posição aos olhos de Deus e em Cristo. Um viciado que acabou de se converter é nova criação, mesmo que ainda não tenha tido tempo de tirar a seringa pendurada em seu braço. É assim que ele deve ser visto, como pertencente à nova criação que é perfeita em Cristo.

É claro que, apesar de as velhas coisas já terem passado e tudo ter sido feito novo (porque está falando da posição dele, não da condição atual), ele ainda terá muitas coisas da velha criação penduradas nele. Mas o fato de tê-las não o tira dessa posição pela mesma razão que o não tê-las não dá a ninguém o direito de ser nova criação. Trocando em miúdos, uma pessoa não é nova criação porque deixou de praticar isso e daquilo e nem deixa de ser nova criação porque ainda não conseguiu deixar de praticar isso e aquilo.

Portanto, e é disto que o trecho continua falando, se Deus chegou aos extremos ao ponto de me reconciliar consigo por intermédio de Cristo, como poderia eu ou qualquer salvo por Cristo, que recebemos o “ministério da reconciliação”, ficarmos com picuinhas e melindres uns para com os outros? Como poderia um cristão recusar-se a se reconciliar? Agir assim seria agir na carne e enxergar o irmão pelos olhos carnais, tratá-lo como seria normal a carne tratar. Para os que seguem a Cristo reconciliação é assunto de urgência e precede a adoração a Deus. Somos ensinados a não continuarmos a segunda sem antes resolvermos a primeira.

(Mt 5:23-24) “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta”.

Sempre que algum sentimento carnal nos assaltar, e o sentimento de inimizade é carnal, devemos imediatamente colocar isso diante do Senhor e pedir por ajuda para nos livrarmos de mais esta “seringa” de droga carnal que ainda permanece pendurada em nós.

(2 Co 5:18-19) “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pós em nós a palavra da reconciliação”.

Entenda que o que estou dizendo aqui é na esfera pessoal e individual, não na esfera governamental ou administrativa. Um juiz pode ser obrigado a condenar um malfeitor para fazer justiça, e depois ir todos os dias visitá-lo na prisão por ser seu amigo de infância. Isto é o que muitos não compreendem quando a questão é, por exemplo, a disciplina que uma assembleia aplica a alguém com a autoridade que o Senhor delegou a dois ou três reunidos ao seu Nome. A disciplina não é um instrumento individual e pessoal, mas administrativo.

Voltando ao assunto de seu e-mail, é por isso que faço ouvidos moucos àqueles que entram em um loop do tipo “me perdoa que eu te perdoo” ou “eu te perdoei e você não me perdoou” porque sei que isso não leva a nada. Esse bate e volta não passa de carne. Como cristãos, devemos sim perdoar e virar a página , e jamais ficar procurando o próximo pelinho no ovo para começar a jogar tônico capilar nele e termos outra cabeleira para pentear.

Se alguém não me perdoa, não devo me preocupar muito com isso porque sei que Cristo me perdoou. E se alguém acha que ainda precisa ter de mim o perdão, coloco este perdão em modo “default” , ou seja, “considere-se perdoado” , mesmo que eu ainda tenha que lidar com alguma mágoa ou ressentimento desta velha natureza que trago dentro em mim, da qual ficarei totalmente livre no arrebatamento ou ressurreição. Mas eu sei, como cristão, que estarei errando se fizer da ofensa recebida uma fortaleza, porque se agir assim meus muros ficarão cada vez mais altos, até ao ponto de eu não poder me dar bem com mais ninguém. Afinal, qual é a admoestação que temos do Senhor?

(Cl 3:13-14) “Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição”.

Como foi que Cristo me perdoou? Completamente, definitivamente, sem reservas ou condições. É assim que sou exortado a perdoar também. Na lei eu devia perdoar para ser perdoado , mas agora nesta dispensação da graça eu devo perdoar porque fui perdoado.

Portanto, quer bater um bom papo comigo? Pare com essas lamentações, pare de cantar a música que era cantada por Agostinho dos Santos. Qual?

Ninguém me ama, ninguém me quer

Ninguém me chama de meu amor

A vida passa, e eu sem ninguém

E quem me abraça não me quer bem

Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso

E hoje descrente de tudo me resta o cansaço

Cansaço da vida, cansaço de mim

Velhice chegando e eu chegando ao fim.

Esta é uma das músicas de maior fossa do repertório da MPB, e se você viver cantando assim nunca será feliz. Portanto, quebre esse disco e aí teremos sempre um papo legal, falando das coisas do Senhor, olhando para ELE e não para nossos umbigos. Pessoas que se preocupam consigo mesmas, com o que os outros estão pensando, com ideias do tipo “…estão falando mal de mim…” acabam infelizes e deixando infelizes todos ao redor, porque o sentimento de auto piedade contamina e é também uma forma de idolatria: egolatria.

Lembro-me do caso de um empresário muito rico e influente, que era tão preocupado com essas coisas que chegava a se esconder no porta-malas de seu carro e pedir ao motorista para estacionar em frente ao café onde ficava reunida sua roda de amigos. Assim, de dentro do porta-malas (e num tempo quando não existiam dispositivos eletrônicos para isso) ele podia ouvir se alguém estava falando mal dele. Você pode imaginar que vida miserável levava aquele milionário: ele era incapaz de tirar o foco de seu próprio umbigo.

Quer ser feliz? Deixe de ser “encucado”, seja “light”, leve as coisas na esportiva, não fique transformando cada “cara feia” ou “olhar de esguio” em uma guerra. Isso aí é coisa de adolescente que fica guardando mágoa por qualquer besteira. Este não é de modo algum o modo de um cristão se comportar.


Responder ou não responder?

Sua dúvida é se não haveria uma contradição entre Provérbios 26:4 e 5, pois parece apoiar coisas antagônicas. Afinal, é para responder ao tolo ou não? Vamos ver as passagens.

(Pv 26:4) “Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia; para que também não te faças semelhante a ele”.

(Pv 26:5) “Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que não seja sábio aos seus próprios olhos”.

Às vezes uma maneira de se entender uma passagem é criando uma paráfrase ou colocando-a com outras palavras. Veja a paráfrase que eu faria destas duas passagens:

“Não responda ao tolo de modo a se tornar tolo pelo fato de responder a ele, como se estivesse entrando na dele. Mas responda ao tolo para trazer à tona a sua estultícia para ele deixar de se achar sábio”.

Não estou dizendo que seja esta a interpretação, mas a mim me parece cabível. Elas não se opõem, mas apenas apresentam o que fazer em diferentes situações ou com diferentes propósitos. Um mesmo remédio pode ser aplicado de mais de uma maneira.

Outra tradução diz:

(Pv 26:4) “Não responda ao insensato com igual insensatez, do contrário você se igualará a ele”.

(Pv 26:5) “Responda ao insensato como a sua insensatez merece, do contrário ele pensará que é mesmo um sábio”.

No primeiro caso ele está dizendo para deixar a insensatez ou tolice onde ela merece: sem receber atenção. No segundo caso ele está dizendo para expor sua insensatez se for o caso, por exemplo, de mostrar ao tolo o seu erro ou prevenir alguém de ir na conversa dele.

Há dois tipos de pessoas que têm dificuldade de entender a Bíblia. Uma é aquela que lê querendo encontrar erros e contradições. O ditado popular diz que para o martelo tudo tem cara de prego. Outra é a pessoa que realmente tem alguma limitação intelectual, mas neste caso se for uma alma sincera buscando a Verdade o Senhor a acolherá e dará a ela os meios para isso, mesmo que seja por outros irmãos que a ajudem.


O que você acha da mensagem de David Platt?

David Platt ganhou publicidade graças ao seu livro “Radical” lançado nos EUA, que tenta despertar os cristãos para agirem como instrumentos contra a fome, a pobreza e as injustiças sociais. Até aí tudo bem, embora ele carregue nas cores da antiga “Teologia da Libertação” em voga no catolicismo latino-americano nas décadas de 70 e 80.

Por ser protestante fundamentalista e seguidor da Teologia da Substituição, que acredita que a Igreja substituiu Israel e é agora a destinatária das promessas do Antigo Testamento, ele não entende a diferença entre o reino e a salvação. O reino contém uma mistura de salvos e perdidos. Quando Jesus fala que ninguém entrará no reino está se referindo às condições para participar de seu reino terrenal, em especial ao dia em que este for estabelecido na terra.

(Mt 19:23) “Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus”.

(Mt 19:24) “E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”.

(Mc 10:24) “E os discípulos se admiraram destas suas palavras; mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!”.

(Jo 3:5) “Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”.

Porém o reino na sua atual forma, em que o Rei foi rejeitado e voltou para o céu, tem joio e trigo misturados; é grande árvore com aves (agentes do maligno) em seus ramos; é massa com fermento; é rede com peixes bons e ruins, etc. Existe também uma diferença entre reino de Deus e reino dos céus (que aparece em Mateus).

É evidente que o que ele diz sobre a semente que produz fruto quando cai em bom solo é uma responsabilidade de todo cristão. “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2:10). O problema é que David Platt quer forçar um caminho inverso fazendo as pessoas darem fruto para provarem que são nascidas de novo.

Não há como fazer um morto andar se antes ele não tiver vida. O fruto é uma consequência natural da árvore que está viva. Se um cristão não mostra qualquer fruto aos olhos dos homens isto não significa que ele não tenha fruto para Deus. “O Senhor conhece os que são seus” (2Tm 2). A nós resta apenas ver o exterior, que nos ajuda a perceber se um vaso é para honra ou desonra, mas não ao ponto de determinarmos de maneira cabal a genuinidade de sua salvação, pois isto compete a Deus.

Alguém que um dia professou crer e depois passa a confessar o contrário pode nunca ter sido salvo, mas apenas adotou alguns costumes cristãos. Mas pode ser também que seja um verdadeiro filho de Deus passando por um momento de negação e rebeldia. Lá no fundo ele sabe muito bem que Deus existe e que essa sua teimosia em andar errado é pecado. Deus irá tratar com ele em disciplina ou até tirá-lo do mundo se ele não servir mais como um testemunho.

David Platt prega um evangelho misturado com obras ao insistir em sua mensagem de reformas sociais. Querer que as pessoas ajudem os pobres como forma de ter a certeza de sua salvação não é o evangelho. Ainda que ele tenha a boa intenção de estar insistindo para que os verdadeiros salvos tenham obras como consequência da salvação, um incrédulo irá pegar a mensagem pelo avesso e procurar cada dia fazer mais caridade por achar que é o caminho da salvação, ou pelo menos de torná-la evidente. Se boas obras fossem evidência da salvação, os adeptos do espiritismo estariam “mais salvos” do que alguém que crê em Cristo e não tem o que mostrar.

A questão é que um limoeiro vai continuar dando limões se não for transformado em laranjeira. David Platt está pregando para odres velhos se encherem de vinho novo e isso não é por aí. As obras que Deus busca são aquelas avaliadas segundo os critérios divinos, não humanos. Quando os discípulos perguntaram das “obras” no plural Jesus respondeu da “obra” no singular, pois é desta que provêm todas as outras. Qualquer boa obra que não seja fruto do Espírito de Deus atuando na pessoa não passa de feno e palha e será queimada no Tribunal de Cristo, no dia em que as obras (e não a pessoa) dos salvos serão julgadas.

(Jo 6:28-29) “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou“.

Você diz que se pensarmos assim então precisaríamos admitir que o apóstolo João não acreditasse na salvação pela graça, pois escreveu:

“Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor… Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos… Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade… Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro… Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?… Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do diabo. Qualquer que não pratica a justiça, e não ama a seu irmão, não é de Deus… Porque esta é a mensagem que ouvistes desde o princípio: que nos amemos uns aos outros”. (1 João 4:8; 5:2; 2:4; 4:9-20; 3:10-11).

É impossível entender o que dizem as epístolas de João sem entender o novo nascimento e a nova vida em Cristo. João está falando da nova natureza e em como ela deve ser patente em nossa vida, isto é, exteriorizada em nosso andar diário, e não de uma melhoria ou aperfeiçoamento da velha natureza. A nova natureza não está apenas capacitada a viver assim, mas ela também não peca!

(1 João 5:18) “Sabemos que todo aquele QUE É NASCIDO DE DEUS não peca ; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca”.

A tese de David Platt chega a ser ingênua, quando não hipócrita, se levarmos em conta o fato de ele ser pastor de uma mega-igreja nos Estados Unidos. A ideia de dar tudo para os pobres é muito bonita em tese, mas na prática devemos agir com sabedoria. Distribua todos os seus bens com os pobres e em um mês estarão todos pobres de novo. Ele é jovem, inexperiente e recebeu de mão beijada o cargo que ocupa e até mesmo critica. Sim, ele fala mal da opulência da própria organização onde é empregado, mas obviamente não sai dela.

O argumento de que em Atos os cristãos vendiam tudo o que tinham e dividiam entre todos não procede e mostra um desconhecimento total do fato de o livro de Atos não ser um livro de doutrina, mas uma narrativa de uma época de transição entre o judaísmo e o cristianismo. Em Atos dos Apóstolos vemos exatamente isto, os Atos e às vezes Atos errados também.

Analisando especificamente o ato de vender tudo e distribuir, primeiro vemos que era entre os irmãos que eles faziam isso, e não com o mundo pagão em geral. Segundo, aquilo era uma ação espontânea e não uma ordenança ou obrigação, e acontecia em um momento em que a igreja vivia seu primeiro amor e desfrutava do poder de Deus agindo sem os impedimentos que hoje temos. Quais? O fato dos cristãos estarem divididos em milhares de seitas e o mal ter se infiltrado em seu meio. Hoje qualquer um se diz “irmão”, até o pregador da TV que só sabe pedir dinheiro. Você daria tudo a ele?

Um olhar cuidadoso verá que, mesmo no livro de Atos as condições iam mudando e se adaptando conforme o mal começava a se introduzir na igreja. Eles começam vivendo em comunidade, tendo tudo em comum e vendendo e distribuindo entre si seus bens:

(Atos 2:44-45) “E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister”.

Então vemos em Atos 4 que já não dividiam mais entre si, mas passaram a trazer aos apóstolos, para estes fazerem a distribuição. Lembrando mais uma vez que tudo acontecia dentro do círculo dos irmãos, e não era uma campanha para dividir tudo com todos os pobres dentre os pagãos. Entregue seus bens aos pobres necessitados do Taleban no Afeganistão e eles venderão tudo para comprar armas.

(Atos 4:32-35) “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns… Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha”.

Já no capítulo seguinte vemos o mal agindo e Ananias e Safira fazendo o que obviamente acontece em todo o coração humano: querer parecer mais do que é ou que faz mais do que realmente fez. Acaso não foi assim que terminaram as boas intenções de algumas organizações beneficentes mais antigas? Há muitas que hoje promovem jantares para homenagear os que contribuem, e às vezes esses eventos custam mais caro do que aquilo que vai efetivamente chegar nas mãos dos necessitados. Muitas ONGs gastam mais dinheiro com funções administrativas e de propaganda do que com os necessitados.

Mas vamos ver o que ocorre após do conhecido episódio de Ananias e Safira, que foi resolvido de forma radical com a morte dos que mentiram ao Espírito Santo. Em um período de grande poder no início da igreja, com os apóstolos fazendo sinais e milagres, havia também uma grande responsabilidade e uma grande perda quando esta falhasse. Não é à toa que os de fora já estavam relutantes em querer fazer parte daquela comunidade onde as consequências da mentira e dissimulação eram tratadas de maneira tão severa: com a morte dos mentirosos. Já pensou se a igreja hoje vivesse nesse mesmo poder?

(Atos 5:11-13) “E houve um grande temor em toda a igreja, e em todos os que ouviram estas coisas. E muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos…. Dos outros, porém, ninguém ousava ajuntar-se a eles; mas o povo tinha-os em grande estima”.

A passagem seguinte deixa muito claro que tudo aquilo era um processo: primeiro eles dividam tudo entre si mesmos, depois passaram a entregar aos apóstolos para que estes determinassem como dividir, e agora vemos que homens são designados especialmente para a tarefa, deixando assim os apóstolos livres para se dedicarem à Palavra. Isto porque eles já não estavam na mesma disposição do princípio e já agiam de forma egoísta.

O belo da passagem é que todos os que faziam parte da igreja eram judeus ou prosélitos convertidos a Cristo, mas alguns eram judeus helenistas, isto é, vindos de uma cultura grega. Estes estavam sendo prejudicados na distribuição dos recursos e se você reparar nos sete homens que foram escolhidos para cuidarem da tarefa, todos eles têm nomes gregos: Estevão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau. Mesmo em situações de falha do homem, Deus age em graça.

(Atos 6:1) “Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano. E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra”.

Acho que nem preciso dizer que isso deixa claro que ocorria um processo. Hoje, quando não temos mais apóstolos e nem as condições de poder e unidade que havia no princípio, não podemos ser ingênuos achando ser possível repetir o modo de vida da igreja primitiva.

Fazer o bem e administrar para os mais necessitados é algo que a gente faz individualmente em nosso exercício com o Senhor, e não algo que devemos impor sobre as pessoas. Você alega que David Platt prega uma mensagem radical como a que Jesus pregava, mas é preciso lembrar que nos evangelhos é o Reino que está sendo tratado, e quando o Reino for instalado na terra será radical ao ponto de ser penalizado com a morte aqueles que pecarem. Jesus então será o Rei e julgará com cetro de justiça.

Nós hoje somos membros do corpo de Cristo, somos igreja, a noiva do Cordeiro, que irá reinar com Cristo sobre Israel (este sim, estará no milênio na terra, a igreja não). Você alega também que o modo de vida de Paulo era radical, quando escrevia suas cartas da prisão, e não sentado confortavelmente na sala de uma mansão. Mas a questão é: será que as cartas que Paulo escrevia tinham o mesmo teor da pregação de David Platt? Seria fazer caridade, vender tudo e dar aos pobres, a mensagem principal de Paulo?

David Platt prega um evangelho conhecido como “Salvação por Senhorio”, insistindo na caridade. No fundo é muito parecido com a “Teologia da Libertação” que a Igreja Católica patrocinava nos anos 70 e 80. Seu livro “Radical” é basicamente um resumo do que Tim Keller apresenta em seu livro “Ministries of Mercy”, que inclusive tem um capítulo chamado “Radical Ministries” e é todo voltado ao estabelecimento do Reino de Cristo no mundo mediante o esforço dos cristãos, individualmente, e da Igreja como uma instituição beneficente.

Quem já ouviu falar de “Teologia do Domínio” percebe aonde essas ideias levam. Em um de seus sermões David Platt diz:

“Deus mede a integridade de nossa fé por nossa preocupação para com os pobres… Se não existe preocupação com os pobres, não existe integridade de fé; as duas coisas andam juntas… Se você não alimenta o faminto e não veste o despido você vai para o inferno”.

Na página 29 de seu livro “Radical” ele diz que Deus odeia pecadores, o que não é verdade. Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. Na página 37 o autor declara que “…este evangelho evoca uma rendição incondicional de tudo o que somos e de tudo o que temos a tudo o que Ele é”. Na página 39: “Jesus já não é mais alguém que devemos aceitar ou convidar para entrar (em nosso coração), mas alguém que é infinitamente digno de nossa imediata e total rendição… Pela primeira vez nós queremos Deus. Vemos nossa necessidade por ele, e o amamos. Buscamos por ele, e o encontramos, e descobrimos que ele é realmente a grande recompensa de nossa salvação. Entendemos que somos salvos não apenas para sermos perdoados de nossos pecados ou para termos a certeza da eternidade no céu, mas somos salvos para conhecer a Deus. Por isso ansiamos por ele. Nós o queremos tanto que abandonamos tudo para experimentarmos dele. Esta é a única resposta válida à revelação de Deus no evangelho”.

O erro é sutil, mas está aí. Tudo gira em torno de nós, nós, nós… No entanto a Palavra de Deus é clara em mostrar que somos salvos por graça, por meio da fé, e que isso não vem de nós, mas é dom de Deus, não das nossas obras para não nos gloriarmos nelas (Ef 2:8-9). Ao carcereiro que buscava salvação Paulo apenas convidou-o a crer no Senhor Jesus. Ao contrário do que diz David Platt, nós precisamos sim aceitar a Jesus, crer nele e pedir que ele faça em nós a sua obra.

Nas páginas 70-71 ele escreve: “A mensagem do cristianismo bíblico não é ‘Deus me ama e ponto final’, como se nós fossemos o objeto de nossa própria fé. A mensagem do cristianismo bíblico é ‘Deus me ama para que eu possa torná-lo conhecido entre as nações, tornar conhecido seus caminhos, sua salvação, sua glória, sua grandeza’. ‘Deus nos ama para o próprio bem dele no mundo’ e ‘Deus nos cria, nos abençoa e salva cada um de nós para um objetivo radical e global’“.

Pelo que ele diz não somos salvos porque éramos pecadores necessitados de salvação, e nem mesmo para o objetivo supremo que Jesus explicou à mulher samaritana, de sermos feitos adoradores de Deus, pois são adoradores que Deus busca. Na concepção de David Platt somos salvos para sermos agentes de Deus na melhoria do mundo. É como se Deus precisasse de funcionários para sua ONG poder funcionar.

Na página 193 ele diz: “Repare que eu não disse meramente para ‘dar’; eu disse para ‘sacrificar’“. O exemplo que ele dá é o de alguém vendendo sua casa para ir morar em uma mais barata e dando o dinheiro da diferença para a obra missionária. Isto saindo da boca de alguém no púlpito de uma mega-igreja extremamente high-tech e luxuosa não é muito diferente do Papa falando da opção pelos pobres sentado em um trono de ouro e calçando sapatos de cromo alemão.

O que a Bíblia diz sobre o ato de dar? (2 Co 9:7) “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, NEM POR CONSTRANGIMENTO ; porque Deus ama ao que dá com alegria”.

A “Salvação pelo Senhorio” que David Platt prega pode ser resumida assim: Se Jesus não é Senhor sobre sua vida e seus bens, então ele não é seu Salvador e você não está salvo. Obviamente ele confunde salvação com santificação prática e ainda tira da pessoa qualquer certeza da salvação eterna. Como posso eu saber se já entreguei tudo para os pobres, se já estou 100% sob o senhorio de Cristo? E aquelas moedinhas que esqueci no bolso da calça que está no armário?


O que significa “ligar” e “desligar”?

Sua dúvida surgiu após ler o livro “Um só corpo na prática”, especificamente na parte em que o autor fala do “ligar” e “desligar” associados ao episódio do homem em Corinto que foi colocado fora da comunhão (na primeira epístola) para depois Paulo sugerir que fosse readmitido à comunhão (na segunda epístola).

“Do mesmo modo, quando se trata de reverter uma ação de “desligar”, a assembleia local suspende a censura ou disciplina e “perdoa” (administrativamente falando) a pessoa arrependida, e o corpo todo acata isso e também expressa o mesmo perdão. Isto está incluído nas observações que Paulo faz em 2 Coríntios 2:7-11” - “Um só corpo na prática” - Bruce Anstey.

Você achou que um exemplo da assembleia ligando seria o caso de 1 Coríntios 5:11-13, e um exemplo da assembleia desligando seria 2 Coríntios 2:6-11, daí ter surgido a dúvida.

(1 Co 5:11-13) “Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais. Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? Os de fora, porém, Deus os julgará. Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor”.

(2 Co 2:6-11) “Basta-lhe a punição pela maioria. De modo que deveis, pelo contrário, perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza. Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor. E foi por isso também que vos escrevi, para ter prova de que, em tudo, sois obedientes. A quem perdoais alguma coisa, também eu perdoo porque, de fato, o que tenho perdoado (se alguma coisa tenho perdoado), por causa de vós o fiz na presença de Cristo; para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios”.

Na verdade o autor do livro está correto. “Ligar” e “desligar” não tem o sentido de “conectar” alguém à comunhão à mesa do Senhor e depois “desconectar” ou excomungar a pessoa. “Ligar” e “desligar” significam tomar uma decisão e reverter a decisão. Foi o que aconteceu na primeira passagem acima, quando a assembleia “ligou” ou tomou a decisão de afastar o ofensor e depois, na segunda passagem, foi aconselhada pelo apóstolo a “desligar” ou reverter aquela decisão e recebê-lo de volta. O sentido é “decretar” e “revogar o decreto” e não necessariamente precisa tirar a pessoa da comunhão à mesa do Senhor ou readmiti-la.

Uma decisão da assembleia, tomada em nome do Senhor Jesus, pode ter outras finalidades. Por exemplo, quando uma assembleia decide quais os dias os irmãos irão congregar e com que finalidade, ela está “ligando” aquela decisão. Depois, quando acham por bem alterar os dias ou horários, é “desligada” a decisão anterior e “ligada” a nova decisão. A disciplina de um irmão ou irmã pode ter também outros aspectos e nem sempre significar a exclusão da comunhão à mesa do Senhor. Um irmão ou irmã que esteja andando desordenadamente, como era o caso das viúvas em 1 Timóteo, que viviam visitando os irmãos para fazer fofocas.

(1Tm 5:11-13) “Mas rejeita viúvas mais novas, porque… aprendem também a viver ociosas, andando de casa em casa; e não somente ociosas, mas ainda tagarelas e intrigantes, falando o que não devem”.

Ou como era o caso daqueles que não queriam trabalhar e também viviam ociosos e se intrometendo na vida alheia.

(2Ts 3:10-11) “Porque, quando ainda convosco, vos ordenamos isto: se alguém não quer trabalhar, também não coma. Pois, de fato, estamos informados de que, entre vós, há pessoas que andam desordenadamente, não trabalhando; antes, se intrometem na vida alheia”.

Em casos como estes a assembleia poderia aplicar uma disciplina, com a autoridade que o Senhor lhe confere, para que essas pessoas deixassem de visitar os irmãos durante algum tempo, mesmo que continuassem em comunhão à mesa do Senhor. Também seria o caso de aplicar uma disciplina de silêncio para um irmão que estivesse insistindo em ensinar coisas que estivessem fora da Palavra ou que, mesmo sendo verdadeiras, estivessem causando intranquilidade e contenda entre os irmãos. Em casos assim a disciplina de excluir tais pessoas da comunhão à mesa do Senhor seria um passo posterior, caso todas as tentativas anteriores de disciplina não surtissem efeito. É claro que aqui não estamos nos referindo a casos de pecados graves e evidentes, como o ensino de má doutrina, furto, adultério, homossexualismo, prostituição, uso de drogas, violência, etc.

Resumindo, entenda sempre as expressões “ligar” e “desligar” como “decretar” e “revogar”, e não necessariamente como introduzir ou excluir alguém da comunhão. Em tempo: a assembleia tem poder e autoridade delegados pelo Senhor apenas para, em último caso, excluir a pessoa da comunhão à mesa do Senhor, nunca para exclui-la do corpo de Cristo. Ninguém pode ser excluído do corpo de Cristo, pois ele não permitiria que seus membros fossem arrancados de seu corpo. Tentar excluir do corpo (ou da igreja) era a prática medieval do catolicismo, quando o herege era excomungado e morto, mas isso não tem qualquer fundamento nas Escrituras.


A Bíblia é ou contém a Palavra de Deus?

A Bíblia É Palavra de Deus. Dizer que ela meramente “contém” a Palavra de Deus é desprezar a inspiração das Sagradas Escrituras e transformar o homem em juiz da Palavra ao invés de aceitar a Palavra como aquela que discerne os corações. O fato de alguns não entenderem ou aceitarem a Palavra de Deus os leva a criar a ideia de que a Bíblia “contém” a Palavra de Deus.

O argumento a favor dessa ideia é que na Bíblia encontramos palavras de homens e até de Satanás, mas os que assim argumentam estão perdendo de vista que foi Deus quem nos revelou quais foram essas palavras ditas por terceiros, portanto o documento continua sendo (e não meramente contendo) a Palavra de Deus.

A ideia é tão absurda quanto comprar um imóvel recebendo apenas um documento que “contém” a Escritura, ou seja, uma descrição do terreno, ao invés de exigir a própria Escritura de propriedade do terreno. O poder de um documento que “contém” a Palavra de Deus não é o mesmo de um que seja efetivamente a própria Palavra emitida por Deus, mesmo que ele tenha feito isso através de suas criaturas. Veja o que o próprio Jesus diz de TODAS as Escrituras (no caso o Antigo Testamento):

(Lc 24:44-45) “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos. Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras“.

Aqui ele chama a lei, os profetas e os Salmos de “as Escrituras”. Ele disse que esses livros SÃO as Escrituras, não que contém as Escrituras, e obviamente “Escrituras” aparece como sinônimo da Palavra de Deus. Mas onde Jesus chama de Palavra de Deus as Escrituras? Ao referir-se aos mandamentos ele disse:

(Mc 7:13) “Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes”.

A Palavra de Deus chega até nós na forma escrita e é sancionada pelo próprio Senhor, que considerava TODAS as Escrituras do Antigo Testamento (“a lei de Moisés, os profetas e os Salmos”) como a Palavra. Ele nunca disse que esses livros “continham” a Palavra, mas sim que eram a Palavra.

Abra no primeiro livro de Moisés, o Gênesis, e você encontrará uma mentira de Satanás dita a Eva. Seria a mentira de Satanás a Palavra de Deus? Não, mas o registro que Deus faz da mentira de Satanás é a Palavra de Deus. Caso contrário, como poderíamos acreditar no testemunho de Deus de que Satanás mentiu para Eva se colocássemos em dúvida o relato do jardim do Éden inspirado por Deus para que fosse registrado por Moisés?

Antes que alguém pense que apenas o Antigo Testamento tenha esse caráter de Palavra de Deus ou Escrituras, é bom ler 2 Pedro onde o apóstolo menciona os escritos de Paulo e os coloca no mesmo nível das demais Escrituras. Portanto da próxima vez que escutar alguém dizer que algo nas cartas de Paulo é mera opinião pessoal do apóstolo é bom ficar longe dessa pessoa, pois ela não crê na autoridade da Palavra de Deus.

(2 Pe 3:15-16) “…como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; Falando disto, como em todas as suas epístolas , entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras… ”.

Se a Bíblia meramente “contém” a Palavra de Deus, e não é toda ela a Palavra de Deus, então qual parte é e qual parte não é? Obviamente os homens gostam da ideia de poder julgar a Bíblia e dizer “Isto é opinião de Paulo…” ou “Isto não se aplica a mim…”. Além disso, como poderíamos dizer que a Palavra de Deus tem poder sem saber exatamente que palavra seria esta? Será que poderíamos atender à ordem de pregar a Palavra se ficássemos na dúvida do que exatamente pregar? Afinal, Jo 3:16 é a Palavra de Deus ou a palavra de João simplesmente repetindo o que ouviu dizer que Jesus teria dito a Nicodemos? Percebe o problema que se cria ao se colocar em dúvida um documento?

Portanto é preciso que o verdadeiro crente em Jesus tenha bem claro em sua mente que a Bíblia, isto é, o conjunto dos 66 livros inspirados que temos em mão, é a palavra de Deus e não apenas reúne palavras ditas por Deus ou contém a palavra de Deus. Se tomarmos a Bíblia da forma como querem os que acreditam que ela apenas contém a Palavra de Deus, esse livro deixará de ter qualquer autoridade sobre nossa vida, pois estaremos na confortável posição de poder selecionar o que vale e o que não vale para nós, tornando-nos juízes de Deus e não o contrário. Iríamos obedecê-la só quando nossa vontade coincidisse com ela.

Uma das grandes provas de ser a Bíblia a Palavra de Deus e não dos homens que Deus usou para escrevê-la é que o Antigo Testamento apresenta uma horrível coleção de erros e pecados do próprio povo que durante séculos foi o guardião dessa mesma Palavra, o povo de Israel. Se fossem palavras de homens eles teriam sido os primeiros a filtrar tudo o que lhes fosse contrário, deixando apenas aquilo que eles “considerassem” Palavra de Deus e não comprometesse a reputação daquele povo.

O mesmo pode ser dito dos apóstolos, que escreveram o Novo Testamento e são neles despidos de qualquer honraria humana, pois encontramos nos evangelhos, em Atos e nas epístolas muitos dos erros e falhas desses mesmos apóstolos e discípulos de Jesus. Por que eles não teriam suprimido essas partes desagradáveis como meros relatos incidentais e não como a fidedigna, inerrante e imutável Palavra inspirada por Deus?

Você disse que sua denominação acaba de mudar a declaração de fé, alterando de “…a Bíblia É a Palavra de Deus…” para “…a Bíblia contém a Palavra de Deus…”. Não é de surpreender que tenham feito isso, pois a cristandade como um todo caminha rumo à apostasia, que é o abandono da verdade, e obviamente isto está sendo feito em doses homeopáticas, uma mudança a cada dia, para que o engano possa ser assimilado por aqueles que seguem suas doutrinas. O que fazer num tempo de apostasia e erro? Apartar-se de toda iniquidade, e quando a Palavra de Deus fala de iniquidade, é bom lembrar que não existe maior iniquidade do que o abandono da verdade das Escrituras.

(Hb 4:12-13) “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar”.

(2Tm 2:19-22) “Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade. Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra. Foge também das paixões da mocidade; e segue a justiça, a fé, o amor, e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor”.

(2Tm 3:1-17) “Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos… Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te…. Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade. E, como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também estes resistem à verdade, sendo homens corruptos de entendimento e réprobos quanto à fé…. Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras , que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda a Escritura é divinamente inspirada , e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra”.


Como iniciar uma conversa?

Existem diferentes maneiras de se evangelizar, como a pregação pública ou a distribuição de folhetos impressos ou textos e vídeos pela Internet. Mas uma maneira eficaz é também a conversa pessoal, e vemos diversas vezes ela acontecer na Bíblia, como no caso do Senhor com Nicodemos e com a mulher samaritana, ou de Felipe com o eunuco.

A dificuldade pode estar em se iniciar uma conversa ou dirigi-la para o evangelho, caso ela já tenha sido iniciada para falar de assuntos diversos. Em minha última viagem dos EUA para o Brasil sentei-me ao lado de um cientista canadense que gostava de conversar e vi nisso uma oportunidade de falar a ele da salvação pela fé em Jesus.

Por ser bastante culto ele já conhecia a Bíblia e também muitos outros livros, religiões e filosofias. Nossa conversa foi toda em inglês com uma ou outra palavra em espanhol, pois ele falava 5 idiomas, inclusive um idioma africano nativo por ter morado e trabalhado como geólogo em um país da África.

Enquanto nós conversávamos, eu mentalmente buscava o Senhor por uma oportunidade de falar do evangelho. Acredito que seja este o sentido do “Orai sem cessar” (1Ts 5:17) e outras passagens que falam de uma contínua atitude de oração e dependência de Deus.

Tendo viajado a mais de 50 países, ele falou que em sua lista ainda faltava embrenhar-se nas selvas de Nova Guiné para conhecer os ex-canibais em seu habitat. Foi aí que enxerguei uma oportunidade, e esta é uma maneira bíblica de se iniciar uma conversa.

O Senhor, quando fez contato com a mulher samaritana, não começou logo de cara dizendo que ela vivia em pecado e precisava se converter. Antes ele buscou saber qual era o interesse dela naquele momento (água) e começou daí, colocando-se na condição de humildade ( “dá-me de beber” ) para depois despertar nela o desejo de uma “água” melhor: “Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva“ (Jo 4).

Lembrei-me de um livro que li há quase 30 anos, “O Totem da Paz” , de Don Richardson, um autor também canadense que viveu como missionário na Nova Guiné entre os sawis, uma tribo que na época (anos 60) ainda era de canibais. Como o cientista ao meu lado mencionou seu desejo de conhecer os estranhos costumes dos nativos da Nova Guiné, contei a ele do apuro passado pelo autor do livro que, depois de decifrar a língua da tribo e conseguir se comunicar com eles falando-lhes do evangelho, viu a possibilidade de ser transformado no próximo jantar dos aborígenes.

Ao contrário de ficarem impressionados com Jesus e seu sacrifício, os nativos passaram a considerar Judas um herói. Na cultura da tribo, quando alguém conseguia conquistar a amizade e a total confiança de uma pessoa, para depois traí-la, essa habilidade era grandemente valorizada e o traidor chamado de herói. Antes que você ache esse costume exótico, não se esqueça de que nós brasileiros somos famosos por nossa exaltação da malandragem. Os indígenas tinham até um nome para isso: “engordar o porco para o dia da matança”. O missionário logo percebeu que a hospitalidade com que ele, a esposa e os filhos tinham sido recebidos na tribo só podia indicar que não faltava muito para virarem comida dos canibais, e isso o deixou desesperado.

Mas a situação reverteu-se quando, durante a tentativa de ataque por uma tribo vizinha, o chefe da tribo inimiga atravessou o campo de batalha carregando um bebê e o entregou ao chefe da tribo onde morava o missionário. Este pegou um bebê de sua própria tribo e o entregou ao outro chefe e depois se abraçaram. A guerra iminente transformou-se em uma grande festa e amizade entre as tribos outrora inimigas.

Aquele era outro costume que o missionário não conhecia: quando uma tribo entregava um bebê para a outra, aquilo tinha o caráter de um tratado de paz. Enquanto o bebê fosse mantido vivo e saudável na outra tribo esta não podia ser atacada, e vice-versa. Por isso as crianças, chamadas de “crianças da paz” ou “filhos da paz”, eram tratadas como príncipes. Sua sobrevivência era o seguro que tinham de que podiam viver livres de ataques.

Don Richardson viu naquilo a oportunidade para mostrar o sentido do evangelho e reuniu os anciãos da tribo para falar-lhes de como Deus havia enviado o seu Filho ao mundo para nos salvar. Como o Filho ressuscitou e agora vive para sempre, Deus não irá mais “atacar” (ou condenar) aqueles que, pela fé, receberem o Filho ressuscitado.

Muitos nativos entenderam o verdadeiro sentido do evangelho e se converteram. Judas passou de herói a bandido, pois aos olhos dos nativos não havia gente pior do que alguém que fizesse mal ao “filho da paz”.

Contando a história dos costumes de uma tribo que o cientista desejava conhecer, ou seja, partindo de seu próprio interesse, apresentei o evangelho e sua reação foi deixar claro que era ateu e que não acreditava em um mundo espiritual. Para ele a noção de “vida eterna” estava em passar seus genes às próximas gerações. Ele, que durante anos, chegou a lecionar a teoria da evolução numa universidade, espantou-se por eu não acreditar em tal teoria (que ele afirma já não ser mais vista como teoria pela ciência).

A conversa então tomou o rumo do ateísmo e do evolucionismo, e cabe aqui um alerta: nunca se deixe levar pela direção ditada pelo seu interlocutor. Mesmo que aconteça, como aconteceu comigo, procure vez ou outra introduzir novamente a mensagem do evangelho na conversa. O incrédulo não quer escutar o evangelho e sempre irá apresentar algum argumento que mantenha você ocupado e uma das “bombas de fumaça” mais utilizadas será mexer com seu ego e fazer você partir para a defesa de suas posições pessoais.

Lembre-se de que você não está ali para defender sua honra, reputação, argumentos, religião, etc. Você está ali para apresentar a ele o evangelho da salvação. Não é uma competição em que você se empenha para ganhar o debate, mas levá-lo a perder a condenação eterna. É mister que ele ouça a mensagem do evangelho. Se você convencê-lo de que existe um Deus e de que a teoria da evolução está errada, tudo o que você terá conseguido é mais uma pessoa que irá para o lago de fogo acreditando na existência de um Deus Criador. O objetivo da evangelização não é tentar provar a existência de Deus e nem lutar contra uma teoria científica. A mensagem do evangelho é simples:

(1 Co 15:1-4) “Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão. Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras“.

Talvez você ache que esta breve mensagem (acima em maiúsculas) seja muito pouco para convencer um ateu evolucionista, mas se pensa assim é porque ainda não entendeu que o poder para a salvação não está em seus argumentos, mas no evangelho (boas novas), e o evangelho resume-se em “Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação” e tudo mais que está embutido aí, ou seja, a totalidade da Palavra de Deus. Se ele crer nisto com o tempo o resto virá no pacote.

(Rm 1:16) “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo , pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego”.

Ao contrário do que muitos pensam, Paulo NÃO está dizendo “não me envergonho de pregar o evangelho“, mas “não me envergonho do evangelho“. A diferença é enorme.

Por causa da timidez, você pode se envergonhar de sair numa praça distribuindo notas de cem dólares para as pessoas, mas você jamais se envergonharia das notas de cem dólares em si, pois sabe o valor delas. Mas, mesmo que você fosse a pessoa mais desinibida do mundo, teria vergonha de sair pela praça distribuindo notas de cem dólares desenhadas à mão em papel higiênico, pois nem você e nem ninguém levaria a sério um dinheiro assim. É do evangelho que Paulo não se envergonha, não do ato de pregá-lo.

Portanto, o poder não está na sua argumentação, na sua oratória, na sua desenvoltura, na sua sabedoria, nos diplomas de teologia que coleciona ou no seu conhecimento do grego e do hebraico, etc. O poder está no evangelho , nesta simples mensagem de que Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação. É isso que vai atingir o coração do incrédulo como um raio, porque é do céu que virá a energia e o poder para fazê-lo.

Por isso ao longo de toda a nossa conversa, que deve ter durado umas duas horas, eu nunca deixei de reintroduzir com diferentes palavras, analogias e em diferentes momentos a mesma mensagem: “Jesus morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação”. Esta notícia é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, e quando diz “primeiro do judeu, e também do grego (gentio)” está afirmando que a mesma mensagem serve tanto para os que buscam sabedoria (gregos) como para os que buscam sinais (judeus) (1 Co 1:22). Para ambos basta o evangelho, o resto (sabedoria, sinais ou seja lá o que for) é só glacê, mas o que salva mesmo é o bolo.

Como a conversa obviamente foi cheia de argumentos pró e contra o ateísmo e o evolucionismo, cuidei de responder mas sempre ciente de que não seriam minhas respostas ou contra-argumentos que tocariam o coração de meu interlocutor, mas sim o EVANGELHO (como já expliquei). Veja abaixo os principais pontos que conversamos, colocados aqui muito resumidamente:

Argumento : “Sou ateu”.

Resposta : Ateus não existem, pois Deus colocou a eternidade no coração do homem. “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem“ (Ec 3:11 ARA). Alguém só se torna ateu pela negação daquilo que traz no coração, que é um conhecimento inato de Deus. Por isso não perco meu tempo tentando argumentar longamente com um ateu e o trato como qualquer outra pessoa, sabendo que lá no fundo ele sabe que Deus existe. Ele SABE que é pecador e precisará dar contas de seu pecado a Deus.

Argumento : “Todas as religiões buscam por sensações, seja em transes, meditações, orações ou até alucinógenos”. Ele falava dos diferentes indígenas que conheceu e mencionou querer visitar os seguidores do “Santo Daime” da Amazônia, que bebem um alucinógeno (Timothy Leary pregava o uso do LSD para isso) como forma de alcançar outros níveis de consciência.

Resposta : O cristianismo não está baseado no que eu sinto, mas na PESSOA em quem eu creio que é Cristo. Ainda que eu não tenha qualquer sensação, veja qualquer manifestação ou ouça alguma voz ou trovoada, posso crer porque “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem“ (Hb 11:1). É aí que o evangelista pentecostal tem dificuldade, por sua fé estar tão carregada de visões, manifestações, curas, sensações, etc. Uma pessoa esclarecida não vai se deixar levar por pretensos “testemunhos” da TV. Quer um conselho? Evangelize com o puro evangelho.

Argumento : “Existem religiões mais antigas que o cristianismo e o próprio judaísmo, que já falavam de Adão e Eva, do dilúvio, dos sacrifícios, etc.”

Resposta : É claro que tudo isso já era conhecido antes mesmo de Moisés escrever o Pentateuco! Afinal, todo esse conhecimento, ainda que muitas vezes distorcido, tem uma única origem: Deus. Todos os povos ainda retêm reminiscências do Éden, do dilúvio e de muitas outras coisas que foram passadas de geração a geração. Tal argumento não invalida o cristianismo, mas só ajuda a mostrar sua veracidade. Se nenhum outro povo antigo tivesse falado dessas coisas aí poderíamos pensar que tudo não passa de criação de Moisés. Outra dica: evite bater de frente com os argumentos dos incrédulos, mas pegue neles algum elemento comum e parta daí, como Paulo fez com o “altar ao Deus desconhecido” dos gregos, ao invés de gastar saliva falando mal das centenas de falsos deuses que eles adoravam (Atos 17:23). O próprio Don Richardson (autor de “O Totem da Paz”) tem um livro excelente sobre o assunto, “O Fator Melquisedeque”.

Argumento : “A ciência já provou a evolução por todas as evidências já encontradas nas diferentes camadas geológicas”.

Resposta : Este pensamento não é científico, porque a ciência nunca pode chegar a uma conclusão sem uma experimentação, ou seja, ver acontecer, medir, cheirar, pesar, etc. Isto é impossível de ser conseguido na teoria da evolução. Além disso, todo cientista deve ter a mente aberta, pois ciência é como moda: na década de 70 achávamos estar na última moda, usando calças boca-de-sino listradas e cabelos longos ou black-power. Hoje rimos das fotos. Daqui a 40 anos os cientistas irão rir das fotos de muitas conclusões que tiraram em 2013 achando que elas eram a última bolacha do pacote.

Argumento : “Você é cristão porque nasceu em um país cristão e foi condicionado a acreditar que existe um Deus e tudo mais. Se tivesse nascido num país muçulmano seria muçulmano e se tivesse nascido na Índia acreditaria em muitos deuses”.

Resposta : Em todas as sociedades as pessoas se convertem a Cristo, independente da cultura em que foram criadas. O mesmo argumento do ateu, porém, vale para o ateísmo. Alguém só é ateu por ter nascido em uma sociedade judaico-cristã fortemente influenciada pelo pensamento grego que incluía em sua filosofia o ateísmo de Protágoras e o ceticismo de Aristóteles, que escreveu que “os homens criam deuses à sua própria imagem”.

Argumento : “Se você crê na Bíblia então deveria vender sua filha como ensina o Pentateuco ou apedrejar seu filho”.

Resposta : Sim, eu faria isso dentro do contexto, da cultura e das circunstâncias do Pentateuco, mas como vivo hoje dentro do cristianismo (a dispensação da graça de Deus) não devo fazê-lo. Mesmo o pensamento ateísta se baseia na cultura judaico-cristã para decidir o que é certo e o que é errado. O que faz um ateu pensar que seja errado vender a filha como escrava ou apedrejar um filho? De onde tirou tal ideia? Há muitas coisas que aqui e agora aceitamos como normais que jamais seriam normais em uma sociedade ou época diferente. Na sociedade moderna ocidental que se afasta a passos largos da moral cristã é normal homens e mulheres terem relações sexuais fora do casamento, mas isto seria impensável no Afeganistão. Porém lá e em outros lugares é perfeitamente normal para os radicais islâmicos castrar meninas, extraindo seu clitóris para não sentirem prazer, algo abominável aos olhos ocidentais.

Talvez neste ponto você esteja esperando eu dizer que o cientista ao meu lado caiu em prantos, reconheceu-se pecador e se converteu a Cristo. Não, nada disso aconteceu, mas quando ele disse que jamais acreditaria nas coisas que lhe falei, disse a ele que Deus poderia fazer com que cresse no evangelho, e aí ele não teria como escapar. Quando pregamos o evangelho não devemos nos preocupar com os resultados, pois existe ALGUÉM que está mais preocupado com isso do que nós jamais poderíamos estar. É Deus quem convence um pecador e é Deus quem salva, portanto devemos deixar nas mãos dele. Não devemos querer converter as pessoas com nossa oratória ou capacidade de persuasão, porque se conseguirmos ela terá se convertido apenas exteriormente e pelo poder da carne, não do Espírito Santo de Deus.

É errado querer colecionar números e troféus, do tipo “tantas pessoas se converteram com minha pregação” ou “pesquei um peixe grande” (alguns usam esta expressão para se gabar de ter convertido algum rico ou famoso). Quando lemos Paulo dizer “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus” (1 Co 3:6) entendemos que ninguém faz a obra de Deus sozinho. Se aquele homem porventura vier a se converter após aquele nosso encontro eu posso ter sido apenas mais uma pedrinha em um grande mosaico de pessoas que Deus usou. Talvez ele tenha escutado o evangelho de sua mãe ou na escola dominical, mais tarde recebeu um folheto evangelístico de alguém ou ouviu uma pregação no rádio ou… as possibilidades são infinitas e ninguém deveria querer se gabar de ter sido o único meio usado por Deus.

Eu particularmente acho que a mensagem encontrou algum cantinho no coração e na mente de meu interlocutor e sua reação demonstrou isso. Quando uma pessoa é confrontada com o evangelho da graça sua reação é a mesma de Adão e Eva no Éden: fazer para si aventais de folhas de figueira para cobrir sua nudez diante de Deus. Os inúteis aventais de folhas geralmente são costurados por boas obras apresentadas pela pessoa que ouve o evangelho, algo do tipo “eu vou à igreja”, “eu ajudo os pobres”, etc. No caso de meu interlocutor ateu percebi um avental de folhas quando ele começou a se justificar dizendo que, apesar de não acreditar em Deus, tinha um senso de espiritualidade no sentido de deixar seu DNA para a posteridade e praticar yoga todas as manhãs, fazer meditação e procurar ser uma boa pessoa e salvar o planeta. Achei esse avental um bom sinal de que sua consciência havia sido alcançada e oro para que meu amigo de viagem um dia também chegue ao destino final que Cristo me reservou por sua obra na cruz: o céu.

Eu poderia continuar aqui com muito da conversa que tive com ele, mas sairia do foco deste texto que é a abordagem e início de conversa na evangelização pessoal.


A Bíblia incentiva a venda da filha como escrava?

As palavras “escrava” e “escravidão” causam espécie em quem logo pensa nos horrores do tráfico e escravidão de negros na história recente do mundo e no Brasil colônia. Mas nos tempos Bíblicos a classe de escravos tinha outro status e alguns eram mais privilegiados do que muitos operários modernos que trabalham em condições precárias. O eunuco de Atos 8 era um tipo de escravo, porém com um cargo palaciano, servos e uma carruagem à sua disposição.

Fica muito difícil entender como era a escravidão nos tempos de Moisés quando Deus lhe deu o texto do Pentateuco, mais especificamente Êxodo 21:1-11, que é muito usado pelos céticos na tentativa de desacreditar a Bíblia. No entanto, a meu ver, o uso desta passagem com esta intenção só serve para desacreditar o próprio cético, por demonstrar sua completa ignorância em antropologia e história da humanidade.

Por exemplo, a mesma passagem que regulamenta a prática é clara em afirmar que “quem ferir alguém, de modo que este morra, certamente será morto” (Ex 21:12). O Novo Testamento também dá diretrizes para o tratamento humano dos escravos: “Vós, senhores, fazei o que for de justiça e equidade a vossos servos [escravos], sabendo que também tendes um Senhor nos céus” (Cl 4:1). A escravidão moderna (Brasil colônia e outros países) dava ao senhor dos escravos direito sobre a vida e a morte de seus escravos, os quais eram tratados como meros animais.

Outra evidência da singularidade da escravidão nos tempos bíblicos do Antigo Testamento é o fato dos patriarcas de 4 tribos - Dã, Naftali, Gade e Aser - serem filhos das escravas de Raquel e Lia (chamadas de servas ou concubinas de Jacó), Zilpa e Bila (Gn 29 e 30). O próprio Jacó foi obrigado por Labão, seu sogro, a comprar suas esposas Raquel e Lia.

Nem precisamos voltar alguns milênios no tempo para entender a quê estou me referindo. Nos anos 1990 estive em Portugal e conheci um irmão em Cristo, de origem alemã, que era casado com uma mulher da África do Sul. Até aí tudo parece muito normal, exceto pelo fato de que ele precisou comprar sua esposa para poder desposá-la. Ela pertencia a uma das muitas tribos da África e o costume tribal exigia que o pretendente comprasse a esposa de seu pai. Aquela mulher havia custado a meu amigo, algumas cabeças de gado e outros objetos de valor.

Eu e você ficaríamos horrorizados com tal ideia. Quem de sã consciência colocaria sua filha à venda? Mas experimente enxergar o costume tribal por outras lentes. Do ponto de vista tribal, a filha tem um valor tão alto para seu pai que ele se sente no direito de exigir um pagamento de alto valor por ela. Ao olhar o costume da sociedade moderna, aquele pai poderá pensar: “Que horror! Nos países modernos as filhas não têm qualquer valor aos olhos de seus pais! Eles as entregam de graça!”. Vamos ao texto bíblico:

(Ex 21:2-12) “Se comprares um escravo hebreu, seis anos servirá; mas, ao sétimo, sairá forro, de graça. Se entrou solteiro, sozinho sairá; se era homem casado, com ele sairá sua mulher. Se o seu senhor lhe der mulher, e ela der à luz filhos e filhas, a mulher e seus filhos serão do seu senhor, e ele sairá sozinho. Porém, se o escravo expressamente disser: Eu amo meu senhor, minha mulher e meus filhos, não quero sair forro. Então, o seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta ou à ombreira, e o seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre. Se um homem vender sua filha para ser escrava, esta não lhe sairá como saem os escravos. Se ela não agradar ao seu senhor, que se comprometeu a desposá-la, ele terá de permitir-lhe o resgate; não poderá vendê-la a um povo estranho, pois será isso deslealdade para com ela. Mas, se a casar com seu filho, tratá-la-á como se tratam as filhas. Se ele der ao filho outra mulher, não diminuirá o mantimento da primeira, nem os seus vestidos, nem os seus direitos conjugais. Se não lhe fizer estas três coisas, ela sairá sem retribuição, nem pagamento em dinheiro. Quem ferir alguém, de modo que este morra, certamente será morto”.

O sentido do texto não é de incentivar a escravidão, mas de regulamentar uma prática existente na época e perfeitamente aceita na sociedade de então. Seria algo como o chefe da tribo da esposa de meu amigo estabelecer preços mínimos e máximos para a compra e venda de esposas para evitar excessos ou a depreciação da mulher.

Lembre-se de que o próprio Moisés, e seu antecessor José, haviam sido escravos. Moisés era filho de escravos e foi adotado pela princesa do Egito, e José, escravizado e vendido por seus irmãos, vivia como um mordomo de luxo na casa de seu senhor Potifar, chefe da guarda de Faraó, tendo sido inclusive alvo de tentativa de sedução pela esposa de seu dono. O escravo José alcançaria mais tarde o posto de vice-rei do Egito, algo impensável em termos da escravidão moderna cujo critério era a cor da pele. Descobertas recentes revelam que até os construtores das pirâmides não eram escravos vivendo em condições miseráveis, mas uma classe de servos qualificados com sua própria vila (o equivalente às vilas operárias modernas) com uma estrutura social bastante organizada que incluía padarias e cervejarias.

Se observar a primeira parte do texto de Êxodo verá que fala de escravos homens. Qualquer judeu podia se tornar escravo de vontade própria para pagar uma dívida ou restituir o produto de um roubo. Trabalhava por seis anos e ficava livre no sétimo. Havia um contrato, como quando você assina ao fazer um empréstimo bancário. Você fica “escravo” da instituição até ter devolvido o que tomou e pode sofrer penas severas caso não o faça. A diferença é que o escravo hebreu tinha por lei o limite de seis anos para servir, saindo depois livre, o que não acontece com a maioria das pessoas escravas de dívidas bancárias.

O trecho também regulamenta como proceder caso o escravo fosse casado de antemão ou viesse a se casar com uma escrava de propriedade de seu senhor. Não devemos perder de vista que o Antigo Testamento foi escrito também para nosso ensino e apresenta tipos e figuras de Cristo, uma das quais é este escravo que, por amor de sua esposa, prefere permanecer para sempre servindo seu Senhor a sair livre. Para isso ele se submete a carregar em seu corpo a marca de seu amor, no caso o furo feito em sua orelha com uma sovela, a qual marcava também a madeira da ombreira ou batente da porta da casa de seu Senhor.

Não é preciso muito para perceber que Cristo, por amor da Igreja, deixou seu corpo ser furado no madeiro e hoje, mesmo ressuscitado, leva em si as marcas dos cravos e da lança do soldado, constituindo-se assim na única pessoa que terá cicatrizes na eternidade.

“Sacrifício e oferta não quiseste; as minhas orelhas furaste ; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste” (Sl 40:6 ARCA).

O mesmo para o caso de uma mulher, exceto que ela não poderia sair livre se o seu “dono” tivesse se casado com ela, o que indica que o texto está apenas regulamentando uma das situações em que uma mulher poderia ser tomada como esposa. Leia o texto e verá que não se trata de uma ordem para escravizar, mas de uma regulamentação para garantir à serva (que é o significado da palavra aqui) certos direitos.

Se passearmos pelo Novo Testamento encontraremos escravos sendo tratados de maneira humana e digna, muito diferente da escravidão colonial. Em Mt 8 um centurião procura por Jesus para curar seu escravo e o desejo do oficial romano demonstra que para ele o escravo não era um mero objeto, mas uma pessoa importante na estrutura familiar. em Mateus 12 Jesus é chamado de escravo (significado da palavra “servo” em algumas traduções) na citação feita do profeta Isaías: “Eis aqui o meu servo [ escravo ], que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se compraz”.

Você poderá fazer um exercício bem proveitoso se substituir a palavra “servo” de muitas passagens do Novo Testamento por “escravo”, que é o sentido original, obviamente dentro do contexto de escravidão que expliquei aqui. Os tradutores usaram a expressão “servo” para suavizar o sentido, provavelmente por entenderem a distinção entre o escravo antigo e o moderno:

(Mt 24:45-46) “Quem é, pois, o escravo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele escravo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim”.

(Lc 1:69) “E nos levantou uma salvação poderosa na casa de Davi seu escravo“.

(Rm 1:1) “Paulo, escravo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus”.

(Fp 2:7) “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de escravo , fazendo-se semelhante aos homens;”.

(Tg 1:1) “Tiago, escravo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde”.

(2 Pe 1:1) “Simão Pedro, escravo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”.

(Jd 1:1) “Judas, escravo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo”.

(Ap 1:1) “Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João seu escravo ;”.

(Ap 15:3) “E cantavam o cântico de Moisés, escravo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos santos”.

Se você é um crente em Jesus, é bom ir se acostumando com a ideia de ser um escravo de Deus. A menos que você considere injusta a escravidão da qual Moisés, João, Judas, Pedro, Tiago e Paulo faziam parte e esteja entre os que não se submetem à Bíblia, a Palavra de Deus, e a nenhum tipo de submissão ao Senhor.


Existe alguma profecia sobre o novo Papa?

O binóculo do cristão deve se manter fixo na volta de seu Senhor para buscar a igreja. O apóstolo Paulo já esperava por este evento quando escreveu: “…depois nós, os vivos, os que ficarmos , seremos arrebatados juntamente com eles [Os que morreram em Cristo e ressuscitarão], entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor” (1Ts 4:16). Portanto qualquer especulação ou pseudo profecia sobre a troca do Papa é perda de tempo.

Uma noiva que esperasse pelo noivo que desejasse muito encontrar ficaria com os olhos fixos na porta de desembarque do aeroporto, pois ele poderia sair por ali a qualquer momento. Ela não estaria ocupada com as notícias nos jornais na banca do aeroporto. Seus olhos e expectativas estariam fixados naquele que ela tanto ama e almeja encontrar. Assim deve ser com o cristão, mas há outra razão para não perder tempo com os eventos dos jornais na banca do aeroporto do mundo, na tentativa de fazê-los casar com a profecia bíblica: o relógio profético está parado.

Você não encontra no Antigo Testamento nenhuma referência à Igreja, que era um mistério reservado para ser revelado primeiramente a Paulo e aos outros apóstolos apenas nesta dispensação da graça de Deus (Ef 3). A profecia bíblica tem aplicação direta a Cristo, o Messias, e a Israel, o povo terreno de Deus. No momento em que o Messias foi rechaçado e morto por seus próprios irmãos abriu-se uma espécie de parêntesis no tempo profético e é neste hiato profético que vivemos agora. As coisas profetizadas no Antigo Testamento dizem respeito a antes e depois do período da igreja na terra. Veja esta profecia de Daniel:

(Dn 9:24) “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniquidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo”. Ou seja, Deus está revelando a Daniel que até tudo ser resolvido com respeito a Israel, até Cristo voltar para reinar, se passarão “setenta semanas” ou 490 anos. Este tempo é dividido em 3 partes.

(Dn 9:25) “Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém…”. A ordem foi dada por Artaxerxes em 445 A.C. “…até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos”. As setenta semanas aparecem divididas em dois períodos, um de 7 semanas [49 anos] e outro de 62 semanas [434 anos]. Nas primeiras 7 semanas [49 anos] Jerusalém foi reconstruída.

(Dn 9:26) “E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo…”. Aqui fala da morte do Messias, Jesus, ocorrida 434 anos após a reconstrução de Jerusalém. “… E o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações”. Esta é a destruição da cidade e do Templo, o que ocorreu no ano 70 da era cristã. A cidade e o templo foram destruídos pelos romanos, “o povo do príncipe que há de vir” , uma alusão ao anticristo.

(Dn 9:27) “E ele [o anticristo] firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador”. Repare que as 70 semanas de anos foram divididas em 7 semanas para reconstrução da cidade, 62 semanas até o Messias ser “tirado”, e finalmente a última semana [7 anos] quando esse príncipe fará cessar o sacrifício e ocorrerá “a consumação” ou o fim.

Se você fizer as contas, verá que são perfeitamente identificáveis na história as primeiras sete semanas e a outra porção de 62 semanas, mas não a última, pois ainda não ocorreu. Entre a retirada do Messias e o dia de hoje já se passaram mais de dois mil anos que não aparecem no cálculo porque era justamente o período em que Deus iria encaixar a sua Igreja, o “segredo” ou “mistério” que estava escondido da profecia dirigida a Israel. A retomada das tratativas com Israel só pode ocorrer se a Igreja for tirada de cena, já que ela não tem nada a ver com Israel. Isto ocorrerá no arrebatamento.

Portanto o arrebatamento já poderia acontecer a qualquer momento neste período da Igreja que começou no dia de Pentecostes, em Atos 2, já que não existia nada que precisasse se cumprir profeticamente entre a retirada do Messias e o início da última semana. No final da última semana Cristo vem para reinar e traz consigo justamente aqueles que foram arrebatados: “Para confirmar os vossos corações, para que sejais irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo com todos os seus santos“ (1 Ts 3:13).

Talvez você mencione passagens proféticas dos evangelhos, como Mateus 24 e 25, e elas estão corretamente inseridas ali porque os evangelhos ainda fazem parte das coisas referentes a Israel (o Messias ainda não tinha sido morto e ressuscitado). O livro de Apocalipse, este sim, traz algo da igreja até o capítulo 3, mostrando nas sete cartas às sete igrejas o caráter das sete épocas históricas pelas quais a igreja passaria, mas veja que ali também tudo está conectado a terra, ou seja, as sete cartas falam de forma geral da casa de Deus que é o caráter exterior da igreja que inclui salvos e perdidos, trigo e joio. Nessas cartas o catolicismo romano pode ser visto representado em Tiatira, mas nada ali fala do Papa.

Se os acontecimentos mundiais parecem ter algo a ver com as profecias bíblicas referentes a Israel, no máximo eles revelam que o palco está sendo montado, mas a peça ainda não começou e nem começará antes da retirada da Igreja da terra e do Espírito Santo, que é o que retém a revelação do anticristo e da livre ação de Satanás neste mundo. Este será expulso do céu e descerá a terra trazendo consigo todo o seu exército de potestades celestiais para perseguir “a mulher” (Israel, representado no remanescente judeu fiel) que deu à luz o “varão” que há reger o mundo (Cristo).

Após o arrebatamento permanecerão aqui diferentes classes de pessoas: um remanescente judeu que irá se converter durante os sete anos que precederão a vinda de Cristo ao mundo (antes disso ele terá vindo nos ares, sem tocar a terra, para buscar a igreja), também identificados em Mt 25:40 como “meus pequeninos irmãos” , os “bodes” , que terão perseguido e atormentado esses “pequeninos irmãos” (e entre os “bodes” inclua-se a grande maioria dos hoje conhecidos como judeus que continuam em sua rejeição contra o Messias e também gentios) e as “ovelhas” , que serão gentios dentre todas as nações que acolherão os “pequeninos irmãos” , esse remanescente fiel ao Senhor que é o assunto de Mateus 24 (os que perseveram até o fim para que sua carne ou corpo entre a salvo no reino milenial de Cristo na terra).

Um pouco antes de Cristo colocar os seus pés neste mundo para julgar as nações um grande sistema responsável pela perseguição e martírio do remanescente judeu fiel ( “pequeninos irmãos” ) terá sido destruído por seus próprios associados judeus e gentios. Falo da “grande meretriz” , cuja visão causou espanto ao apóstolo João por ele não esperar tal coisa: aquela que devia representar a noiva de Cristo surgiu diante de seus olhos na visão como uma grande prostituta montada sobre uma besta (o sistema civil). E assim será: a cristandade como um todo (inclua-se aí católicos e protestantes) formada pelo joio, que não subiu no arrebatamento com os verdadeiros salvos (o “trigo” ), será um dos principais instrumentos do anticristo na perseguição do remanescente fiel. Pode ser que aí esteja incluído o Papa da vez, porém unido com outros líderes e seguidores de diferentes grupos “cristãos”, além obviamente dos judeus apóstatas.

Mas isso será por um tempo, pois em Apocalipse 18 vemos a “grande meretriz” derrubada da besta e destruída. Ou seja, aquela “forte cidade” deste mundo, a corrupta “Babilônia” (em contraste com a cidade santa que desce do céu no final do livro), a grande meretriz (em contraste com a noiva de Cristo) será julgada pelos mais de dois mil anos de volúpia e engano. Leia o capítulo 18 de Apocalipse junto com a carta à igreja de Laodiceia no capítulo 3 e verá que a característica de riqueza, poder e vanglória da cristandade aparece em ambas, já que Laodiceia representa o último estado da igreja no mundo (mais uma vez entenda que as cartas falam do estado da cristandade em sua responsabilidade para com Deus em seu testemunho no mundo). Esta volúpia por riquezas e poder, que antes parecia marca registrada do catolicismo, já é parte integrante dos diversos grupos que compõem a cristandade professa e aquele será o seu juízo como sistema. No presente momento os verdadeiros salvos estão espalhados dentro e fora dessa grande massa de organizações e denominações cristãs. A seleção entre o que é joio e o que é trigo se dará no arrebatamento da igreja.

Portanto, voltando à sua dúvida, o Papa atual e futuro (se der tempo) nada mais é do que um mero peão levado pelas circunstâncias deste grande tabuleiro que é o mundo, mas o xeque-mate que criará o divisor de águas entre salvos e perdidos na presente dispensação será o arrebatamento da igreja, o qual pode ocorrer a qualquer momento. Depois disso apenas os que não ouviram o evangelho poderão ser salvos. Portanto, aponte seus binóculos para o NOIVO, pois a qualquer momento você poderá ouvir o chamado para o embarque rumo ao céu.


Em 1948 cumpriu-se a profecia da volta de Israel?

Você disse que discorda de algo que escrevi, quando mencionei que as profecias que falam da volta de Israel à sua terra ainda não se cumpriram. A verdade é que a “volta” que a história registra em 1948, e que você acredita como sendo o cumprimento profético, não é a mesma que a Bíblia menciona nas várias profecias. Sim, a profecia bíblica mostra que Israel deveria voltar à sua terra depois de séculos de exílio, mas o que aconteceu em 1948 não é a mesma coisa. A volta da qual as profecias falam ainda está para se realizar, e quando isso acontecer será um Israel convertido a Deus e reconhecendo seu Messias que voltará a habitar na terra prometida, logo antes da inauguração do reino milenial de Cristo. Vamos examinar as principais passagens usadas por pessoas que tentam “provar” que a profecia bíblica se realizou.

(Am 9:14-15) “E trarei do cativeiro meu povo Israel, e eles reedificarão as cidades assoladas, e nelas habitarão, e plantarão vinhas, e beberão o seu vinho, e farão pomares, e lhes comerão o fruto. E plantá-los-ei na sua terra, e não serão mais arrancados da sua terra que lhes dei, diz o Senhor teu Deus”.

Não é preciso analisar muito o contexto para perceber que o que vemos em Israel hoje não é o cumprimento da profecia. Os versículos anteriores dizem:

“Porque eis que darei ordem, e sacudirei a casa de Israel entre todas as nações, assim como se sacode grão no crivo, sem que caia na terra um só grão. Todos os pecadores do meu povo morrerão à espada, os que dizem: Não nos alcançará nem nos encontrará o mal. Naquele dia tornarei a levantar o tabernáculo caído de Davi, e repararei as suas brechas, e tornarei a levantar as suas ruínas, e o edificarei como nos dias da antiguidade” ( Am 9:9-11).

Repare na frase: “Todos os pecadores do meu povo morrerão à espada”. A Palavra de Deus está se referindo aos que pertencem ao povo de Deus, porém são rebeldes, ou seja, exatamente o povo que retornou a terra em 1948 e lá permanece até hoje. Um povo rebelde e ainda culpado de ter rejeitado e crucificado seu Messias, e não o que é descrito na profecia, que fala de um tempo quando o Senhor voltará para estabelecer o seu reino de mil anos.

Aí sim o verdadeiro Israel, o remanescente de judeus fiéis que se converterá após o arrebatamento da Igreja, será estabelecido em sua terra para nunca mais sair. Aí sim reedificarão as cidades assoladas, habitarão nelas, plantarão vinhas e “não serão mais arrancados da sua terra que lhes dei” , diz a profecia. Um conhecimento amplo da profecia revela que a terra de Israel será ainda assolada por guerras e finalmente pelo Rei do Norte que a devastará, antes de ser destruído pelo Senhor. É essa terra devastada que será reconstruída no final.

Outra profecia muito usada como “prova” de que Israel já voltou segundo o previsto na Bíblia é o capítulo 37 de Ezequiel, que fala do vale cheio de ossos secos que voltam à vida. O versículo 11 deixa claro não se tratar do que existe hoje: “Então me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel“ (Ez 37:11). O povo que hoje habita a palestina é formado pelas tribos de Judá e Benjamim, enquanto as dez tribos estão dispersas. A divisão ocorrida nos dias de Jeroboão ainda permanece e no Antigo Testamento Deus faz distinção entre “Israel” (as dez tribos) e “Judá” (Judá e Benjamim, que permaneceram em Jerusalém). O capítulo 37 fala de “toda a casa de Israel” e certamente não é o povo completo que vemos hoje na Palestina.

Basta ver os últimos versículos do capítulo, que falam de Deus fazer de todas as tribos “uma nação na terra” , congregada “de todas as partes” , fazendo com que “um rei será rei de todos eles, e nunca mais serão duas nações, nunca mais para o futuro se dividirão em dois reinos”. Acaso é isto o que se vê em Israel hoje, com seu povo rebelde e alheio ao Messias? Como alguém poderia tentar identificar o povo que ali está com aquele do qual a profecia fala: “E meu servo Davi será rei sobre eles, e todos eles terão um só pastor, e andarão nos meus juízos e guardarão os meus estatutos, e os observarão“. Ora, os judeus que hoje vivem na Palestina condenaram o verdadeiro Davi à morte e ainda não se arrependeram disso! E o capítulo termina: “E os gentios saberão que eu sou o Senhor que santifico a Israel, quando estiver meu santuário no meio deles para sempre“. Tudo o que hoje existe no local não é o santuário ou Templo de Deus, mas uma mesquita muçulmana.

Outra profecia que se tenta aplicar ao retorno de Israel a terra em 1948 é Isaías 66: “Antes que estivesse de parto, deu à luz; antes que lhe viessem as dores, deu à luz um menino. Quem jamais ouviu tal coisa? Quem viu coisas semelhantes? Poder-se-ia fazer nascer uma terra num só dia? Nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos” (Is 66:7-8).

Por ter sido o atual estado de Israel fundado por decreto, ou seja, em um dia, tenta-se aplicar esta profecia ao ocorrido em 1948, mas basta ler o restante do capítulo para perceber que a profecia está falando do estabelecimento de Judá em obediência e santificação em sua terra depois da grande tribulação, quando Cristo voltar para estabelecer o seu reino. Então as outras tribos também serão juntadas a Judá e Benjamim para que todo o povo esteja completo. O estabelecimento de Israel em sua terra será uma obra de Deus, não das Nações Unidas, e será algo definitivo. Como poderia o povo que agora vive na Palestina achar que foi colocado ali pela mão do Messias que eles próprios rejeitaram? Pergunte a qualquer judeu se ele acredita que foi Jesus quem os levou de volta a terra e você saberá a resposta.

Outra passagem usada como argumento de que a volta de Israel a terra em 1948 foi profética é Jeremias 16: “Portanto, eis que dias vêm, diz o Senhor, em que nunca mais se dirá: Vive o Senhor, que fez subir os filhos de Israel da terra do Egito. Mas: Vive o Senhor, que fez subir os filhos de Israel da terra do norte, e de todas as terras para onde os tinha lançado; porque eu os farei voltar à sua terra, a qual dei a seus pais” (Jr 16:14-15).

Fica fácil entender este capítulo se lermos o capítulo posterior que fala do espírito daqueles que herdarão a terra, em contraste com os que Deus rejeitará. “Se vós diligentemente me ouvirdes, diz o Senhor , não introduzindo cargas pelas portas desta cidade no dia de sábado, e santificardes o dia de sábado, não fazendo nele obra alguma, Então entrarão pelas portas desta cidade reis e príncipes, que se assentem sobre o trono de Davi, andando em carros e em cavalos; e eles e seus príncipes, os homens de Judá, e os moradores de Jerusalém; e esta cidade será habitada para sempre” (Jr 17:24-25). Acaso é esta a disposição de coração daqueles que habitam o atual estado de Israel? Longe disso. Em suas bocas ainda ecoa a frase de Lucas 19:14 “Não queremos que este reine sobre nós” e a sentença que eles próprios proferiram contra si mesmos quando crucificaram a Cristo: “O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos” (Mt 27:25).

Mais uma profecia que se tenta provar já ter se cumprindo com a fundação do estado de Israel em 1948 é Ez 34:11-15: “Porque assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu, eu mesmo, procurarei pelas minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; e livrá-las-ei de todos os lugares por onde andam espalhadas, no dia nublado e de escuridão. E tirá-las-ei dos povos, e as congregarei dos países, e as trarei à sua própria terra, e as apascentarei nos montes de Israel, junto aos rios, e em todas as habitações da terra. Em bons pastos as apascentarei, e nos altos montes de Israel será o seu aprisco; ali se deitarão num bom redil, e pastarão em pastos gordos nos montes de Israel. Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas, e eu as farei repousar, diz o Senhor DEUS”.

Seria muita ingenuidade achar que o Senhor rejeitado e morto traria o seu rebanho disperso em rebelião e os colocaria ainda rebeldes na terra prometida e os apascentaria “em bons pastos… num bom redil… em pastos gordos nos montes de Israel” sem antes castigá-los e peneirar dentre eles o vil. Quer dizer que o Senhor, o bom Pastor, está apascentando Israel hoje e eles nem sequer sabem disso? A continuação diz que “suscitarei sobre elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo Davi é que as apascentará; ele lhes servirá de pastor” vers. 23. Esse “um só pastor” é Jesus, o Messias, que permanece hoje rejeitado e até hostilizado pelos judeus (pergunte a um judeu quem ele acha que é Jesus e ele lhe dirá que é o filho bastardo de Maria com um soldado romano). A continuação da profecia traz coisas como “E farei com elas uma aliança de paz, e acabarei com as feras da terra” , o que é uma clara alusão ao reino milenial de Cristo na terra, e não à condição de instabilidade em que os judeus hoje se encontram, protegidos pelo dinheiro que guardam nos bancos norte-americanos e pelas armas e proteção que esse país lhes oferece.

Outra profecia: (Jr 31:10) “Ouvi a palavra do Senhor, ó nações, e anunciai-a nas ilhas longínquas, e dizei: Aquele que espalhou a Israel o congregará e o guardará, como o pastor ao seu rebanho”. Mais uma vez aqui é da volta de Cristo para reinar que está falando, e não da fundação do estado de Israel em 1948. Basta ver a sequência que descreve todas as benesses do reino milenial de Cristo e de um povo em submissão ao seu Messias, o que hoje não é o caso.

Alguns gostam de aplicar Levítico 26 como prova da realização da profecia, em virtude da extrema habilidade do moderno Israel em suas guerras, muitas vezes subjugando seus inimigos mesmo estando em uma aparente condição de inferioridade. Eu não chamaria de “condição de inferioridade” um país que anda sempre com um guarda-costas do tamanho de um guarda-roupa como é os Estados Unidos, além de ter o maior acervo de mentes brilhantes da história. Não devemos nos esquecer de que o ateu Einstein era judeu. Uma coisa que os judeus aprenderam com dois mil anos de exílio foi onde investir seus esforços: coisas fáceis de levar na hora da perseguição. Por isso você encontra tantos judeus intelectualmente superiores em ciências e artes, pois eles tradicionalmente investem em conhecimento. Na impossibilidade de se fugir de um país de mãos vazias, nada melhor para se levar na bagagem para recomeçar do que o cérebro. Do ponto de vista material os judeus sempre foram grandes investidores em diamantes, uma riqueza de alto valor, porém pequeno peso e volume, fácil de carregar.

Mas vamos à profecia de Levítico 26 que muitos dizem ter se concretizado nas guerras travadas por Israel para conquistar territórios depois de 1948: “E perseguireis os vossos inimigos, e cairão à espada diante de vós. Cinco de vós perseguirão a um cento deles, e cem de vós perseguirão a dez mil; e os vossos inimigos cairão à espada diante de vós” (Lv 26:7-8). O que os que usam esta passagem não percebem é que antes Deus estabelece as condições para Israel ter toda essa destreza na batalha, vinda de Deus e não de suas habilidades naturais: “Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes , Então eu vos darei as chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua colheita, e a árvore do campo dará o seu fruto; E a debulha se vos chegará à vindima, e a vindima se chegará à sementeira; e comereis o vosso pão a fartar, e habitareis seguros na vossa terra. Também darei paz na terra, e dormireis seguros, e não haverá quem vos espante; e farei cessar os animais nocivos da terra, e pela vossa terra não passará espada“ (Lv 26:3-6).

O leitor sincero logo perceberá que “cinco de vós perseguirão a um cento deles” é algo sobrenatural e decorre da obediência aos mandamentos de Deus, o que não é absolutamente o caso dos judeus atuais. A passagem também deixa claro que está falando do período que precede imediatamente o estabelecimento do reino milenial de Cristo, quando Deus fará cessar os animais nocivos da terra e esta nunca mais será atacada.

Finalmente, outra passagem usada pelos simpatizantes da ideia da profecia ter se cumprido em 1948 é Deuteronômio 30:3-5, que fala da prosperidade de Israel. “Então o Senhor teu Deus te fará voltar do teu cativeiro, e se compadecerá de ti, e tornará a ajuntar-te dentre todas as nações entre as quais te espalhou o Senhor teu Deus. Ainda que os teus desterrados estejam na extremidade do céu, desde ali te ajuntará o Senhor teu Deus, e te tomará dali; E o Senhor teu Deus te trará à terra que teus pais possuíram, e a possuirás; e te fará bem, e te multiplicará mais do que a teus pais”.

Mais uma vez o leitor sincero e que sabe dividir bem a Palavra da verdade não se deixará levar pelo oba-oba dos livros de sensacionalismo profético e verá que a promessa é precedida de uma conversão real ao Senhor ( “e te converteres ao Senhor teu Deus, e deres ouvidos à sua voz” ) e sucedida dos mesmos alertas condicionais: “Quando deres ouvidos à voz do Senhor teu Deus… quando te converteres ao Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma” (Dt 30:10). Acaso você considera aquele povo que hoje forma o estado de Israel convertido ao Senhor de todo o coração e de toda a alma?

Para finalizar quero dizer que durante anos acreditei nessas passagens como tendo sido cumpridas em 1948, e as utilizava para evangelizar, tentando por meio delas, provar às pessoas que a Bíblia estava se cumprindo. A intenção era boa, mas a aplicação bíblica era incorreta. Muito do descrédito que as pessoas esclarecidas têm hoje pela Bíblia é por os próprios cristãos a utilizarem sem sabedoria.

Quantas vezes você ouviu algum pregador dizer que o Papa tal ou tal era o anticristo? Li um livro no final da Guerra Fria no qual o autor jurava de pés juntos que o anticristo era Mikhail Gorbachev e que a marca de nascença que tinha na cabeça era a marca da besta. Outro tentava provar por A+B que o anticristo seria o Rei da Espanha, Juan Carlos, por causa de particularidades de sua biografia e principalmente por suas iniciais “J.C.” serem as mesmas de “Jesus Cristo”. O código de barras, que já foi a bola da vez na literatura evangélica como sendo a marca da besta foi substituído pelos chips de identificação. Autores de livros proféticos que citaram o código de barra correram para corrigir suas novas edições. Antes da onda do chip eu conheci um cristão que não comprava produtos que tivessem código de barras na embalagem. Há muito tempo não o vejo e espero que não tenha morrido de fome.

Todas essas tentativas de interpretação da profecia bíblica sem considerar o contexto e o cenário completo causam mais mal do que bem ao testemunho de Cristo no mundo. Como eu disse, também errei muito neste sentido, mas depois vim a perceber que as previsões sobre a fundação do estado de Israel em 1948 não se encaixavam quando a profecia era compreendida como um todo, e não por meio de versículos tirados do contexto. A população que hoje forma o estado de Israel será dizimada e restará dela apenas um terço que se converterá verdadeiramente a Deus (isto sim é profético e ainda irá acontecer): (Zc 13:8-9) “Em toda a terra, diz o Senhor, as duas partes dela serão exterminadas, e expirarão; mas a terceira parte restará nela. E farei passar esta terceira parte pelo fogo, e a purificarei, como se purifica a prata, e a provarei, como se prova o ouro. Ela invocará o meu nome, e eu a ouvirei; direi: É meu povo; e ela dirá: O Senhor é meu Deus”.

Se quiser compreender a profecia bíblica corretamente, comece por entender que o relógio profético parou após a morte e ressurreição de Cristo e antes da fundação da Igreja em Atos 2 (cumprindo-se ali Joel 2:16-17 em parte, mas não totalmente). Tudo o que se vê hoje não foi previsto pelos profetas do Antigo Testamento porque a atual dispensação da graça de Deus era um mistério que só seria revelado a Paulo séculos mais tarde. O relógio profético voltará a bater quando a Igreja for arrebatada, o que acontecerá com a concomitante saída do Espírito Santo da terra.


Seriam os personagens de 1 Samuel figuras?

1 Samuel

Sua dúvida é se Elcana, Ana, Penina, Samuel, Eli e seus filhos poderiam ser, além de pessoas reais que viveram há muito tempo, também figuras ou tipos de Israel e da igreja. As Escrituras nos ensinam que as coisas que encontramos no Antigo Testamento “são sombras das coisas futuras” (Cl 2:16-17), que algumas delas “servem de exemplo e sombra das coisas celestiais” (Hb 8:5), “foram-nos feitas em figura” (1 Co 10:6), e podem ser vistas como “figura do verdadeiro” (Hb 9:24).

Mas não devemos nos esquecer de que tudo isso é “a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas“ (Hb 10:1), portanto embora seja de muito consolo, ensino e exortação nos ocuparmos com os tipos, figuras, sombras e princípios do Antigo Testamento, jamais devemos buscar ali doutrinas para a igreja, pois ela nunca aparece em realidade no Antigo Testamento. A igreja, e tudo o que lhe diz respeito, foi um segredo ou mistério revelado apenas muito mais tarde a Paulo, portanto até mesmo os profetas que escreveram o Antigo Testamento não faziam ideia de que ela viria a existir. A doutrina para a igreja você encontra nas epístolas dos apóstolos.

Muita má doutrina existe hoje na cristandade por não se entender esta distinção e por se buscar no Antigo Testamento elementos para aplicar à igreja. Alguns extrapolam completamente a ordem de Deus transformando sombras e figuras em doutrinas, terminando em erros graves. Portanto devemos tratar as sombras como elas são e, por assim dizer, como um aditivo ao entendimento da Bíblia como um todo. Se você vê a sombra de uma pessoa querida chegando, fica alegre, mas isso não se compara à chegada da própria pessoa. Não é com a sombra que você quer se ocupar, mas com a realidade das coisas.

Tendo isto em mente, confesso que nem eu sabia se poderíamos enxergar, conforme você sugeriu, as pessoas de Elcana, Ana, Penina, Eli e seus filhos como figuras do atual estado de coisas envolvendo Israel e a igreja. Eu sempre caminho sobre ovos quando se trata de lidar com os tipos, sombras e figuras do Antigo Testamento, por isso fui buscar ajuda em autores antigos que tinham muito mais experiência do que eu tenho na Palavra. Descobri que vários falam disso, mas escolhi o comentário de John Nelson Darby chamado “Pensamentos em 1 Samuel 1 e 2” para traduzir e enviar a você. Aqui vai:

“Pensamentos em 1 Samuel 1 e 2

J. N. Darby

O que é dito de Elcana, que tinha duas esposas, parece apresentar um tipo de Cristo e das duas dispensações (Israel e igreja). Ana representaria os judeus com os quais Deus volta a tratar em misericórdia; Penina, os gentios que são deixados de lado. É isto o que podemos distinguir na canção profética de Ana. Vemos também a corrupção do sacerdócio e o juízo de Deus pronunciado contra a casa de Eli. O sacerdócio de Arão e de seus filhos era um tipo da igreja.

As circunstâncias do povo judeu sob Samuel, o profeta, sob Saul e Davi, até Salomão ter subido ao trono, são uma figura dos eventos preparatórios que introduzem o reino do Messias. Ou seja, essas circunstâncias apresentam, na forma de tipos, os principais fatos que ocorrerão da época em que Deus recomeçar a agir por seu povo até Jesus vir para assentar-se no trono de Davi em Jerusalém.

A palavra de Deus pronunciada a Eli é o testemunho que Deus levanta contra seu sacerdócio antes de executar o seu juízo. A igreja, que tem o discernimento do que irá acontecer, deve também levar o testemunho de que Deus está prestes a julgar e rejeitar o corpo gentio cristianizado; o juízo de Deus está para ser cumprido naqueles que compartilham da corrupção que foi introduzida na igreja (Jd 5).

É sob o sacerdócio de Eli e seus filhos que o juízo começa a tomar lugar contra tal ordem de coisas. Como sacerdote, Eli já não tinha mais o discernimento que lhe era requerido. Em uma condição assim o ouvido já não está atento o suficiente para a pessoa poder ser corrigida. Além disso, o que é notável é que o sinal, que é proposto a Eli, é o próprio juízo que Deus está prestes a aplicar. (1 Sm 2:34).

O juízo contra a casa de Eli tem sua execução completa apenas nos tempos de Salomão ser elevado ao trono (1 Rs 2:27-35). O sacerdócio estabelecido por Salomão é, de acordo com a palavra de Jeová, pronunciado a Eli pelo homem de Deus, “um sacerdote fiel, que… andará sempre diante do meu ungido” (1 Sm 2:35). A concretização dessa figura apresentada sob a realeza de Salomão irá ter lugar quando Cristo estiver assentado em seu trono em Jerusalém; é o sacerdócio que é mencionado na descrição da ordem do templo em Ezequiel 44:15.

Aarão e seus filhos representavam o sacerdócio celestial no caráter e posição que Jesus assumiu por sua ressurreição; a posição da igreja que é de Cristo, o Homem glorificado diante de Deus Pai. Aquilo que é indicado como substituindo o que foi rejeitado é a expressão “perante o seu ungido” (1 Sm 12:3). Trata-se de um sacerdócio em diferente posição. O primeiro é celestial, que é o que é prefigurado no tabernáculo, “exemplo e sombra das coisas celestiais” (Hb 9:23-24). O outro sacerdócio é na terra para o templo em Jerusalém, na época quando o Messias estiver assentado no trono de Davi. Este sacerdócio não acabará, e o mesmo vale para o povo judeu restaurado, pois Cristo terá assumido o governo em suas mãos. Aquilo que foi colocado nas mãos do homem sob sua responsabilidade fracassou em cada uma das dispensações; mas Deus, conforme a sua graça, manteve sua eleição. A ele seja toda a glória.

Uma instrução da mais alta importância para nós gentios surge no capítulo 2:27-28 de 1 Samuel. Antes de executar o juízo sobre aquilo que está corrompido Deus sempre traz à memória a natureza da sua vocação em conformidade com sua graça, no que diz respeito à bênção colocada nas mãos dos homens que foram os objetos de sua bondade. Deus diz a Eli: “Não me manifestei, na verdade, à casa de teu pai, estando eles ainda no Egito, na casa de Faraó? E eu o escolhi…”. A casa de Aarão havia sido objeto de uma graça muito especial dentre as tribos de Israel. Mas eles haviam se esquecido dessa graça e, portanto, depois de haverem cessado de trazer à lembrança a bondade de Deus para com eles, haviam caído em um estado de completa corrupção. Como é de se esperar, o juízo é o último remédio que Deus aplica, seja para corrigir, seja para eliminar de vez.

O mesmo vale para a igreja. Ela também se esqueceu da bondade de Deus em conformidade com a vocação ou chamamento de sua graça, por isso esta dispensação está prestes a ser irrevogavelmente interrompida pelo juízo final sobre Babilônia (Ap 18). Portanto é da maior importância para o cristão não se esquecer da graça de Deus relacionada à sua vocação ou chamado inicial. Lembremo-nos de como Deus nos escolheu, a fim de escaparmos da consumação da ameaça feita por Jesus a Laodiceia: “Vomitar-te-ei da minha boca” (Ap 3:16) - [J. N. Darby, “Thoughts on 1 Samuel 1 and 2”, tradução Mario Persona].


O que significa “trevas exteriores”?

A expressão aparece ao menos três vezes no evangelho de Mateus e significa a condenação eterna. “E os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores ; ali haverá pranto e ranger de dentes” (Mt 8:12); “Disse, então, o rei aos servos: Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores ; ali haverá pranto e ranger de dentes” (Mt 22:13) e “Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores ; ali haverá pranto e ranger de dentes” (Mt 25:30).

Judas 1:13 também fala de trevas como sinônimo de condenação eterna (embora não especifique “exteriores”): “Ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações; estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas“. Sabemos que Deus é luz e nele não há trevas (1 João 1:5), portanto trevas na Bíblia sempre indicam a ausência de Deus. Assim estava o Universo depois do cataclismo que envolveu a queda do diabo e antes que Deus trouxesse à tona a luz (Deus não criou a luz, ela sempre existiu, daí a diferença entre o “haja luz” e as coisas que Deus efetivamente faz em Gênesis 1).

O homem em seu estado natural é trevas internamente, pois Deus não pode conviver com o pecado que habita na velha natureza. Porém a luz está disponível ao ser humano fora dele, em Cristo, e quando ele crê todo o seu corpo fica luminoso. Já não há trevas internas permanentes, embora eventualmente ele possa, por desobediência, andar em trevas e não na luz.

(2 Co 4:6) “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo”.

(Cl 1:13) “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor;”.

(1 Pe 2:9) “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;”.

(1 João 1:6) “Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade”.

Na cruz Jesus foi lançado nas trevas da ausência de Deus por ter sido feito ali pecado por nós. Deus voltou sua face e o abandonou ali como jamais abandonou um ser humano em vida, já que até o pior dos pecadores tem Deus ao seu lado pronto para intervir se ele clamar por salvação. Jesus precisou sofrer só o juízo divino e ali, do ponto de vista dele, não apenas Deus colocou sobre ele os nossos pecados, fazendo-o pecado por nós, mas também o cercou de trevas, do mesmo modo como ficará por toda a eternidade o pecador que não se converter. Estará imerso em “trevas exteriores”.

O incrédulo, que hoje está cheio de trevas em si mesmo, mas que pode ter acesso à luz a qualquer momento deixará de ter este privilégio se morrer sem Cristo, sendo lançado nas “trevas exteriores”. Ali ele não apenas terá trevas dentro de si, mas também ao redor de si, já que trevas significam a ausência de Deus. O pecador condenado ficará, por assim dizer, mergulhado em trevas e encharcado nelas. Já não haverá como recorrer a Deus, pois ele estará abandonado como Cristo ficou abandonado na cruz, com a diferença de que para ele já não haverá salvação.

Cristo entrou nas trevas para nos livrar delas. O incrédulo entrará nas trevas para nunca mais sair. Daí a urgência de se crer em Jesus agora.


O Papa é o líder da igreja católica?

Você se diz preocupado por encontrar muitas pessoas apavoradas por boatos de que o novo Papa será o anticristo ou que João Paulo II irá ressuscitar. Segundo você relatou, existem até pessoas que estariam procurando fugir para um lugar seguro e em dúvida se devem sair do emprego, vender a casa, etc. Nem bem terminou o “fim do mundo” supostamente previsto pelas profecias maias e já estamos diante de outro pânico geral, e o mais triste é quando vemos aqueles que se dizem cristãos jogando lenha nessa fogueira de histeria coletiva.

Para tranquilizá-lo, entenda desde já que o líder da igreja católica não é o Papa, e as notícias envolvendo a renúncia do Papa Bento XVI ou Joseph Ratzinger ajudam a perceber isso. O líder da igreja católica romana é “Jezabel” , o sistema católico que é maior que os próprios papas e cardeais. As sete cartas às sete igrejas de Apocalipse 2 e 3 representam sete períodos e características do testemunho da igreja na terra. Hoje, de uma maneira geral, todos os cristãos fazem parte de Laodiceia, o último e mais lamentável estado da igreja na terra, mas os grandes movimentos (que também estão incluídos neste último estado) são caracterizados individualmente nas outras.

Por exemplo, Tiatira é o estabelecimento do catolicismo romano e Sardis é o protestantismo. Cada carta é dirigida ao “anjo” , ou seja, aos homens que têm responsabilidades no testemunho. Em Tiatira uma mulher se sobrepõe ao anjo, assim como na história de Israel era Jezabel quem realmente mandava em seu marido Acabe. Normalmente no catolicismo você ouve frases do tipo “a Igreja ensina…” , algo estranho às Escrituras, que proíbem a mulher de ensinar. “Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido” (1Tm 2:12). Portanto, não se preocupe: não é o Papa quem manda na igreja católica romana, mas é a igreja católica romana (a “mulher” ou “Jezabel”) que manda no Papa.

O texto abaixo faz parte de um livro de Bruce Anstey que estou traduzindo no blog “Ao Seu Nome” e poderá ajudar você a entender os detalhes do que estou falando, isto é, do significado de cada carta às sete igrejas de Apocalipse:

Estes capítulos trazem um esboço da história profética da igreja desde os primeiros dias, logo após os apóstolos, chegando até os últimos dias. Se seguirmos o curso de eventos apresentados nessas mensagens às sete igrejas veremos um declínio no testemunho cristão, até que finalmente chega-se a um ponto em que não há retorno, o que leva o Senhor a agir sobre o princípio de um testemunho remanescente.

Em Éfeso aprendemos que “o anjo da igreja” (os líderes responsáveis) julgava corretamente tudo o que fosse inconsistente com o Senhor. Ali diz “que não podes sofrer os maus”. Mas infelizmente seus corações não estavam com ele (Ap 2:2-4). Em Esmirna qualquer eventual aumento no declínio foi temporariamente pausado pelas grandes perseguições que se abateram sobre aquela igreja. A severidade da tribulação lhes fez retornar ao Senhor. Mas em Pérgamo, quando os tempos de grande perseguição haviam terminado, “o anjo da igreja” começou a tolerar alguns que tinham “a doutrina de Balaão” , que é o mundanismo e a idolatria. O anjo não foi acusado de ter essas doutrinas, mas o Senhor viu falta neles por não denunciarem o mal, como havia feito o anjo em Éfeso.

Em Tiatira ocorreu uma condição pior: “O anjo da igreja” permitiu que se ensinasse a mesma má doutrina e prática que havia sido combatida por alguns em Pérgamo! (Compare Ap 2:14 com 2:20). O que teve início com alguns professando má doutrina terminou em muitos ensinando a mesma má doutrina. Isto mostra que se a existência do mal não for julgada ele acabará sendo aceito. Em Tiatira o ensino daquele mal havia se desenvolvido em todo um sistema de coisas chamado “Jezabel” , que certamente corresponde ao catolicismo. Na Idade Média este sistema ímpio exercia um poder tão tirânico sobre a igreja como um todo, com seu poder e organização, que controlava até mesmo o anjo! Aqueles que ocupavam um lugar de responsabilidade haviam falhado em lidar com isso quando poderiam ter feito, e agora ele havia crescido em um monstro que os controlava! (Veja Atos 27:14-15. O “Euro-aquilão” , um forte vento mediterrâneo, tomou o controle da embarcação e a tripulação nada podia fazer senão se deixar levar: “E não podendo navegar contra o vento, dando de mão a tudo, nos deixamos ir à toa” ). A figura de “Jezabel” é adequadamente utilizada aqui, pois aquela mulher não somente introduziu formalmente a idolatria em Israel, como também controlava e manipulava seu marido, o rei Acabe.

Sendo esta a situação da condição pública da igreja, onde já não existia poder para lidar com o mal, o Senhor separou um remanescente, dizendo: “Mas eu vos digo a vós, e aos restantes [remanescentes]…”. Ele deixa de lado a grande massa de pessoas (Ap 2:24). Daquele momento em diante ele passou a trabalhar com um remanescente que podia ouvir o que o Espírito estava dizendo às igrejas. Aqui temos a palavra “remanescente” usada em conexão com o testemunho cristão. É significativo que o Senhor não tenha colocado “outra carga” ou responsabilidade de consertarem a confusão existente no testemunho cristão, num esforço de levar a igreja de volta ao seu estado original. Ao invés disso, ele dirigiu o foco deles para sua vinda, dizendo: “Mas o que tendes, retende-o até que eu venha” (Ap 2:25).

Daquele ponto em diante é vista uma notória mudança no modo de o Senhor tratar com a igreja. Até ali, nas três primeiras igrejas, a voz do Espírito era dirigida à igreja como um todo. “O que o Espírito diz às igrejas” vinha antes da promessa “ao que vencer”. Isto indica que a recompensa para o vencedor era colocada diante de toda a igreja, pois o Senhor ainda estava tratando com ela de um modo geral. Mas agora, deste ponto em diante, a ordem é revertida. O chamado para ouvir “o que o Espírito diz às igrejas” vem depois da promessa feita “ao que vencer”. Esta é a ordem nas últimas quatro igrejas. O que o Espírito tem a dizer com respeito à ordem na igreja já não é mais dado à multidão, mas apenas ao que vencer. A razão é que se supõe que apenas o vencedor irá escutar o que o Espírito está dizendo. Não se espera que as multidões venham a escutar e a se arrepender. A previsão de Paulo a Timóteo, de que as pessoas, em sua maioria, “não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências” havia se realizado (2Tm 4:2-3), e por isso o Espírito já não falava ao corpo como um todo.

Fazendo uma observação sobre tal mudança, J. N. Darby escreveu que o corpo como um todo é “deixado de lado” deste ponto em diante, pois a grande massa pública da profissão cristã é tratada como sendo incapaz de ouvir e se arrepender. William Kelly escreveu: “Desse momento em diante o Senhor apresenta a promessa [ao que vencer] primeiro, e isto porque é em vão esperar que a igreja como um todo venha a recebê-la… apenas um remanescente [a recebe], o vencedor, e a promessa é para eles; quanto aos outros, está tudo acabado”. Como resultado disso, o Senhor já não esperava que a massa da profissão cristã escutasse e voltasse ao ponto de onde havia se desviado. Qualquer ideia de recuperar a igreja como um todo é abandonada, já que ela atingiu um ponto em que não há volta. É por isso que eu não creio que o Espírito esteja necessariamente falando a todas as pessoas na cristandade hoje no que diz respeito à verdade de reunir. Com a maioria ele está simplesmente deixando que siga seu caminho junto às suas organizações denominacionais.

Trabalhando com um testemunho remanescente desde então, o Senhor tem tido o prazer de recuperar a verdade que foi perdida pelo descuido da igreja nos séculos anteriores. Todavia ele não parece achar apropriado recuperar a verdade toda de uma só vez. O remanescente mencionado em Apocalipse 2:24-29 é formado pelos Valdenses, Albigenses e outros grupos semelhantes que se separaram do mal de “Jezabel” nos tempos medievais. A eles foi dito “o que tendes, retende-o até que eu venha” , referindo-se àquela pequena medida de verdade que eles possuíam. Algum tempo depois, por ocasião da Reforma, o Senhor permitiu que um pouco mais de verdade fosse recuperada, a saber, a supremacia da Bíblia e a fé unicamente em Cristo para a salvação. Mas aquele movimento do Espírito foi frustrado pelos próprios reformadores, que se uniram a determinados governos em busca de ajuda contra as perseguições da Igreja de Roma. Aquilo foi o mesmo que recorrer à carne em busca de socorro, ao invés de depender do Senhor (Jr 17:5; Salmos 118:8-9; Isaías 31:1). O resultado foi a formação das grandes igrejas nacionais na cristandade e teve início aí o declínio do protestantismo, conforme é mostrado na igreja de Sardis (Ap 3:1-6).

Não foi senão até o início dos anos 1800 que o Senhor trouxe uma completa recuperação da verdade da “fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 3). Isto aconteceu quando alguns saíram de todas as organizações formais criadas pelos homens na igreja e é mostrado na mensagem do Senhor à igreja de Filadélfia (Ap 3:7-13). Naquela ocasião Deus estabeleceu um testemunho corporativo da verdade do um só corpo. Antes dessa época o remanescente era formado por indivíduos que buscavam seguir adiante fielmente em separação da corrupção da igreja romana. Vivemos hoje nos dias em que cada homem faz aquilo que acha certo aos seus próprios olhos (Jz 21:25), e a maioria é complacente com esta lamentável condição. Isto é mostrado na igreja em Laodiceia (Ap 3:14-22).

O que nos interessa aqui é que o testemunho cristão atingiu um ponto de irremediável ruína, o que exigiu uma mudança no modo do Senhor tratá-lo. Ele abandonou qualquer tentativa de restaurar a condição pública da igreja e agora está trabalhando com um testemunho remanescente. Não se trata de dizer que os santos reunidos sejam exatamente o remanescente, mas sim que eles ocupam, eclesiasticamente falando e como testemunho , uma posição remanescente em meio à confusão que permeia a igreja. De um modo geral, o remanescente é formado por todos os verdadeiros crentes espalhados pela grande massa da mera profissão cristã na cristandade.

Assim como ocorreu com Israel, para manter hoje um testemunho remanescente da verdade de que há um só corpo, o Senhor não precisa ter todos os cristãos do mundo congregados ao seu Nome, mesmo que seja este o seu desejo para com eles. Como já foi mencionado, o próprio significado da palavra remanescente implica que nem todos estão ali. Em divina prerrogativa e graça Deus está tomando um aqui e outro ali e os está reunindo ao nome do Senhor, de modo que tal testemunho remanescente possa seguir adiante. A manutenção disso é uma obra soberana. Isto é visto na observação que o Senhor faz a Filadélfia: “O que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre” (Ap 3:7). Nem homens nem o diabo podem impedir sua continuação, embora tal testemunho possa parecer seguir em grande fraqueza. Por mais humilde que seja o testemunho, Deus não precisa de nenhum daqueles que ele reuniu, independente de quão espiritualmente dotados eles possam ser. Se não quisermos permanecer e abandonarmos, o Senhor irá reunir outros de modo que seu testemunho remanescente seja levado adiante até sua vinda. O fato de existir alguém reunido já é totalmente uma obra de Deus; a graça que salva uma alma é a mesma graça que reúne para o nome do Senhor. Se algum de nós escutou “o que o Espírito diz às igrejas” e enxergou a verdade de como reunir, isso foi só por ele ter aberto nossos ouvidos (Pv 20:12).

Traduzido de “Questions Young People Ask Regarding the Ground of Gathering for Christians - Good Questions That Deserve Good Answers” Vol. I e II, por Bruce Anstey publicado por Christian Truth Publishing. Traduzido por Mario Persona.


Em Lucas 24 o “partir o pão” era a ceia do Senhor?

Lucas 24

O partir o pão em Lucas 24 não é a ceia do Senhor. A ceia foi instituída pelo Senhor nos evangelhos, mas aquela ainda não era a ceia que praticamos. A que praticamos (e os discípulos em Atos praticavam sem ainda entenderem perfeitamente o que faziam) é a que foi revelada pelo Senhor a Paulo em 1 Coríntios 11 (não foram os outros que contaram a ele). Vamos à passagem de Lucas 24:

(Lc 24:28-31) “E chegaram à aldeia para onde iam, e ele fez como quem ia para mais longe. E eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque já é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles. E aconteceu que, estando com eles à mesa, tomando o pão, o abençoou e partiu-o , e lho deu. Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e ele desapareceu-lhes”.

em Lucas 24 vemos o Senhor tomando o lugar de anfitrião (a casa não era a dele) e tomando a iniciativa em tudo. Embora não seja uma reunião da igreja (que ainda não existia) e nem a ordenança da ceia do Senhor (nada é falado do vinho), a cena é um bom exemplo do que acontece quando a assembleia se reúne ao seu Nome. Mas ali claramente tratava-se de uma refeição normal, e não da ceia do Senhor revelada pelo Senhor a Paulo como uma ordenança dada à Igreja.

Em Atos 2:46 o “partir o pão” não era a ceia do Senhor, mas a refeição comum que os judeus faziam, mas o versículo em Atos 2:42 está falando da ceia do Senhor. Como distinguir se ambas as passagens usam a expressão “partir o pão”? Simples, basta ver o contexto e o que está associado a cada uma das ocorrências. O verbo “apanhar”, por exemplo, pode ter diferentes significados dependendo de onde está inserido na frase. “Apanhei de meu colega na escola” significa que levei uma surra dele, mas “Apanhei meu colega na escola” significa que fui buscá-lo ali. Vamos às duas passagens de Atos 2:

(Atos 2:41-42) “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas; E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações“.

Esta passagem está falando de uma atividade corporativa como assembleia ou igreja, ainda que eles não entendessem exatamente que estavam vivendo algo distinto de Israel e que suas reuniões nada mais tinham a ver com o judaísmo. A verdade da igreja só seria revelada mais tarde a Paulo, conforme a passagem de 1 Coríntios:

(1 Co 11:23-26) “Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha”.

Não faria sentido dizer que “perseveravam… no partir do pão” se em Atos 2:41-42 a expressão indicasse meramente a alimentação diária. Interpretar assim seria como dizer que “perseveravam em tomar café da manhã, almoçar e jantar” , o que não teria qualquer importância e nem conexão com “doutrina dos apóstolos”, “comunhão” e “orações”.

Portanto é sempre bom entender que quando lemos Atos estamos vendo um período de transição e não a doutrina dos apóstolos especificamente falando. Lembre-se de que Atos é a continuação do evangelho de Lucas. Em Atos vemos os Atos ou ações dos primeiros cristãos, mas é na doutrina dos apóstolos para a igreja, encontrada nas epístolas ou cartas, que encontramos o embasamento para aquilo que era praticado em Atos.

Por exemplo, confirmando a passagem acima de Atos 2:41-42 nas epístolas encontraremos o perseverar na doutrina (1 Co 14:26-40), na comunhão (pode ser o caso de Judas 1:12 ou 1 Co 11:21, em ambos os casos apontando distorções), no partir do pão (a ceia do Senhor, 1 Co 11:23-26) e orações (1 Co 14:14-17).

A passagem que se segue àquela obviamente fala dos costumes da vida diária, e neste caso sim o “partir o pão” refere-se à alimentação regular e diária. Aqui poderíamos parafrasear como “tomando café da manhã, almoçando e jantando em casa, comiam juntos…”.

(Atos 2:46) “E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração,”.

Já em Atos 20:7-11 trata-se da reunião da assembleia para partir o pão, isto é, celebrar a ceia do Senhor.

(Atos 20:7-11) “E no primeiro dia da semana, ajuntando-se [congregando] os discípulos para partir o pão , Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e prolongou a prática até à meia-noite. E havia muitas luzes no cenáculo onde estavam juntos… E [Paulo] subindo, e partindo o pão, e comendo, ainda lhes falou largamente até à alvorada; e assim partiu”.

Em Atos 27:35, no relato do naufrágio, o ato de Paulo partir o pão nada tem a ver com a ceia do Senhor, mas é uma expressão usada para a refeição. Ele está cercado de tripulantes e passageiros incrédulos, portanto tentar atribuir aquilo à ceia do Senhor seria um erro.


O rei Salomão praticou homossexualismo?

Não há nada na Bíblia que indique que o rei Salomão pessoalmente tenha se envolvido em relações homossexuais, o que a própria Lei dada a Israel deixava claro ser uma abominação aos olhos de Deus. Porém ao se unir a mulheres das mais diferentes crenças pagãs Salomão abriu as portas de seu reino à idolatria desses povos.

A diversidade de religiões e origens dessas mulheres certamente trouxe para dentro de Israel costumes e rituais totalmente condenados por Deus, como o sacrifício humano (adultos e crianças) e a prostituição e homossexualismo rituais. Existia na lei uma distinção entre a prostituição comercial e a ritual. Os versículos abaixo falam da prostituição comercial:

(Gn 38:15-18) “E vendo-a Judá, teve-a por uma prostituta, porque ela tinha coberto o seu rosto. E dirigiu-se a ela no caminho, e disse: Vem, peço-te, deixa-me possuir-te. Porquanto não sabia que era sua nora. E ela disse: Que darás, para que possuas a mim? E ele disse: Eu te enviarei um cabrito do rebanho…”.

(Lv 19:29) “Não contaminarás a tua filha, fazendo-a prostituir-se; para que a terra não se prostitua, nem se encha de maldade”.

Já a passagem de Deuteronômio 23 parece referir-se especificamente à prostituição ritual ou cultual, já que faz referência à casa do Senhor e inclui tanto prostitutas como sodomitas, algo aceito no culto pagão de muitas religiões da época.

(Dt 23:17-18) “Não haverá prostituta dentre as filhas de Israel; nem haverá sodomita dentre os filhos de Israel. Não trarás o salário da prostituta nem preço de um sodomita à casa do Senhor teu Deus por qualquer voto; porque ambos são igualmente abominação ao Senhor teu Deus”.

A Wikipedia traz um texto sobre a prostituição ritual, que incluía todas as variações de relações sexuais entre parceiros de diferentes ou do mesmo sexo, e obviamente o homossexualismo ritual fazia parte dessas práticas.

Dentre os povos citados como as origens das muitas mulheres de Salomão estão moabitas, amonitas, edomitas, sidônios e heteus, muitos deles adeptos da prostituição e do homossexualismo em seus rituais religiosos.

(1 Rs 11:1-8) “E o rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras, além da filha de Faraó: moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hetéias, Das nações de que o Senhor tinha falado aos filhos de Israel: Não chegareis a elas, e elas não chegarão a vós; de outra maneira perverterão o vosso coração para seguirdes os seus deuses. A estas se uniu Salomão com amor. E tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração. Porque sucedeu que, no tempo da velhice de Salomão, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era perfeito para com o Senhor seu Deus, como o coração de Davi, seu pai, Porque Salomão seguiu a Astarote, deusa dos sidônios, e Milcom, a abominação dos amonitas. Assim fez Salomão o que parecia mal aos olhos do Senhor; e não perseverou em seguir ao Senhor, como Davi, seu pai. Então edificou Salomão um alto a Quemós, a abominação dos moabitas, sobre o monte que está diante de Jerusalém, e a Moloque, a abominação dos filhos de Amom. E assim fez para com todas as suas mulheres estrangeiras; as quais queimavam incenso e sacrificavam a seus deuses”.

No capítulo 14 de 1 Reis vemos que o homossexualismo trazido com a idolatria dos povos estrangeiros já tinha se disseminado pela terra de Israel em uma clara desobediência à Lei de Deus.

(1 Rs 14:24) “Havia também sodomitas na terra; fizeram conforme a todas as abominações dos povos que o Senhor tinha expulsado de diante dos filhos de Israel”.

No capítulo 15 de 1rs encontramos o Rei Asa combatendo os costumes homossexuais que haviam sido trazidos com a idolatria dos povos pagãos.

(1 Rs 15:12) “Porque tirou da terra os sodomitas, e removeu todos os ídolos que seus pais fizeram”.

Mas pelo relato do capítulo 22 ainda ficaram alguns homossexuais rituais na terra de Israel e Jeosafá os expulsa:

(1 Rs 22:42-46) “E era Jeosafá da idade de trinta e cinco anos quando começou a reinar; e vinte e cinco anos reinou em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Azuba, filha de Sili. E andou em todos os caminhos de seu pai Asa, não se desviou deles, fazendo o que era reto aos olhos do Senhor… Também expulsou da terra o restante dos sodomitas, que ficaram nos dias de seu pai Asa”.

Em 2 Reis 23 vemos que aquilo que começou com a idolatria de Salomão havia chegado até o templo de Deus, pois o Rei Josias providenciou a retirada dos sodomitas que moravam no templo.

(2 Rs 23:7) “Também derrubou as casas dos sodomitas que estavam na casa do Senhor, em que as mulheres teciam casinhas para o ídolo do bosque”.


O que fiz foi um casamento válido?

Vou tentar resumir a história que você contou e espero não errar na ordem dos acontecimentos. Você diz ser convertido a Cristo e saber que sexo antes do casamento é pecado. Então você começou a namorar uma garota incrédula que se converteu por meio de seu testemunho e com quem passou a ter relações sexuais.

Aí você ficou num dilema, pois não queria ter relações sexuais antes do casamento, e ao mesmo tempo não queria parar de tê-las. Casar-se estava fora de questão por não poder arcar com isso, portanto você orou a Deus para que ele unisse vocês dois em matrimônio. Na sua cabeça, se Deus não a afastasse de você isto seria um sinal de que sua oração teria sido ouvida.

Seguindo esse raciocínio você teria obedecido 1 Coríntios 7:9, que diz: “Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se”. Tendo celebrado esse “casamento espiritual” deixaria de viver “abrasado” e poderia ter relações com sua parceira. Você disse que a situação atual trouxe muitas vantagens, como você ter conseguido ter a mente mais fixa e fazer sexo com menor frequência do que fazia, além de conseguir orar melhor sem ser assolado pela dúvida se estava ou não agindo corretamente.

Então você pergunta: “Meu casamento foi válido?”.

Se você pergunta é porque as “mudanças” que citou acima de nada valeram para aplacar sua consciência, já que ainda continua em dúvida. Se você acha que seu casamento foi válido, por que coloca “fazer sexo com menor frequência” como uma das vantagens adquiridas com seu “casamento espiritual”? Não há nada que determine quantas vezes marido e mulher podem fazer sexo, mas no caso de solteiros o número é “zero”.

Sim, você tem razão quando diz que é Deus, e não um homem como padre ou pastor, que une um casal, mas está errado ao pensar que o matrimônio bíblico é algo feito nos bastidores. Não é. Como todo contrato bíblico, o matrimônio é um compromisso público com a participação de testemunhas. Em nossa sociedade, apesar de continuar sendo Deus quem une, o juiz de paz recebeu de Deus autoridade para realizar essa união perante os homens. Por isso a certidão de casamento é uma certidão pública. As bodas de Caná não foram um acordo de alcova e as bodas do Cordeiro, que será a concretização daquilo que o matrimônio entre um noivo e uma noiva prefigura, será um evento visto por milhões de milhões de anjos e seres humanos.

Então a resposta mais curta é: não, seu casamento não foi válido e vocês estão vivendo em fornicação.

Seu relato todo mostra muito bem que você quis fazer com que Deus se dobrasse à sua própria vontade e este é um erro comum. As pessoas decidem algo e depois oram buscando que Deus dê sua aprovação para aquilo que já decidiram fazer ou efetivamente fizeram, ao invés de perguntarem a Deus qual a vontade dele.

Há orações que fazemos porque não sabemos a vontade de Deus (por exemplo, quero comprar uma casa e posso orar pedindo a direção de Deus se devo comprar ou não). Oro assim porque não existe na Bíblia algo como “Comprarás uma casa” ou “Não comprarás uma casa”, daí minha dúvida e necessidade de buscar a Deus. Mas quando há na Palavra de Deus instruções claras sobre algum assunto, não há razão para orar a respeito.

Vou dar um exemplo: você conhece uma garota incrédula e passa a orar a Deus para saber se é da vontade dele que comece um relacionamento sério com ela. Orar assim é perder tempo, porque Deus já lhe deu a resposta antes mesmo de orar:

(2 Co 6:14) “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis ; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?”.

Outro exemplo: Você decide dormir com sua namorada e ora a Deus para saber se ele aprova isso. Isso é o mesmo que orar se deve ou não pisar no freio ao se aproximar de uma esquina com uma enorme placa que diz “PARE”. A fornicação ou sexo entre solteiros é condenada em várias passagens da Bíblia, e antes que alguém queira discutir se a raiz grega da palavra fala ou não efetivamente de sexo antes do casamento, é só olhar como a Palavra de Deus se refere a duas classes de pessoas, casados e solteiros. À última classe ela dá o nome de “virgens”.

(1 Co 7:28-34) “Mas, se te casares, não pecas; e, se a virgem se casar , não peca… Há diferença entre a mulher casada e a virgem. A solteira cuida das coisas do Senhor para ser santa, tanto no corpo como no espírito; porém, a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido”.

Portanto meu conselho é este: vá com sua namorada ao cartório mais próximo e providencie seu casamento no civil para não estar mais vivendo uma situação de fornicação, já que vocês decidiram que é assim que pretendem viver. Ou então parem de ter relações sexuais e confessem o pecado que têm cometido, não só a Deus, mas também aos irmãos com os quais vocês têm comunhão. “Um pouco de fermento leveda toda a massa” (1 Co 5) , escreveu Paulo referindo-se a um caso de pecado de fornicação para o qual os cristãos de Corinto estavam fazendo vista grossa. A questão não só devia ser trazida à tona, como o envolvido precisava ser julgado pela assembleia e expulso da comunhão (excomungado).

Talvez você alegue que hoje existe na lei a previsão da união estável, que não é o seu caso, pois há alguns requisitos que vocês não preenchem. A união estável não é considerada a mesma coisa que um matrimônio pela simples razão de continuar existindo o matrimônio civil. A união estável procura resguardar os direitos de uma sociedade na qual duas pessoas já vivem, para tirá-las da informalidade e evitar problemas na divisão dos bens em caso de separação. Mas mesmo cristãos que desfrutem de uma união estável devem procurar cumprir a lei dos homens, casando-se.


Os dias estão sendo abreviados?

Sua dúvida é se o versículo em Mateus 24:22 estaria falando da vida moderna, quando os dias parecem passar mais rápido e terem menos que 24 horas. O versículo é: “Se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias“.

Mateus 24 descreve o que acontecerá depois do arrebatamento da igreja, e os discípulos de Jesus, aos quais ele dirige as palavras, aparecem ali no caráter do remanescente de judeus fiéis que aguardará pela vinda do Messias, do mesmo modo como eram todos os que esperavam por Jesus nos evangelhos. Portanto no capítulo 24 de Mateus (e também no capítulo 25, que fala da vinda de Cristo para reinar) você não encontra especificamente a igreja ou uma profecia relacionada aos tempos atuais.

O versículo 22 refere-se à grande tribulação e ali os que perseverarem até o fim para serem salvos são os que permanecerão vivos para entrarem no reino milenial de Cristo. Para que isto possa acontecer, será preciso Deus abreviar aqueles dias de tribulação e perseguição, caso contrário todos os fiéis seriam mortos antes que se iniciasse o milênio.

Uma rápida explicação do capítulo pode ajudar a entender melhor o versículo que originou sua dúvida.

(Mt 24:2) “Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada“.

Isto já aconteceu quando os romanos invadiram Jerusalém no ano 70 DC e destruíram o templo. Por causa do incêndio o ouro que revestia as paredes se derreteu e infiltrou-se nas juntas das pedras, obrigando os romanos a desmontarem pedra por pedra para recuperarem o ouro.

(Mt 24:3) “E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?“.

A pergunta é tríplice e inclui (1) quando seria a destruição do Templo, (2) qual seria o sinal da vinda de Cristo e (3) qual seria o sinal do “fim dos tempos” ou “fim do mundo” ou “fim da era”, dependendo da versão (a última é a melhor).

A primeira pergunta ele não responde, ao menos aqui. Para a segunda e terceira, a resposta aparece nos versículos 4 ao 44, que descrevem o tempo de tribulação de 7 anos que virá após o arrebatamento da igreja. Os primeiros três anos e meio vão dos versículos 4 ao 14 e os últimos, a “grande tribulação”, do 15 ao 44.

Apesar de muitos elementos dos primeiros três anos e meio poderem ser encontrados hoje, nada se compara ao que será este mundo quando o Espírito Santo já não estiver habitando aqui, pois saiu do mundo simultaneamente à retirada da Igreja, e não podia ser diferente, pois o Espírito habita agora na igreja, coletivamente, e no crente em Jesus, individualmente.

O que já ocorre hoje e ocorrerá muito mais depois são enganadores falando em nome de Jesus, guerras e rumores de guerras, nação levantando-se contra nação, fomes, pestes, terremotos, ódio e perseguição e ódio contra os seguidores de Jesus (nessa época serão judeus e gentios convertidos após o arrebatamento da igreja), falsos profetas, etc.

(Mt 24:13) “Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo“.

Esta já é uma alusão aos que perseverarem até o fim para serem salvos, mas aqui não fala necessariamente de salvação da alma, mas principalmente do corpo. Para entender é bom ler este versículo e continuar com o 22: “Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo… porque se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria“. Não é preciso muito para entender que está falando de salvação do corpo físico (carne).

(Mt 24:14) “E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim”.

Ao contrário do evangelho da graça, que é hoje pregado e anuncia “Crê no Senhor Jesus e serás salvo” , o remanescente de judeus fiéis ao Messias irá pregar o “evangelho do Reino”, o mesmo que João Batista e Jesus pregaram, cujo lema é: “Arrependei-vos porque é chegado o Reino de Deus”. Lembre-se de que estamos falando de Israel e de um reino terreno, como sempre foi prometido no Antigo Testamento.

(Mt 24:15) “Quando, pois, virdes que a abominação da desolação , de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, atenda;”.

(Mt 24:16) “Então, os que estiverem na Judeia , fujam para os montes;”.

Estes versículos denotam o caráter judaico de toda a passagem. O “lugar santo” é o Templo de Jerusalém, que terá sido reconstruído a toque de caixa nessa época e onde o anticristo se sentará querendo parecer Deus. Este episódio é mencionado em 2 Tessalonicenses 2:4: “de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus”.

A expressão “os que estiverem na Judeia”, mostra o cenário judaico de tudo isso e mais ainda o versículo 20: “Orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado“. Isto não faria sentido se a passagem estivesse falando de cristãos e da Igreja, mas o remanescente judeu que estiver na Judeia naquela ocasião continuará a guardar os costumes do judaísmo, como fazem os judeus religiosos hoje e faziam também os discípulos de Jesus antes da formação da igreja. Para um judeu religioso é proibido caminhar mais que certa distância no dia de sábado, que são uns 1.200 metros. Obviamente ninguém conseguiria fugir se a fuga estivesse limitada a um quilômetro e pouco. “Então voltaram para Jerusalém, do monte chamado das Oliveiras, o qual está perto de Jerusalém, à distância do caminho de um sábado“ (Atos 1:12).

(Mt 24:21-22) “Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver. E, se aqueles dias não fossem abreviados , nenhuma carne se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias“.

Chegamos então ao versículo de sua dúvida e agora acredito que tenha uma visão melhor dele dentro de todo o contexto. Repare também que não está falando dos tempos atuais, mas de uma“grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver”. Isto é significativo se nos lembrarmos de quantas catástrofes e guerras já se abateram sobre a humanidade. Tudo o que a história registra até aqui será refresco comparado ao que acontecerá durante a grande tribulação, principalmente levando-se em conta que Satanás terá sido expulso do céu naquela ocasião e agirá livre e solto neste planeta, direta e indiretamente por meio de seu servo, o anticristo. Mais uma vez a passagem nos transporta para 2 Tessalonicenses:

(2Ts 2:6-9) “Agora vós sabeis o que o detém [o que detém o anticristo], para que a seu próprio tempo seja manifestado. Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste [o Espírito Santo que hoje habita na igreja] até que do meio seja tirado; E então será revelado o iníquo [anticristo], a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda; A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás , com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira,”.

Outra passagem que também gera dúvidas é quanto aos “escolhidos” , pois muitos acreditam que são cristãos atuais e membros do corpo de Cristo, que é a igreja. Porém a igreja é recolhida da terra pelo próprio Senhor no arrebatamento descrito em 1 Tessalonicenses 4, enquanto aqui se trata de um trabalho de anjos recolhendo pessoas vivas (e não ressuscitadas e transformadas como no arrebatamento) para serem transportadas à terra de Israel.

(Mt 24:31) “E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus”.

Para o cristão da atual dispensação a esperança não está em um transporte providenciado por anjos, mas pelo próprio Senhor.

(Jo 14:3) “E quando eu for, e vos preparar lugar, [ eu ] virei outra vez, e [ eu ] vos levarei para mim mesmo, para que onde EU estiver estejais vós também”.

(1Ts 4:16-17) “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares , e assim estaremos sempre com o Senhor”.

O versículo seguinte é outra referência a Israel, que em toda a Bíblia costuma ser identificado pela figueira (no sentido nacional) ou oliveira (no sentido espiritual).

(Mt 24:32) “Aprendei, pois, esta parábola da figueira: Quando já os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas, sabeis que está próximo o verão”.

(Mt 24:34) “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam”.

O termo “geração” aqui pode se referir àquela das pessoas que vivenciarem todas as coisas descritas neste capítulo, que fala diretamente do tempo da grande tribulação. Existe também a possibilidade de estar se referindo ao povo judeu, que não deveria desaparecer, já que no grego a palavra “geração” é “genea” que pode ter também o sentido de família, raça ou nação. A ideia seria que essa mesma raça ou geração de judeus incrédulos existiria quando viesse a grande tribulação que precede a vinda de Cristo para reinar.

Talvez esta seja a interpretação mais correta, pois é provável que não exista no planeta um povo mais persistente em rejeitar a Cristo do que os judeus, que tiveram todas as chances de recebê-lo como Messias e mesmo assim o crucificaram. Também é difícil encontrar um povo com uma identidade tão marcante e que esteja todos os dias nas páginas dos jornais, como é o judeu. É como se Deus estivesse o tempo todo nos lembrando: “Eu não disse que eles seriam assim até o fim?”.

Os versículos abaixo confirmam isso:

(Dt 32:5) “Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é…. deixou a Deus, que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação. Com deuses estranhos o provocaram a zelos; com abominações o irritaram. Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; aos deuses que não conheceram, novos deuses que vieram há pouco, aos quais não temeram vossos pais. Esqueceste-te da Rocha que te gerou; e em esquecimento puseste o Deus que te formou; O que vendo o Senhor, os desprezou, por ter sido provocado à ira contra seus filhos e suas filhas; E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa , filhos em quem não há lealdade”.


Por que Jesus não batizava?

Jesus batizava sim, mas ‘por procuração’: “Depois disto foi Jesus com os seus discípulos para a terra da Judeia; e estava ali com eles, e batizava” (Jo 3:22). Outra passagem no mesmo evangelho esclarece que era por meio de seus discípulos que o batismo era ministrado, e não pessoalmente por Jesus. “E quando o Senhor entendeu que os fariseus tinham ouvido que Jesus fazia e batizava mais discípulos do que João (ainda que Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos), deixou a Judéia, e foi outra vez para a Galileia” (Jo 4:1-3).

O fato de Jesus não batizar pessoalmente as pessoas não fazia grande diferença para aqueles que eram batizados, pois o batismo era válido mesmo assim. Quando você dá a alguém uma procuração tudo o que essa pessoa fizer em seu nome, dentro dos poderes especificados na procuração, será legalmente reconhecido. E Jesus passou essa procuração quando disse aos discípulos: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28:19).

Embora naquele momento o contexto fosse outro, pois a igreja ainda não tinha sido formada e aqueles discípulos receberam a “procuração” no caráter de um remanescente judeu fiel ao Messias, as passagens que mostram os discípulos batizando em Atos certamente revelam que o batismo permanecia como uma ordenança também para os membros do corpo de Cristo, da igreja inaugurada em Atos 2 no dia de Pentecostes. A menção ao batismo também é encontrada nas epístolas, que formam a doutrina dos apóstolos. Devemos sempre ter em mente que ainda que certas coisas não tenham sido ensinadas pelos apóstolos em suas epístolas, as ações deles podiam estar em conformidade com aquilo que aprenderam diretamente do Senhor principalmente nos 40 dias que passou com eles, já ressuscitado e antes de subir ao céu. (Atos 1:3).

É por isso que qualquer batismo cristão é válido, independente de quem o tenha ministrado ou em que lugar e circunstâncias isso tenha sido feito, porque o que importa é em nome de quem (com que procuração) ou a quem o batismo está sendo ministrado. O batismo aparece na Bíblia de diferentes formas e situações, portanto é preciso entender esta distinção. O batismo de João, por exemplo, era diferente e não vemos que os discípulos de João Batista batizassem. Era sempre ele quem ministrava aquele batismo que era de arrependimento. Não era um batismo cristão, pois os próprios discípulos de João precisaram ser novamente batizados em Atos portanto as religiões cristãs que tentam usar passagens que falam do batismo de João para justificar suas doutrinas de batismo estão equivocadas.

(Atos 19:3-5) “Perguntou-lhes, então: Em que sois batizados então? E eles disseram: No batismo de João. Mas Paulo disse: Certamente João batizou com o batismo do arrependimento, dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo. E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus“.

O batismo cristão tem, entre outras, a finalidade de incluir o batizado em um novo círculo. A passagem em Efésios 4 revela os quatro círculos e, para facilitar o entendimento, vou inverter a ordem em que aparecem:

  1. “Um só Deus e Pai de todos , o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós”. (Ef 4:6)

Esta é a esfera à qual pertencem todos os seres humanos. Aqui “Pai” é no grego “pater” , pois aparece no sentido de Criador ou fato gerador, e não no sentido de “Aba” , como em Romanos 8:15, uma familiaridade que é exclusiva ao convertido a Cristo (o círculo “C” abaixo): “Recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai”.

  1. “Um só Senhor , uma só fé , um só batismo ;” (Ef 4:5).

Dentro do círculo grande da humanidade (A) existe um círculo menor que exclui os pagãos. Neste círculo estão as pessoas que levam o nome de “cristãos” por terem sido associadas a Cristo, independente de terem nascido de novo ou não, de estarem salvas ou perdidas. Elas agora têm uma autoridade ( “Senhor” ) sobre elas e a responsabilidade de conduzirem suas vidas segundo esse senhorio. A palavra “fé” aqui está mais no sentido de crença , e não da fé que salva e decorre da graça de Deus. Aqui há um só “batismo” , o qual é a porta de entrada para este círculo (apesar de muitas religiões cristãs usarem erroneamente o batismo como porta de entrada à membresia daquela denominação).

  1. “Há um só corpo e um só Espírito , como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação;” (Ef 4:4).

Chegamos ao círculo menor e que é restrito àqueles que nasceram de novo e pela graça de Deus creram em Jesus como Salvador. Estes tiveram seus pecados perdoados e aguardam serem levados para o céu ( “esperança” e “vocação” ) juntamente com o Espírito, quando este for tirado do mundo no arrebatamento. São estes que formam o “um só corpo”, a igreja (independente de pertencerem ou não a alguma denominação criada por homens, geralmente chamadas de “igrejas”). Neste círculo se entra pela fé em Cristo e não pelo batismo, embora este seja uma ordenança à qual devem se submeter caso ainda não tenham se submetido quando incrédulos (quando estavam no círculo “B”).

Voltando ao círculo “B”, a pessoa batizada veste, por assim dizer, a camisa do cristianismo, o que não era o caso no batismo de João Batista. Ela passa a ter novas responsabilidades por estar agora numa esfera de cristianismo, e não mais na esfera do judaísmo ou do paganismo. Por isso os apóstolos batizavam famílias inteiras.

(Atos 16:15) “E, depois que foi batizada, ela [Lídia] e a sua casa [família]”.

(Atos 16:33) “E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele [carcereiro] e todos os seus [familiares]”.

(1 Co 1:16) “E batizei também a família de Estéfanas”.

Em seu aspecto amplo em todos os casos, em figura ou literal, o batismo envolve mudança de posição. Seu significado mais específico é o da passagem pela morte para desfrutar dessa mudança de posição, e neste sentido vemos o batismo em figura ou literalmente em passagens do Antigo Testamento. No dilúvio uma família foi também “batizada” quando tirada das águas mortais graças à arca construída pelo patriarca. Veja que o apóstolo Pedro faz esta conexão com o batismo quando diz que por meio da arca “poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água; que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva , o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo“ (1 Pe 3:20-21).

A salvação pelo batismo mencionada aqui não é a salvação eterna da alma, mas no sentido de colocar o batizado “a salvo” da contaminação do círculo maior do paganismo. Noé não perguntou se a sua família queria entrar na arca. Ele levou todos para lá, independente de crerem ou não na mensagem de Deus. Veja que os animais foram levados para dentro da arca, o que poderia ser interpretado como tendo passado pelo mesmo “batismo” mencionado por Pedro, mas seria uma insensatez pensar que os animais tenham sido salvos no sentido espiritual da palavra.

Uma figura do batismo vemos também no bebê Moisés, salvo de Faraó e da morte pelas águas do rio onde foi colocado em uma “mini arca”, não de vontade própria, mas por decisão de sua mãe. Aquilo era uma figura do batismo de “casa” ou família, que nesse caso colocou Moisés literalmente numa nova posição. Ainda que ele tenha sido “entregue”, por assim dizer, à Faraó, passou a atuar ali como um representante do Deus de seus pais.

O mesmo Moisés mais tarde “batizaria” todo o povo no mar e na nuvem (mais água aqui, líquida e gasosa), independente da idade e entendimento deles. Ele não deixaria os bebês de seu povo morando no Egito de Faraó para decidirem mais tarde se queriam continuar a viver lá ou não. Obviamente Faraó não tinha o desejo de perder as crianças dos hebreus, do mesmo modo como hoje o diabo não gosta nem um pouco quando os pais introduzem seus filhos na esfera cristã (B). Por isso batizei meus filhos quando ainda bebês.

(Ex 10:9) “E Moisés disse: Havemos de ir com os nossos jovens , e com os nossos velhos; com os nossos filhos, e com as nossas filhas , com as nossas ovelhas, e com os nossos bois havemos de ir; porque temos de celebrar uma festa ao Senhor. Então ele [Faraó] lhes disse:… Não será assim; agora ide vós, homens [adultos], e servi ao Senhor”.

(1 Co 10:1-2) “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar“.

Repare que Moisés não quis sair do Egito sem levar a todos, independente da idade e do entendimento que tinham. Um batizado, seja ele convertido ou não e independente de seu nível de entendimento, passa a fazer parte do círculo dos que estão sob o senhorio de Cristo.

Voltando agora à sua pergunta da razão de Jesus não batizar, e sim seus discípulos, se levarmos em consideração que o batismo e as águas que este envolve figurarem a morte, fica perfeitamente consistente pensar que o papel de Jesus era o de dar vida, e não de fazer as pessoas passarem pela morte. A tarefa prática do batismo estava mais adequada aos discípulos, pois equivalia a sepultar mortos. Vemos também que Jesus, apesar de mandar batizar, não foi batizado (exceto por João Batista, mas o contexto era outro, de cumprir toda a justiça). Se a virtude do batismo estivesse naquele que batiza, então seria importante alguém ser batizado pessoalmente por Jesus. Mas, ainda que feito por meio de seus discípulos, era a Jesus que as pessoas eram batizadas, e não aos discípulos, do mesmo modo como na figura do Antigo Testamento citada por Paulo “todos foram batizados em Moisés”. “Para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome” (1 Co 1:15), explicou Paulo ao falar do batismo.

Cabe aqui também uma observação sobre a passagem em que Paulo diz isto, onde também diz que não foi enviado a batizar. “Porque Cristo enviou-me, não para batizar , mas para evangelizar” (1 Co 1:17). Seu ministério tinha um caráter diferente e estava intimamente ligado à salvação pela pregação do evangelho e também à revelação que recebeu do corpo de Cristo, a igreja. “Porque… o evangelho de Cristo… é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê“ (Rm 1:16). Se o batismo tivesse a importância que algumas religiões dão para a salvação eterna certamente Paulo teria sido enviado a batizar e não teria tratado isso como acessório, mas teria incluído o batismo em sua pregação e prática.

Portanto é bom lembrar que o batismo é algo para este mundo e não tem qualquer eficácia eterna. É só lembrar que um incrédulo pode ser batizado e, ainda que isto o coloque num diferente círculo de responsabilidades e privilégios criando nele uma “indagação [compromisso] de uma boa consciência para com Deus” (1 Pe 3:21), ele não é salvo pelo batismo. Um exemplo semelhante ocorre na santificação do marido incrédulo e dos filhos em um lar (a esfera) onde a mãe é convertida: “Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido ; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos“ (1 Co 7:14). Eles têm o privilégio de estar, ainda que não de escolha própria, em uma esfera diferente da dos outros que não têm o mesmo privilégio.


O batismo por aspersão é válido?

Não vejo qualquer problema. A ênfase do batismo está no que significa, e não propriamente no modo como é feito. Paulo batizou o carcereiro e sua família sem indicar como foi feito tal batismo. Muitos cristãos do primeiro século devem ter sido batizados nas prisões usando dos meios e condições disponíveis. Se perguntasse a um muçulmano se ele não veria problema em eu batizar seu filho em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo tenho certeza de que ele iria se opor, independente se o batismo fosse por imersão ou aspersão. No entendimento de um muçulmano, uma pessoa batizada se torna cristã, um entendimento que infelizmente muitos cristãos não têm.

Batizar é uma ordem que foi dada a quem batiza, portanto fica a critério deste como proceder, desde que seja com água, muita ou pouca. Quando meu avô estava morrendo de câncer os membros de uma determinada igreja evangélica, levados à sua casa por uma empregada que pertencia àquela denominação, queriam transportar meu avô até uma piscina e imergi-lo nas águas. Obviamente a família não permitiu, pois seu ventre estava aberto e cheio de tubos. Para aqueles “crentes”, ele não seria salvo a menos que passasse pelo batismo da “igreja” deles.

Outro exemplo: a ceia do Senhor biblicamente falando é realizada com pão e vinho, porém em uma conferência nos EUA que participei os irmãos precisaram usar pão e suco de uva, por terem alugado o salão de uma escola e lá ser proibido entrar com bebida alcoólica. Então, excepcionalmente, a ceia foi realizada daquele modo, mas não deixou de ter o mesmo significado. Vou traduzir abaixo alguns textos escritos por irmãos do século 19 e início do século 20 que poderão ajudar na compreensão do assunto:

“Quanto à imersão, por causa de 1 Coríntios 10 eu fico um pouco em dúvida se o batismo seria exclusivamente por imersão, mas não creio que originalmente ele tenha sido praticado por aspersão. No sistema (religioso) inglês, no início, a aspersão era permitida em caso de comprovada fragilidade da criança. No sistema grego a aspersão não é permitida de modo nenhum. Sepultado e morto é a ideia que traz a imersão, ao menos no sentido de se entrar na água e então ser coberto ou tê-la derramada sobre a cabeça, como aconteceu no mar e pela nuvem. Mas eu não repetiria um batismo feito com a intenção correta, só em função da quantidade de água utilizada ter sido muita ou pouca” J. N. Darby - Letters Vol. 1, number 253.

“A força do termo ‘batismo’ no Novo Testamento não depende nem um pouco da maneira como é realizado. Quando, no caso de Israel, ‘todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar’ (1 Co 1:10) eles não foram imersos nem numa ocasião, nem na outra, e tentar fazer a passagem significar que tivessem sido (imersos) seria absoluta tolice. Daquela maneira maravilhosa eles foram retirados de seu passado no Egito e introduzidos na escola de Moisés, tendo sido tal admissão acompanhada de uma maravilhosa lição do poder e majestade de um Deus Salvador…”.

“Quanto à maneira do batismo, alega-se que deve ser por imersão por causa do significado original da palavra que traz a ideia de sepultamento que sempre demos à mesma. Todavia, o fato de as cerimônias [judaicas] de aspersão mencionadas em Hebreus 6:2 serem chamadas de batismos, destrói o argumento geralmente feito de que apenas a imersão pode ser chamada de batismo. Também fica evidente que a palavra é usada em outras ocasiões onde não ocorreu imersão, como no caso do Mar Vermelho, e que a ênfase é colocada não sobre a maneira, mas sobre seus efeitos. Eu creio que seria impossível provar de vez que o modo bíblico seria a imersão, e muito menos que é disso que tudo depende”.

“Não existe um mandamento para todos serem batizados, como se fosse imperativo que cada crente por si mesmo tivesse a iniciativa de se batizar. O mandamento universal é dado apenas ao que batiza, deixando margem para ser aplicado de maneira diferente em diferentes casos. ‘Quem crer e for batizado’ é acrescentado à ordem de pregar o evangelho, que é o assunto; mas alguém que tenha sido batizado na infância e depois venha a crer já possui estes dois requisitos (crer e ser batizado). Que a ênfase está em crer no evangelho fica claro pela conclusão da passagem, ‘quem não crer será condenado’. Ninguém aplicaria isto às crianças”.

“O fato de o batismo não ser para se entrar na igreja demonstra que não tem a ver com a casa de Deus, que é a igreja. Também demonstra a razão pela qual uma diferença de interpretação acerca disso não poder excluir alguém da mesa do Senhor, a qual é o sinal de membresia no ‘um só corpo’ de Cristo (1 Co 10:17). O batismo é algo individual; a ceia do Senhor é uma comunhão coletiva”. - F. W. Grant, “Reasons for My Faith as to Baptism”.

“Fica evidente que a imersão era o procedimento bíblico, porém a aspersão se tornou comum e a profissão cristã é assim reconhecida. A água (muita ou pouca) significa associação com a morte de Cristo. O batismo não se refere ao estado subjetivo de espírito da pessoa no momento. O batismo não confere qualquer virtude ao batizado, é algo totalmente objetivo” T. Oliver - “Scripture Quarterly”.


Devemos nos batizar pelos mortos?

Sua dúvida está na passagem que menciona pessoas que se batizavam pelos mortos. (1 Co 15:29) “Se não há ressurreição, que farão aqueles que se batizam pelos mortos? Se absolutamente os mortos não ressuscitam, por que se batizam por eles?”.

Como não existe qualquer doutrina ou ensino no sentido de batizar “pelos mortos”, tudo indica que o apóstolo Paulo esteja apenas mencionando algo que algumas pessoas estariam fazendo. Não se trava de se batizar “por procuração”, como acreditam alguns, ou seja, no lugar daqueles que morreram sem serem batizados. Parece que está mais no sentido de ocupar a posição daqueles que tombaram pela perseguição, que é o assunto deste trecho da epístola.

Considerando que o batismo coloca a pessoa numa nova posição diante do mundo como um cristão professo, poderíamos pensar que o batizado estaria “vestindo a camisa” de cristão no lugar dos que sucumbiram à perseguição, como um soldado que é recrutado para ocupar a posição de outro morto em ação.


O que impede minha comunhão?

Só existe uma coisa que pode impedir um crente de participar da ceia do Senhor à mesa do Senhor: pecado. Se for pecado o que impede você de pedir seu lugar à comunhão para participar da ceia do Senhor à mesa dele, então já não estamos falando da vontade do Senhor, e sim da vontade da carne. A vontade do Senhor está explícita nestas palavras: “Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim… Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto , todas as vezes que beberdes, em memória de mim” (1 Co 11:24-25).

Se for guiado pelo Espírito Santo você irá pedir seu lugar à comunhão à mesa do Senhor, será observado pela assembleia para ver se existe algum mal moral, doutrinário ou eclesiástico em sua vida, e terá seu lugar, pois esta é a vontade do Senhor. Porém, se o piloto de sua vida for a carne você continuará vivendo esse dilema e acabará se afastando de outros irmãos que buscam fazer a vontade de Deus. Eles seguirão alegremente em comunhão com o Senhor e buscando fazer a vontade dele enquanto você viverá sempre com a consciência atribulada por não abrir mão da vontade própria.

Lembre-se sempre de que não estamos falando aqui de salvação, porque esta já foi resolvida quando você creu em Jesus, mas de comunhão com Deus e de fazer a vontade dele. Ao decidir seguir sua própria vontade você não perde a salvação, mas perde a comunhão com Deus e sua vida será a experiência que Davi relatou enquanto manteve oculto seu pecado:

(Sl 32:3-4) “Quando eu guardei silêncio, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo o dia. Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio “.

Felizmente Davi percebeu seu erro e confessou seu pecado, contando assim com a restauração que só Deus pode proporcionar.

(Sl 32:5) “Confessei-te o meu pecado, e a minha maldade não encobri. Dizia eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu pecado“.

Ele encontrou graça ao orar a Deus e percebeu que seu acesso ao trono da graça não estava impedido, e que Deus o guardava, pois ele podia se esconder em Deus e ser ali preservado da angústia que vinha de fora, já que a que vinha de dentro, de seu pecado não confessado, havia sido resolvida. Seu humor, que antes era “sequidão de estio” se transformou em “alegres cantos de livramento” :

(Sl 32:6-7) “Por isso, todo aquele que é santo orará a ti , a tempo de te poder achar; até no transbordar de muitas águas, estas não lhe chegarão. Tu és o lugar em que me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento“.

O salmista aproveita para lembrar-se de onde poderia sempre encontrar a direção certa a seguir: ficando tão próximo do Senhor ao ponto de poder ser guiado com um mero olhar, como faz um pai com seu filho. O contrário disso, que é a vida do crente que quer fazer a vontade própria, é ser conduzido por Deus com cabresto e freio como se faz com animais, que precisam sentir “muitas dores” para obedecer.

(Sl 32:8) “Instruir-te-ei, e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir; guiar-te-ei com os meus olhos. Não sejais como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio para que não se cheguem a ti. O ímpio tem muitas dores , mas àquele que confia no Senhor a misericórdia o cercará”.

Deixo para você alguns versículos da Palavra de Deus que poderão ajudá-lo:

(Os 6:3) “Então conheçamos, e prossigamos em conhecerão Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva seródia que rega a terra”.

Pergunto: sei que você conhece o Senhor, mas será que tem tido o desejo de deixar o que o impede para “prosseguir em conhecer”? A vida do cristão é de fé em fé e se tropeçamos em algo não saímos do lugar, o que parece estar sendo seu problema (daí você dizer que seu “processo” é demorado em relação ao dos outros irmãos com os quais tem convivido).

(Hb 12:1) “Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia , e corramos com paciência a carreira que nos está proposta,”.

Essa “tão grande nuvem de testemunhas” são os homens e mulheres de fé que aparecem no capítulo 11, todos eles cheios de falhas e com muitos motivos para se envergonharem de seus currículos, mas que mesmo assim encontraram graça para permanecerem na fé porque viam o invisível.

(Hb 12:2-14) “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus…. Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor;”.


Por que não consigo me identificar com os irmãos?

Você disse que, por ter vindo do mundanismo, tem um passado diferente dos irmãos com os quais tem se relacionado, já que eles vieram todos de denominações religiosas, antes de buscarem congregar somente ao nome do Senhor. Por isso você quase não tem conversa com eles por causa dessa diferença de background.

Não se preocupe. A questão de os irmãos sempre trazerem à conversa assuntos que são comuns a eles, como falarem de onde foram tirados, dos erros que viveram e coisas do tipo, é algo passageiro. Logo estarão mais ocupados com o Senhor presente do que com a religião passada. E com o tempo tudo aquilo fará parte de um passado tão distante que não terão qualquer vontade de falar disso.

Digo isto porque nenhum proveito existe em se ficar trazendo à tona o passado, seja ele um passado religioso ou mundano e sensual. Ambas as coisas são carnais, porque o ser humano é, por natureza, voltado às coisas da religião e dos sentidos. Quando descobrimos a verdade ainda trazemos aquele sentimento de competição muito comum entre meninos, querendo um mostrar que no passado foi pior que o outro. Mas a Palavra de Deus nos lembra: “Que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais?”. A resposta é nenhum , portanto de pouco adianta ficarmos orbitando em nosso passado de erros e enganos.

Nas denominações religiosas existe o costume de ficar tirando esqueletos do armário para apresentá-los publicamente e causar comoção nos ouvintes. A carne gosta disso e é por isso que os noticiários sensacionalistas na TV fazem tanto sucesso. Procuro ler sites de notícias na Web, mas fujo particularmente de um que pertence a um conglomerado de comunicação cujo dono é “bispo” de uma igreja evangélica. O site me lembra o antigo jornal “Notícias Populares”, do qual costumávamos dizer que se espremesse saía sangue. Obviamente o tal “bispo” sabe como manipular as pessoas e agarrá-las pelos sentidos carnais.

O homem carnal adora ver violência, droga, sexo e coisas do tipo. Então muitas dessas “igrejas” transforam seus púlpitos em sessões de violência, droga, sexo, etc. quando trazem os “testemunhos” de ex-bandidos, ex-drogados e ex-prostitutas. Alguns desses que dão “testemunhos” cobram caro para fazer isso. Outras “igrejas” chegam ao absurdo de entrevistarem supostos “demônios” em seus cultos, como se os cristãos devessem se reunir para ouvir a palavra do diabo!

Sob o pretexto de estar ouvindo o evangelho, o público tem seus instintos carnais despertados quando o ex-bandido faz subir a taxa de adrenalina no sangue dos ouvintes descrevendo seus crimes, o ex-drogado descreve suas viagens na droga e a prostituta excita a plateia com suas experiências sexuais. É claro que no final eles acabam dizendo que foi naquela “igreja” que encontraram a libertação e a coleta de ofertas vem a seguir, aproveitando a empolgação e falta de resistência dos presentes, ainda inebriados por emoções carnais.


Devo mentir para não me expor?

Você diz que mora em uma vizinhança de fofoqueiros que adoram saber tudo de sua vida. Por isso, quando no elevador encontra vizinhos que ficam fazendo perguntas sobre sua vida você prefere dizer mentiras a deixar que saibam detalhes de sua família, preferências pessoais, etc.

Se alguém perguntar sua senha bancária, então diga não. Se perguntar quanto você ganha pode dizer tranquilamente que prefere não revelar. Algumas empresas chegam a incluir no contrato de trabalho a proibição de revelar salários. Se a pessoa quiser saber um segredo ou algo muito íntimo, diga apenas que prefere não dizer.

Há várias maneiras de se dizer não sem ser indelicado: “Ainda estou trabalhando para resolver isso…”, “Assim que eu conseguir enxergar com clareza digo a você…”, “Não tenho certeza se a outra pessoa envolvida gostaria que eu revelasse o que aconteceu…”, etc. Mas se alguém perguntar se é casado, se tem filhos ou se gosta de jogar futebol, não vejo razão para não dizer ou querer evitar a pessoa. Mentir, nem pensar!

Se você for realmente salvo por Cristo irá enxergar nisso não uma invasão de sua privacidade, mas uma oportunidade para iniciar uma conversa e falar à pessoa do amor de Deus. Ponha na cabeça que você não é nenhuma celebridade, portanto que mal há em seus vizinhos ficarem sabendo algo a seu respeito? O cristão transparente não tem nada a esconder. Se as pessoas vão usar o que descobrirem para fofocarem o problema é delas para com Deus, não é seu.

É sempre bom olharmos para o Senhor quando buscarmos um modo de proceder nesta vida. O Senhor era transparente? Sim. Será que ele mentia quando lhe perguntavam alguma coisa? Não. Afinal, a própria vinda de Jesus ao mundo é a maior prova da transparência de Deus, ao querer se revelar ao homem. É claro que Deus já sabia o que nós, seres humanos, iríamos fazer com seu Filho, mas isso não o impediu de enviá-lo ao mundo.

Pense assim: se alguém quisesse conhecer Jesus na intimidade, será que ele permitiria? É claro que sim, pois a muitos que o conheceram enquanto andou aqui, e o conhecem hoje, ele revelou sua verdadeira natureza divina. “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30). E mesmo aos seus inimigos ele deixava clara sua transparência: “Qual de vocês pode me acusar de algum pecado? Se estou falando a verdade, porque vocês não creem em mim?” (Jo 8:46).

É claro que muito do que se podia conhecer de Cristo estava vedado aos olhos dos incrédulos, não porque ele não fosse transparente, mas porque os ímpios se recusavam a enxergar. Porém seus discípulos tinham o privilégio de conhecê-lo:

(Jo 15:15) “Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer“.

A transparência de Jesus era tamanha que séculos antes de ter vindo ao mundo Deus já revelava quem ele era, como nasceria aqui, como viveria e como morreria. Mais uma vez a incredulidade era a única barreira para conhecê-lo.

(Jo 5:39-40) “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam ; E não quereis vir a mim para terdes vida”.

O apóstolo Paulo também dá prova de sua transparência ao revelar: “E, se sou rude na palavra, não o sou, contudo na ciência; mas já em todas as coisas nos temos feito conhecer totalmente entre vós“ (2 Co 11:6).

Por isso é bom você fazer uma autoanálise para ver se essa sua maneira de ser não é apenas uma das facetas do egoísmo. O cristão não deve querer guardar tudo para si, sejam as informações sobre sua vida, sejam as coisas que possui. Conheço pessoas que nunca dão as roupas que não servem; guardam tudo o que usaram desde criança. Será que pretendem ser enterradas em um contêiner em lugar de caixão?

Mas pode ser que seu medo da transparência esteja em querer esconder suas fraquezas e falhas, o que acaba fazendo de seu medo sua maior fraqueza. Pessoas religiosas são assim como os fariseus: têm pavor que as pessoas descubram quem elas realmente são por debaixo da aparência de falsa dignidade. Se os apóstolos não fossem transparentes, como poderíamos saber de todos os erros que cometeram e estão gravados nos evangelhos? E se os profetas do Antigo Testamento não fossem transparentes, como iríamos conhecer toda a podridão dos israelitas descritos ali?

Uso em meus treinamentos de oratória, duas cenas de um vídeo de um filme que mostra a vida do cantor rapper Eminem. Na primeira cena ele está participando de um duelo entre rappers e depois de ser massacrado com as rimas violentas de seu adversário, tem um branco total e fica mudo na sua vez de revidar. Na segunda cena, antes que seu adversário traga todos os podres a seu respeito na letra improvisada, é ele quem se adianta a cantar suas desventuras e defeitos, terminando com a frase dirigida ao adversário: “Agora diga a eles alguma coisa que ainda não saibam a meu respeito”. Então foi a vez do adversário ficar mudo.

Minha lição aos participantes do treinamento é: comecem uma palestra falando de si mesmos e de preferência contando alguma falha ou caso engraçado em que você fez papel de bobo. Isto faz com que a plateia enxergue você como uma pessoa transparente e normal e aceite melhor o que você irá falar, ao invés de vê-lo como um soberbo e orgulhoso de saltos altos e de nariz empinado.

Um cristão não tem medo da transparência porque ele sabe que não está aqui para defender sua reputação, mas para apresentar Cristo às pessoas. Se a sua vida está um bagaço, então o melhor é ele se acertar diante de Deus e dos homens e dar um bom testemunho de Jesus, que neste mundo é representado justamente pelos que professam crer nele. Mesmo assim, basta ler o capítulo 11 de Hebreus para perceber que foram homens cheios de falhas que Deus usou no passado.

(Tg 5:17) “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra”.

Que as pessoas podem fazer um mau uso das coisas que descobrirem a seu respeito não há como negar. Mas elas também podem fazer o mesmo das coisas que não descobrirem e simplesmente imaginarem, porque em toda comunicação as pessoas nem sempre escutam o que falamos, mas sim o que pensam que falamos ou imaginam a partir do que não revelamos.

É por isso que você pode dizer a alguém que acabou de voltar de uma viagem no exterior e a pessoa pensar consigo mesma: “E esse aí tem dinheiro para viajar ao exterior? Conversa fiada…”. Ou dizer que nunca viajou para o exterior e seu vizinho pensar consigo: “Imagina que esse aí nunca viajou! Deve conhecer o mundo inteiro…”.


Um cristão pode ser vendedor?

Sua dúvida é se a profissão de vendas seria incompatível com a fé cristã, pois após atuar muitos anos como gerente de vendas de uma grande montadora de automóveis, e depois de observar que trabalho como palestrante, indagou: “O teu lado espiritual não choca com teu lado profissional, pelo fato de vendas ter o motivacional quase sempre voltado ao lado material? Como você separa?”.

A sua dúvida é também a dúvida de muitos cristãos, principalmente porque o cristianismo foi grandemente influenciado por filosofias orientais e pelo gnosticismo, que pregam que o mundo material é ruim e o mundo espiritual é bom, sem perceberem que existem “as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” (Ef 6:12). Todavia, ao criar o mundo material Deus afirmou seis vezes “bom” para cada coisa que fazia, e depois de ter criado o homem declarou que tudo o que havia feito era “muito bom”.

(Gn 1:4-31) “E viu Deus que era boa a luz… E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca… e viu Deus que era bom…. E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra… e viu Deus que era bom…. E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas… e viu Deus que era bom…. E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom…. E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom… E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou… E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom“.

Além disso, se a matéria fosse intrinsecamente maligna, o Filho de Deus jamais teria vindo em carne, já que assumiu aqui um corpo material semelhante ao nosso, porém sem pecado. A verdade é que o problema não está na matéria ou no mundo material, mas no pecado, este sim um intruso na Criação. Por causa do pecado, primeiro de Satanás e depois do homem, é que o mundo material se corrompeu e se degrada continuamente.

Qualquer trabalho ou profissão tem por objetivo prover o sustento, e isto não é diferente para o cristão, que ainda vive neste mundo, possui um corpo de carne e é exortado a trabalhar para comer. “Se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (2 Ts 3:10). Porque trabalhamos, recebemos um salário ou pagamento por nosso trabalho, e isto geralmente vem na forma de dinheiro, seja ele de papel, metal ou digital. E nos evangelhos Jesus fala do dinheiro em um contexto negativo, primeiro chamando-o de “Mamom” , e depois de “riquezas da injustiça”.

Considerando que o próprio Senhor usou dinheiro, fazendo uma moeda aparecer na boca de um peixe, isto pode nos confundir, mas só até entendermos que o mal não está no dinheiro, mas no amor ao dinheiro. “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1Tm 6:10).

Escrevi tudo isto para colocar cada coisa em seu devido lugar: a vida em um mundo material, trabalho, salário, dinheiro e o seu uso errado. Agora vamos à profissão de vender e também ao papel do palestrante quando motiva seu público a vender mais.

O Senhor Jesus certamente se envolveu em vendas, pois trabalhando como carpinteiro, profissão que provavelmente aprendeu com José, ele não distribuía gratuitamente o resultado de seu trabalho, mas vendia para ajudar na manutenção da família. Seria tolice pensar que ele simplesmente fazia pães e peixes aparecerem na mesa da família como fez para alimentar as multidões. Nenhum milagre é registrado antes do início de seu ministério, pois os milagres e sinais tinham um objetivo muito claro: demonstrar suas credenciais de Messias e Rei prometido a Israel. Portanto pense em Jesus, em sua juventude e até o início de seu ministério, como um profissional vivendo, trabalhando e comercializando os produtos e serviços que oferecia.

Agora vamos pensar nos discípulos que encontramos em Atos. Excetuando os apóstolos, que haviam sido chamados de forma muito específica e deixaram seus ofícios de pescadores ou, como foi o caso de Mateus, de funcionário público, todos os outros estavam envolvidos com vendas. Até mesmo um funcionário precisa vender bem sua capacidade para permanecer no emprego ou ser promovido. Lídia era vendedora de púrpura, Dorcas era costureira e Paulo, juntamente com Priscila e Áquila, estava empenhado na fabricação de tendas. O que eles faziam com sua púrpura, suas confecções e suas tendas? Vendiam.

E o que dizer de Barnabé? Ele tinha uma propriedade e decidiu vendê-la para entregar o fruto da venda aos apóstolos para o sustento destes e também dos irmãos necessitados. Você conseguiria imaginar Barnabé entregando sua propriedade a qualquer preço? Eu não. Acredito que ele tenha avaliado pelo preço de mercado e procurado a melhor oportunidade de vender pelo maior preço que pudesse conseguir. Menos que isto seria desprezar o fato de Deus ter colocado aquele bem em suas mãos com um propósito maior. É preciso entender que sempre que ocorre uma transação de compra e venda isto pode também ser encarado como uma ajuda.

Aprendi com minha mãe, que vinha de uma linhagem de empresários e comerciantes, a nunca criticar pessoas ricas por comprarem coisas caras ou fazerem festas suntuosas. Ela sempre dizia que muitos eram beneficiados com aquilo: fabricantes, operários, comerciantes, balconistas, garçons, costureiras, músicos, etc. Quantas vezes você comprou algo no semáforo para ajudar uma pessoa? A compra e venda podem ser enxergadas como ajuda. O vendedor me ajuda a encontrar e possuir o que necessito e eu ajudo o vendedor a alimentar seus filhos. Mesmo porque as coisas não aparecem por passe de mágica: tudo, absolutamente tudo o que temos, passou pelas mãos de um vendedor. Até eu e você, pois alguém comprou os serviços da parteira, que por sua vez vendeu sua experiência.

Portanto não vejo que exista algum mal na profissão de vendas, desde que esta seja feita de maneira ética. É claro que enganar para vender não é a maneira do cristão, mas sim procurar descobrir as necessidades do cliente para ajudá-lo a encontrar aquilo que procura ou ir além, apresentando até o que poderá precisar no futuro. Certamente existem muitos vendedores que mentem e enganam os clientes, mas não é o que eu e muitos outros palestrantes ensinamos nas palestras…


Tito abandonou Paulo?

Ao ler 2 Timóteo 4 você ficou em dúvida se o Tito mencionado ali seria o mesmo a quem Paulo dirigiu sua epístola. Sim, deve ser o mesmo Tito, porém a passagem não diz que ele tenha abandonado a Paulo. Demas foi quem Paulo diz que o abandonou, enquanto só é dito que Crescente e Tito viajaram para outro lugar. Talvez tenham viajado para tratar de assuntos particulares ou mesmo na obra do Senhor, mas não enviados por Paulo, pois no versículo seguinte, Paulo fala que enviou Tíquico a Éfeso. Isto parece ficar mais claro na versão NVI da Bíblia:

(2Tm 4:10-12) “Pois Demas, amando este mundo, abandonou-me e foi para Tessalônica. Crescente foi para a Galácia, e Tito, para a Dalmácia. Só Lucas está comigo. Traga Marcos com você, porque ele me é útil para o ministério. Enviei Tíquico a Éfeso”.

Às vezes lemos a Bíblia achando que vamos encontrar ali uma lista de pessoas com as qualidades dos “santos” do catolicismo, ou seja, super-espirituais, imunes ao pecado e coisas do tipo. Essas qualidades estão mais para os gurus orientais do que para os verdadeiros santos. Aliás, nas epístolas dos apóstolos aprendemos que “santos” são todosos que creem em Jesus como Salvador, que foram lavados pelo sangue do Cordeiro. A expressão “santo” significa simplesmente “separado”, porque Deus os separou para si, e não pessoas que saem flutuando por aí e nunca cometem pecado algum.

Como é dito de Elias, todos os santos que vemos na Bíblia eram homens sujeitos às mesmas paixões que nós, e não é diferente com estes. “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós” (Tg 5:17). Portanto eu não me surpreenderia se o texto dissesse explicitamente que Tito ou Crescente tivessem abandonado Paulo (o que não é o caso), pois eram humanos como nós.

Mas veja que a graça sempre está disponível, pois na mesma passagem Paulo fala de outro que o abandonou em um determinado momento de suas viagens missionárias. Ele pede a Lucas que traga consigo Marcos. Se você acompanhar a história de João Marcos (é deste que está falando, talvez o mesmo autor do evangelho) verá que ele já havia caído no erro. Ele era filho de Maria, em cuja casa a igreja congregava (Atos 12:12) e foi companheiro de Barnabé e Paulo em sua viagem missionária (Atos 12:25). Mais adiante aprendemos que João Marcos abandonou Paulo:

“Tendo Paulo e seus companheiros navegado de Pafos, foram a Perge na Panfília; João, porém, apartando-se deles, voltou a Jerusalém” (Atos 13:13).

Por esta razão Paulo se opôs a que ele voltasse a acompanhá-lo em outra viagem por causa de seu comportamento inadequado. Por isso Barnabé o leva consigo, mas o relato de Atos deixa de ocupar-se com Barnabé e Marcos para ocupar-se apenas de Paulo e Silas:

“Barnabé queria levar consigo também João que tinha por sobrenome Marcos. Mas Paulo não achou justo levar consigo a quem os tinha deixado desde a Panfília e que não os tinha acompanhado no trabalho. Houve tal desavença que se separaram um do outro, e Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre. Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu, encomendado pelos irmãos à graça do Senhor. Ele passou pela Síria e Cilícia, fortalecendo as igrejas” (Atos 15:37-41).

Porém nesta última carta a Timóteo Paulo pede que Lucas traga Marcos consigo, demonstrando assim que sua confiança e amizade haviam sido restauradas. Assim é a graça de Deus e é assim que também devemos tratar com graça para com nossos irmãos, restaurando nossa comunhão com eles quando dão provas de estarem arrependidos de seus erros.


O que significa perseverar até o fim?

“Perseverar até o fim” aparece nos evangelhos e o contexto é o Senhor falando aos judeus referindo-se ao reino. Os capítulos 10 e 24 de mt e também Marcos 13 se referem à grande tribulação, e ali fala de salvação do corpo de carne, de sair vivo da tribulação para poder habitar no reino de mil anos. Compare com o versículo 22 deMateus 24: “E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria”.

(Mt 10:22) “E odiados de todos sereis por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim será salvo”.

(Mt 24:13) “Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo”.

(Mc 13:13) “E sereis odiados por todos por amor do meu nome; mas quem perseverar até ao fim, esse será salvo”.

A expressão “persevera” ou “persevere” aparece nas epístolas na forma de admoestação:

(1Tm 4:16) “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem”.

Aqui também não está falando da salvação da alma, mas da salvação (ou de manter-se a salvo) da apostasia dos últimos tempos, que é o assunto do capítulo (veja os primeiros versículos). É apenas perseverando nos ensinos da Palavra de Deus, e aqui especificamente nas instruções dadas a Timóteo, que ficamos a salvo de problemas nesta vida e podemos nos dedicar mais livremente às coisas do Senhor.

(1Tm 5:5) “Ora, a que é verdadeiramente viúva e desamparada espera em Deus, e persevera de noite e de dia em rogos e orações;”.

Aqui também nada tem a ver com salvação da alma, mas o termo aparece como uma qualidade das viúvas, que deveria ser também uma qualidade de todo crente: perseverar em oração o tempo todo.

(Tg 1:25) “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera , não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito”.

Mais uma vez o verbo perseverar é usado no sentido de uma vida de comunhão com Deus.

(2 João 1:9) “Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho”.

Aqui sim está falando de salvação para os que perseveram e de perdição para os que não perseveram na doutrina de Cristo. Mas que doutrina de Cristo é esta à qual João se refere? Não se refere a algo que FAZEMOS, mas naquilo em que cremos.

O assunto do apóstolo são os “enganadores [que] entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este tal é o enganador e o anticristo” (2 Jo 1:7). São os falsos mestres, que ensinam que Jesus Cristo não é Deus, mas um ser criado. Você encontra esta doutrina maligna em religiões como Testemunhas de Jeová, Mórmons e Espíritas.

Para ser salvo é preciso crer em Cristo como Deus e Homem, e é isto que está subentendido na expressão “veio em carne” (2 Jo 1:7). Dizer que alguém nasceu é uma coisa, pois todos os seres humanos nasceram. Mas dizer que alguém veio em carne significa que tinha preexistência e assumiu um corpo humano. Um espírita poderia aqui argumentar que a reencarnação também funciona assim, mas o problema é que a Palavra de Deus afirma categoricamente não existir reencarnação, mesmo porque o homem só morre uma vez.

“Aos homens está ordenado morrerem uma vez , vindo depois disso o juízo” (Hb 9:27).

Assim, a fé cristã que salva é crer em Jesus como divino, Deus e Homem, a Pessoa do Filho Eterno, que veio em carne, em semelhança humana, porém sem pecado, para morrer como o único sacrifício aceitável por Deus, como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

(1 João 5:20) “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”.

(Jo 1:1) “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus“.

(Jo 1:14) “E o Verbo se fez carne , e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”.

(Rm 8:3) “Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado , pelo pecado condenou o pecado na carne;”.

“O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1 João 1:7).

(1 João 2:2) “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”.

(1 João 4:10) “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados”.


Como posso ser útil?

Ouvi notícias pelos irmãos e fiquei muito animado com tudo, em especial por saber de seu pedido à comunhão à mesa do Senhor. Ele é realmente digno de o buscarmos em adoração e fazermos o que ele pediu da forma e no lugar (ao seu NOME) que o Senhor sempre desejou.

Tenho certeza de que os irmãos da assembleia mais próxima de você também estão alegres com seu pedido, mas nenhum deles tanto quanto o próprio Senhor. Que honra para o NOME de Cristo é ele poder ver mais um que deixa para trás os sistemas humanos apenas para a obediência de fé. Hoje as pessoas buscam a Deus com tantos interesses (como prosperidade, cura, relacionamentos, música, etc.) e ficam tão ocupadas com tantas coisas, que acabam perdendo “a boa parte” que Maria escolheu: estar aos pés de Jesus e ouvir dele.

(Lc 10:39-42) “E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe que me ajude. E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada”.

Às vezes ficamos relutantes quanto ao que fazer por estarmos ocupados com a obra do evangelho no lugar onde estamos, mas nunca devemos nos esquecer de que há coisas que Deus dá e há coisas que Deus procura. Dentre as coisas que Deus dá estão os dons, inclusive evangelistas, pastores e doutores. E quando nos preocupamos com a obra na seara de Deus, será que procuramos formar mais trabalhadores ou pedimos que o Pai envie trabalhadores para a sua seara?

(Ef 4:11) “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores,”.

(Mt 9:37-38) “Então, disse aos seus discípulos: A seara é realmente grande, mas poucos os ceifeiros. Rogai, pois, ao Senhor da seara, que mande ceifeiros para a sua seara“.

Se as coisas relacionadas ao serviço ou trabalho na seara de Deus é ele mesmo quem providencia, o que será que Deus procura? Adoradores. Isto ele não dá, ele procura. Mas não apenas adoradores, mas aqueles que adorem em espírito e verdade.

(Jo 4:23-24) “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade ; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”.

Os judeus adoravam em verdade, pois eram zelosos das Escrituras, mas não em espírito. As religiões criadas pelos homens adoram em espírito, mas não em verdade por fecharem os olhos para as Escrituras e fazendo cada um do jeito que acha melhor fazer. A responsabilidade do crente está em individualmente buscar onde e como o Senhor quer ser adorado, e isto é algo que perguntamos a ele, como fizeram os discípulos.

(Lc 22:8-14) “E mandou a Pedro e a João, dizendo: Ide, preparai-nos a páscoa, para que a comamos. E eles lhe perguntaram: Onde queres que a preparemos? E ele lhes disse: Eis que, quando entrardes na cidade, encontrareis um homem, levando um cântaro de água; segui-o até à casa em que ele entrar. E direis ao pai de família da casa: O Mestre te diz: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos? Então ele vos mostrará um grande cenáculo mobilado; aí fazei preparativos. E, indo eles, acharam como lhes havia sido dito; e prepararam a páscoa. E, chegada a hora, pôs-se à mesa, e com ele os doze apóstolos”.

Sei da dificuldade que tem em abrir mão do trabalho que fazia com os jovens na denominação de onde se apartou. Eu passei por um dilema parecido com o que você está passando há mais de 30 anos. Pregava em uma pequena congregação batista e minha esposa ensinava na escola dominical. Então viemos a conhecer o lugar de reunião conforme é mostrado na Palavra de Deus e ficamos na dúvida: deixar a denominação ou não? O que nos manteve lá até a última hora foi justamente a preocupação do que a nossa saída poderia causar naqueles jovens e crianças. Mas quando aprendemos a colocar tudo nas mãos do Senhor e a seguir a direção do Espírito as coisas ficaram bem mais fáceis.

Em 2 Timóteo 2 há uma passagem de grande instrução:

(2Tm 2:19-21) “Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade. Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra“.

A parte para a qual quero chamar sua atenção é ser um vaso para honra. Quando queremos ser vaso para honra, nós procuramos nos afastar do mal sem nos preocuparmos com os que permanecem lá. A decisão é individual porque o discernimento é individual. Evidentemente eu não chamaria os irmãos que estão nas denominações de vasos para desonra, porque eles também querem honrar a Cristo, apesar de imporem limitações a si mesmos por estarem sujeitos a um sistema que tolhe a liberdade do Espírito Santo. Então vamos pensar apenas nos vasos para honra, mas aí entra um detalhe: podemos ser vasos para honra e podemos ser vasos para honra preparados para toda a boa obra. O que isto significa?

Quando me mudei para Alto Paraíso, na viagem de ida atolei a Kombi e para tirá-la do atoleiro precisei erguê-la com o macaco e enfiar pedaços de “canela de ema” sob a roda. O problema é que eu não tinha nenhuma pedra ou viga de madeira onde apoiar o macaco, que teimava em enterrar no barro, e as “canelas de ema” eram moles demais para isso (você deve conhecer, elas são apenas um feixe de fibras resistentes à tração, mas não à pressão). Então peguei das coisas da mudança uma panela dessas de alumínio fundido, novinha, e coloquei-a sobre a lama com a base do macaco dentro dela criando assim uma sapata. Funcionou muito bem e tirei o carro do atoleiro, só que a panela já era. A base do macaco deixou marcas profundas nela já não servia para cozinhar. Mesmo assim, a partir daquele dia eu passei a carregar a panela dentro do estepe da Kombi e ela foi usada muitas outras vezes em atoleiros. Mas nunca para preparar comida.

Se considerarmos que cozinhar é uma boa obra, sem a qual não sobrevivemos, minhas panelas de cozinha estavam sempre preparadas para toda a boa obra e eram usadas em diferentes refeições. Estavam planas, alinhadas, limpas, prontas. Porém, aquela panela só servia para uma coisa: apoiar ao macaco na lama.

Um cristão pode ser um vaso para honra e mesmo assim não estar preparado para toda a boa obra, só para uma ou duas. Às vezes não percebemos o quanto estamos limitando a ação do Espírito através de nós, por colocarmos todo o nosso foco em algo, sem perceber que o Senhor nos queria para outras coisas, algumas muito mais nobres do que apoiar um macaco na lama.


As mulheres não podem cantar?

Sempre que surgem dúvidas e questões entre irmãos é preciso cuidado para ver onde essas dúvidas estão nos levando. Isto porque é fácil sermos enganados por não buscarmos nas Escrituras ou por nossa própria carne e, ao invés de estarmos buscando uma solução para a glória de Deus, acabamos querendo fazer valer a nossa opinião. O que nos diz a Palavra? “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus… E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens” (1 Co 10:31; Cl 3:23).

Portanto o primeiro passo é cada um julgar seu próprio coração para saber que objetivo quer alcançar; se é a glória de Deus ou a defesa de suas próprias ideias e reputação. Devemo-nos lembrar de que o Senhor, apesar de ser perfeito e sua vontade ser exatamente idêntica à do Pai, enquanto andou aqui não quis fazer a sua vontade, mas somente a do Pai. Por isso é bom sondarmos nosso próprio coração para ver a vontade de quem estamos querendo fazer: a nossa ou a do Senhor?

(1 Co 11:31-32) “Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo”.

Sua dúvida é se a proibição para que as mulheres não falem nas reuniões da assembleia também significa que não devem cantar. Toda resposta deve começar pela Palavra de Deus, portanto vamos ler a passagem que diz para as mulheres permanecerem caladas nas igrejas.

(1 Co 14:33-37) “Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos. As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja. Porventura saiu dentre vós a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós? Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor”.

O primeiro argumento que poderia surgir é que uma pessoa, ao cantar, está também falando, e para isto existe até um versículo que parece comprovar isto:

(Ef 5:19) “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração;”.

A conclusão seria que a mulher, ao cantar na reunião da assembleia, estaria também falando, mas tal conclusão seria errada se perdesse de vista a passagem de 1 Coríntios 14 e também 1 Timóteo 2. Esta, embora esteja falando de outro contexto que é o do lar, mostra também a posição da mulher em relação ao ensino:

(1Tm 2:11-14) “A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão”.

Juntando tudo fica claro que a razão da proibição de mulheres falarem nas reuniões da igreja é evitar que a mulher ensine algo por meio de suas palavras, induzindo ao erro. Mas não confunda “igreja” ou “assembleia” com o lugar físico onde as reuniões da igreja ou assembleia são feitas. Quando a epístola fala que as mulheres devem permanecer caladas nas igrejas não está se referindo ao prédio ou sala onde a igreja ou assembleia se reúne. Está falando da reunião, no período desde quando começa até quando termina. Quando os irmãos em uma assembleia determinam que sua reunião comece às 19 horas e termine às 20 horas, nesse período é a reunião da igreja e é quando as mulheres devem permanecer caladas.

A razão da proibição de as mulheres falarem nas reuniões da igreja é que elas são mais suscetíveis ao engano do que os homens, pois Eva foi enganada e Adão não foi. “Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1Tm 2:14). A proibição tem por objetivo evitar que uma mulher introduza má doutrina durante a reunião da igreja.

Quando ela canta, está seguindo um texto previamente preparado e isento de erros doutrinários, portanto não existe aí o risco de ser enganada e enganar. Assim, isto é, seguindo a letra de um hino que foi previamente selecionado por um varão para o cântico em assembleia, ela acabará em certo sentido “falando”, mas obviamente sem ter a iniciativa do quê falar, que é quando poderia errar e induzir ao erro. Por esta razão a mulher também não deve ler a Palavra de forma audível durante as reuniões da igreja, pois é possível errar e induzir ao erro até trazendo um versículo fora do contexto ou do momento apropriado. Antes que alguém alegue que não há como a Palavra de Deus induzir ao erro basta lembrar que Satanás usou a Palavra de Deus na tentação de Jesus.

O problema da dificuldade encontrada em 1 Coríntios 14 geralmente não é de Bíblia, mas de dicionário. “Falar” é “exprimir por meio de palavras” e “cantar” é “formar, emitir com a voz sons ritmados e musicais”. Você não precisa de palavras para cantar, mas é impossível falar sem palavras (exceto na linguagem por sinais). Eu posso passar o dia cantando “trá-lá-lá” e não dizer uma palavra. Portanto entendo que a epístola não proíbe a mulher de cantar , mas de falar. O que você acha que aconteceria se o Roberto Carlos, ao invés de cantar em um show, passasse duas horas falando? As pessoas iriam querer o dinheiro de volta. Então a distinção entre falar e cantar é clara até para um incrédulo com alguma noção de interpretação de texto.

Além disso, a passagem de Efésios, “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais”, nos deixa confortáveis com o fato de as mulheres poderem assim participar do louvor entre os irmãos sem problema algum.


Os cristãos devem combater o casamento gay?

O cristão está no mundo, mas não é do mundo, portanto ele não tem nada que interferir na política e no governo deste mundo. Não vemos o Senhor, os apóstolos ou os discípulos interferindo nos governos da época, quando os costumes aceitos pela sociedade eram iguais ou piores aos praticados hoje.

Embora em Israel existisse uma cultura baseada na religião judaica e, portanto com algum controle moral da sociedade, foi no mundo gentio e pagão dominado por Roma que a igreja floresceu. Quem estuda antropologia sabe que nessa época costumes como homossexualismo, prostituição e aborto eram largamente aceitos, praticados e às vezes até legalizados.

O que os cristãos sabidamente faziam não era jogar bombas em clínicas de aborto ou matar médicos, como alguns fazem nos Estados Unidos, mas recolher os bebês e tratar deles. Numa espécie de “aborto a posteriori”, estes eram deixados pelas mães romanas à beira das estradas para morrerem ou serem comidos pelos cães. Primogênitos do sexo feminino ou crianças portadoras de deficiência eram descartados, um costume encontrado até o início do século vinte em alguns países da África e Oriente, e ainda hoje em algumas tribos indígenas da América Latina, que costumam enterrar vivos os bebês rejeitados.

Desde o início os cristãos foram conhecidos não por seu ativismo contra o homossexualismo, aborto ou outras causas, mas por seu trabalho de misericórdia, não apenas para com órfãos e viúvas, mas também acolhendo e cuidando dos velhos e doentes rejeitados pelas famílias nas sociedades pagãs. O trabalho dos cristãos no início da Igreja era voltado para a salvação dos pecadores e a caridade para com os sofredores, e não para o protesto contra o governo e as leis injustas que eventualmente estivessem em vigor.

A grande agitação causada por pastores e políticos no Brasil em torno de temas como a regularização do casamento homossexual tem um forte elemento de promoção pessoal e conquista de votos, ofertas e membros para suas organizações. Se por um lado a Bíblia mostra claramente que o homossexualismo é pecado, o mesmo acontece com o sexo fora do casamento, a prostituição e o adultério, todas estas atividades praticadas em consenso entre os que as praticam.

O que as pessoas fazem na intimidade da alcova não é assunto dos cristãos e estes não têm nada que se intrometerem nisso. Essas pessoas não devem explicações aos cristãos, mas a Deus. O cristão não foi deixado aqui para policiar os usos e costumes daqueles que não estão nem aí com os pensamentos de Deus. O cristão deve é manter-se separado de tudo isso, mesmo porque um incrédulo é incapaz de entender e aceitar a autoridade da Palavra de Deus. Um cristão sábio, cuja esperança é eterna e nos céus, irá entender que o incrédulo estará disposto a lutar com unhas e dentes para defender a única coisa que possui: o prazer efêmero de sua vida aqui.

Não cabe ao cristão tentar moralizar um mundo, o qual caminha a passos largos para o juízo, como ocorreu com Sodoma. O mundo islâmico é radicalmente contra o homossexualismo, mas isso não significa que os muçulmanos estejam salvos.

Deus não mandou Ló reformar Sodoma, mas sair dela. Aquele era um homem de Deus no lugar onde Deus não queria que estivesse. Enquanto ele foi armando sua tenda até Sodoma (Gn 13:12), Abraão continuou vivendo como peregrino em terra estranha, na qual Deus “não lhe deu nela herança, nem ainda o espaço de um pé” (Atos 5:7).

Quando os anjos enviados para resgatar Ló chegaram a Sodoma, eles o encontraram assentado à porta da cidade, um lugar tradicionalmente ocupado pelos juízes de antigamente. Ló não apenas tinha estabelecido residência dentro dos muros da cidade iníqua, como estava entre os que na época equivaleriam ao poder legislativo de nossos dias, equivalentes aqui à Câmara dos Deputados e Senado Federal. Nos Salmos encontramos a expressão “assentado à porta” profeticamente indicando os líderes que condenaram o Senhor Jesus.

(Gn 19:1) “E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma“.

(Sl 69:12) “Aqueles que se assentam à porta falam contra mim”.

(2 Sm 19:8) “Então o rei se levantou, e se assentou à porta ; e fizeram saber a todo o povo dizendo: Eis que o rei está assentado à porta. Então todo o povo veio apresentar-se diante do rei;”.

Basta ler a continuação da história para ver quão vergonhosa foi a situação de Ló. Por estar onde não deveria estar, ocupando uma posição que não deveria ocupar, ele se viu obrigado a tomar uma decisão radical contra o homossexualismo que os homens da cidade pretendiam praticar à força com os anjos enviados por Deus. Ló negociou com eles oferecendo suas filhas virgens em troca!

(Gn 19:4-11) “E antes que se deitassem, cercaram a casa, os homens daquela cidade, os homens de Sodoma, desde o moço até ao velho; todo o povo de todos os bairros. E chamaram a Ló, e disseram-lhe: Onde estão os homens que a ti vieram nesta noite? Traze-os fora a nós, para que os conheçamos. Então saiu Ló a eles à porta, e fechou a porta atrás de si, E disse: Meus irmãos, rogo-vos que não façais mal; Eis aqui, duas filhas tenho, que ainda não conheceram homens; fora vo-las trarei, e fareis delas como bom for aos vossos olhos ; somente nada façais a estes homens, porque por isso vieram à sombra do meu telhado. Eles, porém, disseram: Sai daí. Disseram mais: Como estrangeiro este indivíduo veio aqui habitar, e quereria ser juiz em tudo? Agora te faremos mais mal a ti do que a eles. E arremessaram-se sobre o homem, sobre Ló, e aproximaram-se para arrombar a porta. Aqueles homens porém estenderam as suas mãos e fizeram entrar a Ló consigo na casa, e fecharam a porta; E feriram de cegueira os homens que estavam à porta da casa, desde o menor até ao maior, de maneira que se cansaram para achar a porta”.

Quando um servo de Deus se coloca em jugo desigual com incrédulos e se intromete com os negócios deste mundo, acaba sendo obrigado a negociar como fez Ló, pois a política deste mundo não dá sem receber algo em troca. Fora de seu lugar o cristão é obrigado a se humilhar e acaba fazendo papel de doido, como fez Davi quando decidiu ir morar no palácio de seus inimigos na terra dos filisteus.

(1 Sm 21:10-15) “Levantou-se Davi, naquele dia, e fugiu de diante de Saul, e foi a Aquis, rei de Gate. Porém os servos de Aquis lhe disseram: Este não é Davi, o rei da sua terra? Não é a este que se cantava nas danças, dizendo: Saul feriu os seus milhares, porém Davi, os seus dez milhares? Davi guardou estas palavras, considerando-as consigo mesmo, e teve muito medo de Aquis, rei de Gate. Pelo que se contrafez diante deles, em cujas mãos se fingia doido, esgravatava nos postigos das portas e deixava correr saliva pela barba. Então, disse Aquis aos seus servos: Bem vedes que este homem está louco; por que mo trouxestes a mim? Faltam-me a mim doidos, para que trouxésseis este para fazer doidices diante de mim? Há de entrar este na minha casa?”.

Acaso não é assim, doidos, que os incrédulos enxergam os crentes que interferem na política querendo lhes dar lição de moral? Portanto o papel do cristão hoje não é ficar “assentado á porta de Sodoma” como legislador, na tentativa de mudar o curso de impiedade deste mundo. Sua função aqui é pregar o evangelho para salvar aqueles que se reconhecem pecadores, e não pregar moralidade ou querer conquistar espaço na política. Aqueles que foram salvos pela fé em Jesus irão honrar a Palavra de Deus e procurar viver de acordo com o ensino dela, e esta certamente não inclui a união de pessoas do mesmo sexo, o homossexualismo, adultério, fornicação, prostituição, etc.

Para o cristão não faz qualquer diferença se o governo aprova ou não o casamento homossexual. Alguns poderão argumentar que se assim for o governo obrigará as igrejas a celebrarem uniões homossexuais, mas pensar assim é não entender o que é o matrimônio segundo a Bíblia. Não existe na Palavra de Deus algo como uma igreja celebrando um casamento. Pessoas se casam perante Deus e cumprem as disposições legais oficializando sua união civil em obediência aos poderes estabelecidos por Deus. Não existe algo como alguém declarar um casal marido e mulher perante Deus. O único que pode fazer tal declaração, mas apenas perante os homens, é o juiz de paz com a autoridade que lhe foi delegada pelo estado. Deus não delegou autoridade para homens unirem pessoas naquilo que se costuma chamar de “casamento religioso”.

Trocando em miúdos, com quem uma pessoa se casa ou deixa de se casar é problema dela, e se o governo oficializa isso ou não é problema dos governantes. Eles deverão dar contas de seus Atos a Deus. O cristão vive à margem disso como sempre foi no início do cristianismo. Aqueles que vão na conversa de pastores e políticos ditos “evangélicos” e saem em campo para enfrentar e atacar os movimentos GLS não percebem que estão servindo de “buchas de canhão” desses pastores e políticos.

O casamento que o cristão deveria ser radicalmente contra é o casamento entre a igreja e o estado, algo que alguns políticos denominados “evangélicos” insistem em manter. Constantino celebrou essa união no terceiro século e foi um verdadeiro desastre. A referência profética feita no livro de Apocalipse à igreja nessa época é: “Conheço as tuas obras, e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás“ (Ap 2:13). O príncipe deste mundo é Satanás e, ao unir-se aos poderes deste mundo no terceiro século, a igreja passou a habitar onde Satanás tem seu trono. O cristão não tem nada a fazer nesse lugar.

“Disse Jesus: O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui”. (Jo 18:36).

“Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou. Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou. Santifica-os [separa-os] na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo”. (Jo 17:14-18).

“Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus”. (Tg 4:4).


Qualquer cristão pode participar da ceia?

Perguntar se qualquer cristão pode participar da ceia à mesa do Senhor é como perguntar se qualquer pessoa com carteira de habilitação pode dirigir. A resposta para as duas perguntas é “sim”. Todo membro do corpo de Cristo tem o seu lugar à mesa do Senhor e todo motorista habilitado pode dirigir seu veículo. Porém pela mesma razão que um motorista habilitado, porém alcoolizado, não deve dirigir, um cristão em pecado não deve participar da ceia à mesa do Senhor.

Mas quem pode julgar se a pessoa está ou não em pecado? É claro que apenas Deus conhece o coração de cada um, mas a sua palavra nos dá instruções claras para julgarmos, não a pessoa, mas a condição em que ela se encontra. É o que vemos Paulo exortando os cristãos em Corinto a fazerem no capítulo 5 daquela epístola: “Não julgais vós os de dentro?” (1 Co 5:12). Portanto o Senhor deu à assembleia autoridade para julgar o mal em seu meio. Somos exortados a julgar em diversas ocasiões:

(Jo 7:24) “Julgai segundo a reta justiça”.

(1 Co 6:2-5) “Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo ? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois, porventura, indignos de julgar as coisas mínimas ? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos ? Quanto mais as coisas pertencentes a esta vida? Para vos envergonhar o digo: Não há, pois, entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos ?”.

(1 Co 14:29) “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem“ (o que foi falado).

A mesa do Senhor é onde expressamos que há um só pão, um só corpo, do qual fazem parte todos os verdadeiros crentes. Por esta razão a ordem em 1 Co 10 é primeiro o vinho e depois o pão. Primeiro o pecador precisa ser lavado pelo sangue de Cristo para então ser parte do corpo de Cristo.

(1 Co 10:16-17) “Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo ? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo ? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão”.

A ceia do Senhor, celebrada à mesa do Senhor, é a recordação do sacrifício de Cristo na cruz, por isso em 1 Coríntios 11 a ordem é primeiro o pão e depois o cálice, ou seja, a representação do corpo morto de Jesus e de seu sangue derramado.

(1 Co 11:23-26) “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão ; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice , dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice , anunciais a morte do Senhor , até que ele venha”.

Alguns alegam que a participação de alguém na ceia do Senhor é responsabilidade unicamente da pessoa, tentando basear-se em (1 Co 11:28) “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice“. A questão é que a passagem não está falando de julgamento de pecado, mas do examinar-se para constatar que sua participação não é por algum mérito ou capacidade própria, mas que depende inteiramente da obra de Cristo na cruz. É por isso que a ordem é“assim coma do pão e beba do cálice” , ou seja, depois de examinada a pessoa come, e não deixa de comer.

Baseados nessa passagem alguns recebem indistintamente qualquer pessoa para participar da ceia, desde que a pessoa seja evangélica. Mas e se ela for católica, por que não poderia participar? Um católico também professa ser cristão, e impedi-los de participar seria fazer distinção no corpo de Cristo (dentro da premissa falsa de que cabe ao indivíduo, e não à igreja, julgar a si mesmo). Os católicos verdadeiramente convertidos a Cristo são também membros do corpo. Eu mesmo fui um, pois apenas abandonei o catolicismo um ano depois de minha conversão. Durante todo aquele tempo eu tinha absoluta certeza de minha salvação pela fé, talvez uma certeza que muitos cristãos, principalmente pentecostais, não têm, já que creem na manutenção da salvação por conduta e obras de perseverança.

Em 1 Coríntios5 vemos que a assembleia deve excluir da comunhão alguém em pecado. Se a assembleia tem autoridade para excluir ela tem autoridade para receber. Se fôssemos nos basear no argumento de que qualquer membro do corpo de Cristo tem o direito de ser recebido à comunhão, então aquele que foi excluído em 1 Co 5 poderia voltar no dia seguinte dizendo que iria partir o pão alegando que é um irmão e membro do corpo de Cristo e por isso deveria ser recebido à mesa. No entanto a ordem clara do apóstolo foi: “Com o tal nem ainda comais. Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (1 Co 15:11-13).

A mesa é do Senhor e nós somos apenas os “porteiros” ou “policiais rodoviários” (voltando à analogia do motorista alcoolizado). Uma pessoa em pecado não pode ser recebida à mesa, ainda que seja membro do corpo de Cristo, pois isto contaminaria toda a massa como diz em 1 Coríntios 5:6 “Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda?”.

Portanto quando alguém chega dizendo-se cristão é preciso primeiro saber o estado daquela pessoa. Será que ela está em pecado moral? Está vivendo de roubos ou pratica imoralidade, prostituição, fornicação, etc.? Será que traz algum mal doutrinário, como afirmar que Jesus não seja Deus ou que a salvação não é pela obra do Calvário? Ou quiçá esteja conectada a algum sistema religioso sectário, o que pode ser chamado de pecado eclesiástico? Em qualquer um destes casos ela não poderá ser recebida até resolver a questão. Não fazer isto é abrir a mesa para pessoas vivendo em adultério ou tendo relações sexuais fora do matrimônio, ou praticando crimes na sociedade. Também estaria recebendo até para Testemunhas de Jeová, Mórmons e Espíritas, pois se você perguntar a eles se são membros do corpo de Cristo eles dirão que sim, mesmo participando de religiões que negam a divindade de Cristo.


Mario Persona é palestrante, professor e consultor de estratégias de comunicação e marketing e autor dos livros “Laura Loft - Diário de uma recepcionista”, “Coleção O que respondi…”Coleção O Evangelho em 3 Minutos”, “Meu carro sumiu!”, “Quero um refil!”, “Crônicas para ler depois do fim do mundo”, “Dia de Mudança” (também em inglês: “Moving ON”), “Marketing de Gente”, “Marketing Tutti-Frutti”, “Gestão de Mudanças em Tempos de Oportunidades”, “Receitas de Grandes Negócios” e “Crônicas de uma Internet de verão”.

Mario Persona participou também como autor convidado das coletâneas “Os 30+ em Atendimento e Vendas no Brasil”, “Gigantes do Marketing”, “Gigantes das Vendas”, “Educação 2007”, “Professor S.A.” e “Coleção Aprendiz Legal”, além de ter sido citado como “Case Mario Persona” no livro “Os 8 Pês do Marketing Digital”. Traduziu obras como “Marketing Internacional”, de Cateora e Graham, “Administração”, de Schermerhorn, “Liberte a Intuição”, de Roy Williams, além de diversos livros de comentários sobre a Bíblia.

O autor é convidado com frequência para palestras, workshops e treinamentos de temas ligados a negócios, marketing, comunicação, vendas e desenvolvimento pessoal e profissional. Alguns temas são: Gestão de Mudanças, Criatividade e Inovação, Clima Organizacional, Gestão do Conhecimento, Comunicação, Marketing e Vendas, Satisfação do Cliente, Oratória, Marketing Pessoal, Qualidade Vida-Trabalho, Administração do Tempo, Segurança no Trabalho, Controle do Stress e Meio-Ambiente

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