Estudo Sobre a Palavra de Deus - 1ª Pedro


J. N. Darby

Tradução de Martins do Vale

Estudo Sobre a Palavra de Deus

1ª PEDRO

Tradutor Martins do Vale

Editor Josué da Silva Matos

2019

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PRIMEIRA EPÍSTOLA DE S. PEDRO

CAPÍTULO 1

Mesmo antes de Pedro negá-LO, o Senhor já lhe havia dito: “Tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos” (Lucas 22:32). O apóstolo exerce esta tarefa nesta epístola.

Ele nos faz lembrar de nossos inestimáveis privilégios: a salvação da alma (v. 9) e uma herança incorruptível no céu (v. 4). Deus não apenas guarda a herança para Seus herdeiros, mas também guarda os herdeiros para Sua herança.

Os herdeiros já podem provar o gosto da herança mesmo agora no presente: “alegria indizível e cheia de glória”. Esta herança tem como base a esperança viva que eles possuem na pessoa viva de Jesus Cristo, ressurreto dentre os mortos (v.3); a fé (v. 5,7); o amor por Aquele que ainda não foi visto pelos remidos, mas que é bem conhecido no coração deles (v.8). Quanto mais amarmos o Senhor, mais sentiremos que não O amamos suficientemente.

Justamente por causa do grande valor que Deus dá à fé, é que Ele nos purifica por meio da efervescência de várias provações. Todavia, temos a segurança de que Ele só faz assim “se necessário”. Esta é, caros amigos, a abençoada realidade que nos foi proposta, a respeito da qual os profetas indagaram e inquiriram e que os anjos anelam perscrutar.

Seremos, pois os únicos a não nos interessar por ela? A verdade, tal qual apresentada pelo apóstolo nestes versículos, não apenas nos diz respeito, mas também nos afeta. Ela é o cinto que firma e fortalece nosso entendimento e controla nossos pensamentos (v. 13; ef 6:14). Ela é também a verdade à qual devemos obediência (v. 22). Nós que outrora éramos “filhos da desobediência” (cl 3:6-7) nos tornamos filhos obedientes (v. 14). Esta obediência não deve ser apenas a Cristo, mas também de Cristo (v. 2), ou seja, semelhante à Sua obediência, motivada pelo amor ao Pai (João 8:29; 14:31). Além disso, aqui tudo está em contraste com o Velho Testamento. Nem dinheiro nem ouro, nada pode redimir-nos (Êxodo 30:11-16; Número 31:50) a não ser o precioso sangue de Cristo. Ao contrário de um israelita, o nascimento natural não nos qualifica a herdar os direitos e privilégios do povo de Deus. Ninguém deve se considerar filho de Deus pelo fato de ser filho de pais cristãos! Nós nascemos de novo pela Palavra de Deus que é incorruptível, viva e eterna. A santidade que é necessária em nossa conduta é resultado de nossa nova natureza; nós chamamos o santo Deus de Pai (vv. 15-17). A santidade é também consequência do grande valor que Deus reconhece no sacrifício do Cordeiro perfeito.

Jean Koechlin A primeira Epístola de S. Pedro é dirigida aos crentes da Dispersão de Israel, que se encontravam nas províncias da Ásia Menor, que o apóstolo nomeia no primeiro versículo. A Segunda Epístola, ela própria declara que é uma segunda carta dirigida às mesmas pessoas, de modo que uma e outra foram destinadas aos Judeus da Ásia Menor, pelo menos àqueles que possuíam a mesma preciosa fé que o apóstolo.

A Primeira Epístola é fundada sobre a doutrina da chamada celestial (não digo sobre a doutrina da Igreja na Terra (1), porque não é colocada aqui perante nós), em contraste com a parte dos Judeus sobre a Terra; apresenta os Cristãos, e em particular os Cristãos de entre os Judeus, como peregrinos e estrangeiros sobre a Terra.

(1) Acrescento aqui "sobre a Terra", porque a Igreja como edificada pelo próprio Senhor Jesus e ainda não concluída, é mencionada no capítulo 2, onde as pedras unidas vêm a Cristo.

A maneira de viver que convém a tais pessoas é mais amplamente desenvolvida do que a doutrina. O Senhor Jesus, que, Ele mesmo, foi peregrino e estrangeiro neste mundo, é-nos apresentado como modelo sob mais de um aspecto. As duas Epístolas traçam o quadro do justo governo de Deus desde o princípio até à consumação de todas as coisas, quando os elementos abrasados se fundirem, e houver novos céus e uma nova Terra onde reinará a Justiça. A Primeira Epístola fala do governo de Deus em favor dos crentes; a segunda fala desse governo em relação com o julgamento dos malfeitores.

Entretanto, apresentando a chamada celestial, o apóstolo apresenta necessariamente a salvação, a libertação da alma, em contraste com as libertações temporais dos Judeus.

Eis a descrição que o Espírito Santo dá dos crentes aos quais a Epístola é dirigida: Eles são "eleitos", e isto "segundo a presciência de Deus Pai". Israel era um povo eleito por Jeová sobre a Terra. Aqui, os eleitos são aqueles que foram antecipadamente conhecidos do Pai; e o meio pelo qual Deus realiza o Seu desígnio de graça é a santificação pelo Espírito Santo.

Os eleitos são realmente separados pelo poder do Espírito.

Israel era-o por meio de ordenanças; estes são santificados pela obediência de Jesus Cristo e pela aspersão do Seu sangue, isto é, por um lado, para obedecerem como Ele obedeceu, e, por outro, para serem aspergidos pelo Seu sangue e serem assim perfeitamente puros diante de Deus. Israel, pelo contrário, tinha sido separado para a obediência da lei, e para esse sangue que, anunciando, a morte como sanção da autoridade dessa lei, não podia nunca purificar a alma do pecado.

Tal era a posição do Cristão.

Pedro deseja aos santos "a graça e a paz", porção bem conhecida dos crentes. Recorda-lhes as bênçãos com que Deus os tinha abençoado, bendizendo a Deus que lhes tinha concedido. Os Israelitas crentes conheciam- No agora, já não sob o caráter de Jeová, mas como o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

O que o apóstolo apresenta como fruto da graça desse Deus e Pai é uma esperança fora do mundo, e não a herança de Canaã, apropriada ao homem vivendo sobre a Terra — o que era a esperança de Israel nos dias de outrora, e que é ainda a esperança da nação na sua incredulidade. A misericórdia de Deus tinha regenerado esses Judeus que criam em Jesus, para uma esperança viva, pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos.

Esta ressurreição mostrava-lhes uma porção num outro mundo, e o poder que ali introduzia o homem, ainda que ele tivesse sido submetido à morte. O homem entrava lá pela ressurreição, pelo triunfo glorioso do Salvador, para ter parte numa herança incorruptível, incontaminável e que se não pode murchar. O apóstolo não fala da nossa ressurreição com Cristo; considera o Cristão como peregrino neste mundo, encorajado pelo triunfo do próprio Cristo em ressurreição que o animava pela consciência de que havia um mundo de luz e de felicidade diante dele, e um poder que o faria entrar nesse mundo. Por conseguinte, a herança é apresentada como "guardada nos Céus" (v.4). Na Epístola aos Efésios, estamos assentados nos lugares celestiais em Cristo, e a herança é a de todas as coisas de que o próprio Cristo é herdeiro; mas o Cristão é também, de fato, peregrino e estrangeiro sobre a Terra, e é para nós uma poderosa consolação, na nossa peregrinação, ver diante de nós essa herança celestial com a segura garantia de que nós ali entraremos.

A esta junta-se uma outra inestimável consolação. Se a herança é conservada nos céus para nós, nós somos guardados pelo poder de Deus, ao longo da nossa peregrinação, para dela gozarmos no fim (v.5). Que doce pensamento! Nós somos guardados neste mundo, através de todos os perigos e de todas as dificuldades; e, por outro lado, a herança é conservada para nós, lá onde não há nem impureza nem possibilidade de decadência.

Mas é por meios de caráter moral que este poder nos guarda (e é desta maneira que Pedro faia sempre), é pela ação em nós da graça que fixa o coração sobre objetos que o mantêm em relação com Deus e com as Suas promessas (comparar 2 Pedro 1:4).

"Mediante a fé, estamos guardados, na virtude de Deus, para a salvação". Isto é — Deus seja bendito! — o próprio poder de Deus que nos guarda; mas atua sustentando a fé no nosso coração, mantendo-a, a despeito de todas as tentações, acima de toda a impureza do mundo, e enchendo os nossos afetos de coisas celestiais. Pedro, porém, sempre ocupado dos caminhos de Deus acerca deste mundo, não vê os crentes participarem nessa salvação — nessa glória celestial — senão quando Ele for manifestado, quando Deus, por essa glória, estabelecer a Sua autoridade em bênção sobre a Terra. E bem a glória celestial, mas a glória celestial manifestada como meio do estabelecimento do governo soberano de Deus sobre a Terra, para Sua própria glória e para bênção do mundo inteiro.

"A salvação", tal como Pedro a considera, é "a salvação prestes para se revelar no último tempo".

Esta palavra "prestes" é importante. O apóstolo diz também que o julgamento está "prestes" a ser revelado.

Cristo é glorificado pessoalmente. Ele venceu todos os Seus inimigos; realizou a Redenção! E agora não espera senão uma coisa, a saber, que Deus ponha os Seus inimigos por escabelo de Seus pés.

Assentou-Se à direita da Majestade nas Alturas, porque realizou tudo o que era preciso para glorificar a Deus, lá onde estava o pecado. E a salvação das almas, a congregação dos Seus que ainda não está concluída (2 Pedro 3:9-15). Mas, uma vez que todos aqueles que devem participar nessa salvação ali tiverem sido introduzidos, já não haverá mais nada a esperar quanto à salvação, isto é, quanto à manifestação da glória na qual os remidos (2) aparecerão; nem, por consequência, quanto ao julgamento dos malfeitores sobre a Terra — julgamento que será consumado pela manifestação de Cristo (ver 2 Tessalonicenses 1:9-10). Tudo está pronto! Este pensamento é, pois, para nós, durante os dias da nossa paciência; mas é bem solene, se pensarmos seriamente no Julgamento.

(2) A doutrina da reunião dos santos com Jesus no ar, quando eles vão ao seu encontro, não faz parte do ensino de Pedro, assim como a de Igreja à qual ela se liga. O que ele nos apresenta é a manifestação dos santos na glória, porque ele ocupa-se dos caminhos de Deus para a Terra, embora o faça em relação com o Cristianismo.

Sim, como diz o apóstolo, nós nos regozijamos grandemente nesta salvação que está pronta a ser revelada nos últimos tempos.

Nós a esperamos. E o tempo do descanso, da bênção da Terra, da plena manifestação da glória dAquele que é digno desta glória, que foi humilhado e que sofreu por nós; é o tempo em que a luz e a glória de Deus em Cristo iluminarão o mundo e dele expulsarão todo o mal.

Eis, pois, a nossa parte: Alegria abundante na salvação que vai ser revelada e na qual podemos sempre regozijar-nos, embora, se isso for necessário para o nosso bem, possamos ser afligidos por diversas tentações. Mas isso não é senão por muito pouco tempo; é uma "ligeira tribulação de um momento", e Deus não no-la envia a não ser que isso seja necessário, a fim de que a preciosa prova da fé "seja em louvor, e honra, e glória" na revelação de Jesus Cristo, que nós esperamos (v. 6-7). E o fim de todos os nossos sofrimentos e de todas as nossas provações — transitórias e ligeiras como elas são, em comparação com o imenso resultado da glória excelente e eterna para a qual elas nos conduzem segundo a sabedoria de Deus e seguindo as necessidades das nossas almas. O coração dedica-se a Jesus: Ele aparecerá! Nós O amamos, embora nunca O tenhamos visto.

Nele, embora O não vejamos agora, nós nos alegramos com gozo inefável e glorioso (v. 8). Eis o que decide, o que forma o coração, o que o fixa e o enche de alegria, ainda que seja da vida deste mundo. Para os nossos corações, é Ele que enche esta cena de glória. Pela graça, eu serei glorificado e terei a glória.

Mas eu amo a Jesus! O meu deseja vê-Lo. Além disso, nós seremos semelhantes a Ele — semelhantes a Ele glorificado. O apóstolo pode bem dizer: "Vós vos alegrais com gozo inefável e glorioso!". O coração não quer outra coisa, e, se algumas ligeiras aflições nos são necessárias, nós as sofremos com alegria, pois são um meio de nos formarem para a glória. E nós podemos regozija-nos com o pensamento da aparição de Cristo, porque, recebendo-0 no coração, sem O vermos, recebemos a salvação da alma. objeto e fim da fé, bem mais preciosa do que as libertações temporais de que Israel gozou, embora fossem sinais do favor de Deus.

O apóstolo prossegue desenvolvendo os três graus sucessivos da revelação desta graça de salvação — desta plena e inteira libertação das consequências, dos frutos e da miséria do pecado! Primeiro, os profetas; Segundo, o testemunho do Espírito Santo enviado do Céu; Terceiro, a manifestação do próprio Senhor Jesus Cristo, quando a libertação, já antes anunciada for plenamente cumprida.

E interessante ver aqui como a rejeição do Messias, segundo as esperanças judaicas, rejeição já antecipadamente anunciada pelos profetas, abria necessariamente o caminho a uma salvação que continha em si a salvação da alma! Jesus, sendo rejeitado, deixavam de O ver; a parte terrestre não seria realizada aquando da Sua primeira vinda; a salvação plena e perfeita devia ser revelada nos últimos tempos. Mas era uma salvação da alma, cujo primeiro alcance seria realizado na glória que ia ser revelada, porque se tratava da alegria espiritual da alma num Jesus celestial que se não via, que, na Sua morte, cumpriu a expiação do pecado, e que, na Sua ressurreição, nos regenerou para uma esperança viva, segundo o poder da vida do Filho de Deus. Esta salvação — esta verdadeira libertação — é, pois, recebida pela fé. Não é ainda a glória e o descanso exteriores; esta salvação, assim considerada, terá lugar aquando da aparição de Jesus; mas, enquanto espera, a alma goza já, pela fé, desse perfeito descanso, e até mesmo da glória em esperança.

Ora, os profetas tinham anunciado a graça de Deus que devia ser cumprida para os crentes, e que comunica já à alma a alegria dessa salvação, antecipadamente anunciada; e eles tinham sondado as suas próprias profecias, que Deus lhes tinha comunicado por inspiração, procurando compreender que tempo ou que espécie de tempo o Espírito Santo indicava, quando testemunhava de antemão acerca dos sofrimentos de cristo e das glórias que deviam seguir-se.

Porque o Espírito Santo fala pelos profetas dos sofrimentos e das glórias, e, por consequência, anunciava mais do que uma libertação temporal em Israel — porque o Messias devia sofrer.

Ora, foi-lhes revelado que não era para eles mesmos, nem para o seu tempo, mas sim para os Cristãos, que o Espírito Santo anunciava essas verdades acerca do Messias. Ora os Cristãos, recebendo a salvação da alma pela revelação de um Cristo que está no Céu, após os Seus sofrimentos, e voltando em glória, não receberam essas glórias reveladas aos profetas. Estas coisas foram relatadas com uma grande e divina clareza pelo Espírito Santo enviado do Céu logo a seguir à morte de Jesus, mas o Espírito Santo não dá a própria glória em que Cristo aparecerá; apenas a anuncia. Por conseguinte, os Cristãos (v. 13), têm de cingir os lombos do seu entendimento, ser sóbrios e esperar inteiramente na graça que lhes será, de fato, trazida aquando da revelação de Jesus Cristo. Eis, pois, quais são os três passos sucessivos dos caminhos de Deus: Primeiro, a predição dos acontecimentos relativos ao Cristo, acontecimentos esses que iam absolutamente além das bênçãos judaicas; segundo, as coisas relatadas pelo Espírito Santo; terceiro, o cumprimento das coisas prometidas aquando da revelação de Jesus.

O que o apóstolo apresenta é, pois, uma participação na glória de Jesus, quando Ele for revelado; é a salvação de que os profetas falaram, e que deve ser revelada nos últimos dias. Mas, enquanto espera, Deus tinha regenerado os Judeus crentes para uma esperança viva pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos, e, pelos Seus sofrimentos, tinha-lhes feito compreender que mesmo agora, esperando a revelação da glória, realizando essa glória na Pessoa de Jesus, gozavam de uma salvação da alma perante a qual as libertações de Israel empalideciam e podiam ser esquecidas. Esta salvação era bem a salvação "prestes a ser revelada" em toda a sua plenitude; mas, de momento, não se possuía senão para aquilo que dizia respeito à alma. Porém, separada da manifestação da glória terrestre, essa salvação tinha um caráter ainda mais espiritual. Desde então, os crentes deviam ter os lombos cingidos para esperarem a revelação de Jesus, e reconhecerem, com ações de graça, que possuíam o alvo da sua fé: Estavam em relação com Deus.

Deus, ao anunciar estas coisas pelo ministério dos profetas, tinha em vista os Cristãos — e não os próprios profetas. Esta graça devia, em devido tempo, ser comunicada aos crentes; mas, de momento, para a fé e para a alma, o Espírito Santo enviado do Alto, dela dava testemunho: Ela devia ser trazida "pela revelação de Jesus Cristo". A ressurreição de Jesus Cristo, que era a garantia do cumprimento de todas as promessas e do poder de vida para dele gozar, tinha regenerado aqueles que criam, para uma esperança viva; mas o direito de gozarem do efeito da promessa era fundado sobre uma outra verdade: as exortações do apóstolo a ela nos conduzem. Os crentes deviam andar como filhos obedientes — e não seguirem as concupiscências que os tinham guiado durante o tempo da sua ignorância. Chamados por Aquele que é santo, eles deviam ser santos em toda a sua maneira de viver, como está escrito. Além disso, se invocavam o Pai que, sem olhar às aparências, julga segundo as obras de cada um, deviam andar em temor durante o tempo da sua peregrinação neste mundo (v.14-17).

Note-se que não se trata aqui do juízo final da alma.

Neste sentido "o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o julgamento". Trata-se do julgamento quotidiano do governo de Deus neste mundo acerca dos Seus filhos. Por isso nos é dito: "Andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação". E um julgamento que se aplica à vida cristã. O temor de que fala o apóstolo não é uma incerteza a respeito da salvação e da redenção; é um temor fundado na certeza de que somos resgatados.

E o preço imenso, o valor infinito do meio empregado para nos resgatar, a saber, o sangue do Cordeiro sem defeito e sem mácula, é o motivo para temermos durante a nossa peregrinação. Nós fomos resgatados da nossa vã maneira de viver pelo preço do sangue de Jesus. Poderíamos nós, pois, andar ainda segundo os princípios dos quais fomos assim libertados? Um tal preço para nos libertar exige que andemos com circunspecção e seriedade diante do Pai, como qual, como privilégio E relação espiritual, nós desejamos ter convivência.

Em seguida o apóstolo aplica aos Cristãos esta verdade do resgate: O Cordeiro tinha sido ordenado nos desígnios de Deus ainda antes da fundação do mundo, mas foi manifestado nos últimos dias para os crentes, e eles são apresentados no seu verdadeiro caráter. Creem em Deus por Jesus, por este Cordeiro.

Não Creem nEle pela Criação, embora esta seja um testemunho da Sua glória, não dá nenhum descanso à consciência e não lhe fala de um lugar no Céu. Também não Creem em Deus pela Providência que, dirigindo tudo, deixa ainda o governo de Deus numa obscuridade tão profunda; não Creem pela revelação de Deus sobre o monte do Sinai, sob o nome de Jeová, nem pelo terror que se liga a uma lei violada, — mas Creem por Jesus o Cordeiro de Deus. Note-se que não nos é dito que: " Credes nEle", mas sim que 'por Ele credes em Deus".

Conhecemos Deus como Aquele que, quando éramos pecadores e estávamos mortos nos nossos delitos e pecados, nos amou, nos deu este precioso Salvador a fim de que Ele descesse até à morte onde nós estávamos, que tomasse parte na nossa posição como colocado sob esse Juízo, e que morresse como o Cordeiro de Deus. Cremos em Deus que, pelo Seu poder, quando Jesus estava sob o efeito desse Juízo, na morte por nós, em nosso lugar, O ressuscitou de entre os mortos e Lhe deu a glória. E pois, num Deus Salvador e num Deus que exerce o Seu poder em nosso favor que nós cremos por Jesus, de modo que a nossa fé e a nossa esperança estão "em Deus"; não em qualquer coisa que esteja perante Deus, mas no próprio Deus.

Onde, pois, poderia haver uma causa de temor e de desconfiança a respeito de Deus, se a nossa fé e a nossa esperança estão nEle? Isto muda tudo. O aspecto sob o qual nós consideramos Deus é inteiramente mudado, e esta mudança é fundada sobre o que estabelece a justiça de Deus, aceitando-nos como purificados de todo o pecado, sobre o amor de Deus abençoando-nos perfeitamente em Jesus, que o Seu poder ressuscitou e glorificou — poder segundo o qual Ele nos abençoa.

A nossa fé e a nossa esperança estão no próprio Deus.

Isto coloca-nos numa das mais íntimas relações com os outros remidos. Objetos do mesmo amor, lavados no mesmo precioso sangue, resgatados pelo mesmo cordeiro tomam-se, para aqueles que têm o coração purificado pela recepção da verdade pelo Espírito, os objetos de um terno amor fraternal, de um amor sem dissimulação; São nossos irmãos.

Saibamos, pois, amar-nos uns aos outros ardentemente, de coração puro! Mas esta relação e as exortações do apóstolo que dela decorrem são fundadas sobre um outro princípio essencial e vital: é uma nova natureza que é ativa nesta afeição. Se somos resgatados pelo precioso sangue do Cordeiro sem mácula, somos nascidos da semente incorruptível da Palavra de Deus, que vive e permanece eternamente; porque toda a carne é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva: secou-se a erva, caiu a sua flor, mas a Palavra do senhor permanece para sempre. E esta é a palavra do Evangelho que nos foi pregada. Esta semente da Palavra é um princípio eterno de bênção. O crente não nasceu segundo a carne para gozar de direitos e de privilégios temporários, como um Judeu, mas nasceu de uma semente incorruptível, de um princípio de vida inalterável como a própria Palavra de Deus. Não era isto o que o profeta dizia ao povo de Deus, consolando-o? A carne, a própria nação era como a erva seca. Deus não muda, e a Palavra que assegura, pela sua imutável certeza, as bênçãos divinas aos objetos do favor de Deus, opera no coração para produzir uma vida eterna e incorruptível, como a Palavra que dela é a fonte.

CAPÍTULO 2

Logo ao nascer, um recém-nascido precisa ser alimentado.

Semelhantemente, a Palavra de Deus, após gerar vida (1:23), também fornece o alimento necessário para nos manter vivos.

E o alimento completo para a alma, “o leite espiritual” do qual Cristo é a substância. Depois de termos experimentado o quanto o Senhor é bom, não podemos viver mais sem este alimento divino (v. 3; Salmo 34:8).

Depois da semente viva (e da esperança viva do capítulo 1), encontramos aqui referência às pedras vivas. Juntas, elas são edificadas sobre Aquele que é a pedra angular, preciosa tanto para Deus quanto para nós que cremos (v. 7), a fim de formar um santuário espiritual (ver ef 2:20-22). O Senhor disse a Simão Barjonas que ele também era uma destas pedras (Mateus 16:18). Tais privilégios, contudo, também trazem consigo suas responsabilidades. Se somos sacerdócio real, é para que ofereçamos sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus.

Se somos raça eleita (um povo que espera sua posse), devemos proclamar o Seu louvor (Isaías 43:21).

Tendo sido chamados “das trevas para sua maravilhosa luz”, como podemos então permitir que as paixões carnais tenham lugar em nossa mente? No entanto, basta um olhar para atiçá-las e iniciar uma guerra na alma (v. 11).

Espera-se que todo cristão respeite a ordem estabelecida, não por medo da lei, mas pelo maior motivo que pode mover seu coração: o amor a Deus (v. 13; João 15:10). Nós somos servos somente do Senhor (v. 16), e é Ele quem dita como devemos agir com os outros. E fato que nem todo chefe é “bonzinho e gentil”, e alguns chegam a ser bem irritantes. Contudo, nosso testemunho é muito mais significativo e expressivo quando enfrentamos dificuldades. As injustiças, os insultos e toda sorte de aflições oferecem aos filhos de Deus ótimas oportunidades para glorificá-LO. Lembrem-se de que Jesus, o Varão de dores, já trilhou este caminho antes de nós.

Certamente Cristo nunca teve nem jamais terá imitadores à altura de Sua obra de redenção — “carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” (v. 24). Por outro lado, em nosso caminhar de justiça (e consequentemente de sofrimento), Ele é o nosso exemplo perfeito (1 João 2:6). A oposição e a perversidade dos homens apenas serviram para revelar Sua paciência, bondade, humildade, sabedoria e completa confiança em Deus…

Benditos são os passos de quem devemos seguir. Desta forma cumpriremos o mandamento final do Senhor para Pedro: “Segue-me” (João 21:22).

Jean Koechlin

Portanto, assim purificados e nascidos da Palavra, os crentes têm de pôr de lado toda a espécie de malícia, defraude, de hipocrisia, de inveja, de maledicência, e, como filhos nascidos de novo, procurar esse leite da inteligência, que se encontra na Palavra, a fim de crerem por seu intermédio, porque a Palavra é o leite da criança, como tinha sido a semente da sua vida, e nós temos de a receber como meninos, em toda a simplicidade, se, de fato, provámos que o Senhor é bom e pleno de graça. Não foi ao Sinai que eu vim ou do qual Deus fala, onde o Eterno Deus proclama a Sua lei do meio do fogo, de tal modo que os que estavam lá pediam para não ouvirem mais a Sua voz; se eu provei e compreendi que o Senhor atua em graça, que Ele é Amor para comigo, e que a Sua Palavra é a expressão desta graça, como ela comunica a vida, eu desejarei alimentar-me desse leite da inteligência de que o crente goza de harmonia com a sua simplicidade; eu desejarei alimentar-me desta boa Palavra que só me anuncia a graça e o Deus de que eu tenho necessidade, todo graça, pleno de graça, atuando em graça, revelando-Se-me neste caráter — caráter que Ele não poderia nunca cessar de manter a meu respeito, tornando-me participante da Sua santidade.

Conheço agora o próprio Senhor, provei o que Ele é.

Aliás, o que o apóstolo diz, põe sempre o Cristianismo em contraste com o estado legal dos Judeus, embora isso seja o cumprimento daquilo que os Salmos e os profetas tinham declarado; tendo, além disso, a ressurreição claramente revelado uma esperança celestial.

São os próprios crentes que constituem agora a casa espiritual, o sacerdócio santo. Vêm a esta Pedra Viva, rejeitada dos homens, é verdade, mas escolhida de Deus e preciosa, e eles são edificados sobre Ela "como pedras vivas". O apóstolo gosta desta palavra "viva".

Foi a ele que o Pai revelou que Jesus era o Filho do Deus Vivo. Nenhum outro, além dele, confessou tal coisa; e o Senhor tinha-lhe dito que sobre esta Pedra, isto é, sobre a Pessoa do Filho de Deus em poder de vida (manifestada na ressurreição, onde Ele foi declarado como tal), Ele edificaria a Sua Igreja. Pedro, pela sua fé, participava da natureza dessa Rocha viva.

Portanto aqui (v.5), Pedro estende esse caráter a todos os crentes, e mostra a santa casa edificada sobre a Pedra Viva que o próprio Deus colocou como Pedra Angular, escolhida e preciosa. Quem nela crer não será confundido! (1).

(1) Nesta passagem, e só nesta, Pedro fala da igreja com o caráter de um edifício, e não o de um corpo ou de uma esposa; fala daquilo que Cristo edificou, e não daquilo que Lhe está unido. Paulo também nos apresenta a mesma coisa em Efésios 2:20-21. Sob este ponto de vista, embora prosseguindo sobre a Terra, é a obra de Cristo a fazer-se de maneira contínua- não se trata de uma ação humana. Eu edificarei, diz Cristo; Ele crê, diz Paulo; as pedras vivas vêm, diz Pedro.

É preciso não confundir estas frases com o edifício que os homens podem edificar de madeira, de palha ou de colmo.

Porém, aquilo que Deus fez bom e deixou à responsabilidade do homem, bem depressa se corrompeu, como sempre… Os indivíduos são edificados pela graça, e o edifício cresce para ser um templo santo. Tudo isto se refere a Mateus 16. A responsabilidade do serviço do homem a este respeito encontra-se em 1co 3, onde a Igreja nos é apresentada sob um outro ponto de vista. O corpo é outra coisa, cuja doutrina é exposta em Efésios 1-4, em 1 Coríntios 12 e em outras passagens.

Ora, não era só aos olhos de Deus que esta Pedra era preciosa, mas também aos olhos da fé que, por mais fracos que sejam aqueles que a possuem, veem como Deus vê. Para os incrédulos, esta Pedra era uma pedra- de-tropeço e de escândalo. Eles tropeçaram na Palavra sendo desobedientes, — para o que também estavam destinados. O apóstolo não diz que eles estavam destinados para o pecado, nem para a condenação; mas esses pecadores incrédulos e desobedientes — a raça judia, longo tempo rebelde e sublevando-se continuamente contra Deus — estavam destinados a encontrarem no próprio Senhor de graça uma pedra-de- tropeço, e a tropeçar, e a cair sobre Aquele que era para a fé a Pedra preciosa de salvação. Era para esta queda particular que a sua incredulidade estava destinada.

Os crentes, pelo contrário, entravam no poder das promessas feitas a Israel, e da maneira mais excelente.

A própria graça e a fidelidade de Deus trouxeram o cumprimento da promessa na pessoa de Jesus, Ministro da Circuncisão para a verdade de Deus, a fim de cumprir as coração, se submeterem à obediência da fé e se unirem Aquele que era o desprezado do povo.

Eles não puderam ter a bênção de Israel com a nação sobre a Terra, porque a nação O tinha rejeitado; mas foram plenamente introduzidos nas relações com Deus de um povo aceite por Ele. O caráter celestial que revestia então a bênção não destruía a sua aceitação segundo a promessa; simplesmente, entraram na bênção segundo a graça. Porque a nação, como nação, O tinha perdido, não só desde longa data, por desobediência, mas também agora, rejeitando Aquele que vinha em graça comunicar-lhe o efeito da promessa.

O apóstolo, por conseguinte, aplica o caráter de "nação santa" ao Remanescente eleito, revestindo os crentes, pelo que concerne à Terra, dos títulos concedidos por Deus a Israel, no capítulo 19 de Êxodo, sob condição de obediência; mas aqui, em relação com o Messias, o gozo desses títulos é fundado sobre a Sua obediência e sobre os direitos que eles adquiriram pela fé em Jesus Cristo.

Ora, sendo os privilégios do remanescente crente fundados sobre o Messias, o apóstolo vai mais longe e aplica a esse Remanescente as declarações de Oséias, que se referem a Israel e a Judá restabelecidos na plenitude da bênção nos últimos dias, e gozando dessas relações com Deus, nas quais a graça os introduzirá nessa altura. "Vós sois — diz ele — a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido". São, pouco mais ou menos, as palavras de Êxodo, no capítulo 19. Depois continua: "Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia". Estas são as palavras de Oséias, no capítulo 2. Isto apresenta-nos, da maneira mais interessante, os princípios sobre os quais a bênção é fundada. Em Êxodo, o povo devia ter parte nesta bênção, se obedecesse rigorosamente à voz de Deus.

Ora, Israel não tinha obedecido: Tinha sido rebelde e irritante; tinha seguido deuses estrangeiros e rejeitado o testemunho do Espírito Santo.

Todavia, e apesar das suas infidelidades, o próprio Deus tinha posto uma Pedra em Sião, uma Pedra Angular, e todo aquele que cresse em Jesus Cristo não devia ser confundido. É a graça!…

Quando Israel, tendo faltado sob todos os aspectos e tudo perdido no terreno da obediência, nada merecia, Deus, em graça, por promessas feitas aos pais. E embora a nação tenha rejeitado, Deus não quis privar da bênção aqueles que, não obstante toda esta dificuldade para a fé e para o Jesus, dava-lhe o que lhe tinha sido prometido no princípio sob condição da obediência! Desta maneira, tudo lhe estava assegurado! A questão da obediência tinha sido resolvida — acerca da desobediência de Israel — por graça e pela obediência de Cristo, fundamento posto por Deus em Simão. E este princípio da graça superabundando sobre o pecado — pelo qual se mostra a incapacidade da desobediência em frustrar os desígnios de Deus, porque esta graça vinha após o cumprimento da desobediência — este princípio tão glorioso e tão consolador para o pecador convencido é confirmado de uma maneira impressionante pela citação de Oséias. Nesta passagem do profeta, Israel é apresentando, não só como culpado, mas também como tendo já sofrido o seu Juízo. Deus tinha declarado que já não teria misericórdia (quanto à Sua paciência a respeito das dez tribos), e que Israel já não era o Seu povo (no Seu Juízo sobre o infiel Judá).

Mas em seguida, após a execução do juízo, Deus volta aos Seus desígnios irrevogáveis de graça e atraí Israel como uma mulher abandonada, e dá-lhe o Vale de Acor — o vale de perturbação, onde Acan tinha sido lapidado, primeiro julgamento sobre Israel infiel, após a sua entrada na terra da promessa — como porta da esperança. O Juízo é mudado em graça, e Deus recomeça tudo de novo, sobre um novo princípio. Era como se Israel saísse de novo do Egito, mas sobre um princípio inteiramente novo. Jeová desposa-o para sempre, em Justiça, em Juízo, em graça, em misericórdia — e tudo é bênção! Chama-o então "Rukhama" ou "objeto de misericórdia", e "Ammi, meu povo!". O apóstolo serve-se, pois, destas expressões do profeta, aplicando-as ao Remanescente que cria em Jesus, a pedra-de-tropeço para a nação, mas a Pedra Angular da parte de Deus para o crente. Deste modo, a condição é tirada, e, lugar de uma condição, temos a bênção após a desobediência, e, após o Juízo, a plena e assegurada graça de Deus, fundada (na sua aplicação aos crentes) sobre a Pessoa, a obediência e a obra de Cristo.

E impressionante ver a expressão desta graça no termo de "Acor". Era o primeiro julgamento sobre Israel, na terra da promessa, porque se tinha profanado pelo interdito. E é ali que a esperança é dada! E tanto isto é verdade que a graça triunfa completamente da justiça.

Isto aconteceu da maneira mais excelente em Cristo. O Juízo de Deus tornou-se, nEle, a porta da esperança, sendo a culpabilidade e o julgamento igualmente passados para sempre.

As duas partes da vida cristã, enquanto manifestação do poder espiritual, resultam, no duplo sacerdócio, do fato de uma responder à posição atual de Cristo no Céu, e a outra, por antecipação, à manifestação da Sua glória sobre a Terra. São os sacerdócios de Aarão e de Melquidezeque. Porque Ele está agora adentro do véu, segundo o tipo de Aarão; mais tarde, Ele será Sacerdote no Seu trono, e isto constituirá a manifestação pública da Sua glória sobre a Terra. Assim, os santos exercem "um sacerdócio santo" (v.5), para oferecerem sacrifícios espirituais de louvores e de ações de graça.

Doce privilégio do Cristão, assim introduzido tão perto quanto possível de Deus! Oferece os seus sacrifícios a Deus com a certeza de que serão aceitos, porque é por Jesus que os oferece.

Esta parte da vida cristã é a primeira, a mais excelente e a mais vital, a origem da outra que dela é a expressão neste mundo; a mais excelente porque, no seu exercício, estamos em relação imediata com o objeto divino das nossas afeições. Os sacrifícios espirituais são o reflexo, pela ação do Espírito Santo, da graça de que gozamos; são aquilo que o coração faz subir até Deus, sendo movido pelos excelentes dons de que somos os objetos e pelo amor que os conferiu. O coração reflete (pelo poder do Espírito Santo) tudo o que lhe foi revelado em graça, adorando o autor e doador de tudo, segundo o conhecimento que temos dEle próprio por esse meio; os frutos da Canaã celestial, dos quais nós participamos, apresentados em oferta a Deus; a alma entrando na presença de Deus, para O louvar e O adorar.

E o sacerdócio santo, segundo a analogia do sacerdócio de Aarão e do templo em Jerusalém, onde Deus habitava como em Sua casa.

O segundo sacerdócio de que fala o apóstolo tem por fim anunciar as virtudes dAquele que nos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz. A descrição que dele é feita é tirada de Êxodo, capítulo 19, como vimos já. E uma geração eleita, uma nação santa, um sacerdócio real. Não faço alusão ao sacerdócio de Melquidezeque senão para pôr em evidência o caráter de um sacerdócio real. Os sacerdotes, entre os Judeus, aproximavam-se de Deus. Deus tinha formando o povo para Si mesmo. Ele devia manifestar todas as suas virtudes e publicar os seus louvores. É o que Cristo fará com toda a perfeição no dia da Sua glória. O Cristo é chamado a fazê-lo agora neste mundo. Ele deve imitar Cristo neste mundo. É a segunda parte da sua vida.

Notar-se-á que o primeiro capítulo apresenta o Cristão animado pela esperança, mas sob a provação — a preciosa provação da fé. O segundo capítulo apresentando-o nos seus privilégios, como um santo e real sacerdócio, por meio da fé. Em seguida (cap. 2:11), o apóstolo começa as suas exortações. Sejam quais forem os privilégios do Cristão nesta posição, é sempre considerado como peregrino na Terra; e, como vimos, o governo constante de Deus é o objeto que se apresenta ao espírito do apóstolo. Mas, em primeiro lugar, adverte os fiéis acerca do que é interior, contra essas fontes de onde jorra a corrupção, que (na cena do governo divino) desonraria o Nome de Deus e acarretaria mesmo o Juízo.

A maneira de viver dos Cristãos, entre os Gentios, devia ser honesta. Eles usavam o Nome de Deus. O espírito dos homens, hostil ao Seu Nome, procurava lançar o opróbrio sobre Ele, atribuindo aos Cristãos todo o mal que os mundanos incrédulos praticavam, sem remorsos.

Lamentavam (cap. 4:4) que os Cristãos não quisessem acompanhá-los nos seus excessos e desvarios. Mas o Cristão não tinha senão de prosseguir o caminho da fidelidade para com Deus.

No dia em que Deus visitasse os homens, esses caluniadores, com a sua vontade abatida e o seu orgulho destroçado pela presença de Deus, seriam obrigados a reconhecer — por meio das boas obras que, apesar das suas calúnias, tinham sempre atingido a sua consciência — que Deus tinha atuado nesses Cristãos e tinha estado com eles.

Após esta curta, mas importante exortação geral aos crentes, o apóstolo ocupa-se da maneira de ser dos Cristãos em relação com aqueles que os rodeavam, num mundo onde, por um lado, Deus vela sobre todas as coisas, e onde, por outro, permite que os Seus sofram, quer pela Justiça, quer pelo Nome de Cristo; mas onde nunca deveriam sofrer por terem praticado o mal.

Assim, o caminho do Cristão está traçado: Ele está submetido às ordens ou instituições humanas por amor do Senhor. O Cristão deve honrar a todos os homens e a cada qual na sua posição, de modo que ninguém tenha nada a reprovar-lhe. Submete-se aos seus senhores, ainda que eles sejam maus, e suporta as injustiças que eles possam fazer-lhe. Se o servo Cristão só fosse submisso aos amos bons e amáveis, qualquer servo mundano poderia fazer o mesmo; mas se, tendo praticado o bem, o Cristão sofre e suporta com paciência esse sofrimento — eis o que é agradável a Deus, é a graça!… Foi assim que Cristo procedeu, e nós somos chamados a proceder de igual modo. Cristo sofreu horrivelmente, mas nunca respondeu com censuras ou ameaças àqueles que O atormentavam, remetendo-Se apenas Aquele que julga com Justiça. É a Ele que nós pertencemos. Ele sofreu pelos nossos pecados, a fim de que, tendo sido libertados deles, vivamos para Deus. Os Cristãos de entre os Judeus tinham sido como ovelhas desgarradas (2), mas agora tinham voltado ao Pastor e Bispo das suas almas. Mas de que sublime maneira essas exortações mostram que o Cristão não é deste mundo, prosseguindo apenas aqui o seu caminho, como peregrino! No entanto, este caminho é o caminho da paz! (2) A doutrina da reunião dos santos com Jesus no ar, quando eles vão ao seu encontro, não faz parte do ensino de Pedro, assim como a de igreja à qual ela se liga. O que ele nos apresenta é a manifestação dos santos na glória, porque ele ocupa-se dos caminhos de Deus para a Terra, embora o faça em relação com o Cristianismo.

CAPÍTULO 3

“Mulheres… (v. 1) Maridos… (v. 7) jovens: sede igualmente…” O motivo em todos os três casos é idêntico ao de 2:13: por amor ao Senhor. E isto o que rege o comportamento de cada um na família e na igreja. Uma mulher cristã revela onde estão suas afeições pela maneira que se adorna. Ela está preocupada com a beleza oculta do coração, a qual só o Senhor pode ver? Ela busca o que é precioso diante de Deus: um “espírito manso e tranquilo” (v.[](https://mysword.info/b?r=1Pe_3:4)[4](https://mysword.info/b?r=1Pe_3:4))? Serão os adornos parte daquilo que é incorruptível, assim como a Palavra (1:23) e a herança celestial (1:4). Aos olhos de Deus, a moda não mudou desde o tempo de Sara.

Nosso título de herdeiros da graça da vida (v. 7) e da bênção (v. 9 final), juntamente com o exemplo que nos é dado por Aquele que é bom (v. 13; 2:21,22), oferecem razões prementes para não pagarmos o mal com o mal.

A longa citação do Salmo 34 nos faz lembrar como funciona o governo de Deus. Se não refrearmos nossos lábios (v. 10) ou não nos apartamos do mal (v. 11), sofreremos consequências dolorosas aqui na terra, permitidas por Deus (v. 12). Por outro lado, o caminho do bem e da paz é o meio seguro de sermos abençoados. Além de uma vida abençoada, desejo legítimo de todos os homens, nós também desfrutaremos da comunhão com o Senhor.

Cristo padeceu na cruz, o Justo pelos injustos (v. 18). Em retribuição, foi-nos dada a graça de padecer um pouco por Ele (Filipenses 1:29). Ao fazermos o bem, podemos padecer com Ele, assim como Ele padeceu (v. 14). Afinal, o Senhor se compadece de todos os nossos sofrimentos (v. 12).

O verso 14 declara que somos bem-aventurados se viermos a sofrer por causa da justiça (leia também Mateus 5:10). Que Deus nos guarde contra o temor dos homens e nos conceda o Seu temor juntamente com a mansidão para testemunharmos a todo tempo da esperança que temos… Mas será que você também tem esta esperança, caro leitor? Entretanto, se nos comportarmos indignadamente, nosso evangelismo incitará o desprezo dos homens, o qual nos é devido, contra o próprio Senhor. Que o Espírito de Cristo nos use para advertir nossos companheiros da mesma forma que Ele usou Noé, durante o tempo que construía a arca, para pregar aos descrentes de sua época (v. 19. 20). O dilúvio é uma figura do julgamento que está prestes a recair sobre o mundo. Esta figura nos fala sobre morte e o salário do pecado.

De forma figurativa, os crentes atravessam o dilúvio por meio do batismo e se refugiam na arca, que é Cristo. Foi ele quem padeceu a morte em nosso lugar e com Ele ressuscitamos para uma nova vida (vv. 21,22).

Jean Koechlin

De igual modo, as mulheres deviam ser submissas aos seus mandos, em toda a modéstia e pureza, a fim de que esse testemunho, prestado ao efeito da Palavra pelos seus frutos, suas afeições e as suas relações tomasse o lugar da própria Palavra, se os maridos a não quisessem escutar. Deviam apoiar-se com paciência e doçura na fidelidade de Deus, e não se espantarem à vista do poder dos adversários (comparar Filipenses 1:28).

Os maridos deviam coabitar com as suas mulheres, sendo as suas afeições e as suas relações reguladas pelo conhecimento cristão, e não por qualquer paixão humana; honrando-as e andando com elas como sendo os seus co-herdeiros da graça da vida.

Enfim, deviam todos andar num espírito de paz e de doçura, usando com elas, nas suas relações com os outros, esta bênção de que eles próprios eram os herdeiros, devendo, por consequência, ser todos UM no mesmo sentimento, compassivos, misericordiosos e afáveis; seguindo o bem, refreando a língua pelo temor do Senhor, evitando o mal e procurando a paz, para gozarem pacificamente da vida presente sob o olhar de Deus, Porque os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos atentos às suas súplicas; mas o rosto do Senhor é contra os que fazem o mal. E quem, aliás, lhes faria mal, se eles fossem zelosos do bem? Tal é, pois. o governo de Deus, tais são os princípios segundo os quais Ele vela sobre a marcha deste mundo.

Todavia, não se trata agora de um governo direto e imediato que impeça todo o mal. O poder do mal atua ainda sobre a Terra; aqueles que dele estão animados, mostram-se hostis aos justos e atuam, impulsionados por esse terror que Satanás sabe inspirar. Mas, dando ao Senhor o Seu lugar na alma, esse terror que o Inimigo procura produzir já ali não encontra lugar.

Se um coração tiver a consciência da presença de Deus, tremerá porventura esse coração perante o Inimigo?! O segredo da coragem e da paz está em confessar Cristo.

Os instrumentos do Inimigo procuram desviar-nos e acabrunhar-nos com as suas pretensões; mas a consciência de que Deus está conosco dissipa essas pretensões e destroi-lhes toda a força. Apoiados sobre a força da Sua presença, estamos prontos a responder com doçura e com santa reverência, isenta de toda a leviandade, àqueles que perguntam qual a razão da nossa esperança. Mas, para isso, é necessário ter uma boa consciência.

Podemos levar a Deus uma má consciência para que Ele nos perdoe e faça graça; mas não se pode resistir ao Inimigo, se tivermos uma má consciência; temos medo dele.

Por um lado, tememos a sua malícia, e, por outro, perdemos a consciência da presença e da força de Deus.

Andando na presença de Deus, nada temeremos; o coração está livre! Não pensamos mais em nós próprios; pensamos em Deus. E os adversários ficam envergonhados por terem falsamente acusado aqueles cuja maneira de viver é irrepreensível e contra aos quais nenhuma acusação pode ser feita, exceto as calúnias dos inimigos, calúnias essas que dão, como resultado, a vergonha dos caluniadores.

E possível que Deus ache bem que nós soframos. Se assim for, é preferível sofrermos pelo bem a sofrermos pelo mal. O apóstolo apresenta um impressionante motivo para isso: Cristo sofreu, uma vez por todas, pelos pecados.

Que isso baste; nós não sofremos senão pela Justiça.

Sofrer por causa do pecado foi a Sua tarefa.

Ele a cumpriu e para sempre, levado à morte no tocante à Sua vida na carne, mas vivificado segundo o poder do Espírito divino.

A passagem que se segue tem apresentado dificuldades aos leitores da Bíblia; mas parece-me simples, se apreendermos o alvo do Espírito de Deus. Os Judeus esperavam um Messias presente corporalmente, que libertaria a nação e elevaria os Judeus ao apogeu da glória terrestre. Ora, este Messias não era apresentado dessa maneira — bem o sabemos — e os Judeus crentes tinham de suportar as zombarias e o ódio dos incrédulos, por causa da sua confiança num Messias que não estava presente e não tinha operado nenhuma libertação para o povo. Os crentes tinham a salvação da alma e conheciam Jesus no Céu, mas os incrédulos não gostavam disso. O apóstolo cita então o caso do testemunho de Noé. Os Judeus crentes eram em pequeno número, e tinham Cristo apenas segundo o Espírito Santo. Pelo poder deste Espírito, Cristo tinha sido ressuscitado de entre os mortos. Era pelo poder do mesmo Espírito que Ele tinha ido, sem estar corporalmente presente, pregar em Noé. O mundo tinha sido desobediente nesse tempo (tal como os Judeus o eram no tempo do apóstolo), e somente oito pessoas tinham sido salvas — tal como atualmente os crentes, já não formavam senão um pequenino rebanho.

Mas os espíritos dos rebeldes estavam agora na prisão, por não terem obedecido a cristo, presente no meio deles pelo Seu Espírito, em Noé. A paciência de Deus esperava então, como esperava agora acerca danação judaica; o resultado devia ser o mesmo — e tem-no sido.

A interpretação que damos desta passagem é confirmada (ao encontro daquela que supõe que o Espírito Santo pregou no Hades às almas, guardadas ali desde o dilúvio) pela consideração que lemos em Gênesis: "O meu Espírito não contenderá para sempre e com o homem; os seus dias serão cento e vinte anos" (Gênesis 6:3); o que quer dizer que o Espírito de Deus lutaria no testemunho de Noé durante cento e vinte anos. e não mais. Ora, seria extraordinário se tratasse apenas daqueles homens (porque não nos é falado senão deles) que o Senhor lutasse em testemunho após a morte deles. Além disso, podemos notar que considerando esta expressão como significando o Espírito de Cristo em Noé, não fazemos senão empregar uma frase bem conhecida de Pedro; porque, como vimos já, foi ele que disse: "O Espírito de Cristo, que estava nos profetas". Portanto, esses espíritos estão em prisão, porque não escutaram o Espirito de Cristo em Noé (comparar 2 Pedro 2:5-9). A isto o apóstolo acrescenta a comparação do batismo com a arca de Noé no dilúvio. Noé tinha sido salvo através da água; nós também o somos. Porque a água do batismo figura a morte, como o dilúvio foi, por assim dizer, a morte do mundo. Ora, Cristo passou pela morte, e ressuscitou.

Nós entramos na morte, no batismo, mas como a arca, porque Cristo sofreu na morte, por nós, e dela saiu na ressurreição, como Noé do dilúvio, para começar com uma nova vida, num mundo ressuscitado. Cristo, tendo passado pela morte, expiou os pecados; e nós, por ela passando espiritualmente, ali deixamos todos os nossos pecados, como Cristo realmente o fez por nós.

Porque Ele ressuscitou sem os pecados que expiou sobre a Cruz.

Eram os nossos pecados; e assim, pela ressurreição, nós temos uma boa consciência. Atravessamos a morte em espírito e em figura, pelo batismo. A força daquilo que dá a paz é a ressurreição de Cristo, após o cumprimento da expiação. Portanto, por esta ressurreição, nós temos uma boa consciência. Era isto o que os Judeus tinham de aprender, O Cristo tinha subido ao Céu; todos os poderes e os principados Lhe estavam sujeitos. Ele está à direita de Deus. Nós temos, pois, não um Messias sobre a Terra, mas sim uma boa consciência e um Cristo celestial.

As Dez diferenças entre o ARREBATAMENTO dos crentes e a posterior APARIÇÃO de Cristo: ARREBATAMENTO APARIÇÃO

1) Os crentes que dormem

1) Todos os crentes voltarão serão ressuscitados; os vivos juntamente com Cristo para a serão transformados; todos Terra.

serão arrebatados para encontrar o Senhor nos ares.

2) Não será precedido de

2) Antes ocorrerão sinais, em acontecimentos especial a Grande Tribulação.

extraordinários.

3) Não tinha sido anunciado no

3) Várias vezes anunciada no Velho Testamento. Trata-se de Velho Testamento.

um mistério somente revelado no Novo Testamento.

4) Diz respeito somente aos

4) Envolverá todos os verdadeiros crentes.

homens.

5) O Senhor virá para buscar a

5) Ele aparecerá com a Sua Sua noiva.

noiva.

6) Ele virá nos ares.

6) Ele virá sobre a Terra.

7) Os crentes O verão como Ele

7) Todo olho O verá.

é.

8) Ocorrerá antes do Dia da Ira.

8) Com ela terminará o Dia da Ira.

9) Satanás não é mencionado.

9) Satanás será preso.

10) Dá início à Grande

10)Dá início ao Reino de Paz.

Tribulação.

CAPÍTULO 4

O Senhor Jesus fatigou-se grandemente com o pecado que teve de enfrentar. Ele agora descansa após ter vencido o pecado por meio de Sua morte. Da mesma forma, o cristão deve acabar com as paixões dos homens. Queridos amigos, não nos basta o tempo precioso que desperdiçamos, antes de nossa conversão, no nadar insensato rumo à morte? Vivamos agora o resto de nossa vida “segundo a vontade de Deus”.

Nosso novo comportamento certamente contrastará com o do mundo ao nosso redor. O mundo estranhará a nossa abstenção dos prazeres corruptos. Sofreremos pressão, seremos motivos de chacota e dirão coisas horríveis a nosso respeito. Por quê? Porque o mundo se sente condenado pela nossa separação, visto que serão condenados pelo grande Juiz (v. 5). Justamente por causa da iminência deste julgamento é que devemos controlar nossa conduta, buscando a moderação, a vigilância, a oração e o amor fervoroso (final do versículo 22 do capítulo 1). O amor, por sua vez, é expresso de várias maneiras: buscando a restauração de nossos irmãos (final do v. 8), sendo hospitaleiros sem murmuração, usando os dons da multiforme graça de Deus para o benefício mútuo. E dessa forma que, no céu, o Senhor Jesus segue glorificando ao Pai aqui na Terra (este é o Seu maior desejo) por meio da vida dos Seus remidos (v. 11; João 17:4,11 e 15:8).

No céu, não cansaremos de meditar nos sofrimentos do Senhor Jesus; eles serão o inesgotável tema de nossa canção.

Contudo, a oportunidade de participar destes sofrimentos aqui na terra terá acabado. Sofrer com Cristo é uma experiência mais íntima e mais intensa do que sofrer por Ele.

Participar de Suas dores, conhecer a ingratidão, o desprezo, a contradição, a injúria (v. 14), a ostensiva oposição que Ele encontrou, é realmente conhecê-LO em todos os sentimentos que teve. O desejo ardente de Paulo era “o conhecer… e a comunhão dos seus sofrimentos…” (Filipenses 3:10). Mas existe um tipo de aflição que Cristo não podia experimentar: a aflição dos que praticam o mal. Não podemos escapar das consequências de nossos erros. Um cristão desonesto colherá o que semeou e se ele se meter em negócio alheio poderá ser punido. A parte mais triste não é a confusão em que nos metemos, mas a desonra atribuída ao nome do Senhor. Por outro lado, sofrer como cristão, a saber, como Cristo sofreu, equivale a glorificar a Deus com esse nome maravilhoso (v. 16; Atos 4:17,21).

Jean Koechlin

Desde o início deste capítulo até o fim do verso 7, o apóstolo continua a tratar dos princípios gerais do governo de Deus, exortando o Cristão a conduzir-se de harmonia com os princípios do próprio Cristo, o que o levaria a evitar o comportamento que esse governo condena, enquanto esperava o Julgamento do mundo pelo Cristo que ele servia. Cristo glorificado, como O vimos no fim do capítulo precedente, estava pronto a julgar; e aqueles que se irritavam contra os Cristãos e eram conduzidos pelas suas paixões, sem se inquietarem por causa desse Julgamento que vinha, haviam de dar contas a esse Juiz que não queriam reconhecer como Salvador.

Os sofrimentos de que se trata aqui são, como veremos, sofrimentos pela Justiça (capítulos 2:19 e 3:17), em relação com o governo e o Juízo de Deus. O princípio era este: Os Cristãos aceitavam e seguiam o Salvador, que o mundo e a Sua nação rejeitavam; seguiam o santo exemplo na Justiça como peregrinos e estrangeiros, deixando a corrupção que reinava no mundo. Andando em paz e praticando o bem, eles evitavam, até um certo ponto, os ataques dos seus inimigos; e os olhos dAquele que vela do Alto sobre todas as coisas, repousavam sobre os justos.

Todavia, nas relações da vida corrente (ver capítulo 2:18), e relações com os outros homens é bem possível que tenhamos de sofrer e suportar flagrantes injustiças.

Ora o tempo do Juízo de Deus ainda não tinha chegado.

Cristo está no Céu. Ele tinha sido rejeitado na Terra, e a porção do Cristão consistia em O seguir. O tempo da manifestação do governo de Deus seria por ocasião do Julgamento que Cristo há de realizar. Enquanto espera, a Sua maneira de viver aqui, na Terra, deu o modelo daquilo que o Deus de justiça aprova (capítulos 2:21-23; 4:13 seguintes).

Devemos praticar o bem, sofrer e ter paciência. E isto o que é agradável a Deus; foi isto o que Cristo fez. Valia mais, se Deus o achasse bom, sofrer pelo bem do que sofrer pelo mal. Cristo (capítulo 2:24) levou os nossos pecados, sofreu por causa dos nossos pecados, o Justo pelos injustos, para que, mortos ao pecado, vivamos para a Justiça e sejamos por Ele levados ao próprio Deus. Cristo está agora no Céu; está pronto a Julgar.

Quando o Juízo chegar, os princípios do governo de Deus serão manifestados e prevalecerão.

O começo do capítulo 4 requer algumas observações um pouco mais pormenorizadas. A morte do Cristo é ali aplicada à morte prática aos pecados — estado que é posto em contraste com a vida dos Gentios.

Cristo sobre a Cruz (Pedro faz alusão ao verso 18 do capítulo precedente) sofreu por nós na carne. Ele está morto de fato quanto à Sua vida de homem. É necessário armarmo-nos do mesmo sentimento e não tolerarmos nenhuma atividade de vida ou de paixões que sejam segundo a vontade do velho homem, mas sim sofrermos quanto à carne, não cedendo nunca aos seus desejos. O pecado está em ação, em nós, da vontade da carne, da vontade do homem enquanto viver neste mundo. Quando esta vontade atua, o princípio do pecado está lá, porque nós devemos obedecer a Deus. A vontade de Deus deve ser a fonte da nossa vida moral; e deve sê-lo muito mais agora que temos o conhecimento do bem e do mal (a vontade da came, não subordinada a Deus, está em nós).

É preciso, pois, que, ou tomemos a vontade de Deus como nosso único motivo, ou atuemos segundo a vontade da carne, porque esta está sempre presente em nós.

Cristo veio para obedecer; escolheu, pois, antes morrer e sofrer tudo do que desobedecer.

Assim, Ele está morto ao pecado, que nunca achou entrada no Seu coração. Tentado até ao último grau, preferiu a morte à desobediência, mesmo quando a morte tinha o caráter da ira contra o pecado e o caráter do julgamento. Por muito amargo que fosse o cálice, Ele preferiu bebê-lo a não cumprir, da maneira mais perfeita, a vontade de Seu Pai e a não O glorificar.

Provado no mais alto grau, mas continuando sempre perfeito, a tentação que do exterior O assaltava e procurava uma entrada nEle (porque Ele a não tinha dentro de Si) era mantida sempre de fora; nunca penetrou nEle e Ele nunca manifestou nenhum movimento da Sua própria vontade para com ela.

Assim, a tentação não fez senão sobressair a obediência, a perfeição dos pensamentos divinos no homem, e, ao morrer, ao sofrer na carne, acabou completamente com ela, acabou com o pecado para sempre, e entrou para sempre no descanso, após ter sido provado até ao último ponto e ter sido tentado em todas as coisas semelhantemente a nós (1), quanto à provação da fé, quanto ao combate da vida espiritual.

Ora, o mesmo se dá conosco.

Se eu sofro na carne, a vontade da carne não está seguramente em atividade; e a carne, naquilo que eu sofro, está praticamente morta. Não tenho mais nada a ver com os pecados (2).

(1) Não é, como na versão autorizada, "'mas sem pecado", por muito verdade que isso possa ser, mas sim "a exceção do pecado". Nós somos tentados, sendo arrastados pelas nossas próprias cobiças, Cristo teve, no Seu caminho, todas as nossas dificuldades, todas as nossas tentações, mas não tinha nada em si próprio que pudesse conduzi-Lo mal — bem longe disso, certamente! — nada que respondesse à tentação.

(2) Pedro detém-se nos efeitos; Paulo, como sempre, vai até à raiz (Romanos 6).

Estamos, pois, libertados do pecado; acabamos com ele, e estamos em descanso.

Se estamos contentes por sofrermos, a nossa vontade não atua, o pecado não está lá, de fato; porque sofrer não é vontade, é graça. É a graça atuando segundo a imagem e os sentimentos de Cristo no novo homem; e nós estamos libertos da ação do velho homem. Ele não atua. A seu respeito, estamos em descanso; acabamos com ele, para já não vivermos na came o resto da nossa vida deste mundo, para já não vivermos segundo as cobiças do homem, mas sim segundo a vontade de Deus, que acompanha o novo homem.

Já é bastante que tenhamos passado o tempo decorrido da nossa vida fazendo a vontade dos Gentios (Pedro fala sempre aos Cristãos da Circuncisão) e cometendo os mesmos excessos a que eles se entregavam, espantando-se ao mesmo tempo de os Cristãos se recusarem a fazer como eles — e dizendo mal deles por esta razão. Mas eles haviam de prestar contas Aquele que está pronto julgar os vivos e os mortos.

Os Judeus estavam habituados ao julgamento dos vivos, porque formavam o centro do governo de Deus sobre a Terra. O julgamento dos mortos, que nos é mais familiar, não lhes tinha sido positivamente revelado.

Todavia, eles eram passíveis desse julgamento, porque foi com esse fim que as promessas de Deus lhes foram apresentadas, a fim de que vivessem segundo Deus em espírito — ou que fossem julgados como homens responsáveis pelas coisas feitas na carne. Porque um ou outro destes resultados devia ser produzido em cada um daqueles que ouviram as promessas. Assim, pelo que concerne aos Judeus, o julgamento dos mortos devia ter lugar em relação com as promessas que lhes tinham sido apresentadas. Porque este testemunho de Deus colocava todos aqueles que o ouviam sob a responsabilidade, de sorte que eles deviam ser julgados como homens que tinham de prestar contas a Deus do seu comportamento na carne — a não ser que eles saíssem dessa posição de vida na came, sendo vivificados pelo poder da Palavra que lhes era dirigida, aplicada pela energia do Espírito Santo. Assim, escapavam à carne pela vida espiritual que recebiam.

Ora, o fim de todas as coisas estava próximo. O apóstolo, falando do grande princípio de responsabilidade, em relação com o testemunho de Deus, atrai a atenção dos fiéis sobre o solene pensamento do fim de todas essas coisas sobre as quais a carne se apoiava. E este fim aproximava-se.

Aqui, note-se, Pedro apresenta, não a vinda do Senhor para receber os Seus, nem a Sua aparição com eles, mas esse momento da sanção solene dos caminhos de Deus, onde todo o refúgio da came desaparecerá, e onde todos os pensamentos do homem perecerão para sempre.

Quanto às relações de Deus com o mundo, em governo, a destruição de Jerusalém, embora não tenha sido "o fim", foi, no entanto, de imensa importância, porque destruiu a própria sede desse governo na Terra, onde o Messias devia ter reinado e onde reinará. Deus vela sobre todas as coisas: Cuida dos Seus, conta os cabelos das suas cabeças, faz contribuir todas as coisas para o seu maior bem, mas é no meio de um mundo que Ele já não reconhece; porque não só o governo terrestre e direto de Deus foi posto de lado, o que teve lugar desde o tempo de Nabucodonosor, e, em certo sentido, desde o tempo de Saúl, como também o Messias, que devia ali reinar, foi rejeitado, tomando, por isso, a posição celeste, em ressurreição. É este o assunto desta Epístola.

A destruição de Jerusalém (que devia ter lugar nesse tempo) foi a abolição final dos últimos vestígios desse governo—até que o Senhor venha. As relações de um povo terrestre com Deus, na base da responsabilidade do homem, tinham acabado. O governo geral de Deus tomava o lugar daquele que o precedera; governo sempre o mesmo, em princípio, mas que, tendo Jesus sofrido na Terra, deixava ainda sofrer os seus membros neste mundo. E, até ao dia do Juízo, os maus hão de perseguir os justos, sendo necessário que estes tenham paciência. Acerca da nação, essas relações com Deus não subsistiram senão até à destruição de Jerusalém. As incrédulas esperanças dos Judeus, como nação, foram judicialmente anuladas. O apóstolo fala aqui de uma maneira geral, tendo em vista o efeito da solene verdade do fim de todas as coisas, porque Cristo está sempre "pronto para julgar".

E, se há demora, é porque Deus não quer a morte do pecador, prolongando, por isso, o tempo da graça.

Em vista desse fim de tudo o que é visível, devemos ser sóbrios e velar para orar. Devemos ter o coração exercitado para com Deus, que não muda, que nunca passará, e que nos guarda através de todas as dificuldades e das tentações desta cena passageira até ao próximo dia da libertação.

Em lugar de nos deixarmos prender pelas coisas presentes e visíveis, devemos refrear-nos a nós mesmos, e à nossa vontade, elevando até Deus os nossos pensamentos em oração.

Isto leva o apóstolo a falar da posição interior dos Cristãos, das suas relações entre eles, e não do governo geral do mundo da parte de Deus. Eles seguem o próprio Cristo, porque são Cristãos.

A primeira coisa que Pedro lhes determina é uma veemente caridade; não apenas um suporte que impedisse que estoirasse a irritação da carne, mas sim uma energia de amor que, imprimindo o seu caráter sobre todos os caminhos dos Cristãos, uns para com os outros, pusesse praticamente de lado a ação da carne e tornasse manifestas a presença e a ação divinas.

Ora, este amor cobre uma multidão de pecados. Pedro não fala aqui de um perdão final, mas do conhecimento atual que Deus toma das coisas, das Suas relações atuais em governo com o Seu povo, porque nós temos relações atuais com Deus. Se a Igreja está em desacordo, se há pouco amor, se as relações entre os Cristãos se não mantém senão com corações frios e acanhadamente, o mal que existe, os erros mútuos subsistem perante Deus; mas se há o amor que não comete faltas, nem delas se vinga, antes as perdoa e não encontra nelas senão uma ocasião de se exercitar, então é sobre o amor — e não sobre o mal — que o olhar de Deus repousa. Se houver mesmo delitos — pecados — o amor ocupa-se deles; o ofensor é reconduzido e restaurado pela caridade da assembleia. Os pecados são retirados de diante dos olhos de Deus, são cobertos. E uma citação de Provérbios 10:12: "O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões".

Temos o direito de perdoar — de lavar os pés do nosso irmão (comparar Tiago 5:15 e 1 João 5:16). Não só perdoamos, mas também o amor mantém a assembleia perante Deus de harmonia com a Sua própria natureza, de sorte que Ele pode abençoá-la.

Os Cristãos devem exercer a hospitalidade uns para com os outros com toda a liberdade. Este exercício da hospitalidade é a expressão do verdadeiro amor e contribui muito para o manter.

Os Cristãos não devem ser estranhos uns para com os outros.

Em seguida, após o exercício da graça, vêm os dons.

Tudo vem de Deus. Segundo o dom que cada um tinha recebido, devia servir, nesse dom, como despenseiro da multiforme graça de Deus. É Deus quem dá: o Cristão é servo e responsável como despenseiro da parte de Deus. Ele deve atribuir tudo a Deus, diretamente a Deus. Se fala, deve fazê-lo como oráculo de Deus, isto é, como falando da parte de Deus e não do seu próprio íntimo; se serve nas coisas temporais, deve fazê-lo com a força e a capacidade que vêm de Deus, a fim de que, quer fale quer sirva, Deus seja glorificado em todas as coisas por Jesus Cristo.

A Ele — acrescenta Pedro — pertence a glória e o poder para todo o sempre. Amém.

Após estas exortações, Pedro volta aos sofrimentos pelo nome de Cristo. Os Cristãos não deviam considerar as ardentes perseguições que vinham sobre eles para os provar, como se fosse coisa estranha que lhes acontecesse. Pelo contrário, eles estavam unidos a um Cristo sofredor e rejeitado; participavam assim dos Seus sofrimentos e deviam alegrar-se por esse fato.

Cristo ia voltar em breve e esses sofrimentos por amor do Seu Nome transformar-se-iam em suprema alegria quando a Sua glória fosse revelada. Deviam, pois, regozijar-se por participarem dos sofrimentos de Cristo, para serem cheios de uma abundante alegria, aquando da revelação da Sua glória. Se, pelo Nome de Cristo, estavam no opróbrio, eles eram bem-aventurados. O Espírito de Deus repousava sobre eles. Era o Nome de Cristo que trazia o opróbrio sobre eles. Cristo estava na glória, junto de Deus. O Espírito que vinha dessa glória e desse Deus enchia-os de alegria ao suportarem o opróbrio. Era Cristo que era blasfemado — Cristo que estava glorificado — blasfemado pelos inimigos do Evangelho, enquanto que os Cristãos tinham a alegria de O glorificar. Note-se que, nesta passagem, é pelo próprio Cristo (tal como Ele disse) que o fiel sofre; e é por isso que o apóstolo fala de glória e de alegria aquando da aparição de Jesus Cristo, ao passo que não faz menção disso no capítulo 2:20 e 3:17 (comparar Mateus 5:10-12).

Portanto, o Cristão não deve sofrer nunca como malfeitor; mas, se sofrer como Cristão, não deve envergonhar-se disso, devendo antes glorificar a Deus por esse sofrimento. O apóstolo volta em seguida ao governo de Deus, porque esses sofrimentos dos fiéis tinham também um outro caráter: Para a pessoa que sofria, isso era uma glória! Participava dos sofrimentos de Cristo, e o Espírito de glória e de Deus repousava sobre ela — e tudo isto se transformaria em abundante alegria, quando a glória fosse revelada. Mas Deus não tinha prazer em deixar sofrer o Seu povo.

Permitia-o; e se Cristo teve de sofrer por nós, sem que, não tendo conhecido o pecado, disso tivesse necessidade para Si próprio, o povo de Deus tem muitas vezes necessidade de ser exercitado por meio do sofrimento, por sua própria conta.

E, por vezes, Deus serve-Se, para isso, dos malfeitores, inimigos do Nome de Cristo. O Livro de Jó explica isto, independentemente de toda a dispensação. Mas, sob cada forma dos Seus caminhos, Deus exerce os Seus Juízos segundo a ordem que estabeleceu.

Assim fez nas Suas relações com Israel, e assim faz com a Igreja.

Igreja tem a sua porção celestial; mas, se ela se prende à Terra, Deus permite ao Inimigo que a atormente. E possível que a pessoa que sofre esteja plena de fé e de amor , dedicada ao Senhor; mas, durante a perseguição, o coração sente que o mundo não constitui o seu descanso, que é necessário que ele tenha a sua porção noutro lugar e a sua força algures. Nós não somos do mundo que nos persegue. Se o fiel servo de Deus é cortado do mundo pela perseguição, a fé é fortificada, porque Deus está nesse fato; e aqueles do meio dos quais ele é suprimido sofrem e sentem que a mão de Deus interveio. Os Seus caminhos revestem a forma de Julgamento; sempre em amor perfeito, mas em disciplina.

Deus julga tudo segundo a Sua natureza. Ele quer que tudo esteja de acordo com a Sua natureza.

Nenhum homem justo e honrado quereria ter os malfeitores junto de si e sempre na sua frente.

Também Deus, certamente, o não quereria. E é naquele que está mais perto de Si que Ele quer, acima de tudo, que todas as coisas respondam à Sua natureza e à Sua santidade — a tudo o que Ele é. Eu quereria que, à minha volta, tudo fosse suficientemente limpo para me não desonrar; mas, dentro da minha própria casa, exijo uma limpeza tal como pessoalmente a desejo. Assim, é necessário que o Juízo comece pela Casa de Deus. O apóstolo faz aqui alusão a Ezequiel 9:6. É um princípio solene. Nenhuma graça, nenhum privilégio muda a natureza de Deus: e é preciso que tudo seja conforme a essa natureza, ou então que seja, ao fim, banido da Sua presença. A graça pode tornar-nos à natureza de Deus, e é o que ela faz. A graça dá-nos a natureza divina, de sorte que há em nós um princípio de conformidade absoluta com Deus.

Mas, quanto à conformidade prática em pensamento e em ato, é preciso que o coração e a consciência sejam exercitados, a fim de que a inteligência do coração, as aspirações e os desejos habituais da vontade sejam formados segundo a revelação de Deus, e dirigidos continuamente para Ele.

Ora, se esta conformidade falta, de modo tal que a sua ausência seja prejudicial ao testemunho de Deus, Deus, que julga o Seu povo e que julgará o mal por toda a parte onde ele se encontrar, intervém, pelos castigos que inflige. O Juízo começa pela Casa de Deus. Os justos são salvos dificilmente. Não se trata aqui, evidentemente, da redenção, nem da justificação, nem da comunicação da vida; aqueles a quem Pedro se dirige possuem essas coisas. Para o apóstolo, a "salvação" é não só o gozo atual da salvação da alma, mas a plena libertação dos fiéis, que terá lugar aquando da vinda de Cristo em glória. Tem em vista todas as tentações, todas as provações, todos os perigos pelos quais o Cristão passa ao atingir o fim da sua carreira. E, na verdade, preciso todo o poder de Deus, dirigido pela sabedoria divina, guiando e sustento a fé, para fazer passar o Cristão são e salvo através do deserto onde Satanás põe em ação todos os recursos da sua destreza para o fazer perecer. O poder de Deus o cumprirá; mas, do ponto de vista humano, as dificuldades são quase insuperáveis. Ora, se os justos — segundo os caminhos de Deus, que deve manter o Seu Juízo conforme aos princípios do bem e do mal no Seu governo, e que não quer desmentir-Se de maneira nenhuma ao atuar para com o Inimigo das nossas almas — se os justos eram salvos dificilmente, que viria a ser do pecador e do ímpio? Não havia meio de escapar a essas dificuldades, senão juntando-se a eles. Quando se sofria como Cristão, não havia senão uma coisa a fazer: Entregarmo- nos Àquele que velava peie Juízo que executava.

Porque, uma vez que se tratava da Sua mão, sofria-se de acordo com a Sua vontade. Cristo fez assim.

Note-se, aqui, que não se trata só do governo de Deus, mas que há também a expressão: "Como ao fiel Criador". O Espírito de Deus move-Se aqui nesta esfera.

E a relação de Deus com este mundo, e a alma conhece- O como sendo Aquele que a criou e que não abandona as obras das Suas mãos. Estamos no campo judaico: Deus, conhecido nas Suas relações com a primeira Criação.

A confiança nEle é fundada sobre Cristo, mas Deus é conhecido nos Seus caminhos para com este mundo e para conosco na nossa peregrinação aqui, onde Ele governa e julga os Cristãos, como há de julgar todo o mundo.

CAPÍTULO 5

“Apascenta os meus cordeiros… apascenta as minhas ovelhas”, disse o Senhor a Pedro (João 21:15-17). Longe de assumir uma postura presunçosa em função dessas afirmações, Pedro foi superior a outros cristãos (uma posição que o cristianismo lhe atribuiu). O apóstolo, no entanto, se descreve simplesmente como um presbítero (ou supervisor) entre vários outros presbíteros, e os exorta a não se comportar como dominadores sobre o rebanho do bom Pastor, mas como exemplos (v. 3). As ovelhas não pertencem a eles; eles são responsáveis por elas perante o soberano Pastor. Isto não diminui a responsabilidade dos jovens em se submeter aos presbíteros nem a de todos em se revestir de humildade, a qual pode ser traduzida como “colocar o avental de servo” (v. 5; vide 3:8). A graça é dada ao humilde pelo “Deus de toda graça”.

“Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós”, acrescenta o apóstolo (v. 7). Esta confiança e esta entrega a Deus, entretanto, não nos eximem de ser vigilantes. Satanás, nosso adversário implacável, está à espreita do menor deslize de nossa parte, e resistir a ele significa mais sofrimento (vv. 8-9). Finalmente, as Escrituras nos encorajam a suportar as aflições, seguindo o Exemplo divino, por mais um pouco, antes de experimentarmos a glória vindoura (v. 10; final do versículo 11 do capítulo 1).

Jean Koechlin

O apóstolo volta a alguns pormenores cristãos. Exorta os presbíteros, ele, que também é presbítero; porque parece que, entre os Judeus, este título era antes característico que oficial (note-se o verso 5); exorta-os a apascentar o rebanho de Deus. O apóstolo designa-se como um que tinha sido testemunha dos sofrimentos de Cristo e que devia ter parte na glória que será revelada.

Era a função dos doze: Serem testemunhas da vida de Cristo (João 15), como a do Espírito Santo era a de prestar testemunho à Sua glória celestial.

Pedro coloca-se nos dois extremos da história do Senhor e deixa o intervalo privado de tudo, exceto da esperança e da peregrinação em direção a um alvo. Ele tinha visto os sofrimentos de Cristo; devia participar da Sua glória, quando fosse revelado.

E um Cristo que Se coloca a Si mesmo em relação com os Judeus, mas agora somente conhecido pela fé.

Durante a Sua vida na Terra, esteve entre os Judeus, embora ali tivesse sofrido e ali tivesse sido rejeitado.

Quando Ele aparecer, estará de novo em relação com a Terra e com esse povo. Paulo fala de outro modo, embora confirmando estas verdades. Ele não conheceu o Senhor senão após a Sua exaltação. Não é uma testemunha dos Seus sofrimentos, mas procura o poder da Sua ressurreição e a comunhão dos Seus sofrimentos.

O seu coração está ligado a Cristo enquanto Cristo está no Céu, como estando unido a Ele, lá em cima. E embora deseje a aparição do Senhor para o restabelecimento de todas as coisas de que os profetas tinham falado, regozija-se por saber que irá ao Seu encontro com alegria e voltará com Ele, quando for revelado do Céu.

Os presbíteros deviam apascentar o rebanho de Deus com prontidão, e não como por constrangimento, nem por torpe ganância, nem como tendo domínio sobre uma herança que lhes pertencesse, mas como modelos do rebanho. Deviam prodigalizar cuidados especiais ao rebanho, por amor de Cristo, Sumo Pastor, em vista do bem das almas. Aliás, era o rebanho de Deus que eles eram chamados a apascentar. Que pensamento tão solene e tão doce! É impossível que um homem tenha jamais a ideia de falar do seu rebanho, se compreendeu que não é o seu rebanho, mas sim o rebanho de Deus, que Deus nos permite apascentar.

Poderemos notar que o coração do bem-aventurado apóstolo está lá onde o Senhor o tinha colocado.

"Apascenta as minhas ovelhas"; tal tinha sido a expressão da perfeita graça do Senhor para com Pedro, quando o levava à humilhante, mas salutar confissão que era preciso o olho de Deus para poder ver que o Seu fraco discípulo o amava. No momento em que o convencia do seu nada absoluto, o Senhor confiava-lhe o que tinha de mais querido neste mundo. Vemos aqui que, do mesmo modo, é essa a preocupação do apóstolo, o desejo do seu coração, que os presbíteros apascentam o rebanho. Aqui, como noutro lugar, Pedro não vai além da aparição do Senhor. Será nessa altura que os caminhos de Deus em governo — de que os Judeus eram o centro terrestre — serão plenamente manifestados. Então, a coroa de glória será apresentada àquele que tiver sido fiel e que tiver satisfeito o coração do Sumo Pastor.

Os jovens deviam submeter-se aos anciãos, e todos estarem sujeitos uns aos outros. Todos deviam revestir- se de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. São ainda os princípios do Seu governo. Portanto, sob a Sua mão, eles deviam humilhar-se; depois seriam exaltados, na altura própria.

Proceder assim era estar de acordo com Deus. Ele sabia o que era necessário. Ele, que os amava, os elevaria em tempo conveniente. Preocupava-se com eles, por isso deviam descansar no Senhor, remetendo-Lhe todos os seus cuidados.

Por outro lado, deviam ser sóbrios e vigilantes, porque o adversário procurava devorá-los.

Aqui — sejam quais forem as suas astúcias, e embora ele possa armar ciladas aos Cristãos — é sob o caráter de um leão rugindo, que excita abertas perseguições, que o apóstolo o apresenta. Devíamos resistir-lhe, permanecendo firmes na fé. Por toda a parte se encontravam as mesmas aflições.

Todavia, o Deus de toda a graça é a confiança dos Cristãos. Ele chamou-nos a participar na Sua glória eterna. O que o apóstolo lhes deseja é que, após terem sofrido por algum tempo, o Deus de graça tome aqueles a quem ele escrevia, perfeitos, completos, confirmando- os, fortificando-os, e edificando os seus corações sobre o fundamento de uma segurança inabalável. E a Ele — acrescenta Pedro — seja a glória e o poderio para todo o sempre.

Vemos que os Cristãos, aos quais Pedro escrevia, sofriam, e que o apóstolo explicava esses sofrimentos segundo os princípios do governo divino, dizendo respeito especialmente às relações dos Cristãos com Deus como sendo a Sua Casa, e desejando que esses sofrimentos fossem sofrimentos por causa da justiça, ou sofrimentos pelo Nome do Senhor. Seriam sofrimentos temporários. A esperança do Cristão estava noutro lugar! A paciência cristã era agradável a Deus. Sofrer pelo Nome de Cristo era a glória deles. De resto, Deus julgava a Sua Casa e velava pelo Seu povo.

Ocupar-se com Cristo “A verdadeira vida cristã consiste em não mais focalizar a si mesmo: Cristo agora é tudo para nós.

Uma evidência de um sadio estado da alma é o gozo na presença de Cristo. Tudo que desvia a nossa atenção de Cristo é uma cilada de Satanás.

O alvo da vida Cristã é conhecer mais de Cristo. E Satanás não terá influência sobre um coração que está preenchido pelo Senhor.”

FIM DA 1ª CARTA DE PEDRO

John Nelson Darby nasceu como filho mais novo de uma família aristocrática irlandesa famosa em 18 de novembro de 1800 na cidade de Westminster (Londres).

O seu pai, Lord John Darby of Leap Castle (Kings County) era descendente de uma antiga família normanda; a sua mãe, que ele já perdeu enquanto ainda bem novo, descendia da conhecida família Vaughan do País de Gales. O fato de que o famoso general- demarinha, Lord Nelson, foi padrinho do pequeno João a pedido dos pais, mostra como essa família era de renome. Á honra do Lord recebeu o segundo nome Nelson.

Enquanto rapaz, John Nelson Darby estudou em Westminster School e, a desejo de seu pai, a partir de 1815 fez faculdade em Trinity College, Dublin, Irlanda.

A primeira parte de seus estudos terminou em 1819 com condecoração: Recebeu a "Classical Gold Medal". Em seguida fez faculdade de direito que terminou em 1822. Por causa da sua consciência, John Nelson Darby renunciou às perspectivas excelentes oferecidas nessa profissão. Já em 1820 entrou em profunda crise interna. Levou uma vida ascética, jejuando, fazendo exercícios religiosos e atendendo regularmente aos cultos na igreja, porém não chegou à clareza de fé. Em uma carta procedente do ano 1871 John Nelson Darby escreve: "Depois de ter me convertido pela graça do Senhor, ainda passei uns seis ou sete anos debaixo da vara disciplinadora da Lei.

Senti que Cristo é o único Salvador, porém ainda pude afirmar de possuí-Lo ou de estar salvo por meio dEle.

Estava orando, jejuando, dando esmolas — coisas que sempre são boas quando feitas numa maneira espiritual —, mas não possuí paz interior. Ainda assim senti de que se o Filho de Deus Se deu a Si Mesmo por mim, então pertencia a Ele com corpo e alma, com posses e bens. Finalmente, Deus me deixou entender que estava em Cristo, unido com Ele pelo Espírito Santo".

Não sabemos nada certo referente aos seus estudos nos anos 1822 a 1825, senão que se ocupava com o pensamento de optar por uma carreira eclesiástica. O seu pai ficou tão indignado com isso ao ponto de deserdar o filho. Um tio, porém, lhe deixou de herança uma considerável fortuna de sorte que ele durante toda a sua vida era independente. No ano 1825 foi ordenado diácono ("deacon") e no ano seguinte sacerdote da Igreja Anglicana. A sua primeira paróquia foi Calary em County Wicklow na Irlanda. Enquanto ali, se esforçava bastante de cuidar com devoção dos membros da paróquia que moravam, na sua maioria, bem dispersos e eram pobres.

Durante esse tempo, a sua posição quanto a igreja do estado já foi abalada, como mostra o seu primeiro panfleto que data do ano 1827 ("Considerations addressed to the Archbishop of Dublin etc." — "Considerações dirigidas ao Arcebispo de Dublin etc.").

Nesse panfleto, ele tomou posição contra a exigência do Arcebispo Magee, que queria que os católicos que naqueles dias passaram em massa para a Igreja Anglicana, jurassem lealdade ao rei britânico. A sua determinação e ação destemida teve por resultado uma repreensão oficial. Mais e mais foi desconcertado com respeito à igreja do estado.

Por ocasião de uma cavalgada pela paróquia, caiu do cavalo e foi ferido tanto na perna que havia de permanecer em Dublin durante todo o inverno de 18271828 para tratamento. Esse tempo utilizou para estudo intenso da Bíblia. Foi ali que encontrou, aparentemente, a verdadeira e profunda paz com Deus que há tantos anos lhe faltara, como a carta citada revela. Durante a sua permanência em Dublin, chegou a conhecer John Gifford Bellet, Dr. Edward Cronin, FrancisHutchinson e Mr. Brooke. Em seguida da sua volta à paróquia renunciou ao ofício de sacerdote, embora ainda não se desligasse da igreja oficial.

Assumiu um cargo na "Missão Interna" (uma instituição apoiada pela Igreja Anglicana destinada à obra missionária dentro do país) e anunciou até 1832 o evangelho aos católicos da Irlanda de maneira muito abençoada. De várias fontes apreendemos que ele se reuniu com os novos amigos por diversas vezes desde o inverno 1827 / 1828 para o partir do pão.

Um desses amigos era Anthony Norris Grove.

Tornaram-se cada vez mais claros para os amigos os pensamentos de Deus referente à Igreja (eclésia) do Deus vivo, à volta de Cristo, à ação do Espírito Santo bem como aos dons e ofícios na Igreja.

Nesse tempo, entre 1827 e 1832, aconteciam também as reuniões conhecidas por conferências de "Powerscourt".

Essas ajudaram para esclarecer o ponto de vista bíblico dos assuntos em questão, e finalmente John Nelson Darby se desligou oficialmente da Igreja Anglicana.

Os conhecimentos adquiridos por ele e seus amigos eram resultado de estudos bíblicos feitos com diligência e sobriedade. Eles conservaram firmemente todas as bases da fé cristã. O seu alvo foi anunciar novamente o evangelho em sua simplicidade, pureza e plenitude originais. Além das grandes verdades da Reformação — parcialmente já perdidas outra vez naqueles dias — John Nelson Darby e seus irmãos proclamaram verdades esquecidas ou obscurecidas desde os dias dos apóstolos, a saber: 1 — a Igreja (eclésia) de Deus, o Corpo de Cristo engloba todos os verdadeiros crentes que, desde o dia de Pentecostes em Atos 2 estão ligados a Cristo, sua Cabeça no céu por meio do Espírito Santo (Ef 4:4).

2 — Essa unidade encontra a sua expressão na Ceia do Senhor à Sua Mesa (1Co10:17).

3 — A volta do Senhor para arrebatamento dos crentes antes dos juízos finais é o próximo grande evento esperado pelos cristãos (1Co15:51-54; 1Ts4:16 - 5:2).

4 — Todos os crentes são sacerdotes e têm livre acesso a Deus, o Pai (1Pe2:5). O Senhor, porém, deu à Sua Igreja dons especiais para a sua edificação (Ef 4:11-12) — dons esses que devem ser distinguidos dos ofícios (anciãos / presbíteros e diáconos, cuja denominação oficial hoje não é mais possível devido à ausência dos apóstolos, embora a sua função, o seu ministério, ainda é exercido por irmãos reconhecíveis como tais — a partir de "devido" é acréscimo do tradutor).

São essas apenas algumas poucas das importantes verdades das Sagradas Escrituras novamente reconhecidas e realizadas naqueles dias.

Para isso, após o seu desligamento da igreja oficial, se abriu um campo amplo de trabalho para John Nelson Darby. Já em 1830 a obra se estendeu de Dublin a Limerick e outras cidades irlandesas. Também em Cambridge, Oxford e Plymouth (nome esse que, em parte, até hoje ainda está sendo mencionado em íntima ligação com os "irmãos") bem como em Londres surgiram maiores ou menores testemunhos da Igreja.

John Nelson Darby viajou por todo o país no serviço do Senhor.

No ano 1837, John Nelson Darby iniciou as suas atividades na Suíça, onde trabalhou abençoadamente em Genebra e Lausanne. Nos anos 1840 a 1845 viajou outra vez pela Suíça e França. Ali a obra, de uma maneira semelhante, se espalhou.

Nos anos 1847 a 1853 diversas viagens o levaram a esses países, onde serviu às congregações e reuniu os irmãos nas conferências para o estudo da Palavra de Deus.

No início do ano 1853 ouviu de um grupo de crentes da região Renânia na Alemanha. Em seguida houve uma troca de cartas com Carl Brockhaus resultando em uma visita de John Nelson Darby a Elberfeld em 1854.

Durante a viagem, John Nelson Darby ficou por alguns dias nos Países Baixos, fazendo a primeira visita aos irmãos em Haarlem, Amsterdam e Winterswijk. Esses irmãos também estavam se reunindo em separação das denominações eclesiásticas existentes. Na primavera de 1855, novamente foi a Elberfeld, para iniciar a tradução do Novo Testamento para o alemão. Em conjunto com Carl Brockhaus e Julius Anton von Poseck traduziu inicialmente o Novo Testamento. Nos anos 1869 a 1870 também traduziram o Velho Testamento para o alemão.

Nessa ocasião, Hermanus Cornelius Voorhoeve (da Holanda) ocupou o lugar de Julius Anton von Poseck.

Os anos 1855 a 1857, John Nelson Darby passou primordialmente no continente europeu, principalmente estava na França, na Alemanha (nos anos 1855 e 1857), nos Países Baixos e na Suíça. Nos anos seguintes,1858 a 1859, permaneceu em Londres, onde trabalhou na tradução do Novo Testamento para o francês impresso finalmente em 1859 em Vevey. A Bíblia completa em francês foi completada em 1881 com a colaboração de alguns irmãos. Enquanto isso, traduziu e publicou, em 1870, uma tradução para o inglês do Novo Testamento (o Velho Testamento, mais tarde, foi completado seguindo as suas instruções deixadas para trás).

No ano 1861 escreveu a um amigo: "Você sabe que sonhei de um novo campo de trabalho — algo onde ainda não estive e aonde o evangelho, tal como eu o entendo, ainda não tem sido levado. Não me alegro em ir a um campo onde já trabalhei. Se tornou para mim algo velho. Amo anunciar o Nome do Senhor a pessoas que ainda não O conhecem." Esse desejo se cumpriu no final do ano 1862.

Nos anos 1862-63,1866 a 1868,1870,1872-73 e finalmente em 1874 a 1877 visitou os Estados unidos e o Canadá. Durante a última viagem também chegou a visitar a Nova Zelândia.

Depois de sua última viagem para além-mar, John Nelson Darby visitou mais uma vez a Alemanha (1878), a Suíça, a Itália e a França. Na avançada idade de 79 anos voltou à Inglaterra, onde ainda trabalhou como escritor até o seu falecimento em 1882.

As suas obras completas (editados por seu amigo William Kelly) englobam 34 volumes ("Collected Writings of J. N. Darby").

Acrescentam-se ainda 7 volumes de notas e comentários ("Notes and Comments"),3 volumes de miscelânias ("Miscellaneous Writings") e 3 volumes de cartas ("Letters").

A sua obra mais conhecida e talvez a mais preciosa é a "Sinopsis dos livros da Bíblia" ("Sinopsis of the Books of the Bible"), na qual John Nelson Darby dá uma panorâmica de toda a Bíblia.

Ele igualmente é conhecido como poeta. Conhecido são os seus "Spiritual Songs" ("Hinos Espirituais") e os muitos hinos no hinário inglês dos irmãos.

Nos últimos meses do ano 1880 John Nelson Darby sofreu muito. Teve problemas de respiração bem como de coração. Em dezembro houve uma leve melhora da forma que pôde escrever a um conhecido: "Pela bondade de Deus estou indo muito melhor. Na verdade nem entendo que estive tão perto da morte. Embora não com muita frequência, ainda assim posso ir às reuniões. Também posso fazer o meu trabalho costumeiro. É certo que nos meses que seguirão haverá uma mudança acontecendo comigo frente a minha iminente despedida desse mundo, porém não há mudança com vistas à doutrina e os meus pontos de vista. Isso não mudou; tudo encontrei confirmado. É um doce e lindo pensamento, que tudo aquilo que ensinei o fiz em Deus. No meu interior tenho certeza de que pertenço a um outro mundo… por quanto tempo ainda pertencerá a mim não sei. Para a saída, a palavra do amado Senhor é importante: "Não são do mundo, como eu do mundo não sou" (Jo 17:16). — Nesse sentido a mudança é perceptível e estou a esperando." No ano 1881, John Nelson darby ainda estava trabalhando na edição de seu hinário inglês. No dia 15 de dezembro de 1881, escreveu o prefácio para a Bíblia francesa que foi publicada em 1882. No final de janeiro, a sua constituição física lhe permitiu cumprir apenas a metade de suas tarefas diárias. Nas últimas semanas foi recebido e cuidado na casa do irmão Hammond em Bournemouth. Foi ali que ele faleceu no dia 29 de abril de 1882. Numa lápide simples e branca do cemitério de Bournemouth se lê as palavras: John Nelson Darby Como um desconhecido e bem-conhecido.

faleceu no Senhor em 29 de abril de 1882 81 anos 2 Coríntios 5:21 “Senhor, me deixa esperar em Ti, a minha vida seja consagrada a Ti, desconhecido aqui na terra, servo Teu, então herdar a felicidade do céu.” J. N. D.

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