O que respondi…

aos que me perguntaram sobre a Bíblia

— Volume 10 —

por

Mario Persona

Smashwords Edition

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Publicado por:

Mario Persona no Smashwords e em outros meios.

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“Santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós”. (1 Pe 3:15)

Ilustração de capa: Billy Frank Alexander

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As citações são da Bíblia nas das versões ACF — Almeida Corrigida Fiel, ARC — Almeida Revista e Corrigida, ARA — Almeida Revista e Atualizada, JND — John Nelson Darby ou eventualmente uma tradução livre baseada nestas versões.

Trechos deste livro podem ser reproduzidos, copiados e distribuídos desde que o texto não seja alterado e seja feita a devida referência ao autor. Apreciamos seu apoio e respeito a esta propriedade intelectual.

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Apresentação

Primeiramente agradeço a Deus por permitir que este material fosse produzido e disponibilizado para milhares de leitores no Brasil e no mundo. As ideias que você encontra aqui não são originalmente minhas, e sim fruto do que tenho aprendido da Palavra de Deus fora dos sistemas denominacionais com irmãos congregados ao nome do Senhor e também com autores de outras épocas que congregavam assim. Foram eles J. G. Bellett, C. H. Brown, J. N. Darby, E. Dennett, W. W. Fereday, J. L. Harris, W. Kelly, C. H. Mackintosh, A. Miller, F. G. Patterson, A. J. Pollock, H. L. Rossier, H. Smith, C. Stanley, W. Trotter, G. V. Wigram e muitos outros.

Para que você compreenda como este livro veio a existir, creio ser necessário voltar um pouco no tempo. Depois de um período trabalhando em São Paulo, em 1988 mudei-me com minha família de volta para Limeira, minha cidade natal, a fim de colaborar com a Editora Verdades Vivas, uma organização sem fins lucrativos que produz e distribui literatura cristã. A grande quantidade de folhetos evangelísticos, livros e calendários distribuídos no Brasil e em outros países de língua portuguesa gerava um volume considerável de correspondência, não só com pedidos de publicações, mas também com perguntas sobre a Bíblia. Todas as cartas eram devidamente respondidas.

Nessa época adquiri o hábito de manter uma cópia das respostas em formato digital. Assim ficava fácil responder perguntas semelhantes ou até mesmo mesclar trechos de diferentes respostas, além de preservar aquele conhecimento. A partir de 1996 passei a usar a Internet e aí as respostas já não precisavam ser impressas, envelopadas e enviadas por carta como era feito até então. O uso do e-mail agilizou o processo e permitiu atender mais correspondentes com maior agilidade.

Em 1998 deixei a editora para atuar como executivo de uma empresa de tecnologia da informação, porém mantendo nas horas vagas minha ocupação com o evangelismo e ministério da Palavra via Internet por meio de diferentes sites e blogs. Em 2001 passei a trabalhar por conta própria como consultor e palestrante empresarial, tendo mais tempo livre e uma agenda mais flexível para dedicar-me ao evangelho.

Em 2005 decidi lançar o blog “O que respondi” no endereço respondi.com.br para disponibilizar as respostas que tinha armazenado em formato digital desde 1988 e acrescentar as que fossem sendo criadas. Algo que muitos perguntam é a razão de o blog não permitir comentários, mas o volume de spam, debates e opiniões deixadas na área de comentários me obrigou a eliminar esta opção de contato para me concentrar no atendimento apenas por e-mail. É sempre bom lembrar que não existe uma “equipe” para responder a correspondência que chega, pois este é um exercício pessoal.

Em 2008 iniciei um trabalho chamado “O Evangelho em 3 minutos — Uma mensagem urgente para quem tem pressa”, com vídeos no Youtube e também em versões de texto e áudio no endereço 3minutos.net. Com a popularização do smartphone e da Internet móvel este formato mostrou-se excelente para alcançar pessoas a qualquer hora e em qualquer lugar com a mensagem da salvação e a sã doutrina. O site “O que respondi” passou a servir de complemento aos vídeos. Enquanto no “Evangelho em 3 minutos” a Palavra de Deus é pregada de forma rápida, no “O que respondi” ela é explicada em detalhes e com referências.

Estas e outras frentes de trabalho via Internet continuam gerando um número cada vez maior de contatos e perguntas. Em 2013 foram mais de três mil perguntas atendidas, porém graças ao blog “O que respondi” nem todas precisaram ser respondidas. Na maioria das vezes é suficiente enviar links para as mais de mil respostas existentes no blog, que já conta com cerca de quatro milhões de acessos desde sua criação.

Assim chegamos à razão deste livro que está sendo lançado nos formatos digital (e-book) e impresso (on demand). Ele atende aqueles que desejam ter acesso ao material do blog sem depender de uma conexão com a Internet. Este é um dos mais de dez volumes projetados para compor esta coleção, se considerarmos todo o conteúdo do blog “O que respondi”.

Ao ler este livro não se esqueça de que está lendo as opiniões do autor, e não a Palavra de Deus. Considere também que os textos são cartas e e-mails de minha correspondência pessoal, e não uma obra literária. A linguagem é informal e despretensiosa como acontece com uma correspondência entre duas pessoas, e é provável também que você às vezes venha a achar a linguagem meio irreverente, mas isso é apenas fruto de meu estilo literário, e não de tratar levianamente as coisas de Deus ou a pessoa a quem respondi. Lembre-se também de que, para a resposta fazer sentido, às vezes incluo o que escreveram meus interlocutores e alguns são incrédulos ou ateus com opiniões depreciativas a respeito de Deus e de sua Palavra.

Não espere encontrar aqui todas as respostas e nem sequer as trate como definitivas. Elas são fruto do meu exercício com o Senhor e do que continuo aprendendo todos os dias. Por isso leia, medite, busque referências na Bíblia e ore para que o Espírito Santo lhe dê o entendimento. Sem isto até a pessoa mais inteligente e versada nas Escrituras será incapaz de entender as coisas de Deus, pois elas se discernem espiritualmente.

É provável que você encontre erros em minhas opiniões. Pode ter certeza de que eu mesmo eventualmente sou obrigado a acessar o blog “O que respondi” para fazer correções após ter sido instruído ou alertado de alguma falha por algum irmão ou por algo que li na Palavra de Deus. Se, ao comparar uma resposta mais antiga com uma mais nova, você encontrar alguma discrepância, saiba que optei por não revisar todas as respostas, mas decidi mantê-las do modo como entendia as coisas quando as escrevi, e lembre-se de que você está lendo textos escritos ao longo de um período de cerca de trinta anos. Se encontrar algum erro de digitação ou de gramática, entre em contato para eu fazer as devidas correções, pois o desejo de disponibilizar este livro o mais rápido possível nas mãos dos leitores foi maior que o tempo que tive para revisá-lo.

Este livro é vendido em formato impresso e distribuído gratuitamente em formato e-book, porém alguns sites de terceiros ou editoras irão cobrar algum valor também para a versão e-book. Em nenhum dos casos isso implica algum ganho para o autor que optou por abrir mão dos ganhos com direitos autorais. Você poderá distribuir o conteúdo deste livro, desde que o faça gratuitamente, não altere o texto e mantenha a referência ao autor.

Peço que se lembre de incluir este trabalho em suas orações e de endereçar ao Senhor, e não a mim, qualquer sentimento de gratidão que porventura possa ter por esta leitura.

“Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; como a alva, a sua vinda é certa” (Os 6:3).

Mario Persona

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Maio, 2016

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As “filhas dos homens” eram descendentes de Caim?

Não vejo grande problema em você considerar que a passagem em Gênesis 6 esteja se referindo simplesmente aos homens da descendência de Sete (que você identifica como os “filhos de Deus”) que decidiram se unir a mulheres da descendência de Caim (que na sua opinião seriam as “filhas dos homens”). Apesar de o princípio poder ser aplicado em nossos dias para alertar os convertidos a não se unirem com inconversos, não acredito que seja exatamente o caso de Gênesis 6.

Interpretar a passagem como sendo os “filhos de Deus” os descendentes de Sete, ou seja, da linhagem que começou a invocar o nome do Senhor, que teriam se envolvido com mulheres da linhagem corrupta de Caim (as “filhas dos homens”) deixa alguns “furos” para serem resolvidos. Por exemplo, por que de tais casamentos teriam resultado seres humanos diferenciados, ou “os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama” (Gn 6:4)? Não faria sentido casamentos mistos entre crentes e incrédulos produzirem um tipo diferente de pessoa, mais forte, corajosa ou até de maior estatura física (que não acho ser o caso aqui para a palavra “gigantes”).

Além disso, se TODOS os descendentes de Sete tomaram para si mulheres descendentes de Caim, teriam TODAS as “filhas de Deus”, por assim dizer, ficado solteiras? (Se chamarmos assim as descendentes de Sete, o que a Bíblia não chama). Não deveriam elas ter sido poupadas do dilúvio e estarem na arca com Noé e sua família?

Outra dificuldade é que o capítulo 6 começa dizendo que “como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas”, para depois identificar essas filhas como “filhas dos homens”, para mim parece muito claro que esses “homens” que se multiplicam no versículo 1 de Gênesis 6 são no sentido geral da humanidade. Tanto é que a palavra em hebraico usada aí é “adam”, o mesmo nome de Adão, que tem o sentido de humanidade. Uma leitura alternativa usando a palavra original hebraica seria:

(Gn 6:1-4) “E aconteceu que, como os descendentes de Adão começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos de Deus que as descendentes de Adão eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. Então disse o Senhor: não contenderá o meu Espírito para sempre com os descendentes de Adão; porque eles também são carne; porém os seus dias serão cento e vinte anos. Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às descendentes de Adão e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama”.

Os versículos que você citou não ajudam a sustentar sua opinião. 1 Reis 11:1-4 não está falando de “filhos de Deus”, mas de “filhos de Israel” em contraste com os gentios. Idem para Deuteronômio 7:1-4. Perceba que na Bíblia os únicos que são chamados de “filho de Deus” ou “filhos de Deus” são o próprio Senhor Jesus (Dn 3:25; Mateus 4:3, 8:9, 14:33 etc.), os anjos (Gn 6:2, 4; Jó 1:6, 2:1, 38:7), Adão (Lc 3:38) e os salvos na atual dispensação (Jo 1:12), ninguém mais. A única exceção talvez seja Isaías 45:11 mas fica claro pelo contexto que ali está falando de “filhos” no sentido de criaturas. Portanto você não encontrará ninguém no Antigo Testamento, exceto Adão (cuja menção como “filho” é feita só nos evangelhos), tendo a designação de filho de Deus senão os anjos (e o próprio Senhor).

A passagem a que se refere como mostrando ser impossível que anjos tomassem mulheres deixa claro que o Senhor está falando de como as coisas acontecem no céu, não na terra: “serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22:30). Ao descerem para a terra na forma humana os anjos comem, bebem e até são desejados pelos sodomitas, que querem ter relações sexuais com eles. Se Ló propõe entregar suas filhas virgens para serem estupradas pelos sodomitas é porque a forma humana que os anjos assumiram era de homens em corpos anatomicamente completo, ou não teriam sido desejados pelos sodomitas:

(Gn 19:1-8) “E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma; e vendo-os Ló, levantou-se ao seu encontro e inclinou-se com o rosto à terra; e disse: eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os vossos pés; e de madrugada vos levantareis e ireis vosso caminho. E eles disseram: não, antes na rua passaremos a noite. E porfiou com eles muito, e vieram com ele, e entraram em sua casa; e fez-lhes banquete, e cozeu bolos sem levedura, e comeram. E antes que se deitassem, cercaram a casa, os homens daquela cidade, os homens de Sodoma, desde o moço até ao velho; todo o povo de todos os bairros. E chamaram a Ló, e disseram-lhe: onde estão os homens que a ti vieram nesta noite? Traze-os fora a nós, para que os conheçamos. Então saiu Ló a eles à porta, e fechou a porta atrás de si, e disse: meus irmãos, rogo-vos que não façais mal; eis aqui, duas filhas tenho, que ainda não conheceram homens; fora vo-las trarei, e fareis delas como bom for aos vossos olhos; somente nada façais a estes homens, porque por isso vieram à sombra do meu telhado”.

A passagem que citou de João3:6 também não se aplica, porque ali Jesus está falando da diferença entre o que é nascido da carne e o que é nascido do Espírito Santo, e não de seres com corpos físicos e seres angelicais. “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3:6).

Se ler com atenção Judas 1:6 verá que ali fala de anjos caídos, mas não de todos eles, apenas dos que deixaram sua habitação ou “tabernáculo”. A palavra grega é “oiketerion”, a mesma que Paulo usa ao referir-se a deixar seu corpo humano para assumir um corpo celestial em 2 Coríntios 5:2 “E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu”. Os anjos de Jd 1:6 não são todos os anjos, no sentido genérico da queda dos anjos, já que ali fala que estão em prisões eternas até o dia do juízo, o que obviamente não é a atual condição de TODOS os anjos caídos.

O próprio contexto da passagem fala de abandonar a condição determinada por Deus para agir de modo diferente, pois a passagem de Judas 1:6 é seguida do evento de Sodoma e Gomorra, onde os homens não apenas tinham deixado sua condição natural de homens, buscando ter relações sexuais com outros homens, mas até tentaram fazer o mesmo com os anjos de Deus que tinham sido enviados para lá.

E veja como existem semelhanças entre as passagens de Judas, 2 Pedro e Romanos no sentido de fazerem referência ao juízo que vem de se deixar a condição original da criação de Deus para ter relações sexuais com seres de outra condição. Sempre que existe uma corrupção da natureza dos seres criados, sejam eles anjos ou humanos, pode-se esperar um juízo.

(Jd 1:6-7) “E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno”.

(2 Pe 2:4-6) “Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo; e não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, pregoeiro da justiça, com mais sete pessoas, ao trazer o dilúvio sobre o mundo dos ímpios; e condenou à destruição as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinza, e pondo-as para exemplo aos que vivessem impiamente”.

(Rm 1:26) “Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro”.

William MacDonald comenta a respeito de Gênesis 6, 2 Pe 2 e Judas 1: “Parece nas Escrituras que ocorreram ao menos duas apostasias de anjos. Uma quando Lúcifer caiu e provavelmente envolveu um exército de outros seres angelicais em sua rebelião. Esses anjos caídos não estão presos atualmente. O diabo e seus demônios estão ativos em guerrear contra o Senhor e Seu povo. A outra apostasia de anjos é a de que fala Judas e também Pedro (2 Pe 2:4). Existe uma considerável diferença de opiniões entre estudiosos da Bíblia quanto ao evento citado aqui. O que sugerimos é uma opinião pessoal e não uma asserção dogmática de um fato.

Acreditamos que Judas esteja se referindo ao que está registrado em Gênesis 6:1-7. Os filhos de Deus deixaram sua condição natural como seres angelicais, desceram à terra na forma humana, e uniram-se às filhas dos homens. Essa união marital foi contrária à ordem de Deus e uma abominação a Ele. Pode ser que o versículo 4 sugira que esses casamentos contrários à natureza produziram seres de grande força e maldade. Seja isto verdade ou não, fica claro que Deus estava completamente descontente com a impiedade do homem nessa época e determinou destruir a terra com um dilúvio.

Existem três objeções a este ponto de vista: (1) A passagem em Gênesis não fala de anjos, mas apenas de “filhos de Deus”; (2) Os anjos são assexuados; (3) Os anjos não se casam. É verdade que a passagem não fala especificamente de anjos, mas também é verdade que o termo “filhos de Deus” se refere a anjos nas línguas semíticas (veja Jó 1:6, 2:1). Não existe qualquer afirmação na Bíblia de que os anjos sejam assexuados. Os anjos às vezes apareceram na terra na forma humana, possuindo membros e apetites humanos (Gn 18:2-22, 19:1, 3-5). A Bíblia não diz que os anjos não se casam, mas apenas que no céu eles não se casam e nem se dão em casamento (Mt 22:30)” [traduzido de “Believer’s Bible Commentary”, William MacDonald].

F. B. Hole comenta assim:

“Ao abrirmos Gênesis 6:1-22, somos transportados aos últimos séculos da era antediluviana, quando a população tinha aumentado consideravelmente e a maldade humana chegou ao seu clímax. Muitos têm entendido o termo “filhos de Deus” como se referindo aos homens da linhagem de Sete, a linhagem da fé, que teriam caído de sua posição e se casado com as filhas da linhagem de Caim, mas nós concordamos com os que aceitam o termo como significando seres de caráter angelical, como isso é claramente indicado em passagens como Jó 1:6, 2:1 e 38:7. Como tal conexão possa ter acontecido, resultando na descendência de super-humanos em tamanho e força, nós não sabemos, mas cremos que Judas 1:6-7 confirma o que estamos dizendo. Sodoma e Gomorra foram atrás de “carne estranha”, cometendo assim um enorme pecado como seria proibido em Êxodo 22:19, e estes filhos de Deus fizeram o mesmo em princípio, quando foram atrás das filhas dos homens. Eles, portanto, apostataram, deixando sua condição original e, para que não repetissem tal ofensa, estão presos em cadeias eternas nas trevas até que lhes venha a perdição eterna. Eles serão finalmente julgados no grande dia do grande trono branco.

Todavia em Gênesis nos é mencionado apenas o terrível efeito disso no mundo dos homens. Os homens monstruosos que foram produzidos eram monstros de iniquidade, enchendo a terra com violência e corrupção. Porém o homem é tão caído que esses monstros, ao invés de terem sido considerados homens infames, foram tratados como homens de renome. Sem dúvida alguma eles foram os que deram origem às lendas de “deuses” e “deusas” e “Titãs” etc. que chegaram até nós nos escritos da antiguidade. Elas são normalmente consideradas meras fábulas, mas ao que parece possuem um fundamento bem maior em fatos do que muitos gostariam de admitir”. [Traduzido de “Genesis”, Frank Binford Hole].

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Devo chamar a todos de “irmãos”?

Existe um costume no meio evangélico e entre alguns católicos que é o de chamar qualquer um que se identifique como cristão de “irmão”. É comum encontrarmos debates nas redes sociais nos quais, alguém que se diz “crente”, “cristão” ou “evangélico” continue a ser chamado de “irmão” por seus interlocutores mesmo depois de ter negado as verdades cardeais do cristianismo ou de estar claramente escandalizando os que acompanham a conversa com ideias fora do contexto bíblico.

Outras vezes o termo “irmão” é usado, não como forma de dizer que ambos comungam da mesma fé, mas como forma de criar distanciamento, como as pessoas costumam fazer numa briga ou bate-boca, quando passam a chamar o adversário de “senhor” ou “senhora”. Políticos são especialistas nisso. Basta ver um vídeo de briga entre parlamentares para ver como eles carregam no uso do “Vossa Excelência”, não como um pronome para denotar um elevado grau de respeito, como ensina o dicionário, mas como preâmbulo para as ofensas e palavrões que se seguirão.

O que dizem as Escrituras sobre nossa maneira de tratar aqueles que se dizem irmãos, porém negam a sã doutrina ou são insubordinados às decisões da igreja ou assembleia? Ao revelar os princípios que deveriam reger a autoridade do Senhor na assembleia Jesus deixou claro que existiria um momento quando um insubordinado dentre os irmãos deixaria de ser tratado como “irmão” para ser tratado como incrédulo ou infiel.

“Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão; mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano” (Mt 18:15-17).

É disto que Paulo fala em 1 Coríntios5 ao tratar da excomunhão de um que estava contaminado com pecado moral. Ele devia ser excluído da comunhão (excomungado) à mesa do Senhor e ser tratado como alguém que estava fora. Obviamente o catolicismo e o protestantismo acabaram distorcendo essa ação disciplinatória e consideraram a excomunhão como uma exclusão do corpo de Cristo, o que é impossível ao homem fazer, já que nenhum verdadeiro membro de Cristo pode ser arrancado do seu corpo que é a igreja. A questão aqui é apenas no âmbito administrativo e da comunhão prática na terra, não no céu.

“Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (1 Co 5:9-13).

Repare que ele faz uma ressalva no tratamento para com os incrédulos, chamados aqui de “devassos deste mundo”, por saber muito bem que seria impossível viver no mundo separado fisicamente deles. Afinal, precisamos estudar, trabalhar e conviver com colegas, chefes e parentes incrédulos e não há como fugir disso. Os sistemas monásticos importados pelo catolicismo das religiões orientais tentam fazer uma separação física dos incrédulos isolando seus religiosos em mosteiros inacessíveis. Mas a doutrina dos apóstolos ensina que o tratamento com rigor deve ser reservado aos que “dizendo-se irmãos” viverem em pecado que desonre o Nome que carregam.

Ações assim nunca são por falta de amor (como também não é a disciplina de um filho), mas têm por objetivo fazer com que o transgressor se envergonhe de seu modo de ser e possa se arrepender de seus caminhos e ser restaurado à comunhão com os irmãos. Mas enquanto isso não acontece, ele não deve de maneira nenhuma ser chamado de “irmão” e todo contato que vá além do absolutamente necessário deve ser evitado. “Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho… E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” (Hb 12:6-11).

Por muitos de nós termos vindo de uma tradição católica, somos sempre muito “bonzinhos” na hora de tratar com as pessoas por acreditarmos que “todos somos irmãos” ou que “não devemos julgar”. Porém a Palavra de Deus ensina outra coisa. Devemos sim julgar as más ações das pessoas, suas doutrinas, o que falam, apesar de não podermos julgar o coração. O Senhor ensinou seus discípulos a tomarem cuidado com o “fermento” ou doutrina dos fariseus, e também a não agirem do modo como eles agiram, o que por si só prefigura fazer um julgamento.

O julgamento pode ser tanto individual quanto da assembleia. Uma vez que tivermos claro diante de nós que estamos lidando com alguém que, “dizendo-se irmão”, comporta-se de maneira contrária às escrituras, devemos nos apartar do tal e também deixá-lo de chamar de “irmão”. Como o Senhor ensinou, devemos considerá-lo “gentio e publicano”, que era a forma de um judeu enxergar um não judeu ou impuro. Essa separação é profilática, isto é, tem por objetivo evitar contaminação e permitir que fiquemos preparados “para toda boa obra” (2 Tm 2:21), o que não acontece se estivermos ligados às pessoas erradas. “Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” (1 Co 5:6).

Evidentemente somente “o Senhor conhece os que são seus”, porém a parte que me diz respeito é agir de acordo com o que diz a continuação da passagem: “Qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade. Ora, numa grande casa não somente há vasos [pessoas] de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar [separar] destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra” (2 Tm 2:19-21).

Vamos imaginar uma aplicação prática dessa questão de chamar ou não de “irmão” alguém que esteja causando escândalo, ou por negar doutrinas fundamentais da Bíblia, ou às vezes até por ser legalista ao extremo como os fariseus e querer colocar a pessoa debaixo de um jugo. A partir do momento em que ele faz isso em um bate-papo numa rede social e você continua a chamá-lo de “irmão”, até para tentar apaziguar os ânimos ou ser educado, a impressão que dará aos incrédulos que estiverem acompanhando a conversa é que você e ele são farinha do mesmo saco. Aí o incrédulo irá pensar: “É isso que é ser cristão? É isso que é ser ‘irmão’? Muito obrigado, mas quero ficar bem longe desse evangelho”.

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Como descobrir em que carreira atuar?

Essa é a “pergunta de um milhão de dólares” para a maioria das pessoas, mas para o crente em Jesus a resposta é até simples. Estamos aqui para testemunhar de Cristo na terra e também adorar “o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4:23-24). Portanto qualquer profissão na qual Deus nos coloque será aquela onde poderemos fazer isso. A dificuldade começa quando colocamos a carreira no centro de nossas vidas e aí ficamos ansiosos por encontrar algo que seja perfeito em termos profissionais, financeiros e exatamente dentro daquilo que achamos ser nossa capacidade e talento.

Quando eu estava no cursinho queria fazer engenharia aeronáutica, ideia que logo abandonei por perceber que não tinha capacidade para ciências exatas. Troquei para um curso vestibular que me preparasse para entrar na faculdade de arquitetura, já que minha inclinação sempre foi para artes. Durante a faculdade, e depois, cheguei a trabalhar por um tempo em arquitetura, mas nem em meus sonhos mais loucos eu teria previsto ser palestrante de comunicação e marketing, como hoje sou.

Minha atual profissão me permite ganhar meu sustento com palestras de negócios para empresas e nas horas vagas ter tempo suficiente para me ocupar com o evangelho. Tenho a liberdade de recusar serviços quando vejo minha agenda muito cheia, desde que não tenha “o olho maior que a barriga”, o que geralmente é o caso com a maioria das pessoas que buscam por riqueza a qualquer custo.

Portanto, não se preocupe muito com isso. Vá agarrando aquilo que o Senhor colocar diante de você. Às vezes pode não ser a carreira ideal. Eu mesmo já fiz de tudo um pouco, de vendas a tentar ser produtor rural, passando pelo ensino, consultoria, vendas, etc. Também já engoli muitos sapos antes de chegar aonde cheguei, mas hoje posso ver que o Senhor esteve comigo em cada uma dessas experiências, até naqueles cargos e funções que detestei. Nelas, pessoas também foram influenciadas por um testemunho e conduta cristã, o que é privilégio de qualquer um que crê no Senhor, independentemente de onde trabalhe.

Existem muitas profissões nas quais um cristão pode atuar, e algumas que ele deve evitar. O importante é saber que, seja pregando o evangelho, seja visitando um doente, obedecendo aos pais, estudando ou simplesmente fazendo sua obrigação para com Deus ao cuidar de prover o suficiente para sua família, “o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1 Co 15:58). “E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Cl 3:17).

Também é proveitoso lembrar a admoestação do Senhor: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? (Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Mt 6:19-21; 31-34).

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A arca de Noé seria uma figura do arrebatamento?

Pelo tom que você usou em seu e-mail, aplicando LETRAS MAIÚSCULAS em algumas partes, como se estivesse GRITANDO, fico na dúvida se você está realmente querendo saber sobre o arrebatamento, afirmar o que pensa saber ou apenas começar uma discussão. Pelo sim, pelo não, aqui vão alguns links que o ajudarão a entender melhor o arrebatamento.

Mas já posso adiantar que sua dificuldade está em você não discernir e separar as passagens que falam da Igreja e as que falam do remanescente judeu que será salvo após o arrebatamento. Nos evangelhos você só encontra a igreja em duas passagens, Mateus capítulos 16 e 18, e ainda assim como algo futuro, portanto é preciso cuidado ao tentar aplicar passagens dos evangelhos à verdade da igreja que só foi revelada a partir do apóstolo Paulo. Este é um princípio importante quando se deseja entender as Escrituras:

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2:15). Uma tradução alternativa e mais clara seria: “… dividindo de forma precisa a palavra da verdade”

Embora a arca de Noé possa ser usada às vezes como figura do cuidado de Deus em preservar os seus dos perigos deste mundo, ela é antes uma figura do remanescente de Israel que será preservado durante a grande tribulação para poder habitar no reino milenial de Cristo. Noé e sua família são uma figura dos que irão repovoar a terra depois da grande tribulação. O arrebatamento é melhor representado por Enoque, aquele que foi tirado da terra antes que viesse a tribulação do dilúvio, pela qual Noé e sua família passariam.

Portanto a passagem que citou na tentativa de provar que os santos que pertencem ao corpo de Cristo, que é a igreja, passariam pela tribulação não se sustenta. A passagem a que você aparentemente se referiu ao falar de Noé acredito estar no livro de Mateus e que diz:

“Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, E não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem. Então, estando dois no campo, será levado um, e deixado o outro; estando duas moendo no moinho, será levada uma, e deixada outra” (Mt 24:38-41).

Repare que no contexto o verbo levar não está sendo usado no sentido de arrebatamento, mas de ser levado pela morte. O dilúvio “levou a todos”, ou seja, matou todos os que não creram na pregação de Noé, e assim será no final da grande tribulação quando os incrédulos serão levados pela morte, independentemente de onde estiverem, seja trabalhando no campo, seja moendo o trigo. Tente ler a passagem desta maneira: “Assim como… o dilúvio os levou a todos [Os que comiam e bebiam despreocupadamente]… assim será também… será levado um, e deixado outro”.

Os que são deixados permanecerão vivos para entrarem no milênio e habitarem na terra durante o reino de mil anos de Cristo. É por isso que Deus decidiu abreviar os dias da grande tribulação, caso contrário não restariam vivos para participarem do milênio, que será um reino de pessoas vivas com o mesmo corpo com que viveram na terra, e não com corpos ressuscitados como terão nessa ocasião os santos do Antigo Testamento e os do período da Igreja que viverão no céu e reinarão com Cristo sobre a terra (e não na terra).

“E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias” (Mt 24:22).

É bom também lembrar que os que habitarão na terra, judeus e gentios, se multiplicarão nesse período de mil anos. Nem todos serão realmente convertidos, o mesmo acontecendo com aqueles que irão gerar, mas estarão em uma terra onde a justiça reina e o pecado será imediatamente penalizado com a morte. No final do milênio serão os falsos convertidos que se submeterão a Satanás que será libertado por um breve período de tempo e farão guerra a Cristo.

Sua comparação do arrebatamento com a saída de Ló e suas filhas de Sodoma também não tem fundamento. A destruição das cidades tem o mesmo caráter da figura que é Noé e sua família escapando do juízo que cairá sobre a terra, ou seja, temos uma população de ímpios e um remanescente que escapa desse juízo, tudo apontando para o remanescente de Israel que será preservado durante a grande tribulação.

Mas no caso de Sodoma a figura tem muito mais força ao descrever a condição moral do mundo do que em ocupar-se com o remanescente que escapa. Mesmo assim é digno de nota que quem tira Ló e sua família de Sodoma prestes a ser destruída não é o Senhor, como vemos em 1 Tessalonicenses 4 no caso do arrebatamento, mas os anjos. Assim será também o cuidado de Deus para com o remanescente espalhado por todo o mundo, o qual será recolhido por anjos para estarem na Jerusalém restaurada.

“E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” (Mt 24:29).

Considere estas passagens, todas elas claramente relacionadas a Israel e não à Igreja (que ainda era um mistério não revelado no Antigo Testamento):

“Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado algum remanescente, já como Sodoma seríamos, e semelhantes a Gomorra” (Is 1:9).

“Os restantes se converterão ao Deus forte, sim, os restantes de Jacó. Porque ainda que o teu povo, ó Israel, seja como a areia do mar, só um remanescente dele se converterá; uma destruição está determinada, transbordando em justiça. Porque determinada já a destruição, o Senhor DEUS dos Exércitos a executará no meio de toda esta terra” (Is 10:21-23).

“E há de ser que naquele dia o Senhor tornará a pôr a sua mão para adquirir outra vez o remanescente do seu povo, que for deixado, da Assíria, e do Egito, e de Patros, e da Etiópia, e de Elã, e de Sinar, e de Hamate, e das ilhas do mar. E levantará um estandarte entre as nações, e ajuntará os desterrados de Israel, e os dispersos de Judá congregará desde os quatro confins da terra” (Is 11:11-12).

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Devemos separar as crianças dos adultos nas reuniões?

Você pergunta se devem manter as crianças separadas dos pais durante as reuniões para não atrapalharem, levando-as para um cômodo separado e promovendo ali atividades para elas. O correto é que as crianças participem normalmente das reuniões junto com seus pais, pois temos princípios bíblicos neste sentido. Um exemplo está em quando Moisés insistiu que deviam ir sacrificar ao Senhor levando seus filhos, condição com a qual o Faraó não concordava (o inimigo não quer que nossos filhos nos acompanhem nas coisas do Senhor):

“Então Moisés e Arão foram levados outra vez a Faraó, e ele disse-lhes: Ide, servi ao Senhor nosso Deus. Quais são os que hão de ir? E Moisés disse: Havemos de ir com os nossos jovens, e com os nossos velhos; com os nossos filhos, e com as nossas filhas, com as nossas ovelhas, e com os nossos bois havemos de ir; porque temos de celebrar uma festa ao Senhor. Então ele lhes disse: Seja o Senhor assim convosco, como eu vos deixarei ir a vós e a vossos filhos; olhai que há mal diante da vossa face. Não será assim; agora ide vós, homens, e servi ao Senhor pois isso é o que pedistes. E os expulsaram da presença de Faraó” (Ex 10:8-11).

Temos ainda uma ordem direta de Deus dada aos israelitas através de Moisés, para que o povo fosse reunido, homens, mulheres e crianças, para aprenderem o temor do Senhor:

“Ajunta o povo, os homens e as mulheres, os meninos e os estrangeiros que estão dentro das tuas portas, para que ouçam e aprendam e temam ao Senhor vosso Deus, e tenham cuidado de fazer todas as palavras desta lei; E que seus filhos, que não a souberem, ouçam e aprendam a temer ao Senhor vosso Deus, todos os dias que viverdes sobre a terra a qual ides, passando o Jordão, para a possuir” (Dt 31:12).

Outro exemplo é quando Josafá que, diante do perigo, ora a Deus por proteção na companhia de todo o povo, homens, mulheres e crianças:

“E todo o Judá estava em pé perante o Senhor como também as suas crianças, as suas mulheres, e os seus filhos” (2 Cr 20:13).

Uma situação semelhante encontramos em Esdras:

“E enquanto Esdras orava, e fazia confissão, chorando e prostrando-se diante da casa de Deus, ajuntou-se a ele, de Israel, uma grande congregação, de homens, mulheres e crianças; pois o povo chorava com grande choro” (Ed 10:1).

Em Neemias encontramos a dedicação dos muros reconstruídos, e quem participa da grande reunião de louvor e gratidão? Todos, inclusive as crianças, e elas se regozijam junto com seus pais:

“E ofereceram, no mesmo dia, grandes sacrifícios e se alegraram; porque Deus os alegrara com grande alegria; e até as mulheres e os meninos se alegraram, de modo que a alegria de Jerusalém se ouviu até de longe” (Ne 12:43).

O Senhor convida as crianças para aprender a sua Palavra, e não existe lugar melhor para isso do que nas reuniões da assembleia. Apesar de muitas vezes a criança parecer indiferente ao que se passa podemos ter certeza de que sua mente está sendo cheia pela água da Palavra como foram as talhas de pedra enchidas pelos servos (uma figura do Espírito Santo) da água que depois seria transformada em vinho (uma figura de vida e alegria) pelo próprio Senhor.

“Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor” (Sl 34:11).

Você certamente já viu uma criança aparentemente distraída com seus brinquedos fazer um aparte a uma conversa entre adultos, mostrando que ela estava prestando atenção a tudo o que estava sendo dito. Fazemos cursos de imersão quando queremos aprender rapidamente um idioma, portanto pense em sua criança participando das reuniões como uma imersão na Palavra de Deus. É sempre importante lembrar que a Palavra de Deus tem um poder que vai além de simplesmente compreendê-la. Ela é a forma usada por Deus para abrir os ouvidos do pecador, como fica claro nesta passagem:

“De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10:17).

Repare que não diz “o ouvir DA Palavra de Deus”, mas a capacidade de ouvir vem “PELA Palavra de Deus”. Isto significa que é a exposição à Palavra de Deus que nos faz ganhar a capacidade de ouvir espiritualmente e ter fé naquele que é o Autor da Palavra. É justamente disso que falam os versículos imediatamente anteriores:

“Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram?” (Rm 10:13-14).

Portanto não subestime o poder da Palavra em gerar vida em seus filhos, ainda que eles pareçam indiferentes ao que está sendo ministrado nas reuniões. Lembre-se do cuidado do Senhor para com as crianças e para que estas não fossem impedidas de ir a ele. Eram os discípulos sem entendimento e os religiosos fariseus que tinham aversão ao fato de crianças estarem junto com os adultos e serem capazes de desfrutar da companhia do Senhor e até de louvá-lo do modo como ele merece.

“Trouxeram-lhe, então, alguns meninos, para que sobre eles pusesse as mãos, e orasse; mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, disse: Deixai os meninos, e não os estorveis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus” (Mt 19:13-14).

“Vendo, então, os principais dos sacerdotes e os escribas as maravilhas que fazia, e os meninos clamando no templo: Hosana ao Filho de Davi, indignaram-se e disseram-lhe: Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor”? (Mt 21:15).

Portanto se onde você congrega as crianças são separadas dos adultos nas reuniões regulares de ministério da Palavra, oração e adoração, saiba que essa prática não é bíblica. Infelizmente hoje em muitos agrupamentos cristãos as crianças são levadas para um lugar separado durante as reuniões regulares para que fiquem brincando ou fazendo atividades com monitoras. Certamente não há nada de errado em se promover atividades e reuniões de evangelização de crianças e jovens (geralmente chamadas de “Escola Dominical”), mas estas não substituem a frequência delas às reuniões regulares da assembleia.

Para bebês ou crianças muito pequenas os pais podem levar algum livro, caderno ou brinquedo que as mantenha distraídas, mas é importante pensar em algo que não faça barulho. Às vezes não é a criança, mas os objetos ou brinquedos de plástico rígido ou de metal (ou pior ainda, eletrônicos sonoros!) que, quando derrubados, causam barulho suficiente para atrapalhar a reunião. Quando bebês choram os pais devem ter o bom senso de procurar um lugar à parte para cuidar deles ou amamentá-los a fim de tranquilizá-los, voltando à reunião tão logo a criança esteja mais calma. Lembre-se do que o Senhor disse: “Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor”? (Mc 21:15).

A desculpa de que as crianças devem ser mantidas separadas dos pais durante as reuniões por fazerem barulho e não se comportarem só expõe a falta de disciplina em casa, pois se os pais as disciplinassem corretamente em casa elas saberiam como se comportar nas reuniões, na escola ou em qualquer lugar.

Infelizmente a disciplina amorosa, saudável e bíblica dos filhos, que às vezes deve ser firme e severa, é hoje vista como bullying ou violência verbal, psicológica e física que tolhe a liberdade da criança. Hoje pais cristãos são vistos como criminosos quando precisam aplicar a disciplina que Deus ensinou em sua Palavra. Ao fazerem isso os homens se consideram mais sábios que Deus e não é preciso muito para ver o resultado disso nos lares, escolas e prisões.

“Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá. Tu a fustigarás com a vara, e livrarás a sua alma do inferno… A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a sua mãe” (Pv 23:13, 14; 29:15).

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Podemos congregar de forma independente?

Fico feliz por saber que o material que publico tem sido de ajuda e vocês têm procurado congregar da maneira correta, congregando fora das denominações. Mas acredito que não seja apenas a “maneira” o que importa, e sim o terreno de reunião ou fundamento do “um só corpo” que vocês devem considerar. A doutrina da igreja não prevê independência no corpo, mas a unidade implica comunhão e não divisão.

Por isso gostaria de indicar algumas leituras para você. Existem hoje muitos grupos independentes ou divisões que surgiram entre irmãos congregados ao nome do Senhor, por isso é preciso estar atento para saber se estão congregados, não apenas da “maneira” bíblica, mas sobre o “terreno” bíblico. Bruce Anstey escreve:

Após aprender alguns destes princípios relativos à igreja e à sua ordem conforme encontrada nas Escrituras, alguém poderia perguntar: “Já que não devemos nos juntar a uma denominação por causa da ordem inventada pelos homens, será que deveríamos iniciar uma comunhão seguindo a verdadeira ordem bíblica”? Nossa resposta é não, pois cremos que isto seria um ato de independência. Não queremos dizer que não devem ser formadas novas reuniões, mas que há outro princípio que deveria ser levado em consideração antes que uma reunião assim pudesse receber a aprovação de Deus.

Os cristãos devem se reunir sobre o fundamento do “um só corpo” (Ef 4:4).

Para fazer isso, um grupo de cristãos precisa se reunir para adoração e ministério em comunhão com outras assembleias de crentes congregados da mesma forma, com os quais possam expressar esta verdade na prática nas questões relacionadas à recepção, disciplina, cartas de recomendação, etc. Um grupo de cristãos que procurasse congregar ao nome do Senhor de forma independente não poderia colocar em prática esta verdade, sozinho. Formar uma comunhão de cristãos sem ter isto em mente é, na prática, congregar em um terreno de independência. [Extraído de “A Ordem de Deus” - Bruce Anstey].

Apenas para você entender um pouco o que falei sobre o “terreno de reunião” ou unidade, os irmãos aqui no Brasil, que hoje congregam ao nome do Senhor em comunhão com assembleias em todo o mundo que fazem isso há mais de duzentos anos, começaram assim como vocês. Aprenderam alguma coisa sobre a “maneira” de congregar, mas não o fundamento sobre o qual congregar, até que conheceram dois irmãos que passavam pelo Brasil evangelizando (um vindo do Canadá e outro da Bolívia) e descobriram que existiam muitos outros em todo o mundo congregados da mesma maneira.

Então alguns irmãos daqui foram à Bolívia e também aos Estados Unidos visitar assembleias congregadas ao nome do Senhor nesses países. Conheceram a história e os fundamentos sobre os quais congregavam e, quando voltaram, comunicaram tudo o que viram e os irmãos decidiram parar de partir o pão em independência para pedir a comunhão com esses que já congregavam antes deles ao nome do Senhor.

Algum tempo depois alguns irmãos vieram de uma assembleia na Bolívia (a mais próxima que havia na época) e receberam esses irmãos à comunhão à mesa do Senhor, e foi assim que este testemunho começou no Brasil há quase quarenta anos. Se após saberem que havia irmãos congregados somente ao nome do Senhor eles tivessem decidido seguir seu próprio caminho seriam responsáveis por um espírito de independência e divisão, algo que a Palavra de Deus condena.

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Como surgiram as diferentes raças?

Sua dúvida está em como Caim poderia ter conhecido sua mulher na terra de Node no caso de ser correta a opinião que expressei em outro texto (“Com quem se casou Caim?”) de que Caim poderia ter se casado com sua própria irmã. O texto em Gênesis diz: ”E saiu Caim de diante da face do Senhor, e habitou na terra de Node, do lado oriental do Éden. E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e deu à luz a Enoque; e ele edificou uma cidade, e chamou o nome da cidade conforme o nome de seu filho Enoque” (Gn 4:16-17).

Bem, a resposta é o mais simples possível: Caim pode ter levado sua irmã com ele até a terra de Node e lá coabitou com ela e teve filhos. Lembre-se que, na linguagem bíblica, quando diz que ”conheceu Caim sua mulher” não significa que ele não a conhecesse antes, mas que teve relações sexuais com ela. No evangelho a mesma expressão é usada falando de José e Maria: “E não a conheceu até que deu à luz seu filho” (Mt 1:25). Evidentemente José conhecia Maria, pois estava até casado com ela, mas o que significa é que não teve relações com ela até depois de Jesus ter nascido.

É bom lembrar também que no livro de Gênesis nem tudo está em ordem cronológica, portanto o fato de algo ser dito em um capítulo e outra coisa que parece ter acontecido posteriormente aparecer em um capítulo anterior é perfeitamente normal. O que importa ali não é tanto a cronologia, e sim o assunto que está sendo tratado em cada capítulo (mesmo assim capítulos não existiam nos originais). O Evangelho de Lucas, por exemplo, também não segue ordem cronológica, mas uma ordem moral (mt é mais cronológico, mas nem tanto).

Não é tão estranho assim que Caim tenha tido filhos de uma parenta, se considerar que as filhas de Ló tiveram filhos com seu próprio pai e eles deram origem aos povos moabitas e amonitas. Ao longo da história da humanidade famílias isoladas por naufrágios ou catástrofes podem muito bem ter feito o mesmo e eu e você talvez sejamos descendentes de alguém que dormiu com o pai, com a mãe, com uma irmã ou um irmão. De vez em quando vemos no noticiário o caso de alguém que manteve relações com uma filha durante anos gerando crianças perfeitamente normais, e não aberrações como podíamos acreditar.

Nos tempos de Caim não havia ainda uma lei sobre o assunto, então não sabemos como eram exatamente as uniões. Se acha estranho Caim ter se relacionado com uma parenta próxima, provavelmente a própria irmã, o que pensar de Adão, que teve filhos com uma mulher que foi tirada de seu próprio lado? Eva não era sua irmã, mas sim uma versão feminina dele próprio e ambos são chamados de “Adão” em Gênesis 5:2 “Homem e mulher os criou; e os abençoou e chamou o seu nome Adão, no dia em que foram criados”.

Ao falar das diferentes raças você comete outro equívoco, pois a ciência moderna já concluiu que existe apenas uma raça, a humana. As diferenças no DNA de pessoas de diferentes cores e características físicas são tão desprezíveis que um pigmeu africano é praticamente idêntico a um gigante eslavo. O que aconteceu ao longo do tempo foram alterações e adaptações como as que aconteceram com os cães, todos eles oriundos de um mesmo e sem graça cachorro do mato. Até mesmo numa mesma família você encontra filhos que nem sequer parecem irmãos, tão grande são as diferenças de cor de pele, olhos, cabelo, estatura etc.

Mais um detalhe sobre o que você disse da impossibilidade de os indígenas americanos terem chegado aqui de barco. Se eles não vieram de barco então vieram caminhando, pelo Norte e atravessando o estreito de Bering provavelmente quando a camada de gelo permitisse caminhar sobre ele. Mas nada impede que tenham vindo em algum barco primitivo, se considerarmos que Noé foi capaz de construir uma arca daquele tamanho e que recentemente um náufrago foi encontrado vivo depois de passar quase um ano no mar comendo peixe cru e bebendo água da chuva.

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Como pronunciar os nomes sagrados?

Hoje muitos cristãos insistem que devemos falar de Deus ou nos dirigir a ele usando algum dos nomes sagrados pelos quais ele se revelou no Antigo Testamento. Enquanto alguns dizem que Deus deve ser chamado de YHWH, o que pode ser fácil de escrever, mas é impossível de se pronunciar por não incluir vogais, outros adotam “Yahweh”, ”Jeová” ou “Javé”, que incluem as vogais que se acredita terem existido originalmente em “YHWH”, ou usam “o Eterno”, “Altíssimo”, “el Shadai”, “Elohim”, “Adonai”, etc. Alguns pegam carona na onda hebraica e insistem que se você não chamar Jesus de “Yeshua”, “Yashua” ou alguma variante hebraica ele não irá atender ao seu chamado. Existe fundamento nisso tudo?

Para começar, em nenhum lugar do Antigo Testamento Deus ordenou aos israelitas que deveriam dirigir-se a ele usando um dos nomes sagrados com os quais ele é identificado nas Escrituras. Ele se revelou por diferentes nomes em diferentes momentos e segundo o caráter de cada uma de suas variadas atuações para com a Criação, seu povo Israel ou as nações (gentios). Mas nunca deixou uma ordem do tipo: ”Vocês me chamarão pelo nome tal”. A ênfase na importância do seu Nome no Antigo Testamento não estava na pronúncia, nas letras ou caracteres usados, mas na Pessoa que seus diferentes títulos representavam, aquela à qual eles deviam se dirigir e com cuja autoridade deviam adorar, orar, sacrificar, pregar, sacrificar, etc., não muito diferente do modo como agimos quando passamos uma procuração para outra pessoa agir em nosso nome.

Na Bíblia encontramos diversos títulos dados a Deus, como El, Eloá, Elohim, El Shadai (Todo-Poderoso), Adonai, YHWH, Yahweh, Jeová, Javé, Jeová-Jiré, Jeová-Rafa, Jeová-Nissi, Jeová-Makadesh, Jeová-Shalom, Jeová-Eloim, Jeová-Tsidikenu, Jeová-Rohi, Jeová-Shammah, Jeová-Sabaoth, El Eliom (Altíssimo), El Roi, El-Olam, El-Gibor. Também não faltam títulos para Jesus, que é identificado como Emanuel, Príncipe de Paz, Ungido, Filho de Deus, Filho do Homem, Filho de Davi, Verbo, Cordeiro de Deus, Cristo, Alfa e ômega, Leão de Judá, Senhor do Senhores, Brilhante Estrela da Manhã, Maravilhoso, Deus Forte, Pai da Eternidade etc. Com tantos nomes e títulos fica realmente complicado saber como devemos nos dirigir a Deus.

Se Deus não deu uma ordem expressa quanto ao modo como seu povo de Israel devia chamá-lo (exceto de modo apenas informativo quando se revelou a Moisés como ”Eu sou o que sou”), ele certamente ordenou o modo como seria chamado no futuro, quando o seu povo estivesse instalado no reino terrenal: ”Mas eu dizia: Como te porei entre os filhos e te darei a terra desejável, a excelente herança dos exércitos das nações? E eu disse: Pai me chamarás e de mim te não desviarás” (Jr 3:19). Por isso Jesus, quando esteve aqui, ensinou a seus discípulos que deveriam chamar a Deus de Pai, pois com sua morte, ressurreição e a descida do Espírito eles entrariam numa relação de parentesco como nunca tinham desfrutado antes.

Meu pai se chamava “Mario”, mas eu sempre o chamei de “papai”, nunca de “Mario”. Minha mãe se chamava “Ruth”, mas eu nunca a chamei por este nome, e sim por “mamãe”. Você acha que quando eu os chamava de “papai” e “mamãe” eles não me atendiam porque eu não estava dizendo os nomes que traziam na certidão de nascimento? Será que se faziam surdos aos meus pedidos por não terem certeza de que era com eles que eu estava falando? O simples pensar em algo assim é absurdo! Meus pais sabiam muito bem a quem eu estava me dirigindo quando os chamava de “papai” e “mamãe” pois nenhum outro se enquadrava naquela relação (além de minhas irmãs). O garoto do vizinho podia gritar “papai” que meu pai não iria olhar por sobre o muro e dizer “O que você quer”?, pois sabia que não estava falando com ele, apesar de usar uma palavra idêntica à que eu e minhas irmãs usávamos. Portanto, o que realmente importava não eram os caracteres de seu nome ou a palavra que eu usava para me dirigir ao meu pai, mas a pessoa a quem eu me dirigia e a nossa relação de parentesco.

Em suas orações Jesus nunca se dirigiu a Deus como “Altíssimo”, “Eterno”, “Jeová” ou “YHWH” (mesmo porque isto seria impronunciável). Apenas uma vez ele dirigiu-se a Deus como “Deus”, e isto na cruz, quando foi abandonado ali e julgado em nosso lugar (Sl 22:1; Mateus 27:46). Em todas as outras ocasiões ele falou com Deus chamando-o de “Aba” ou “Pai”, no mesmo sentido familiar e de proximidade que eu me dirigia a meu pai chamando-o de “papai”.

Ao ensinar seus discípulos a orar Jesus lhes disse para chamarem a Deus de “Pai”, uma intimidade familiar que era desconhecida no Antigo Testamento. Apesar de os evangelhos representarem um tempo de transição, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado e a igreja ainda não havia sido formada, aqueles que pertenciam ao reino dos céus (chamado assim em Mateus) ou reino de Deus (nos outros evangelhos) tinham uma posição mais privilegiada que os israelitas, como vemos o próprio Senhor declarar ao referir-se a João Batista: ”E eu vos digo que, entre os nascidos de mulheres, não há maior profeta do que João o Batista; mas o menor no reino de Deus é maior do que ele” (Lc 7:28).

Mesmo assim a intimidade dos discípulos nos evangelhos estava longe da que eles teriam a partir de Atos 2, quando o Espírito Santo viesse habitar neles. Antes disso as instruções sobre o relacionamento que teriam eram, por assim dizer, introdutórias. Logo após sua ressurreição o Senhor revela toda a relação de intimidade que os seus teriam para com o Pai: “Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20:17).

Paulo explica o papel do Espírito Santo nesse novo tipo de relacionamento, do qual podemos desfrutar como filhos, e não meros servos ou súditos, como era o caso dos judeus até ali: “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8:14-16).

Considerando esta relação de intimidade com Cristo e familiaridade com Deus que todos os salvos por Cristo desfrutam agora, como membros do corpo de Cristo e da família de Deus, seria um absurdo um cristão querer voltar ao tipo de relacionamento distante que os judeus tinham na Lei mosaica. É disso que Paulo fala em sua epístola aos Gálatas, um caso claro de uma assembleia que estava sendo influenciada por cristãos judaizantes que insistiam em permanecer nas velhas práticas da lei.

“Digo, pois, que todo o tempo que o herdeiro é menino em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo; mas está debaixo de tutores e curadores até ao tempo determinado pelo pai. Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo. Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo. Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses. Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir”? (Gl 4:1-9).

Paulo fala de dois tempos, um em que aqueles que estavam debaixo da Lei mosaica, apesar de terem direitos de filhos, eram ainda como servos, e outro tempo, quando na dispensação da graça de Deus atingiriam um novo status de filhos por plena adoção, sendo considerados filhos e podendo chamar a Deus de Pai. Responda rápido: Se você fosse uma empregada doméstica com quem o patrão decidisse se casar, no dia seguinte ao casamento continuaria o chamando de “seu Benedito” e dizendo às pessoas que ele era seu “patrão”? É claro que não! Você deixaria para trás a relação patrão-empregada do passado e assumiria a relação marido-mulher, passando a chamá-lo de “querido”, “meu bem” ou algo do tipo e dizendo às suas amigas: “Aquele é meu marido”. Assim também não faz sentido dirigir-se a Deus pelos títulos que ele tinha no passado na sua relação com o seu povo terreno, Israel.

A adoção de que Paulo fala em Gálatas 4 não é a mera guarda ou adoção parcial do filho de outro, mas uma adoção plena, como a que prevê a legislação brasileira. Nela o filho adotivo tem seu passado (nome, pais, avós) substituído pelo presente e uma nova certidão de nascimento é lavrada com seu novo nome e os nomes de seus novos pais e avós. É como se toda a sua árvore genealógica tivesse sido substituída e o juiz às vezes anota no processo que ninguém poderá revelar ou trazer à tona o antigo nome e origem da criança que está sendo adotada. Sei disto porque tenho um filho que adotamos desta forma. Paulo escreve sobre esta adoção aos Efésios, revelando que não era algo decidido de última hora, mas fazia parte de um plano concebido antes da criação do mundo: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1:5).

Em Efésios2 esta nova relação de parentesco é mostrada em profundidade, pois temos igual proximidade com cada Pessoa da Trindade: “Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto… Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito. Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus” (Ef 2:13-19).

Talvez você alegue que em Apocalipse 11:17 os vinte e quatro anciãos não estão se dirigindo a Deus como “Pai”, e sim como “Senhor Deus Todo Poderoso”. Sim, pois ali o cenário todo é de juízo, e obviamente dirigir-se a Deus como Pai é algo que não cabe na boca daqueles anciãos, que representam os redimidos do Antigo e Novo Testamento de uma maneira ampla. F. B. Hole comenta que é apropriado que ali eles “se dirijam a Deus usando os nomes pelos quais ele se revelou na antiguidade como o Soberano de homens e nações, como Jeová, Elohim, El Shadai, o Eterno, aquele de quem nada ou ninguém pode se colocar antes ou depois, supremo e imutável. Por nós, porém, ele é conhecido como Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas este nome de amor e de íntimo parentesco não seria apropriado ali (em Apocalipse), onde os seus Atos de juízo estão sendo proclamados. O que temos diante de nós ali é o seu reino em justiça e autoridade, e não a graça salvadora da qual desfrutamos agora” (F. B. Hole).

Outra coisa importante é entender a diferença entre como devemos nos dirigir à Divindade e como devemos falar da Divindade. É óbvio que Deus é “Eterno”, “Todo poderoso”, “Altíssimo” etc., mas todos estes são títulos que fazem sentido em determinadas situações e passagens das Escrituras, mas que em situações atuais podem ser até impróprios de serem usados por um cristão. Por exemplo, quando em Atos a jovem possessa seguia a Paulo e Silas chamando-os de “servos do Deus Altíssimo” (Atos 16:17) aquilo poderia parecer muito apropriado para quem não tivesse discernimento, mas o uso da expressão só indicava que a jovem não conhecia a Deus, e nem poderia, pois quem pronunciava aquilo era um demônio. Este jamais iria dizer que eles eram “filhos do Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, mas podiam muito bem chamar a Deus de “Deus altíssimo” como este era identificado no Antigo Testamento e de quem os demônios também diziam que Jesus era filho nos evangelhos.

O fato de Deus ser identificado por diferentes títulos no Antigo Testamento não significa que devemos nos dirigir a ele usando desses mesmos títulos. Jesus também traz diversos títulos, como “Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9:6), mas eu não me dirijo a ele por seus títulos, pois não é assim que a Palavra de Deus me ensina a fazer. Posso falar dele (de Jesus) ou a seu respeito usando títulos assim, mas nunca vou falar com ele em oração deste modo. Também posso citar “Jesus”, falar “de Jesus”, mas ao me dirigir-me a ele nunca o chamo de “Jesus”, do mesmo modo como ao dirigir-me a meu pai eu nunca o chamava de “Mario”. Meu vizinho o chamava assim por não ter qualquer parentesco, mas não era o meu caso.

“Porque, ainda que haja também alguns que se chamem deuses, quer no céu quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” (1 Co 8:5-6).

Quer dizer que não posso orar dizendo “Jesus, preciso disso e daquilo” ou agradecer dizendo “Obrigado, Jesus, por isso e aquilo”? A menos que você seja um demônio ou não tenha qualquer relação de familiaridade com ele, é melhor orar do modo como somos ensinados na Palavra de Deus chamando-o de “Senhor” ou, quando falarmos com Deus, chamando-o de “Pai”. Surpreso por eu mencionar demônios? Então perceba que é assim que eles se dirigiam a Jesus na Bíblia, chamando-o pelo nome “Jesus”, e é assim também que fazem as pessoas que não demonstram ter qualquer relação de familiaridade com ele ou talvez ainda não o tenham confessado como “Senhor” (Rm 10:9), e às vezes fazem rodeios chamando-o de “amigão lá de cima”, “chefão” e coisas do tipo.

em Mateus 8:29, Marcos 1:23-24, Lucas 4:34, Marcos 5:7, Lucas 8:28 você encontra passagens nas quais os demônios se dirigem a Jesus, não por “Senhor”, mas por seu nome “Jesus”. Você poderá alegar que os leprosos de Lucas 17:13 e o cego de Marcos 10:47 se dirigiram a ele chamando-o por “Jesus”, mas isso foi antes de conhecer quem ele realmente era e serem curados por ele. Todos os discípulos o chamavam de “Senhor” quando se dirigiam a ele, e a Deus de “Pai”.

Se você não for um demônio e se Jesus não for para você um desconhecido, é melhor chamá-lo de “Senhor” quando falar com ele, ou na oração a Deus chamar a este de ”Pai” ou “Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, como o próprio Jesus nos ensinou. Ficar repetindo nomes em hebraico pode impressionar quem não conhece a Bíblia, mas só irá demonstrar que você ainda não se apropriou da intimidade familiar à qual fomos introduzidos nesta dispensação. Não queira se fazer diferente dos simples cristãos que não conhecem nem grego, nem hebraico, e mesmo assim chamam a Jesus da forma bíblica “Senhor” e a Deus de “Pai”, quando oram a uma das duas Pessoas da Trindade, ou simplesmente “Deus”, quando falam do Pai a outras pessoas.

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Por que a mulher é “vaso mais fraco”?

Sua dúvida está em 1 Pedro3:7, onde a mulher é identificada como um “vaso mais fraco”: “Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais fraco; como sendo vós os seus coerdeiros da graça da vida; para que não sejam impedidas as vossas orações”.

Esta não é uma verdade muito popular em nossos dias, quando se fala tanto em igualdade entre os gêneros, mas se bandidos tentarem invadir um lar a imagem que me vem à cabeça é a do marido se preparando para lutar contra eles e a esposa levando as crianças para o quarto. Como o homem tem uma constituição física mais robusta, é esperado que seja ele a primeira linha de defesa de enfrentamento, ficando a mulher com um papel mais de proteção da prole. Além disso, raramente se ouve falar de mulheres “bandidas” tentando invadir uma casa.

As mulheres que são rápidas em protestar contra a designação de “vaso mais fraco” que lhes é atribuída na passagem geralmente perdem de vista a ordem dada ao marido para que dê “honra à mulher”. Também perdem de vista o fato de que a passagem fala de uma posição de igualdade perante Deus, já que ambos são “coerdeiros da graça da vida”. Portanto temos duas coisas aqui: a mulher em sua condição no mundo e na criação, obviamente mais frágil em sua constituição física e emocional, e a mulher em sua posição em Cristo como coerdeira juntamente com seu marido da graça da vida.

A incapacidade de alguns entenderem quando a Bíblia fala da condição e quando fala da posição é que faz tantos acharem que a Palavra de Deus seja machista, que priorize os homens em detrimento das mulheres e coisas assim. Na verdade, o problema todo está na ignorância de quem não entende o texto divino e tampouco observa que existem distinções na ordem dada à criação, porém igualdade na posição em que cada um é colocado em Cristo como nova criação.

Em suma, a Bíblia nunca diz que a mulher é inferior ao homem, mas mostra que ela é diferente física e emocionalmente, além de Deus ter reservado a ela um lugar diferente do homem na esfera da criação. Do mesmo modo como temos pessoas acima ou abaixo de nós na vida, na escola, no trabalho e na sociedade em geral por uma questão de ordem, não de qualidade.

Mas quando o assunto são as coisas de Deus, não é preciso muito para se observar que as mulheres costumam ser mais devotadas a Cristo do que os homens. Não era pequeno o número de mulheres que seguia a Jesus e foi a mulheres que ele deu o privilégio de serem as primeiras a anunciarem sua ressurreição. O trabalho delas é mencionado ao longo de toda a Bíblia, inclusive em situações quando os homens que deviam tomar a dianteira se acovardaram, como fez Baraque, que não quis enfrentar o inimigo a menos que uma mulher, Débora, fosse com ele.

O diálogo entre Baraque, que devia ser o comandante, e Débora, que ocupava a posição de Juíza numa época de fraqueza e abandono por parte dos homens, revela que Baraque perdeu a “honra da jornada” por não assumir o papel que devia ter sido dele: “Então lhe disse Baraque: Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei. E disse ela: Certamente irei contigo, porém não será tua a honra da jornada que empreenderes; pois à mão de uma mulher o Senhor venderá a Sísera. E Débora se levantou, e partiu com Baraque para Quedes” (Jz 4:8-9). No final Deus usaria também uma mulher, Jael, para matar o inimigo Sísera, comandante do exército cananeu (Jz 4:21).

Voltando ao trecho de 1 Pedro3:7, o texto faz parte da exortação dada ao marido de honrar sua esposa e reconhecer sua fragilidade em alguns aspectos ligados à sua natureza humana. No entanto, assim como acontece com um cordão, ambos são necessários para um matrimônio resistente e feliz, desde que um terceiro fio, o Senhor, faça parte do lar. Este é o princípio que aprendemos desta passagem de Eclesiastes que, embora esteja falando de duas pessoas, aponta claramente para uma terceira Pessoa (o Senhor, a terceira “dobra” da corda) em sua conclusão.

“Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só, como se aquentará? E, se alguém prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; e o cordão de três dobras não se quebra tão depressa” (Ec 4:9-12).

William MacDonald sugere que para existir paz no lar é importante que marido e esposa observem algumas regras básicas:

  1. 2. 3. 4. 5.

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Co 13:1-7).

Uma boa ideia seria ter esta lista de qualidades em mente quando surgir alguma discussão em casa ou em muitas outras situações da vida, e perguntar a si mesmo:

“Estou sendo paciente e benigno ou estou agindo por ciúmes, vaidade ou soberba? Será que estou sendo inconveniente, buscando meus interesses, me exasperando, guardando rancor, ficando feliz por ele (a) se dar mal? Ou me regozijo com a verdade, sofro tudo, creio, espero e suporto”?

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Podemos entender a Trindade?

É possível entendermos a Trindade? A resposta é NÃO. Por sermos seres criados no tempo e no espaço, nossa mente carnal não é capaz de compreender coisas fora da esfera da relatividade tempo-espaço. Ou seja, não nos é possível entender a Divindade, pois ela não está sujeita às mesmas limitações. Deus é assim. Afinal, estamos falando daquele “que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver” (1 Tm 6:16). Como entender o infinito se estamos presos ao finito? Como compreender o imortal em um corpo mortal? Como enxergar aquilo que não pode ser visto por habitar numa faixa do espectro inacessível ao ser humano?

Portanto, não podemos entender a essência de Deus (porque nossa mente é limitada pela matéria), e a Trindade é a própria essência de Deus; algo intrínseco à sua divina natureza. Mas podemos crer que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, pois assim ele se revelou na Palavra de Deus. Portanto tudo começa pela fé na Palavra para crermos no invisível e incompreensível.

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem. Porque por ela os antigos alcançaram testemunho. Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” (Hb 11:1-3).

A maioria das pessoas perde de vista o fundamento do que é cristianismo por não entender que é tudo fundamentado na revelação de Deus dada por sua Palavra, não em naquilo que podemos enxergar ou entender. Mas essa mesma revelação chegou a um ponto tal que aquilo que só podia ser revelado foi feito palpável em Cristo.

Pense num software formado por milhões de códigos escritos a partir de uma linguagem binária. Temos então aí uma linguagem ou “fala”. Agora pense nesse código sendo introduzido em um computador ligado a uma impressora 3D e se transformando em um objeto tridimensional. Aquilo que era invisível, intangível e hermético à compreensão (pelo menos para o leito) pôde ser visto e tocado. Se o código incluir áudio, poderá ser ouvido. Este é um exemplo rudimentar do que foi o Verbo fazendo-se carne para habitar entre nós.

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1:14).

“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1 João 1:1).

Jesus, que é Deus e Homem, já é incompreensível à mente humana, pois pela teoria dos conjuntos que aprendemos na escola um conjunto menor nunca poderia conter um conjunto maior. Mas é exatamente o que aconteceu com Jesus andando neste mundo: O Criador de todas as coisas (o conjunto maior) caminhando aqui como um “conjunto menor”.

“Porque nele [em Jesus] habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9).

“Todas as coisas foram feitas por ele [Jesus], e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1:3).

“Naquela mesma hora se alegrou Jesus no Espírito Santo, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas; assim é, ó Pai, porque assim te aprouve. Tudo por meu Pai me foi entregue; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. E, voltando-se para os discípulos, disse-lhes em particular: Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram” (Lc 10:21-24).

Jesus comparou os que creem nele a criancinhas, pois estas creem sem duvidar. Você diz a uma criança que amanhã irá levá-la passear em Marte e ela acredita sem contestar. Ela nem imagina na dificuldade que seria viajar pelo espaço, mas ela acredita em você. Mas se a promessa de levar a criança a Marte é ficção, a revelação de Deus dada ao homem não é. O Filho de Deus veio ao mundo para nos revelar o Pai, e assim é. Todo aquele que crê tem em si o Espírito Santo e pode chamar a Deus de Pai e se relacionar com ele em oração, adoração, louvor e aprendizado.

Mas se prestar atenção na passagem verá que, se é verdade que o Filho pode revelar o Pai a quem ele quiser, a recíproca não é verdadeira. Ou seja, podemos conhecer ao Pai, e até entender que ele seja Deus e esteja acima de todas as coisas e que tudo dependa dele, mas não podemos conhecer o Filho no sentido de quem ele realmente é em sua essência, em sua natureza, porque isto só o Pai conhece. E é aí que entra o que eu disse a respeito da “teoria dos conjuntos” ou da impossibilidade de compreendermos um Homem inserido no conjunto maior da Criação da qual ele próprio é o “conjunto maior” que a própria criação!

Eu sei que sua dúvida estava em compreender a Trindade, mas se não podemos compreender uma única Pessoa da Trindade, a mais visível e palpável delas, como poderíamos achar que seríamos capazes de compreender a Divindade como um todo? Isto apenas já seria suficiente para descansarmos no fato de que nunca iremos entender tudo (porque estamos falando da Divindade, não de um ser criado, como eu e você). O que de Deus podemos ver é Cristo, a expressa imagem de Deus, “o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa” (Hb 1:3). Mesmo assim, apesar de homens terem visto, ouvido e tocado em Jesus, nunca o puderam compreender totalmente e muitas coisas continuarão sendo para nós um enigma enquanto as enxergarmos com as limitações impostas por nossa condição atual. Se alguém neste estágio considerar-se capaz de compreender todas as coisas essa pessoa não terá em sua perspectiva compreender as coisas que só serão percebidas na eternidade.

Esta passagem de 1 Coríntios aplica-se apenas aos que já creram em Cristo e agora possuem uma nova natureza divina em si, mas ela mostra que mesmo assim eles se encontram numa condição limitada pelo contexto da velha criação em que vivem. “Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” (1 Co 13:12). Pense em “espelho” não naquele que tem em sua casa, mas nos espelhos que eram usados antes da invenção do espelho moderno no século 13. Até então só era possível ver o reflexo de um rosto em chapas de metal polido ou numa bacia de água. A visão era tão rudimentar quanto a que podemos ter das coisas eternas e divinas.

Resumindo, você nunca irá entender a Trindade, mas poderá crer na Palavra de Deus que a revela em diversas passagens, como estas:

“No princípio criou Deus [Elohim, plural] os céus e a terra… E disse Deus [Elohim, plural]: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:1, 26).

“Então disse o Senhor Deus [Jeová, singular]: Eis que o homem é como um de NÓS, sabendo o bem e o mal” (Gn 3:22).

“Depois disto ouvi a voz do Senhor [Adonai], que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por NÓS?” (Is 6:8).

“Chegai-vos a mim, ouvi isto: Não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que aquilo se fez EU estava ali, e agora o Senhor Deus [Jeová Adonai] me enviou a mim, e o seu Espírito” (Is 48:16) – repare que a Pessoa divina que fala faz menção de outras duas Pessoas.

“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim; porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” (Is 61:1) – esta é a mesma passagem lida por Jesus em Lucas 4 quando revelou ser dele que o profeta Isaías falava.

“E, sendo JESUS batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o ESPÍRITO de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus [o PAI] dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3:16-17) – três Pessoas, o Filho, o Espírito e o Pai cuja voz é ouvida vinda do céu.

“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28:19).

“A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós” (2 Co 13:14).

Uma pessoa que seja simples como uma criança irá crer no que Deus diz em sua Palavra, e esta mostra claramente as três Pessoas da Trindade, embora este termo “Trindade” não apareça na Bíblia. Mas será que cada uma dessas três Pessoas é Deus? Sim, e aí entra nossa incapacidade de compreender como três podem ser um, isto é, como pode existir pluralidade de Pessoas em um único Deus. Talvez um exemplo tosco disso seja o ovo. Existe um só ovo, mas ele é formado por casca, clara e gema. Quando vemos um ovo inteiro dizemos: “É ovo”. Quando vemos um ovo frito, dizemos: “É ovo” (mas estamos vendo apenas clara e gema).

Aqui vão algumas passagens que mostram que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito é Deus.

O PAI É DEUS:

“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” (Jo 6:27).

“Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (Rm 1:7).

“Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1:2).

O FILHO É DEUS:

“No princípio era o Verbo [Jesus], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus… E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1:1, 14).

“Dos quais são os pais [patriarcas de Israel], e dos quais é Cristo segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente” (Rm 9:4).

“Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9).

“Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; cetro de equidade é o cetro do teu reino” (Hb 1:8).

“E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1 João 5:20).

O ESPÍRITO SANTO É DEUS:

“Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo… Não mentiste aos homens, mas a Deus” (Atos 5:3-4).

“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós”? (1 Co 3:16) - está falando do Espírito Santo que habita no crente, conforme Romanos 8:9, Jo 14:16-17 e Atos 2:1-4.

É claro que para crer que Deus é um só em três Pessoas é preciso crer também na Palavra de Deus, a revelação que nos foi dada. Quem não crê na Palavra de Deus não crerá na Trindade e achará que é a sua compreensão carnal o ponto de referência para entender aquilo que não se pode ver.

As religiões humanas costumam ter características semelhantes quando o assunto é o cristianismo. Ainda que algumas considerem Jesus um grande homem, ou a Bíblia uma bela leitura, elas negam que a Bíblia seja a revelação de Deus, que Jesus seja o Filho Eterno de Deus vindo em carne (tendo, portanto, existência prévia sem nunca ter sido criado), que Deus seja Um em três Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo.

Mas será que existe uma chave infalível para se detectar se uma religião é ou não de Deus. Existe. Pergunte a algum religioso o que ele aprende em sua religião e ele responderá que aprende que é preciso fazer o bem. Esse “fazer o bem” pode variar, mas basicamente a ideia é de que cabe ao ser humano melhorar a si mesmo para chegar a Deus, atingir um nível mais elevado, alcançar o Nirvana, eliminar seu carma, pagar seus pecados, limpar a “poeira” de seu ser material… Os termos usados variam. Mas a tônica é sempre a mesma: Depende de você.

No cristianismo autêntico e bíblico nada depende do homem, tudo depende de Deus, que enviou o seu Filho para morrer como um sacrifício substitutivo para o homem pecador. Ao homem resta apenas a opção de crer em Jesus, o Cordeiro de Deus que morreu, ressuscitou e está agora assentado na glória. Qualquer religião que coloque seu foco no aprimoramento pessoal não é de Deus (apesar de ser louvável tentar melhorar). Por quê? Simples! Se eu preciso fazer algo para resolver meu problema eterno toda a glória por isso será minha, caso eu consiga. E se eu sentir lá no fundo que estou conseguindo isso irá despertar em mim o orgulho de ser alguém um pouco melhor que meu vizinho. Eu preciso ser hipócrita para negar que existe em mim este tipo de sentimento e você também.

Por isso o apóstolo Paulo, ao escrever aos colossenses, revela bem as características das falsas religiões. Veja na passagem abaixo que elas procuram dominar as pessoas sob o pretexto da humildade. Também se dedicam ao culto de entidades angelicais ou espirituais. São baseadas em “visões”, ou “coisas que não viu”, como está nesta versão e seus adeptos se orgulham de poder racionalizar tudo com sua “carnal compreensão”, descartando assim as coisas que não compreendem.

Por não crerem em Cristo como Senhor, seus membros não estão ligados à Cabeça, que é Cristo, portanto vivem desconectados da fonte do verdadeiro conhecimento. Ocupam-se com “rudimentos do mundo” e “ordenanças”, porque toda a sua esperança resume-se em utilizar o que é visível e palpável (e isso inclui a própria mente física) para preparar-se para a eternidade. Religiões assim são cheias de regras e ordenanças do tipo “não toques, não proves, não manuseies”, que não passam de “preceitos e doutrinas dos homens”.

Agora vem a parte melhor: Coisas assim podem até ter “alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade e em disciplina do corpo”. Isto é muito encontrado em religiões orientais, que consideram que o está tudo bem com o homem em sua parte mental ou espiritual, mas falta apenas colocar seu corpo na linha por meio de exercícios, alimentos, meditações etc. A conclusão da Palavra de Deus para o resultado disso? “Não são de valor algum senão para a satisfação da carne”. Traduzindo, isto significa que todo o meu esforço de nada adiantará, mas satisfará minha carne, o orgulho que existe em mim de me considerar alguém melhor quando comparado a alguém pior do que eu.

“Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão, E não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus. Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; as quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Cl 2:18-23).

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Cristo foi nosso substituto ou representante?

“Representante” é alguém que faz algo em nome de outro (como o representante de uma firma), enquanto “substituto” é o que efetivamente toma o lugar do outro (quando o representante assume a firma, por exemplo). Para entender melhor o abismo existente entre os dois termos, suponha um marido que, antes de morrer, tenha deixado um representante para cuidar da viúva e de suas necessidades materiais. Ele tem uma procuração para agir em nome do finado marido cuidando que nada falte à viúva, como geralmente faz um tutor. Mas se esse “representante” se casar com a viúva ele estará assumindo maritalmente o lugar que era do finado e estará sendo de fato o substituto do marido.

Em vida Jesus poderia até ser considerado um “representante” do homem perfeito que Deus gostaria que fossem os descendentes de Adão, mas que não conseguiram ser por causa do pecado. Mas na cruz Jesus não apenas nos representou na morte, como faria um mero representante, mas efetivamente tomou ali o nosso lugar, morrendo “por todos”, porém levando sobre si “os pecados de muitos”.

“Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram” (2 Co 5:14)

“Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação” (Hb 9:28)

O primeiro versículo acima indica que na cruz Deus colocou um fim na espécie humana descendente de Adão. “Um morreu por todos; logo todos morreram”. Isto não quer dizer que todos serão salvos, mas que já não existe chance alguma de restaurar o homem em seu estado natural herdado de Adão, pois este foi dado por morto e acabado pelo próprio Deus. Agora é preciso nascer de novo, nascer do alto, para ser parte da nova criação da qual Cristo ressuscitado é o protótipo ou ”primícias”. É aí que entra a nova criação de que fala 2 Co 5:17:

“Se alguém está em Cristo, é uma nova criação; passou o que era velho, eis que se fez novo” (2 Co 5:17 – Versão Sociedade Bíblica Britânica).

“Mas agora Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem [morreram na fé]. Pois desde que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Pois assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados, mas cada um na sua ordem. As primícias, Cristo, depois, os que são de Cristo, na sua vinda” (1 Co 15:20-23)

Resumindo, na cruz Cristo nos substituiu, primeiro como o “Cordeiro que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29) para resolver de uma vez por todas a questão do pecado que havia introduzido uma mancha na Criação. Uma segunda consequência de sua morte foi ele ter levado sobre si (assumido a culpa e recebido a pena) os pecados dos que seriam salvos por ele. Na ressurreição ele assumiu o lugar que todos os salvos agora têm nele, isto é, irrepreensíveis diante de Deus. Ele morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação.

“O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação… Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação… Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” (Rm 4:25; 5:16-18)

Se Cristo tivesse sido nosso mero representante na cruz, cumprindo uma espécie de ritual exemplar e morrendo como exemplo para nós, nada nos beneficiaríamos com isso pois nossos pecados continuariam em nossa conta como dívida aos olhos de Deus. Uma dívida, diga-se de passagem, impagável se fosse depender de nós. Se ele tivesse sido apenas nosso representante ainda nos faltaria alguém para morrer em nosso lugar, um substituto.

Outra questão importante a ser ponderada é o fato de Jesus ser Deus, portanto sem pecado e imune a pecar. “Porque o salário do pecado é a morte” (Rm 6:23), a menos que na cruz Deus tivesse feito dele pecado ele não teria morrido. Mas se ele não tinha pecado e nem podia pecar, que pecado o teria levado à morte? Por que Deus teria abandonado aquele Ser perfeito em trevas na cruz, a não ser como uma expressão de repúdio contra o pecado em que Cristo tinha sido transformado por Deus ali?

Certamente na cruz ele foi o “Substituto” perfeito, aquele que era sem pecado, foi feito por Deus pecado por nós, e castigado com o juízo divino em três horas de trevas e abandono para então morrer no lugar do pecador. A sua morte, portanto, não apenas resolveu eternamente a questão do pecado como também foi o meio de salvação para que aqueles que creem nele não passem pelo juízo e possam desfrutar desde já da salvação eterna, algo que infelizmente muitos dos que professam ser cristãos não desfrutam por não crerem verdadeiramente na obra substitutiva de Jesus.

“Aquele que não conheceu pecado, ele [Deus] o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5:21).

“… carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” (1 Pe 2:24).

“Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos” (1 Pe 3:18).

“Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53:5).

Para mim estes versículos são claros o suficiente para me fazerem descansar em um sacrifício consumado e na certeza de que todos os meus pecados foram pagos na cruz e não passarei sequer pelo juízo final, por ter sido salvo pela fé.

“Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24).

Mas então por que razão o catolicismo nega que Cristo tenha sido nosso “substituto” para considerá-lo apenas nosso “representante”? Bem, apesar de parecer uma mera questão de semântica, na verdade não é. Da negação de Cristo como nosso substituto depende toda a doutrina da missa como um sacrifício repetitivo. Essa doutrina viria abaixo caso reconhecessem que “já não resta sacrifício pelos pecados” (Hb 10:26), a não ser aquele que foi feito uma vez na cruz.

A sutil doutrina católica que nega o sacrifício substitutivo de Cristo, isto é, que diz que ele apenas nos representou, mas não nos substituiu na pena imposta sobre o pecado, é toda construída sobre os tipos e figuras do Antigo Testamento, dos quais Cristo era a realidade para a qual as sombras apontavam. Porém, se Cristo não fosse a realidade e consumação de todos aqueles tipos e figuras, então os sacrifícios teriam de ser continuados, como o padre finge fazer ao celebrar a missa. Mas o que diz a Palavra de Deus? Veja o versículo abaixo (os comentários entre chaves são meus):

“Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem. Doutra sorte, não teriam cessado de ser oferecidos, porquanto os que prestam culto, tendo sido purificados uma vez por todas, não mais teriam consciência de pecados? Entretanto, nesses sacrifícios faz-se recordação de pecados todos os anos… Nessa vontade [de Cristo se oferecer] é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas. Ora, todo sacerdote [do judaísmo] se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca jamais podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus… Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados. E disto nos dá testemunho também o Espírito Santo…. Também de nenhum modo me lembrarei dos seus pecados e das suas iniquidades, para sempre. Ora, onde há remissão destes, já não há oferta pelo pecado” (Hb 10:1-18).

Exclua a doutrina da missa como um sacrifício repetitivo e você acabará também com o sacerdócio católico, do qual dependem seus seguidores se quiserem desfrutar dos benefícios transitórios do ritual da alegada transubstanciação. Elimine a classe sacerdotal e você esvaziará o poder do clero, o que obviamente não é interessante para aquela religião baseada em poder, controle e domínio.

Mas evidentemente um católico não crerá no que a Palavra de Deus afirma sobre a obra consumada de Jesus, seu sacrifício substitutivo e a salvação unicamente pela fé, pois isto vai contra os ensinos da tradição deixada pelos “santos padres”. E a doutrina católica ensina que, em caso de discordância entre o texto bíblico e a “santa tradição”, fica valendo esta última, a qual é obviamente transmitida pelo “magistério”, o clero católico.

Foi esta uma das razões pelas quais o catolicismo romano manteve na ignorância milhões de pessoas durante séculos ao privá-las da leitura da Bíblia e até mesmo condenar ao suplício e morte aqueles que ousavam ler ou possuir as escrituras. Qualquer pessoa esclarecida sabe que a melhor maneira de se controlar as massas é mantê-las nas trevas da ignorância e dar a apenas uma elite o privilégio de acesso à informação e o poder de interpretá-la. Se alguém quiser sentir um gostinho do que era viver na “Idade Média”, também conhecida como ”Idade das Trevas” e cujo final coincidiu com a Reforma Protestante, é só ir morar na Coréia do Norte.

Mas antes que algum protestante ou evangélico fique muito empolgado com o que eu disse e comece a atirar pedras em católicos, é bom lembrar que essa técnica que utiliza ignorância, terror, poder, controle e domínio é hoje utilizada por muitos “pastores”, principalmente entre os pentecostais, para manter seus seguidores na incerteza da vida eterna e sobrecarregá-los de mandamentos e obrigações com dízimos e ofertas, sob a ameaça de que poderão perder a salvação caso não obedeçam.

Veja abaixo mais algumas passagens que falam da realidade do sacrifício substitutivo de nosso Senhor Jesus Cristo:

“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: ‘Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro’“ (Gl 3:13).

“Caifás, porém, um dentre eles, sumo sacerdote naquele ano, advertiu-os, dizendo: Vós nada sabeis, nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação. Ora, ele não disse isto de si mesmo; mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus estava para morrer pela nação e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos… Ora, Caifás era quem havia declarado aos judeus ser conveniente morrer um homem pelo povo [ou ‘em lugar do povo’]” (Jo 11:49; 18:14).

“Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira” (Rm 5:6-9).

“… porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós” (1 Ts 5:9-10).

“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate por todos” (1 Tm 2:5-6).

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Por que não deram água a Jesus?

Interessante sua pergunta, pois eu mesmo não tinha parado para pensar a razão de terem dado vinagre ao Senhor na cruz, e não água. Em um determinado momento oferecem a Jesus vinagre misturado com mirra, que era um anestésico e o Senhor recusou-se a beber. Isso parece ter acontecido ainda antes da crucificação, quando chegaram ao Gólgota, e devia fazer parte do processo de execução do condenado, como em alguns países quando aplicam um sedativo no preso que será executado.

“E, chegando ao lugar chamado Gólgota, que se diz: Lugar da Caveira, deram-lhe a beber vinagre misturado com fel; mas ele, provando-o, não quis beber” (Mt 27:33-34).

E havia o vinagre, que ele aceitou quando disse que tinha sede, pouco antes de entregar sua vida e morrer.

“Depois, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede. Estava, pois, ali um vaso cheio de vinagre. E encheram de vinagre uma esponja, e, pondo-a num híssope, lha chegaram à boca. E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19:28-30).

Segundo o “Concise Bible Dictionary”, vinagre nos evangelhos “era um vinho azedo que podia ser chamado tanto vinho como vinagre, enquanto outras palavras eram usadas para o vinho de melhor qualidade. Era a bebida dos ceifeiros e dos soldados romanos. Ele aparece como uma bebida embriagante e que irrita os dentes. ‘O que canta canções para o coração aflito é como aquele que despe a roupa num dia de frio, ou como o vinagre sobre salitre.’ (Pv 25:20). Sua acidez é mencionada em Provérbios 10:26: ‘Como vinagre para os dentes, como fumaça para os olhos, assim é o preguiçoso para aqueles que o mandam.’ Foi oferecido ao Senhor vinagre misturado com mirra ou fel, e ele se recusou a bebê-lo; porém ele aceitou o vinagre quando disse ‘tenho sede’, em conformidade com a profecia que dizia ‘na minha sede me deram a beber vinagre.’ (Sl 69:21)”.

O fato de ele ter se recusado a beber o vinagre anestésico foi por querer sofrer de forma consciente por nossos pecados. Mas ao aceitar o vinagre puro dos soldados, quando pediu por água, ele estava demonstrando tanto o fato de mais uma profecia estar se cumprindo (Sl 69:21), como também a outra profecia que dizia: “Esperei por alguém que tivesse compaixão, mas não houve nenhum; e por consoladores, mas não os achei” (Sl 69:20).

A Palavra de Deus, que aqueles judeus conheciam tão bem, dizia: “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe pão para comer; e se tiver sede, dá-lhe água para beber” (Pv 25:21). Todavia, em sua hora de maior sofrimento, quando a sede de Jesus fazia sua língua inchar e grudar no interior da boca, ao invés de darem água para mitigar sua sede os homens lhe deram a bebida mais azeda encontrada na face da terra, e isto para causar mais sede.

Será que poderia haver alguma dúvida da maldade do coração do homem ao tratar assim o Filho de Deus? Os homens que o trataram assim talvez tenham sido curados e alimentados por ele dias antes, ou tinham amigos ou parentes que foram beneficiados, mas ainda assim prevaleceu o ódio e inimizade contra Deus que todos nós, por natureza, trazemos no coração. Esta é a descrição que Deus dá do ser humano em sua natureza arruinada herdada de Adão, e isto inclui eu e você:

“Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm 3:12-18).

Acho engraçado quando alguém questiona a Palavra de Deus, dizendo que se Deus existe por que permite tanta maldade no mundo. Talvez seja porque quando o seu Filho teve sede nós lhe demos vinagre ao invés de água, como daríamos até a um cão. E se demos vinagre provavelmente isso foi porque teria sido muito complicado colocarmos sal numa esponja na ponta de uma vara para dar a ele. Se fosse fácil, teríamos dado sal.

O vinagre como resposta ao pedido de água feito por Jesus foi nosso último ato de crueldade ao nos despedirmos do Filho de Deus. E se não bastasse, minutos depois seu cadáver seria profanado quando o soldado furou o seu lado com uma lança, mesmo sabendo que ele já estava morto. Ferir um cadáver é algo abominável, por mais que seja o de um inimigo.

“E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? Que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Eis que chama por Elias. E um deles correu a embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a numa cana, deu-lho a beber, dizendo: Deixai, vejamos se virá Elias tirá-lo” (Mt 15:34-36).

“Mas, vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas. Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água” (Jo 19:33-34).

“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque… tive sede, e destes-me de beber” (Mt 25:34).

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Não existe uma doutrina perfeita?

Você escreve que “não há mesmo uma doutrina tida como correta, perfeita, etc., e acho que isso é uma regra deixada de propósito pelo próprio Deus que, na sua infinita sabedoria, já previa que essas coisas [as diferentes religiões com suas diferentes doutrinas] aconteceriam”. Discordo de você. Deus jamais deixaria o homem sem recursos para adorar em espírito e em verdade. A sã doutrina é claramente ensinada nas epístolas (não ainda no Antigo Testamento, quando a igreja ainda não havia sido formada) e a confusão que os homens fazem nada tem a ver com Deus.

Esse modo de pensar é o mesmo que insinuar que o Espírito Santo estava de gozação, quando disse por intermédio de Paulo a Tito: “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes… Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (Tt 1:9; 2:1).

Deus nos deixou a “sã doutrina”, porém a confusão que se espalhou pela cristandade é fruto da falta de fé do homem em crer no que Deus disse e o cumprimento do que foi dito aqui: “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências” (2 Tm 4:3).

Você conclui que Deus teria deixado o homem no escuro, sem uma doutrina certa e viável, para que “ninguém venha a se gloriar de si mesmo nem tampouco de sua denominação”. Isto soa estranho, pois Deus não criou nenhuma denominação e todas elas são, portanto, fruto da desobediência do homem. Por mais cristãos sinceros e verdadeiros que existam nelas, nenhuma foi autorizada por Deus. Ao contrário, a Palavra nos exorta a não fazermos divisão entre irmãos (o que é exatamente o que uma denominação faz, inclusive identificando-os por diferentes nomes).

Você continua dizendo que acredita que eu mesmo não esteja totalmente livre de cometer um ou outro erro, excesso, omissão ou mesmo má interpretação de alguma passagem das Sagradas Escriturar, por eu também ser humano e passível de erros, como qualquer outro. Evidentemente, mas o fato de eu ser passível de erros não é desculpa para distorcer ou me afastar daquilo que Deus ensina em sua Palavra. Se não entendo ou enxergo algo, devo ficar submisso ao Espírito Santo e à Palavra até que Deus me dê entendimento.

Mas certas coisas são evidentes demais na doutrina dos apóstolos, quando as comparamos com os sistemas que os homens criaram. A falha do homem não compromete jamais o fato de que Deus nos deixou tudo o que precisávamos para obedecê-lo, “visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (2 Pe 1:3). Se usarmos o mesmo raciocínio que você usou poderíamos pecar à vontade, pois se Deus sabia que iríamos pecar, então já não é mais uma responsabilidade nossa, e acabamos dividindo a culpa com Deus.

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Você não crê nas bênçãos de Deus para o crente?

Você perguntou por que não demonstro muita crença de que Deus possa abençoar uma pessoa que o busca para conseguir ajuda material, como um bom emprego e coisas assim. Eu nunca disse que Deus não possa dar a alguém o que a pessoa pede em oração ou necessita para sua vida aqui. O problema, principalmente entre os que seguem o evangelho da prosperidade, está em confundir “bênção” com “misericórdia” ou “provisão” e também por confundir a dispensação da Lei com a dispensação da graça de Deus. Nos tempos da Lei bênção significava benesses terrenas, como prosperidade, saúde, filhos, terras, rebanhos, clima bom etc. As bênçãos prometidas e distribuídas ao povo terreno de Deus eram, portanto, materiais.

Mas uma grande mudança se deu quando Cristo veio ao mundo, morreu, ressuscitou e subiu ao céu, assentando-se à destra da Majestade em glória e enviando o Espírito Santo para habitar nos crentes individualmente e entre eles na igreja. Foi então que se deu a formação da Igreja, o corpo de Cristo na terra, algo que nunca tinha existido e era desconhecido dos santos do Antigo Testamento porque dependia de existir uma Cabeça glorificada no céu.

Ao formar a Igreja, Deus não estava dando uma melhorada em Israel e introduzindo gentios naquela nação. Isso já acontecia antes com os prosélitos, que eram gentios convertidos ao judaísmo, mas nem eles, nem os israelitas (ou judeus nos tempos de Jesus) eram o corpo de Cristo do qual ele é a cabeça. Isto é um privilégio apenas da Igreja e da atual dispensação.

A partir da formação da Igreja com a simultânea descida do Espírito Santo para habitar na terra, as bênçãos terrenas deixaram de ser prometidas como eram no Antigo Testamento, pois Deus estava tratando agora com um povo cuja cidadania é celestial, não terrena. “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3:20). Para a Igreja as bênçãos já foram todas entregues, e cada um que crê em Cristo as recebe no momento em que crê, não uma ou duas, mas todas elas.

Porém não são bênçãos terrenas, e sim espirituais e não estão aqui, mas nos lugares celestiais em Cristo Jesus. Se você creu em Cristo como seu Salvador, você é agora membro do corpo de Cristo e tem à sua disposição todas elas em Cristo. Ao menos é isto o que diz o texto: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 1:3). Ninguém no Antigo Testamento jamais recebeu “todas as bênçãos espirituais”; no máximo algumas bênçãos materiais.

E para nossa vida aqui, o que o Senhor prometeu e podemos contar receber? “Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes” (1 Tm 6:8). Ao contrário de Israel, o povo terreno de Deus ao qual foram prometidas inúmeras bênçãos terrenas, nenhuma bênção terrena foi prometida ao seu povo celestial, a Igreja. E se a Israel as bênçãos eram dadas por medida, à Igreja elas são todas dadas àquele que crê em Jesus no exato momento de sua salvação. As bênçãos dadas a Israel eram finitas e passageiras; as bênçãos dadas ao cristão são infinitas e eternas, porque estão em Cristo Jesus.

Israel tinha também promessas às quais se agarrar, mas o cristão tem a realidade daquelas promessas, o seu cumprimento. Por exemplo, qual seria a maior das bênçãos que um ser humano poderia receber? Sem dúvida alguma revelação de Deus em Cristo. “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (Jo 1:18). Os judeus tinham a promessa de redenção, nós temos a redenção já consumada, e tanto a revelação de Deus em Cristo quanto a redenção já consumada nós temos claramente nesta passagem, a qual deveria ser lida e relida para nosso consolo:

“Dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz. Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus. E a vós outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis” (Cl 1:12-22).

Quer mais vantagens de se pertencer à atual dispensação e ao corpo de Cristo, que é a Igreja? Lembre-se de que os judeus tinham apenas a influência do Espírito Santo neles ou entre eles, nós temos o Espírito habitando em nós. Além disso os israelitas eram servos de Deus, e o serviam numa condição de causa e efeito, ou seja, se obedecessem eram abençoados, se não obedecessem não eram. Nós somos filhos de Deus, uma posição que nenhum israelita possuía e nem ousaria dizer que possuía, pois consideravam um absurdo alguém dizer ter tal familiaridade com o Criador.

Mas o que dizer de nossas necessidades materiais, saúde, proteção etc.? Não devemos pedir essas coisas a Deus? É claro que devemos pedir e ele nos dará conforme a nossa necessidade. E quando a recebermos devemos agradecer por sabermos que qualquer misericórdia ou benefício vem das mãos do Pai. “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tg 1:17). Mas a vida do cristão neste mundo não tem seu foco nas bênçãos materiais e terrenas, como era o caso de Israel, e sim nas bênçãos eternas e celestiais que já possui em Cristo.

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Serei feliz se crer em Jesus?

Se sua pergunta fosse trocada por “Se eu ganhar na loteria serei rico”? a resposta seria “Depende”. Uma pessoa que ganhe na loteria pode ficar com uma conta polpuda no banco, mas será que ela é rica? Quando perguntaram a John D. Rockefeller quanto dinheiro era suficiente, ele respondeu “mais um pouco”. Ele podia ter muito dinheiro, mas evidentemente não se considerava rico por achar que ainda faltava ter mais.

Você pode se espantar com o que vou dizer, mas conheço muitos cristãos que são extremamente infelizes, mais infelizes até do que muitos incrédulos por aí. A razão disso é que eles, sendo espiritualmente ricos, nunca utilizaram um centavo sequer da riqueza espiritual que possuem depositada em seus nomes. Vivem mendigando por atenção, respeito, poder e muitas outras coisas (sem mencionar as coisas materiais) enquanto trazem no bolso a chave para a felicidade.

Felicidade é um estado de espírito, portanto pode variar dependendo do modo como a pessoa enxerga suas circunstâncias. Para o incrédulo, e às vezes para o crente também, ser feliz é não sentir dor, medo, despontamentos, tristezas, etc. Mas na Bíblia, esse tipo de felicidade só é prometida para o salvo quando estiver com Cristo, não para sua vida aqui. “No mundo tereis aflições”, disse o Senhor em João 16:33. Portanto não é no mundo que o crente espera ter esses benefícios, mas depois de ressuscitado. É por isso que Paulo escreve: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1 Co 15:19).

Mas será que não é possível ao crente ser feliz ainda aqui neste mundo. Certamente é possível, e temos na Bíblia uma lista imensa de pessoas felizes apesar das circunstâncias, mostrando assim que a felicidade não depende das circunstâncias, mas de como a encaramos e aplicamos a elas aquilo que já temos em depósito. E o que temos? “Todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 1:3) e “tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (2 Pe 1:3).

Todos os apóstolos, exceto João que morreu no exílio, sofreram mortes violentas. Do ponto de vista humano eles foram uns fracassados, já que terminaram a vida de forma trágica e infeliz. Será? Vamos ver o que Paulo pensava da morte: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1:21).

O mesmo Paulo revela em Romanos que a base ou fundamento para a felicidade do crente está na posição que agora ocupa aos olhos de Deus: inculpável e livre da condenação eterna. Graças à obra de Cristo Deus já não vê o pecado depositado na conta do crente, perdoa suas maldades, cobre seus pecados, como quem cobre a dívida de outro, e deposita justiça sem obras em sua conta. Pelo menos é o que diz aqui, e vou usar a “Nova Versão Internacional” por ela usar “feliz” em lugar de “bem-aventurado”, pois é este o sentido da palavra.

“Davi diz a mesma coisa, quando fala da felicidade do homem a quem Deus credita justiça independente de obras: ‘Como são felizes aqueles que têm suas transgressões perdoadas, cujos pecados são apagados. Como é feliz aquele a quem o Senhor não atribui culpa’“ (Rm 4:6-8 - NVI).

Então o princípio da felicidade para o crente está em saber que foi perdoado, mas embora essa sua posição que ocupa em Cristo seja inabalável e ele nunca a perderá, a apreciação dela será perdida junto com a comunhão com Deus se ele tiver pecados não confessados. Davi entendeu isso depois de ter escondido por um longo tempo o seu adultério, e amargado consequências terríveis por isso. No Salmos 32 ele descreve assim o que experimentou, que é justamente a sequência dos versículos 1 e 2 que Paulo citou em Romanos:

(Sl 32:3) “Enquanto eu me calei, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo o dia”. Em 1 jo 1 e 2 aprendemos que precisamos confessar a Deus nossos pecados, confiantes em nosso Advogado, Cristo, que intercede por nós na presença de Deus. Também devemos confessar às pessoas que possam ter sido afetadas por nosso pecado, como o Senhor ensina várias vezes no evangelho, para termos também a reconciliação com elas.

(Sl 32:4) “Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio”. Um pecado não confessado é um peso na consciência do qual não conseguimos nos livrar. Se Deus é grande, imagine sua mão! A felicidade passará longe do cristão que tiver alguma coisa escondida de Deus, mesmo porque de Deus nada podemos esconder e ele pesará sua mão sobre nós até reconhecermos diante dele o nosso erro. O humor é grandemente afetado pelo pecado não confessado.

(Sl 32:5) “Confessei-te o meu pecado e a minha maldade não encobri; dizia eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu pecado”. Finalmente Davi, confiando na misericórdia do Senhor, confessa a ele o seu pecado e pode ter a certeza de perdão. Enquanto isso não aconteceu ele não podia ser feliz. Pense em confessar o pecado como se você tivesse um lençol ocultando o cadáver de alguém que matou, ou o dinheiro que roubou. Ao decidir se entregar, você confessa seu crime à polícia, porém quando o policial levanta o lençol você descobre que já não há mais nada ali.

(Sl 32:6) “Pelo que todo aquele que é santo orará a ti, a tempo de te poder achar; até no transbordar de muitas águas, estas a ele não chegarão”. Este versículo faz ainda mais sentido para o cristão que agora vive do lado de cá da cruz e sabe que todas “as ondas e vagas” (Sl 42:7; Jonas 2:3) já passaram sobre o Senhor Jesus na cruz, quando esteve atolado “em profundo lamaçal, onde se não pode estar em pé”, e onde entrou “na profundeza das águas” (Sl 69:2). Se você tinha dúvidas de onde vem a expressão “lama” ou “lamaçal” como sinônimo de corrupção e mal, pense na profundidade do lamaçal que Jesus enfrentou na cruz “levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro” (1 Pe 2:24).

(Sl 32:7) “Tu és o lugar em que me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento”. Após reconhecer que Deus não está distante a ponto de o crente não poder achá-lo, e encontrar refúgio em Deus (e não condenação, como será com o ímpio), Davi expressa sua felicidade em “alegres cantos de livramento”. Este é o cântico de um homem que encontra a felicidade nos recônditos de Deus quando tem a certeza de que seus pecados foram perdoados.

(Sl 32:8-10) “Instruir-te-ei e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir; guiar-te-ei com os meus olhos. Não sejais como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio, para que se não atirem a ti. O ímpio tem muitas dores, mas aquele que confia no Senhor, a misericórdia o cercará”. Uma vez restaurada sua comunhão com Deus, que estava interrompida por causa do pecado, vemos que já não é Davi quem fala, mas o próprio Deus que diz isto a ele. Não conseguiremos ouvir a voz de Deus falando a nós através da sua Palavra enquanto a comunhão não for restabelecida pela confissão. E o que Deus lhe diz é no sentido de insistir na dependência que o crente precisa ter dele, não vivendo como um animal que precisa ser guiado pela dor e sofrimento, instrumentos que às vezes Deus permite para nos disciplinar, como um pai disciplina seu filho com a vara (Pv 22:15; 23:13, 14: 26:3; 29:15).

(Sl 32:11) “Alegrai-vos no Senhor e regozijai-vos, vós, os justos; e cantai alegremente todos vós que sois retos de coração”. – Agora é o salmista quem volta a falar, e isto para exortar a outros para que também busquem essa alegria e felicidade que está na certeza de se ter retidão de coração, algo que só se obtém, primeiro pela fé em Cristo que levou nossos pecados na cruz uma vez, e segundo pela confissão contínua de pecados sempre que tivermos nossa comunhão interrompida.

Davi descobriu da maneira mais difícil que o pecado não confessado acaba com qualquer possibilidade de felicidade, isto porque temos uma consciência que foi dada a todos os homens. Ela nos faz sentir culpa quando praticamos o mal e também nos faz temer um castigo por isso. A consciência não funciona apenas para pessoas convertidas a Cristo, mas para incrédulos também, porém ela se manifesta de maneiras diferentes naquele que tem vida eterna e naquele que não tem.

Judas e Pedro pecaram, porém curiosamente o primeiro pecou por deixar claro que conhecia Jesus, até mesmo beijando sua face para que os soldados tivessem certeza disso, e outro pecou por negar que o conhecesse. Em ambos vemos a consciência incomodando e em ambos vemos arrependimento. Mas aí entra a diferença de uma consciência que gera o arrependimento que vem de Deus e uma que é egocêntrica, isto é, está preocupada não por ter feito algo de errado, mas por ter dado errado aquilo que fez. Existe uma diferença aí.

Veja o arrependimento de Judas:

“Então Judas, o que o traíra, vendo que fora condenado, trouxe, arrependido, as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, Dizendo: Pequei, traindo o sangue inocente. Eles, porém, disseram: Que nos importa? Isso é contigo. E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar” (Mt 27:3-5).

Se considerássemos apenas esta passagem, sem conhecermos nada do caráter de Judas, poderíamos nos enganar achando que seu arrependimento tenha sido sincero. Mas quando lemos outras passagens descobrimos que Judas…

… Não cria verdadeiramente em Jesus, o qual sabia disso e também que iria trai-lo, e também não estava entre os que haviam sido eleitos pelo Pai para serem dados a Jesus.

“Mas há alguns de vós que não creem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido” (Jo 6:64-65).

… Era ladrão e só seguia a Jesus para obter algum lucro com isso.

“Então, um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, filho de Simão, o que havia de traí-lo, disse: Por que não se vendeu este unguento por trezentos dinheiros e não se deu aos pobres? Ora, ele disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava” (Jo 12:4-6).

… Era avarento, ou seja, amava o dinheiro e estava disposto a qualquer coisa para consegui-lo.

“Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes, E disse: Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei? E eles lhe pesaram trinta moedas de prata” (Mt 26:14-15).

…Sua disposição de coração fazia dele o instrumento ideal para Satanás, que acabou por influenciá-lo para o mal.

“E, acabada a ceia, tendo o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que o traísse… E, após o bocado, entrou nele Satanás. Disse, pois, Jesus: O que fazes, faze-o depressa” (Jo 13:2, 27).

… Numa tal condição Judas passava a ser chamado pelo Senhor de “diabo”, um termo que não é usado nem mesmo para outros anjos caídos além de Satanás.

“Respondeu-lhe Jesus: Não vos escolhi a vós os doze? E um de vós é um diabo” (Jo 6:70).

Tudo isso leva a crer que Judas chorou “lágrimas de crocodilo” e arrependeu-se como se arrepende o marginal depois que é preso. É comum um bandido dizer ao repórter que está arrependido do que fez, mas a tradução de suas palavras é que está arrependido de seu plano não ter dado certo, de ter acabado preso, pois se não fosse pelo fracasso do plano certamente estaria feliz usufruindo do fruto de seu roubo e nem um pouco preocupado com o bem estar de suas vítimas.

Não é difícil imaginar que Judas contasse com a possibilidade de o plano dos soldados ser frustrado e Jesus escapar milagrosamente das mãos deles como já tinha feito em outra ocasião. “E, levantando-se, o expulsaram da cidade, e o levaram até ao cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem. Ele, porém, passando pelo meio deles, retirou-se” (Lc 4:30). Assim ele ficaria com o dinheiro da traição e continuaria na função de administrador das finanças dos apóstolos, tirando da bolsa o que fosse colocado nela.

Mas seu plano fora frustrado, pois Jesus tinha sido preso e seria morto. Para vergonha sua, seu ato de traição acabaria conhecido de todos, e sua fonte de lucro fácil acabaria.

Por outro lado, no arrependimento de Pedro vemos sinceridade e um coração realmente contrito. Porém foi um arrependimento e restauração gerados pelo Senhor, não pelo próprio Pedro, que em sua fraqueza teria continuado vagando nas sombras, envergonhado de seu ato, mas sem pensar na possibilidade de restauração. O Senhor já sabia que Pedro seria influenciado por Satanás, porém intercedeu por ele e literalmente olhou para ele. O pecado de Pedro não era a avareza, como Judas, mas a confiança própria.

“Disse também o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos. E ele lhe disse: Senhor, estou pronto a ir contigo até à prisão e à morte” (Lc 22:31-33).

Aquele que se achava tão confiante e valente acabaria sucumbindo diante de uma simples criada.

“E como certa criada, vendo-o estar assentado ao fogo, pusesse os olhos nele, disse: Este também estava com ele. Porém, ele negou-o, dizendo: Mulher, não o conheço” (Lc 22:56-57).

“E Pedro disse: Homem, não sei o que dizes. E logo, estando ele ainda a falar, cantou o galo. E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: Antes que o galo cante hoje, me negarás três vezes. E, saindo Pedro para fora, chorou amargamente” (Lc 22:60-62).

O arrependimento de Judas foi segundo “a tristeza do mundo [que] opera a morte” (2 Co 7:10); o de Pedro “arrependimento para a vida” (Atos 11:18). Sabemos que Pedro não só foi restaurado como recebeu incumbências especiais do Senhor para que apascentasse suas ovelhas (Jo 21:14-17) e também confirmasse ou fortalecesse seus irmãos (Lc 22:32).

Portanto não existe outra saída para o pecado ou para aliviar a consciência além de confessá-lo completamente diante de Deus para poder desfrutar do pleno perdão e de uma verdadeira felicidade. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça” (1 Jo 1:9). “Se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 2:1-2).

“Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4:15-16).

Portanto, o crente jamais será feliz a menos que confesse seus pecados a Deus. A mera religião de boas obras na tentativa de se alcançar o favor de Deus não resolve nada e só leva à “hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência” (1 Tm 4:2). Não existe nada pior do que ter a consciência cauterizada e viver insensível ao mal, como um leproso insensível à dor.

No Antigo Testamento a lepra era uma figura do pecado, e uma das características da doença é a perda da sensibilidade da pele. Por deixar de sentir dor, uma simples bolha no pé pode se transformar em ferida sem que a pessoa perceba. Sem dor e sem cuidado o resultado é a gangrenar e perda do membro. Assim é o pecado não confessado: ele continuará ali, corroendo cada vez mais a vida do crente, sua felicidade e sua comunhão com Deus. Ainda que se tente escondê-lo ou maquiá-lo, ele aparecerá lá na frente numa forma muito mais horrível do que a simples “bolha” do início.

“Porém, se não fizerdes assim, eis que pecastes contra o Senhor; e sabei que o vosso pecado vos há de achar” (Nm 32:23).

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Todos os salvos irão para o céu?

Não, nem todos os salvos irão para o céu. Existem diferentes grupos de salvos com diferentes promessas e expectativas. A Igreja é uma criação celestial de Deus com um destino celestial, enquanto o Israel redimido (e os gentios que serão abençoados juntamente com Israel no reino) é um povo terreno que possui uma porção e destino igualmente terrenos. Portanto, numa primeira etapa, os que sobreviverem à grande tribulação entrarão no reino terreno durante o Milênio e serão pessoas (judeus e gentios) convertidas como os israelitas e prosélitos que encontramos no Antigo Testamento.

Essas pessoas entrarão no reino milenial de Cristo na terra com os mesmos corpos que temos hoje, ou seja, não estarão ressuscitados ou transformados, não terão corpos glorificados, mas corpos naturais, apesar de viverem até idade avançada. Isaías 65:20 descreve esse tempo assim: “Nunca mais haverá nela uma criança que viva poucos dias, e um idoso que não complete os seus anos de idade; quem morrer aos cem anos ainda será jovem, e quem não chegar aos cem será maldito”. Portanto, ainda que o idoso passe dos cem anos, mesmo assim morrerá. Será um reino de justiça, mas no qual ainda haverá pecado, pois a cada manhã haverá juízo e serão mortos os que pecarem. “Pela manhã destruirei todos os ímpios da terra, para desarraigar da cidade do Senhor todos os que praticam a iniquidade” (Sl 101:8). Será um reino de paz e felicidade, mas ao mesmo tempo de justiça contra o pecado.

Mesmo assim muitos (talvez principalmente os que nascerem nesse período) serão no final iludidos quando Satanás for solto por um breve tempo. Estes serão os que se revoltarão contra o Senhor no final e serão mortos. Satanás então será condenado ao lago de fogo e virá o grande trono branco de que fala Apocalipse para serem julgados e condenados todos os que desde Caim morreram na incredulidade. No juízo final, também conhecido como grande trono branco, ninguém sairá salvo, pois os que forem salvos já o terão sido antes desse evento.

“E vi um grande trono branco e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante do trono, e abriram-se os livros. E abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras. E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Ap 20:11-15).

Então será inaugurado o “estado eterno”, onde haverá novos céus e nova terra, porém, a Bíblia não fala quase nada desse estado porque não entenderíamos por ser algo fora do tempo e da matéria. “E vi um novo céu e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe” (Ap 21:1). Na nova terra habitarão os que habitaram no reino milenial na terra, porém então já estarão com corpos glorificados. Enquanto isso, a Igreja que terá sido arrebatada antes do período de sete anos de tribulação que precede a vinda de Cristo para estabelecer o seu Reino, habitará nos novos céus. Creio que nesses “novos céus” estarão também várias outras classes de pessoas que morreram na fé e não faziam parte da Igreja. Você pode imaginar a multidão desses só de pensar nos abortivos, nas crianças mortas, nos que foram salvos e morreram antes de Cristo, etc.

Existem privilégios que pertencem a toda a família de Deus, que são de propriedade comum a todo o Seu povo, seja ele formado pela Igreja ou pelos santos do Antigo Testamento, do milênio etc. Todos estes possuem o novo nascimento, um lugar na família de Deus, comunhão com Deus etc. Os cristãos possuem estas coisas e muito mais. As bênçãos cristãs são de um caráter muito mais elevado e estão fundamentadas na redenção já consumada e na aceitação que o Senhor desfruta à destra de Deus. A posição que o Senhor Jesus ocupa à destra de Deus é indicada nas epístolas de Paulo pela expressão “Cristo Jesus”. Quando as Escrituras dizem “Jesus Cristo” estão se referindo ao Senhor descendo dos céus para fazer a vontade de Deus em cumprir a redenção por meio da morte; quando as Escrituras dizem “Cristo Jesus” elas estão se referindo a Ele ressuscitado e elevado às alturas à destra de Deus.

O que é maravilhoso na graça de Deus é que os cristãos são mencionados como estando “em Cristo Jesus” – não “em Jesus Cristo”. Isto significa que nossas conexões com Ele não são como as que Ele tinha neste mundo com Israel, mas do modo como Ele está agora, como a Cabeça ressuscitada e ascendida da nova criação (2 Co 5:16-17). Estar “em Cristo” significa que ocupamos o mesmo lugar de aceitação que pertence a Cristo diante de Deus! A mesma medida de aceitação que Jesus desfruta à destra de Deus é a que nos pertence, pois permanecemos no lugar que pertence a Ele diante de Deus (1 Jo 4:17). Nós olhamos para o alto e vemos um Homem na glória com todo o favor de Deus colocado sobre ele, e sabemos que esse é também o nosso lugar. Que posição maravilhosa esta em que a graça soberana nos colocou!

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Sou salvo exclusivamente por graça?

Você perguntou se uma pessoa que tenha aceitado a Jesus Cristo como Senhor de sua vida e único e suficiente Salvador, e venha a “escorregar” em algumas práticas condenáveis e abomináveis aos olhos do Senhor, será salva exclusivamente pela graça, e se tal ideia não poderia encorajá-la a continuar em seu erro.

Bem, sua dificuldade em entender está por não crer na salvação como um fato consumado no momento em que alguém crê em Jesus. Veja que em diversas passagens a Bíblia dá a salvação como algo resolvido, e não como um processo ou uma pendência que ainda teria de aguardar o “bater do martelo” num julgamento final.

“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24).

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (Ef 1:13).

“Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna, e para que creiais no nome do Filho de Deus” (1 João 5:13).

Portanto, uma vez salvo, salvo para sempre, e se ocorrer essa “escorregada” da qual falou, que é o pecado – e todo pecado é abominável aos olhos de Deus – “temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 2:1-2). Mas se Deus nos dá esse recurso de recorrermos à confissão para podermos contar com o perdão que já foi garantido na cruz, ao mesmo tempo ele alerta: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis” (1 Jo 2:1).

Aquele que persiste no erro e não confessa seu pecado será tratado por Deus com disciplina, como faz um pai com seu filho. Vem à memória o alerta que o Senhor deu ao paralítico que tinha acabado de curar: “Depois Jesus encontrou-o no templo, e disse-lhe: Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior” (Jo 5:14).

Supor que não pecaríamos depois de convertidos é confiar na carne. Geralmente aquele que se considera justo e é confiante demais em sua própria fidelidade para achar que não irá mais pecar será o primeiro a negar e esconder seu pecado. Admitir que pecou prejudicaria sua reputação, e ele sempre estaria pronto para afirmar, como Pedro, “Ainda que todos se escandalizem em ti, eu nunca me escandalizarei” (Mt 26:33).

Se fôssemos salvos por obras (ou se mantivéssemos nossa salvação assim) Deus teria que dividir sua glória conosco. Além disso jamais teríamos certeza de coisa alguma, pois como iríamos saber o quanto de boas obras, fidelidade e perseverança seria necessário para nos levar ao céu? Viveríamos como nesses programas de milhagem de passagens aéreas, a todo momento ansiosos para ver se já teríamos milhas suficientes para viajar.

O problema é que, ao contrário desses programas milhagem, o único Ser justo e sem pecado que tem direito a estar na presença de Deus é o Homem perfeito, Jesus. E cada vez que olhamos para Jesus só vemos o quão longe estamos de sua perfeição. Achar que fazendo algo podemos chegar mais perto é pura pretensão. Por isso dependemos da graça de Deus para sermos salvos, e isto é pela fé. Eu não sei como alguém poderia duvidar disso com passagens tão claras quanto esta:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2:8-10).

Se eu perguntar a Deus se serei salvo por suas obras, Deus responderá com as palavras do versículo acima que não, “porque pela graça sois salvos”. Se eu quiser acreditar que minha fidelidade tenha algo a ver com minha salvação, Deus dirá que é “por meio da fé”. Então, enquanto eu estiver vasculhando em todos os bolsos de meu ser para ver se encontro algo que possa dar ou fazer para Deus a fim de garantir minha salvação, ele me diz: “Isto não vem de vós”, e completa dizendo que é um “dom”, ou dádiva.

Então, se eu ainda insistir e perguntar: “Será que não tem alguma obra que eu possa fazer, Senhor”?, sua resposta será que a salvação “não vem das obras, para que ninguém se glorie”. Então pergunto em que parte do processo as obras aparecem e ele me diz que é depois de eu já ter sido salvo, já que fui novamente “criado em Cristo Jesus para as boas obras” que ele preparou para eu andar nelas. E mesmo que eu as cumpra, no final para quem irá a glória? Para Deus.

No início de sua mensagem você apresentou a suposição de que Deus teria deixado o homem numa situação de incapacidade de viver a sã doutrina para nenhum homem se gloriar de estar andando nela. Agora Deus diz claramente em sua Palavra que a única coisa que ele quis ter certeza de que o homem não iria se gloriar é sua salvação, e que se fosse por obras o homem certamente se gloriaria.

Se, por um lado, você afirmou que o homem seria incapaz de cumprir as demandas de Deus e seguir a sã doutrina (dizendo que é por isso que existem tantas denominações), por outro você ainda deposita confiança no homem ao sugerir que existe um lugar para as obras na salvação, como uma espécie de ajuda humana em algo que só poderia vir de Deus. Pense assim: foi o homem quem se meteu nesse profundo poço de pecado. Como ele poderia supor que conseguirá sair dali sem ser tirado por alguém de fora?

Ao perguntar se uma pessoa que tenha se convertido e crido em Jesus “como único e suficiente Salvador” permaneceria salva mesmo que tivesse dado uma “escorregada” você mesmo já deu a resposta. Ora, se você disse que a pessoa aceitou a Jesus como “único e suficiente” Salvador é porque não existe outro Salvador e nada faltou no que Cristo fez para salvar.

“Único” significa exclusivo, que só ele pode salvar, o que exclui a ajuda do pecador. “Suficiente” mostra que, uma vez tendo ele salvado o pecador, nada mais resta para o pecador fazer. Mas evidentemente entendo bem sua preocupação, pois o argumento da perda da salvação é bastante usado principalmente pelos líderes das religiões pentecostais e outras que não acreditam na salvação eterna, mas numa “salvação volátil” que pode virar fumaça se a pessoa pecar ou não perseverar.

Se tal argumento fosse verdadeiro, voltaríamos ao problema anterior, só que ao invés de perguntarmos o quanto de boas obras seriam suficientes para salvar o pecador, perguntaríamos o quanto de pecado seria suficiente para tirar a salvação de alguém. Neste caso eu tenho a resposta: “Um”. Se um pecado foi suficiente para Adão e Eva terem sido expulsos do Paraíso, como alguém se achará capaz de entrar na presença de Deus com “poucos” pecados? Ou Cristo pagou por todos eles quando morreu na cruz, e perdoou todos eles quando a pessoa creu nele, ou essa pessoa está perdida eternamente se depender de limpar seus próprios pecados. “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” (Jr 13:23).

Mas então vem sua preocupação que é sincera: Será que alguém que tenha crido que seus pecados foram todos perdoados não voltaria a pecar deliberadamente por saber que não poderá mais perder a salvação? A questão é que um verdadeiro salvo, que possui realmente o Espírito Santo de Deus habitando em si, não ousaria pensar assim. Ele tem horror do pecado. Pode até acontecer de cair, mas se sentirá péssimo enquanto não confessar seu pecado e acertar sua consciência para com Deus.

Portanto, o crente é capaz de pecar depois de salvo, pois se dissesse o contrário ele já estaria condenado pelo pecado da mentira. “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós… Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1 Jo 1:8-10). Mas isto não é uma licença para pecar, mas apenas a primeira parte da explicação que Deus dá de como nos valermos de nosso Advogado no céu.

Deus deixou um recurso para o salvo usar quando cair, e está na continuação da mesma passagem. O recurso não é um aval para pecar, mas a demonstração da graça e misericórdia de Deus que estão disponíveis a todo aquele que crê. E curiosamente você verá que esse recurso não envolve pedir perdão a Deus, uma vez que o perdão já está garantido ao que crê. O recurso é “confessar” nossos pecados, sabendo que não estamos sozinhos nisso, mas temos um Advogado.

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça… Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade. Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele. Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1 Jo 1:9; 2:1-6).

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O juízo final é para todos?

O juízo final é apenas para os perdidos, pois daquele evento não sairá um salvo sequer. É para lavrar a pena de cada um de acordo com o que praticaram em vida. Fica fácil imaginar que dali não sairá um salvo se você se lembrar de que bastou um pecado apenas para que Adão e Eva fossem expulsos da presença de Deus. Quem poderia alegar hoje ter apenas um pecado? E quem poderia dizer que nunca pecou? Veja o texto em Apocalipse:

“O diabo, que as enganava, foi lançado no lago de fogo que arde com enxofre, onde já haviam sido lançados a besta e o falso profeta. Eles serão atormentados dia e noite, para todo o sempre. Depois vi um grande trono branco e aquele que nele estava assentado. A terra e o céu fugiram da sua presença, e não se encontrou lugar para eles. Vi também os mortos, grandes e pequenos, de pé diante do trono, e livros foram abertos. Outro livro foi aberto, o livro da vida. Os mortos foram julgados de acordo com o que tinham feito, segundo o que estava registrado nos livros. O mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e cada um foi julgado de acordo com o que tinha feito. Então a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. O lago de fogo é a segunda morte. Se o nome de alguém não foi encontrado no livro da vida, este foi lançado no lago de fogo” (Ap 20:10-15).

Hoje o lago de fogo, às vezes chamado de “inferno”, está vazio. Os mortos em seus pecados (sem salvação) estão no hades, que é uma condição de morte enquanto aguardam ressurreição de seus corpos para serem lançados no lago de fogo. Os salvos já estão com Cristo. Como mostra a passagem acima, a besta e o falso profeta ou anticristo inaugurarão o lago de fogo quando forem lançados lá antes de Cristo estabelecer seu reino milenial na terra. Satanás será preso durante os mil anos e solto no final para que sejam revelados aqueles que viverem no reino terreno de Cristo sem terem realmente se convertido (lembre-se de que o reino de mil anos será habitado por pessoas vivas em seus corpos naturais). Satanás é no final dos mil anos lançado no lago de fogo onde o tormento é “para sempre”, e não temporário como ensinam algumas religiões.

Então vemos a cena do juízo final, chamada aqui de “grande trono branco”, e ali os mortos em seus pecados recebem seus corpos de volta e são trazidos diante do Senhor para receberem a sentença do castigo eterno. Os salvos terão sido salvos antes disso, pois quem tiver chegado diante do “grande trono branco” com um pecado sequer já estará condenado. Esta passagem deixa claro que aquele que crê em Cristo não entra em juízo ou julgamento: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24).

“Ouve”, “crê”, “tem”, “não entra em juízo” e “passou da morte para a vida”, no momento em que creu, são expressões muito claras neste sentido. Você deve lembrar também que aquele que creu em Cristo tem hoje habitando em si o Espírito Santo como garantia de sua salvação. Considerando a promessa que Jesus fez de que o Espírito Santo nunca deixaria o crente, seria absurdo pensar em um convertido habitado pelo Espírito Santo comparecendo diante do “grande trono branco” para ser julgado.

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14:16).

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (Ef 1:13).

Mas, respondendo à sua outra dúvida, haverá sim uma escala de condenação, pois vemos isso claramente ensinado nas palavras do Senhor quando disse que haveria maior juízo para uma cidade do que para outra, ou quando falou dos religiosos de sua época, alertando os discípulos: “Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e muito apreciam as saudações nas praças, as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo” (Lc 20:46-47).

Você também perguntou se a condenação é mesmo eterna, e a resposta é que sim, a condenação é mesmo eterna, porque assim o Senhor a chama: “E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mt 25:46). Se duvidarmos que a condenação é eterna teremos de duvidar também de que a vida seja eterna. Lembre-se de que o Senhor avisou que o fogo “nunca” se apaga, do mesmo modo como consolou os seus dizendo que “nunca” pereceriam nem seriam arrebatados de sua mão. “Onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga” (Mc 9:44). “E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10:28).

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O Espírito Santo está ansioso?

Sim, nós nos esquecemos de que o Espírito Santo que habita em nós também está ansioso para partir deste mundo. Assim como cada crente em Jesus, o Espírito Santo é também, por assim dizer, um expatriado, alguém que vive e trabalha longe de seu país de origem. Ele desceu ao mundo para habitar na igreja e em cada crente individualmente, portanto posicionalmente ele está fora de seu lugar de origem, que é o céu. Se você se entristece vez ou outra por viver aqui, imagine o Espírito Santo de Deus!

Portanto, não estamos sozinhos nessa espera e expectativa pelo dia do arrebatamento, quando Cristo virá buscar sua igreja. Ficamos nos perguntando por que razão o Senhor demora. Mas saber que o Espírito Santo está aguardando junto conosco é mais ou menos como se o voo tivesse se atrasado e precisássemos enfrentar longas horas de espera num aeroporto cheio de gente estranha. Mas aí olhamos para o lado e ali está um AMIGO que ficará conosco até a hora do embarque e embarcará junto! O Espírito Santo! Ele também não vê a hora de embarcar.

(Jo 14:16-14) “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós”.

(Ef 1:13-14) “Em quem [Cristo] também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória”.

Em seu livro “Acontecimentos Proféticos”, Bruce Anstey explica melhor o que acontecerá com o Espírito Santo no arrebatamento da igreja:

O Espírito de Deus, na forma como age atualmente, também será tirado da terra (2 Ts 2:6-7). Hoje Ele habita na Igreja que está na terra – a Igreja é Sua habitação. O Senhor prometeu que, uma vez que tivesse vindo para habitar na igreja, o Espírito jamais a deixaria (Atos 2:1-4; 1 Co 12:13; Jo 14:16).

Quando a Igreja for chamada para a glória, o Espírito Santo sairá deste mundo para nunca mais vir aqui habitar. Isto não significa que o Espírito deixará de trabalhar sobre a terra, porém daquela hora em diante Ele fará sua obra neste mundo a partir de seu lugar no céu, como fazia antes do Pentecostes (na época do Antigo Testamento). Ele continuará a operar em uma diversidade de ações (Ap 1:4), como na vivificação das almas, etc.

Alguns poderiam perguntar: “Como podemos saber quando o Espírito será tirado”? Cremos que as passagens a seguir deixam claro que isso acontecerá por ocasião do arrebatamento (Jo 14:16, 17). Na noite em que foi traído, o Senhor prometeu a Seus discípulos que quando o Espírito de Deus viesse para fazer morada na Igreja (Atos 2), isto seria para sempre. Quando a Igreja for chamada para fora deste mundo no arrebatamento, o Espírito de Deus irá junto, pois o Senhor disse que Ele (o Espírito) nunca os deixaria.

Isto também é encontrado no livro de Apocalipse. Nos primeiros três capítulos, quando a Igreja é vista como estando na terra, o Espírito é encontrado falando constantemente à Igreja. Mas depois do capítulo 4:1-2, quando a Igreja aparece como sendo tirada do mundo, o Espírito não é mais mencionado até os capítulos 14:13 e 22:17, os quais se passam após a tribulação. Compare também os capítulos 2:7, 11, 17, 29; 3:6, 13, 22 com o capítulo 13:9. Repare na ausência notória de alguma menção ao Espírito.

Isto é visto também tipificado em Gênesis 24, onde é procurada uma noiva (a Igreja) para Isaque (Cristo) pelo servo (o Espírito de Deus). Assim que a noiva foi assegurada pelo servo, ele a levou ao longo de todo o caminho de volta a casa, a Isaque, que estava aguardando por ela. Assim como o servo voltou para casa com a noiva, também o Espírito Santo voltará para o Lar com a Igreja quando o Senhor vier. Estas passagens demonstram que quando a igreja for chamada para fora deste mundo, o Espírito não irá mais residir na terra.

A partir dessa ocasião, o Noivo (Cristo), a Noiva (a Igreja), e os amigos do Noivo (os santos do Antigo Testamento, etc.) estarão juntos para sempre (1 Ts 4:17; Hebreus 11:40).

Eu e Ele, em radiante glória,

Iremos profundo gozo desfrutar;

Meu gozo será estar com Ele pra sempre,

E o dele, de ter-me no Seu Lar.

A Igreja não passará pela tribulação. Ela será levada para a glória na vinda do Senhor no arrebatamento. “Eu te guardarei da hora da tentação (tribulação) que há de vir sobre todo o mundo” (Ap 3:10). Tudo isso acontecerá “num momento, num piscar de olhos” (1 Co 15:51-56). [Extraído de “Acontecimentos Proféticos”, por Bruce Anstey].

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Devo denunciar as perversões?

“Gente! Vocês viram que coisa horrível?!!!” Tenho certeza de que você já viu alguma frase assim numa rede social, geralmente acompanhada de uma foto ou vídeo de algo que é de virar o estômago. Eu já devo ter feito isto também, ou posso voltar a fazer se estiver distraído, mas tenho pensado no assunto. Falo de cristãos que publicam perversões, seja em vídeo, fotos ou textos, com a boa intenção de denunciar as maldades do mundo.

Existe um sentimento de missão cumprida quando denunciamos um mal contra o qual nada podemos fazer. É como aquelas cartas a editores de jornais do tipo “Precisamos resolver o problema da fome…”, “É um absurdo deixarmos tantas crianças morrerem sem cuidados…”, “Não devemos nos omitir de…” e por aí vai.

Falar na primeira pessoa do plural (“nós precisamos fazer algo”) é uma técnica usada para se eximir da responsabilidade pessoal, dividindo-a com os sete bilhões de habitantes do mundo e esperando que um deles faça algo. Geralmente quem escreve a denúncia não move uma palha no sentido de resolver, mas sente-se bem com sua consciência por achar que já fez sua parte denunciando o problema.

Obviamente o cristão não deve se omitir de fazer o bem, e isto às vezes envolve denunciar às autoridades algum problema quando ele próprio não tem o poder de resolvê-lo. Mas a simples divulgação do mal não é o melhor caminho para o bem. Existe na mídia um acordo não escrito de não publicar notícias de suicídio para não encorajar outros cometer esse ato. Nos EUA também se evita ao máximo divulgar as tentativas de massacres em escolas (divulgam quando efetivamente acontece) para evitar que outros adolescentes se sintam motivados a fazer o mesmo para conseguirem quinze minutos de fama.

Divulgar o mal nas redes sociais pode até ser que ajude em alguns casos, mas quando vejo postagens assim, ainda que em tom de denúncia, me lembro de um texto de um poeta que perguntava quem seria o perverso na tourada. O touro não era, porque estava defendendo a própria vida. O toureiro também não, pois estava ali para garantir o sustento dos filhos. O perverso só podia ser o espectador, porque só assistia a morte do touro ou do toureiro e ainda pagava para isso.

Outro dia uma irmã em Cristo postou um vídeo de uma perversão e comentou: “Gente, que absurdo! Não sei como permitem publicar essas coisas na Internet!!!”. Às vezes não nos damos conta de que somos cúmplices na divulgação do mal. O que diz a Palavra?

“Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz (porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e justiça, e verdade), provando sempre o que é agradável ao Senhor. E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as. Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha. Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz” (Ef 5:8-13).

O simples fato de um cristão andar como luz neste mundo revela as obras das trevas. Ele não precisa divulgá-las para que todos percebam o contraste. Aliás, a passagem diz que ele não deve divulgá-las, pois “até mencionar é vergonhoso”. W. Macdonald comenta a passagem assim:

“As pervertidas formas de pecado que o homem inventou são tão ruins que até descrevê-las iria contaminar as mentes dos ouvintes. Portanto o cristão é ensinado a se refrear até de falar sobre elas. A luz é o que torna manifesto por contraste a amplitude do pecado nas vidas não regeneradas”.

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O testemunho do Senhor foi interrompido?

A ideia de congregar fora dos sistemas denominacionais tem atraído a muitos. Na maioria das vezes as pessoas estão cansadas de todos os descalabros que encontram nas denominações e acabam fugindo delas para criarem grupos autônomos e independentes, considerando-se assim uma espécie de “igreja restaurada” ou “obra de restauração” da igreja, como se Deus estivesse recomeçando a partir do zero aquilo que deu errado no princípio.

Entendo que o testemunho do Senhor nunca tenha sido interrompido, ao longo dos mais de mil anos de domínio do catolicismo romano, e nem tenha sido restaurado no princípio do século 19, que é de quando temos registros de irmãos congregados ao nome do Senhor fora dos sistemas religiosos. O testemunho do Senhor sempre existiu, por mais tênue e tremulante que fosse sua luz, ao ponto de nem ter sido notado e anotado nos livros de história da Igreja. O que foi recuperado no século 19 foram as verdades sobre o corpo de Cristo, o arrebatamento da Igreja, as promessas para Israel, etc., mas tudo isso existia na Palavra de Deus e apenas estava oculto sob o entulho da religião, tanto católica quanto protestante. De modo semelhante como aconteceu com a verdade da salvação pela fé, encoberta durante séculos de papismo e recuperada por Lutero, Calvino e outros na Reforma Protestante.

Todavia, a ordem dada a Filadélfia não foi de renovar ou restaurar o testemunho à sua glória original, mas apenas de conservar ou guardar aquilo que já tinha “guarda o que tens”, diz o Senhor em Apocalipse 3:11. O testemunho de Deus sempre existiu neste mundo e é ele quem cuida para que permaneça, dando a alguns a responsabilidade de guardá-lo. Ao referir-se aos tempos antigos, Paulo atesta que Deus nunca deixou a si mesmo sem um testemunho neste mundo. “O qual nos tempos passados deixou andar todas as nações em seus próprios caminhos. E, contudo, não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria os vossos corações” (Atos 14:16-17).

Sendo assim, reconhecemos que não é nosso esforço restaurar algo, mas é nossa responsabilidade manter aquilo que o Senhor coloca em nossas mãos, e neste sentido falo do testemunho do Senhor de que há um só corpo. Quando o testemunho de uma maneira geral já tinha sido arruinado no início da história da Igreja, pois vemos o clericalismo e as más doutrinas permeando a cristandade logo após a partida dos apóstolos, Deus entregou o testemunho a um remanescente que lhe fosse fiel, como sempre fez no seu modo de agir ao longo dos tempos.

A segunda epístola a Timóteo é a última carta de Paulo e traz instruções para os últimos dias. Ela não foi escrita a uma igreja, como Romanos, Coríntios, Efésios e outras, mas a um indivíduo, e revela particulares proféticos em seu último capítulo, como o fato de todos terem abandonado o apóstolo. Portanto será bom olharmos para ela como instruções para dias de ruína como os nossos. Nela Paulo diz: “Não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus” (2 Tm 1:8).

No capítulo 3 Paulo discorre de como estaria a cristandade nos “últimos dias”, porque o assunto da epístola é a “grande casa” em que se tornou a “casa de Deus” de 1 Timóteo 3:15. Na “grande casa” haveria “homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela” (2 Tm 3:1-5).

Se você é daqueles que acham que a cristandade atual está “uma bênção” e que a TV está cheia de “homens santos” colaborando para e expansão da Verdade de Deus, então é melhor nem continuar lendo o que vou dizer aqui. A verdade é que a “casa de Deus” está uma ruína e a ordem agora é apartar-se do mal. A ordem não é para decidir quem é ou não do Senhor, mas para apartar-se dos vasos de desonra e da má doutrina para ser um vaso de honra para Deus, como nos ensina 2 Timóteo 2:19-22:

“Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade. Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra. Foge também das paixões da mocidade; e segue a justiça, a fé, o amor, e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor”.

O fundamento de Deus continua firme e mesmo com tanta apostasia a promessa do Senhor de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja continuará valendo. O que Cristo edifica é permanente, mas aquilo que foi dado ao homem edificar foi arruinado pela iniquidade moral, doutrinal e eclesiástica, esta última diretamente ligada à expressão “grande casa”, um lugar onde há mistura de bom e ruim.

A pergunta que pode surgir aqui agora é: “Mas o que é o testemunho do Senhor”? Veja que não estou falando agora do testemunho de Deus, que ele pode dar até por intermédio das coisas criadas. Estamos falando do “testemunho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Tm 1:8), do qual Paulo escreveu no contexto de toda a carta a Timóteo.

Quando uma pessoa parte para uma terra distante, ao chamar sua família para a despedida é provável que as últimas instruções que dê sejam as mais importantes. Quais foram as últimas instruções dadas pelo Senhor na Palavra de Deus, aquelas que nunca antes tinham sido mencionadas? E a quem ele deu essas últimas palavras ou doutrina? Certamente não estou falando do livro de Apocalipse, pois este não é um livro doutrinário para a Igreja, mas a revelação das coisas que irão acontecer no mundo envolvendo Israel e as nações, ainda que comece com instruções dadas à Igreja, porém num sentido amplo e profético.

Mas quando João recebeu a revelação das últimas coisas, a revelação do que era o testemunho de Deus já havia sido dada e encerrada por intermédio de outro apóstolo, Paulo. Em Apocalipse você reencontra muitas dessas verdades a respeito do testemunho do Senhor, mas foi Paulo o vaso escolhido por Deus para tornar esse testemunho conhecido. A Paulo foi revelada a verdade do corpo de Cristo, e esta só poderia ter sido revelada depois de Cristo morrer, ressuscitar, ascender ao céu e assentar-se à destra de Deus em glória.

Ora, é muito evidente, portanto, que o testemunho do Senhor é o próprio Senhor como Centro e a Cabeça da Igreja. Não estamos congregados a uma verdade acerca do Senhor, e também não estamos congregados ao corpo de Cristo, do qual fazemos parte, mas estamos congregados a Cristo dentro do princípio de que há “um só corpo”. Cristo no centro, como a Cabeça da Igreja, é o que nos leva a congregar. Se estivermos congregados a uma doutrina ou princípio, por mais bíblico que seja, seremos uma seita. Mas se estivermos congregados a Cristo, a Cabeça do corpo, podemos receber as palavras de encorajamento de Paulo a Timóteo: “Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor” (2 Tm 1:8).

Resumindo, o testemunho do Senhor compreende basicamente três coisas: Primeiro, a revelação do mistério que foi dada a Paulo, de que há um só corpo do qual Cristo é a cabeça; segundo, de que a mesa do Senhor é a expressão de comunhão nesse um só corpo e, terceiro, que a Igreja, a noiva do Cordeiro, é um povo celestial e distinto de Israel, e será arrebatada inteira para se encontrar com o Senhor nos ares. Na verdade, isto até mesmo resume toda a doutrina de Paulo, que o apóstolo exortava Timóteo a guardar.

“Conserva o modelo das sãs palavras (ou ‘sã doutrina’) que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós. Bem sabes isto, que os que estão na Ásia todos se apartaram de mim; entre os quais foram Figelo e Hermógenes” (2 Tm 1:13-15).

Tratando agora diretamente de sua pergunta, que é se Deus manteve um testemunho assim desde o princípio até os nossos dias, a resposta é sim, pois esta é a maneira de Deus agir. Quando tudo mais falha ele cuida para que exista um remanescente que seja fiel em levar essa luz. No passado vemos isso ser feito na forma de indivíduos, quando tudo ao redor estava arruinado. É o caso de Abel, Enoque, Noé e Abraão. Elias foi um testemunho fiel a Deus individualmente, e precisou engolir seu orgulho quando Deus revelou que sete mil de seu tempo também não tinham dobrado seus joelhos a Baal e permaneceram fiéis a Jeová.

Quando chegamos ao Novo Testamento vamos encontrar um pequeno testemunho de pessoas que permaneciam fiéis a Deus, como Maria, José, Isabel, João Batista e seus discípulos, Ana e Simeão no templo, e outros mais, sempre à margem do mundo e do sistema religioso predominante. Ao estabelecer as bases para o seu testemunho na terra, o Senhor não previu que seria algo grande, mas prometeu estar no meio de “dois ou três” (Mt 18:20). A igreja começou com apenas 120 pessoas reunidas em um cenáculo (aposento alto, acima do nível do chão) e logo ganhou três mil novos convertidos acrescentados ao corpo de Cristo através da pregação de Pedro, os quais igualmente receberam o selo do Espírito Santo, característico da presente dispensação. Mas não demorou em surgirem os falsos, como Simão, o mago, que apenas foram batizados, mas não tinham o Espírito. Assim a ruína foi se estabelecendo e caminhando a par e passo com o testemunho do Senhor. Paulo fala dos que o abandonaram, e o abandono da doutrina de Paulo é uma das principais características maléficas da cristandade de nossos dias.

Se não temos registros históricos de um remanescente que se guardou e foi guardado pelo Senhor nos primórdios da história da Igreja, mantendo-se à margem da corrente da religião cristã, temos nas sete cartas de Apocalipse2 e 3 indícios de que esse remanescente existia. As quatro últimas cartas são representativas das últimas quatro diferentes épocas do testemunho cristão no mundo, observando-se que todas elas permaneceriam até a vinda do Senhor para buscar sua igreja, pois apenas nestas o Senhor faz referência à sua vinda.

Aos de Tiatira, que representa o sistema católico romano, ele diz: “Mas o que tendes, retende-o até que eu venha” (Ap 2:24). Aos de Sardes, que representa a reforma protestante, ele alerta: “virei sobre ti como um ladrão” (Ap 3:3). Aos de Filadélfia, que tem como características ter pouca força, guardar a Palavra e não negar o nome do Senhor, ele encoraja: “Eis que venho sem demora” (Ap 3:11). Ao último e pior estado de toda a cristandade na terra, diz: “Eis que estou à porta” (Ap 3:20).

Nas mesmas quatro épocas representadas por estas quatro últimas cartas às quatro igrejas o Senhor revela possuir um remanescente fiel a si. Em Éfeso, Esmirna e Pérgamo o texto revela que a parcela menor era dos que não eram fiéis, como em Éfeso “os que dizem ser apóstolos, e o não são” (Ap 2:2), em Esmirna “os que se dizem judeus, e não o são, mas são sinagoga de Satanás” (Ap 2:9) e em Pérgamo “os que seguem a doutrina de Balaão” (Ap 2:14).

Mas na carta seguinte, a Tiatira, que representa justamente o início do catolicismo romano, quando o cristianismo foi transformado em religião oficial, é uma minoria ou remanescente que é encorajada: “Mas eu vos digo a vós, e aos restantes (remanescente) que estão em Tiatira, a todos quantos não têm esta doutrina… o que tendes, retende-o até que eu venha” (Ap 2:24). Em Sardes também existe um remanescente, identificado como “algumas pessoas que não contaminaram suas vestes, e comigo andarão de branco; porquanto são dignas disso” (Ap 3:4), e aos de Filadélfia o encorajamento é dado no sentido de guardarem o que tinham: “Guarda o que tens” (Ap 3:11). Já a Laodiceia, o último estado da cristandade na terra, esse testemunho é tão pequeno que é tratado ali como “alguém”: “Se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei e ele comigo” (Ap 3:20).

Por estas e outras razões é que acredito que o Senhor sempre teve um testemunho seu neste mundo e terá até a derradeira hora, quando chamar sua Igreja no arrebatamento para encontrá-lo nos ares, entre nuvens, para estar para sempre com ele. A partir de então ele terá outro remanescente para levar o evangelho e o testemunho do Reino que estará prestes a ser estabelecido, formado por judeus convertidos que ele considerará o verdadeiro Israel.

Mas uma coisa deve ser lembrada: Nas cartas às Igrejas em Apocalipse aqueles que são identificados como sendo o remanescente não dizem isto de si mesmos. É o Senhor quem testifica deles, como faz em Filadélfia, prometendo ainda que tinham diante de si uma porta aberta que ninguém poderia fechar: “Tendo pouca força, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome” (Ap 3:8). Não é Filadélfia que diz isto de si mesma, mas o Senhor que a enxerga assim. Por outro lado, Laodiceia fala de si e se considera grande coisa: “Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta” (Ap 3:17). A opinião do Senhor a seu respeito é bem diferente: “Não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu… vomitar-te-ei da minha boca” (Ap 3:16-17).

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Se Maria era pecadora por que Jesus não?

Sua dúvida é como Jesus poderia ter nascido sem pecado se sua mãe era humana e pecadora. Seu raciocínio é que, mesmo tendo sido concebido do Espírito Santo, o fato de nascer de uma mulher descendente de Adão poderia tê-lo contaminado com o pecado, do mesmo modo como um feto pode ser contaminado por uma doença no sangue da mãe ou herdar suas características genéticas.

Esta é uma pergunta importante e não podemos simplesmente responder “porque sim” ou “porque não” ou ainda desdenharmos de quem tem a dúvida com algo do tipo: “Ah, você não entende essas coisas…”. A questão é tão crítica que o catolicismo, diante de tal impasse, decidiu declarar Maria imaculada, isto é, concebida sem pecado, para justificar o porquê de Jesus ter nascido imaculado. Na verdade, esse arranjo só jogava o problema para a geração anterior, pois como justificar que Maria seria sem pecado se sua própria mãe era pecadora?

Vou tentar responder usando algumas passagens e afirmações da Palavra de Deus. Primeiro, se Cristo tivesse nascido pecador, como Maria ou outro ser humano qualquer, ele estaria desqualificado para assumir o lugar de “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29). Ele precisaria de um Salvador sem pecado, pois o cordeiro dos sacrifícios judaicos era sem mancha e sem defeito por tipificar o verdadeiro Cordeiro de Deus, que deveria ser sem qualquer mancha. Como poderia ele redimir a outros quando ele próprio precisaria de um redentor?

Ele tampouco poderia exercer a função de sacerdote e intermediário entre Deus e os homens, “porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus; que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo. Porque a lei constitui sumos sacerdotes a homens fracos, mas a palavra do juramento, que veio depois da lei, constitui ao Filho, perfeito para sempre” (Hb 7:26-28).

Portanto, para que Jesus fosse Salvador, Redentor e Sacerdote ele precisaria ser, como diz a passagem, “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores”, algo que obviamente nenhum ser humano é em sua condição natural.

A carta aos Hebreus declara que, apesar de ser tentado (ou testado), Jesus era sem pecado. “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado [à parte o pecado]” (Hb 4:15). Tamanha era essa isenção da natureza pecaminosa em Jesus que ele podia desafiar os religiosos judeus, dizendo: “Quem dentre vós me convence de pecado”? (Jo 8:46). Certamente homem nenhum pode fazer tal desafio.

Outra evidência clara da natureza imaculada de Jesus foi o que se deu na cruz, quando ele foi julgado ali por Deus. “Àquele que não conheceu pecado, [Deus] o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5:21). Se ele não fosse sem pecado e sem a capacidade de pecar Deus não o teria feito pecado por nós na cruz. Sua natureza imaculada, além de sua natureza divina, fazia com que o pecado fosse nele uma total impossibilidade. “O qual não cometeu pecado… e nele não há pecado” (1 Pe 2:22; 1 Jo 3:5).

Ao ser concebido do Espírito Santo, e não de um homem, Jesus não recebeu a natureza pecaminosa de Adão. O próprio anjo anunciou que o ser que seria gerado nela era “santo” por natureza, e “Filho de Deus”. “Porque o que nela está gerado é do Espírito Santo” (Mt 1:20). “E disse Maria ao anjo: Como se fará isto, visto que não conheço homem algum? E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1:34-35).

Embora a Bíblia não diga explicitamente como a natureza pecaminosa de Maria não passou a Jesus, as passagens acima demonstram ser ele sem pecado e sem capacidade de pecar e comprovam a natureza imaculada de Jesus. Ainda que possamos ficar sem entender como ele não saiu do ventre de sua mãe contaminado, sabemos que de fato ele era sem pecado. Se isto não bastar devemos nos lembrar de que ele é o Filho de Deus eterno, e obviamente o Filho de Deus não iria encarnar em um corpo de pecado e em nenhum momento ele deixou de ser Deus completo, ainda que tenha assumido um corpo de carne. “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9).

Outra explicação seria o fato de a Palavra de Deus mostrar todas as coisas do ponto de vista da responsabilidade da cabeça, e em um casal a cabeça é o homem, não a mulher. Apesar de sabermos que “a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Tm 2:14), em Romanos não diz que o pecado tenha entrado na Criação por meio da mulher, mas do homem, ao mencionar a transgressão de Adão: “Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram… a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5:12-21).

Juntando tudo, podemos confiar que, seja pelas evidências da vida santa de Jesus, seja pelas declarações de sua natureza divina e sem pecado, seja pelo modo como Deus determina as coisas responsabilizando a cabeça, que é o homem, na transmissão da natureza pecaminosa, podemos ainda acrescentar que nunca entenderemos o que realmente aconteceu quando o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo desceram e cobriram Maria com sua sombra no processo da concepção. “E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1:35).

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Você ensina as pessoas a viverem no Egito?

Você escreveu dizendo que descobriu meus vídeos e livros na Internet, os que falam do evangelho e os que tratam de assuntos de comunicação, marketing e carreira. Depois de tecer alguns elogios a meu respeito, dizendo que sou “muito inteligente”, que tenho “um preparo e um carisma muito grandes”, você escreveu: “Percebi que você continua pregando e ensinando nas suas palestras como viver no Egito… Você prega uma coisa no ‘Evangelho em 3 minutos’ e vive outra no dia-a-dia?! Isto não mostra que você também é mais um religioso que não crê que Deus seja suficientemente poderoso para sustentar você fora das artimanhas do mundo? Que ele precisa da sua ajuda para você sobreviver”?

Eu realmente fiquei intrigado, sem entender aonde você queria chegar com suas indagações. Será que é uma crítica ao meu trabalho de profissional de comunicação e marketing? Ou você simplesmente acha que uma pessoa convertida a Cristo não precisa mais preocupar-se em trabalhar para ela sobreviver? Vamos começar tratando desta segunda hipótese.

Deus criou o trabalho para o homem no jardim do Éden, antes mesmo de ele cair em pecado, portanto o trabalho é uma ordenança divina. A primeira profissão criada por Deus para o homem foi de administrador da Criação: “… enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra” (Gn 1:28). Uma das funções administrativas de Adão foi inventariar o estoque de seres criados e dar nomes a eles. ”Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome. E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo” (Gn 2:19-20).

A outra função de Adão era cultivar a terra e vigiá-la, considerando que o inimigo de nossas almas já devia passear por lá buscando uma vítima. “E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar” (Gn 2:15). Esta função continuou depois da queda, e “o Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado” (Gn 3:23). A diferença foi que a terra e as plantas já não seriam tão fáceis de serem dominadas, e o trabalho passaria a ser um fardo para o homem. “Maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn 3:17-19).

No mundo pós-Éden os descendentes de Caim, o filho homicida de Adão, procuraram desenvolver a pecuária para diminuir o suor necessário para produzir alimentos, criaram a tecnologia (da qual vem o computador eu utilizo para escrever) e também desenvolveram as artes para tornar o mundo ao qual estavam arraigados um lugar mais aprazível. “E Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e têm gado. E o nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e órgão. E Zilá também deu à luz a Tubalcaim, mestre de toda a obra de cobre e ferro” (Gn 4:20-22).

Mesmo assim Deus não condenou essas atividades pelo que eram em si mesmas, mas obviamente não aprovava o mau uso delas. Que ele aprovou a pecuária, a tecnologia e as artes podemos ver no fato de ter escolhido um povo nômade e pecuarista, Israel, para representá-lo na terra. “Depois disse José a seus irmãos, e à casa de seu pai: Eu subirei e anunciarei a Faraó, e lhe direi: Meus irmãos e a casa de meu pai… são pastores de ovelhas, porque são homens de gado, e trouxeram consigo as suas ovelhas, e as suas vacas, e tudo o que têm” (Gn 46:31-32).

Arte, ciência e tecnologia foram necessárias quando Deus ordenou que os israelitas construíssem um tabernáculo. Para isso escolheu Bezalel e Aoliabe “para elaborar projetos, e trabalhar em ouro, em prata, e em cobre, e em lapidar pedras para engastar, e em entalhes de madeira”. Eles seriam os responsáveis pela construção da “tenda da congregação, e a arca do testemunho, e o propiciatório… e todos os pertences da tenda; e a mesa com os seus utensílios, e o candelabro de ouro puro com todos os seus pertences, e o altar do incenso; e o altar do holocausto com todos os seus utensílios, e a pia com a sua base; e as vestes do ministério… e o azeite da unção, e o incenso aromático…” (Ex 31:1-11). Não podemos nos esquecer de que Deus também ordenou a música e os instrumentos musicais para a adoração de seu povo terreno.

Quero com isto mostrar que mesmo as atividades desenvolvidas pelos descendentes de Caim foram utilizadas por Deus para objetivos nobres, e o próprio Deus só teve um dia de descanso, que foi o sétimo depois da Criação. Desde então ele nunca mais parou de trabalhar, o que demonstra que não existe nada de errado com o trabalho quando feito de forma correta e com o objetivo de glorificar a Deus. “E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5:17). Vemos pessoas trabalhando nas mais diversas profissões ao longo do Antigo Testamento e as profecias que falam do futuro reino milenar de Cristo na terra revelam uma sociedade onde o trabalho também será uma constante, com agricultores, construtores, navegadores, comerciantes e artesãos.

Quando chegamos ao Novo Testamento encontramos muitas profissões, e o próprio Senhor Jesus deve ter trabalhado no ofício de José, o carpinteiro. No Novo Testamento você encontra, além de pescadores e lavradores, produtores de vinho, pastores, artesãos, perfumistas, tecelões, curtidores, carpinteiros, oleiros, políticos, empregadas domésticas, comerciantes, barqueiros, soldados, banqueiros, ladrões e prostitutas, além de mendigos. Lídia era uma empresária que vendia púrpura, o carcereiro de Filipos funcionário público, Dorcas era proprietária de uma confecção e Paulo tinha uma fábrica de tendas, juntamente com Priscila e Áquila (Atos 16:14, 23; 9:39; 18:1-3).

O trabalho secular é encorajado nas epístolas, como você pode ver nas passagens abaixo:

“Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade” (Ef 4:28).

“Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (2 Ts 3:10).

Acredito que isto seja suficiente para provar que trabalhar para obter o sustento é algo bíblico e de modo algum contrário à vontade de Deus, quando feito de forma correta e honesta. Obviamente você encontra na Bíblia pessoas exercendo profissões como prostitutas, ladrões e políticos corruptos que não têm a aprovação de Deus, mas há também os políticos honestos, como Nicodemos e José de Arimateia, que foram estrategicamente levantados por Deus na hora em que eram necessárias pessoas com acesso ao governador para obter autorização para sepultar o corpo de Jesus. Todavia, até mesmo o ganho com o trabalho honesto está de algum modo associado ao mal por causa do pecado que a tudo permeia. Por esta razão a riqueza, mesmo aquela obtida pelo trabalho honesto, é chamada de Mamom, como se fosse um ídolo (Lc 16:13).

Generalizando, podemos dizer que todas as atividades profissionais, industriais e comerciais trazem em si a marca do pecado, por serem concebidas e realizadas por homens caídos e em um mundo arruinado. O próprio dinheiro que ganhamos com nosso trabalho é “riqueza da injustiça” (Lc 16:9). Se você conseguisse rastrear o dinheiro que tem no bolso talvez descobrisse que ele já foi usado para pagar prostitutas e assassinos de aluguel, corromper políticos e comprar drogas de traficantes. No Brasil, 75% das cédulas têm traços de cocaína e nos EUA esse número chega a 90%. É bom lavar as mãos, porque esse seu dinheiro já esteve no nariz de um viciado.

Como fala a parábola do mordomo infiel em Lucas 16, granjeamos, negociamos e obtemos as “riquezas da injustiça” enquanto estamos no mundo, e se formos sábios como o mordomo da parábola, daremos a essas riquezas um destino que garanta resultados eternos. “E eu vos digo: Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos” (Lc 16:9). “Porque tudo o que há no mundo… não é do Pai, mas do mundo. “ (1 Jo 2:16).

Mas talvez seu problema não esteja com o trabalho de uma maneira geral, mas com minha profissão de palestrante de comunicação e marketing, já que você disse que eu continuo ensinando nas minhas palestras como viver no Egito. Quando falamos que Moisés precisou esquecer o que aprendeu na corte de Faraó antes de poder ser usado por Deus para libertar o povo hebreu, certamente isso não inclui ele ter aprendido ali a acender um fogo, amarrar as sandálias, falar vários idiomas ou fazer cálculos geométricos.

Eu e você usamos invenções dos egípcios, como o calendário, a escrita, o papel, a maquiagem, o arado, as pastilhas para mau hálito, o boliche, a barbearia, a cerveja, as fechaduras e a pasta de dentes. Isto sem falar na matemática, que ensinaram a Pitágoras, na medicina, como cirurgias de catarata e cérebro, e na astronomia. Se tivessem inventado a bicicleta certamente Moisés teria aprendido a andar e nunca mais esquecido. Portanto não é esse conhecimento que Moisés precisou esquecer, mas tudo o que fosse contrário ao conhecimento divino. E ele mostrou que soube fazer isso muito bem ao escrever o livro de Gênesis falando do Deus Criador, e não do sol, como se fosse um deus, ou de bois, gatos e besouros como seres sagrados.

Portanto, neste sentido o que eu ensino tem muito a ver com as coisas do Egito, mesmo sem ensinar as pessoas a se maquiarem, fazer cirurgias ou jogar boliche. Talvez sua surpresa esteja por eu ensinar marketing e vendas, atividades que na cabeça de alguns são sinônimos de mentira e picaretagem. Talvez eu possa ajudá-lo a compreender essas profissões, tão nobres e necessárias. Marketing é o processo de se identificar, analisar e atender as necessidades e expectativas das pessoas, e você faz marketing até na hora de dar um presente para sua namorada. Vender é uma das ferramentas do marketing, e é tão necessária que nada do que você possui deixou de passar pelas mãos de um profissional de vendas. Compramos tudo o tempo todo, e até mesmo você veio ao mundo depois de uma ação de venda, caso seu parto tenha sido feito com o trabalho vendido por um médico ou parteira.

Como qualquer outra atividade, nestas você também irá encontrar profissionais inescrupulosos, e até quando fazemos um trabalho honesto o fruto desse trabalho pode fugir ao nosso controle. Não duvido da sinceridade e honestidade da parteira que ajudou o bebê Adolf Hitler vir ao mundo.

Sinto-me bem em poder ensinar marketing e vendas, principalmente numa sociedade conectada em que preciso explicar aos vendedores que mentir é péssimo negócio. As vendas hoje dependem de relacionamentos de longo prazo e os clientes podem detonar uma marca com apenas alguns cliques do mouse. Por isso um de meus temas de palestras é ética. Também me sinto ótimo quando faço palestras de segurança no trabalho nas indústrias, sabendo que talvez alguma dica que eu dê venha a salvar uma vida. Ou quando falo de consciência ambiental como forma de preservar os recursos do planeta para nossos filhos e netos, caso o Senhor não volte já.

Não sei se você trabalha em alguma empresa, mas provavelmente não teria emprego se não fosse pela ação dos profissionais de marketing, vendas e comunicação dessa empresa. São também profissionais como eu que treinam seus funcionários a se comunicarem melhor com os clientes. Tire o marketing, as vendas, a comunicação, o atendimento bem treinado da empresa onde você trabalha e amanhã estará procurando emprego com a ajuda de sites, headhunters e empresas dedicadas à carreira e desenvolvimento profissional. Também dou palestras neste sentido, uma delas, marketing pessoal, para ajudar as pessoas a se posicionarem de forma correta e honesta no mercado de trabalho.

Dou graças a Deus pelo trabalho que ele me deu. Hoje já posso abrir mão de algumas atividades, como consultoria, aulas e traduções de livros acadêmicos, para ficar apenas com palestras e treinamentos empresariais. Assim posso dedicar grande parte de meu tempo à obra do evangelho, produzindo sites, livros e vídeos que levam a Palavra de Deus a milhares de pessoas. Sei que minha atividade paralela no evangelho nem sempre ajuda meu lado profissional, pois sei que empresas deixam de me contratar por acharem que vou utilizar o tempo das palestras para pregar o evangelho, o que não faço por uma questão de ética profissional.

Mas não pense que já não me imaginei vivendo sem precisar fazer um trabalho secular. Acho que a primeira vez foi nos anos 70, logo depois de convertido, quando assisti “Irmão Sol, irmã Lua”, o filme sobre a vida de São Francisco de Assis. Fiquei cativado pela possibilidade de viver daquele jeito, vestido de trapos e gastando meu tempo conversando com passarinhos. Acho que muitos jovens da minha época sentiram o mesmo. Mas, para ser sincero, não sei ao certo se o que mais me atraía era ser pobre ou estar sempre ao lado de Santa Clara, interpretada pela belíssima Judi Bowker.

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Por que alguns prosperam nessas religiões?

Você pergunta se é milagre a prosperidade que muitos dizem ter alcançado depois de passarem a frequentar uma determinada religião que segue a teologia da prosperidade. Uma coisa é certa: Deus pode beneficiar quem ele quiser, mas essas religiões não têm nada a ver com isso. Um pouco de observação das Escrituras logo revela que os supostos milagres operados ali estão longe de serem aqueles narrados na Bíblia.

Por exemplo, veja este: “E até das cidades circunvizinhas concorria muita gente a Jerusalém, conduzindo enfermos e atormentados de espíritos imundos; os quais eram todos curados” (Atos 5:16). Isso aconteceu no princípio, quando Deus estava dando o devido crédito à pregação dos apóstolos por meio de sinais e maravilhas. Percebe que “eram todos curados”? Acaso já viu algum desses pregadores modernos de curas e prosperidade curarem todos os ouvintes de sua pregação?

Outra coisa que precisa ser levada em conta é que qualquer pessoa que adota uma religião que dá a ela uma lista de restrições irá melhorar sua vida e sua saúde. Ela passará a ser mais dedicada ao trabalho, irá parar de beber, fumar, virar a noite nas farras e passará a economizar dinheiro, pois agora tem uma obrigação, que é contribuir com dízimos e ofertas para sua religião, além de ser constantemente vigiada, ensinada e encorajada pelos outros membros. Todos sabemos que pessoas em grupos ou associações se ajudam mutuamente e obtêm benefícios disso.

Junte a lista de regras, a vigilância, a cobrança e o encorajamento e você já verá resultados, como acontece até em grupos dos Alcoólicos Anônimos. A pessoa passará a economizar o dinheiro que gastava com noitadas, bebidas, drogas e cigarros, graças ao suporte da ajuda mútua dos membros daquela sua religião. Por que você acha que o governo gosta tanto das religiões, principalmente as evangélicas? Porque elas fornecem tudo isso aos seus seguidores, além de os colocarem sob o comando de um só homem que pode ser mais facilmente controlado pelas autoridades. O governo precisa controlar apenas o pastor e assim estará controlando milhares de seguidores.

Existe ainda outro fator da suposta realização de milagres e bênçãos, que é uma característica da mente humana. Nosso cérebro se esquece facilmente da dor (ou nenhuma mulher teria um segundo filho), porém se lembra do prazer. Então nos esquecemos de quando oramos por algo e aquilo não aconteceu, ou aconteceu justamente o oposto que foi algo desagradável e dolorido, mas gravamos na mente as orações que aparentemente foram respondidas com algum benefício que nos trouxe satisfação, mesmo que não tenham sido pela interferência divina, mas simplesmente porque aquilo aconteceria naturalmente.

Este raciocínio pode também ser aplicados nas “profetadas”, as supostas “profecias” que são abundantes nos meios pentecostais, e o mecanismo é o mesmo para qualquer tipo de adivinhação. Pessoas vão a centros espíritas, cartomantes, adivinhos, astrólogos etc. porque viram serem realizadas as “profecias” feitas ali, sem perceberem a influência deste mecanismo da mente humana de se lembrar do que dá certo e esquecer o que deu errado.

Além disso, nessas “igrejas”, principalmente as pentecostais, onde o testemunho é estimulado, todos gostam de ir falar ao microfone, e quando isso acontece, um resfriado já vira pneumonia e o sujeito que roubou uma fruta na feira vira assaltante, porque temos a tendência de exagerar para sermos aceitos. Jornais sensacionalistas costumam colocar uma lente de aumento nas notícias por saberem que “se não sangrar não dá audiência”, pois é outra característica do ser humano gostar de se entreter com o mal. Então nesses testemunhos acaba valendo a velha máxima do “quem conta um conto aumenta um ponto” e nem todos os frequentadores dessas igrejas sabem que muitos dos que vão ali dar “testemunhos” recebem um cachê para isso e alguns têm até empresário para negociar sua presença. Na “bolsa do testemunho” quem tiver a história mais escabrosa cobra o cachê mais alto.

Como pode ver, basta conhecer um pouco da natureza humana para entender como a questão dos “milagres” funciona dentro das religiões, e muitos desses “pastores” que você vê todos os dias no rádio, na TV e nas “noites de milagres” que anunciam são campeões em entenderem e manipularem comportamentos. Muitos deles devem ser leitores assíduos de “As 48 Leis do Poder”, livro que é o mais lido nas bibliotecas dos presídios norte-americanos e usado como guia por muitos políticos, pastores e ditadores que desejam exercer influência, poder e controle sobre as pessoas. Li apenas alguns trechos do livro, o suficiente para querer evitá-lo porque iria dar muito trabalho eu transformar sua mensagem no avesso para andar como cristão.

Termino deixando claro que não duvido que Deus possa atender orações (ou eu pararia de orar), que ele seja poderoso para curar enfermidades, restaurar vidas, recuperar as finanças e os relacionamentos. Mas é sempre bom não deixar o bom senso de lado quando estas questões envolvem religiões e líderes que têm uma agenda paralela de exercer controle sobre as pessoas e enriquecer. Não encontramos na vida dos apóstolos nenhum que tenha sido bem-sucedido aos olhos do mundo, ou que tenham escapado de problemas, doenças e dificuldades. Pelo contrário, dos treze (incluindo Paulo), todos menos João foram executados por meio de morte violenta. João passou seus últimos dias na prisão do exílio. E se você prestou atenção nos sítios arqueológicos do mundo antigo e nos museus certamente nunca terá encontrado algum palácio ou mansão pertencente aos apóstolos ou objetos preciosos de ouro e prata que estavam entre seus pertences, como encontramos dentre o que foi deixado por reis, príncipes e magnatas do passado.

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Somos todos macacos?

Achei de uma sabedoria ímpar a atitude espontânea do jogador Daniel Alves, quando um racista atirou uma banana e ele simplesmente a descascou e comeu. Ele esvaziou o ato do agressor numa espécie de golpe de judô, que se vale do impulso do adversário para fazê-lo cair.

Lembrei-me do que Jesus ensinou: “Não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas…” (Mt 5:39-45).

Mas logo depois daquela atitude espontânea, o famoso Neymar fez uma jogada ensaiada publicando no Twitter uma foto comendo banana ao lado de seu filho e acompanhada da hashtag #somostodosmacacos. Aquilo era uma estratégia planejada por sua agência de publicidade, que apenas aproveitou o momento para lançar uma campanha contra o racismo. As redes sociais não deixaram por menos, considerando de mau gosto a campanha e tão ou mais racista que o ato do ignóbil torcedor.

Depois de tentar dar uma no cravo no combate ao racismo, a agência deu uma na ferradura ao enviar um comunicado à imprensa defendendo-se:

“Colocado como foi, ironicamente, na situação (logo após a maravilhosa atitude do Daniel Alves), a hashtag, mais a imagem de Neymar com seu filho, não chama os negros de macacos, mas lembra ou alerta os brancos que somos todos iguais, vindos ‘do mesmo macaco’ Este é um fato científico provado e comprovado (salvo alguns fanáticos que ainda questionam Darwin), não uma opinião”.

Bom, acho que agora os cristãos criacionistas como eu precisarão de uma agência para desenvolver uma estratégia de marketing para evitar serem discriminados como fanáticos.

Mas a questão é: “Somos todos macacos”? Bem, se alguém se considera macaco eu só posso sentir o que sinto quando vejo alguém que acredita ser Napoleão Bonaparte. Sinto pena por ele viver uma ilusão. Eu tenho certeza de que macaco eu não sou. Sou um ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, pois ele me descreve assim:

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1:26-27).

Aí diz que o homem não foi criado como os outros animais, destinado apenas a comer, beber e procriar, mas como um ser moral e responsável para governar a terra e os animais. Deus fez o homem superior a todas as outras criaturas e com a capacidade, não apenas de pensar fora da caixa dos instintos naturais, mas de se comunicar com seu Criador. “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gn 2:7).

“Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade. Da boca de pequeninos e crianças de peito suscitaste força, por causa dos teus adversários, para fazeres emudecer o inimigo e o vingador. Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo; as aves do céu, e os peixes do mar, e tudo o que percorre as sendas dos mares. Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome”! (Sl 8:1-9).

O Salmos fala dos céus que expressam a majestade de Deus, ou seja, aquilo que é infinito e que o homem não consegue compreender. Fala também das crianças que, em sua simplicidade, fazem calar os que se consideram sábios e discriminam quem crê na Palavra de Deus como os próprios discípulos de Jesus discriminaram os pequeninos e foram repreendidos por isso: “Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como menino, de maneira nenhuma entrará nele” (Mt 10:14-15).

Obviamente o homem natural, em seu estado de pecador caído, jamais entenderá estas coisas e continuará tateando nas trevas de suas teorias, reputando de loucos e fanáticos os crentes. ”Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele” (1 Co 1:25-29).

O mesmo Salmos 8 fala de como o ser humano foi criado menor do que Deus, mas possuindo características que só são encontradas em Deus, como a razão e a moral, além de autoridade e responsabilidade para exercer domínio sobre todas as criaturas. Evidentemente com o pecado o homem perdeu muito da posição que ocupava, mas ainda que o ser humano caído seja capaz de perversidades jamais encontradas entre os animais, isto não muda o fato de ele ter sido criado por Deus como seu representante na terra.

Na perspectiva ampla do plano de Deus o homem foi criado como figura de seu Filho Eterno, o protótipo de uma nova criação que extrapola em muito a matéria e o tempo. O homem foi criado para habitar com Deus e em glória na eternidade. Se Deus não tivesse em alta conta o ser humano ele jamais teria enviado o seu Filho para vir em semelhança de homem. Em Cristo o homem extrapola a dignidade original com que foi criado, ao ser feito nova Criação. “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criação é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5:17).

Ao lançar sua estratégia de marketing antirracismo, e depois tentar explicá-la, a agência acabou sendo tão ou mais discriminatória que o torcedor que atirou uma banana no jogador. Ela discriminou todos os que creem em um Deus Criador e fez isto demonstrando total ignorância científica. Embora nas mesas dos botequins citar Darwin seja considerado erudição, o que se desenvolveu a partir de seu livro “A Origem das Espécies” foi tão somente uma teoria, e toda teoria continua teórica até que seja colocada em prática. Porém, arvorando um conhecimento científico que nem a ciência possui, a agência de publicidade afirmou que, ser o homem uma versão 2.0 do macaco ”é um fato científico provado e comprovado”.

O interessante é que os homens preferem acreditar em uma teoria que os rebaixam ao status de um animal, a crerem em um Deus que os trata com a maior dignidade. Mas o cristão não deve perder de vista que, por trás do ser humano, existe uma “agência de publicidade” em plena atividade para fazer Deus e a sua Palavra serem desacreditados e, principalmente, recriar o homem à imagem do macaco. Qualquer um sabe que uma das melhores estratégias para se promover um candidato numa eleição é rebaixar o candidato adversário. Essa agência pertence a Satanás, o querubim que sempre desejou ser imagem e semelhança de Deus, mas odiou quando viu tal posição ser dada ao homem. A partir de então ele é “o diabo, vosso adversário” (1 Pe 5:8), e entenda que o sentido é muito mais amplo do que ele ser apenas adversário dos cristãos. O diabo é o adversário do homem, é o concorrente da oposição que sempre quis ter um lugar de supremacia sobre a Criação. É dele que Deus fala neste texto:

“Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura… Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas… Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniquidade em ti… Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor… E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” (Ez 28:12-17; Is 14:13-14).

Não é difícil imaginar a bronca que que o diabo tem contra os seres humanos quando vê a Cristo, o Filho de Deus, hoje exaltado nos céus, não como um anjo ou querubim, mas como um Homem de carne e ossos! A inveja e ódio do diabo são contra Cristo, mas como já não pode atingi-lo, então descarrega sua frustração no homem na tentativa de impedi-lo de chegar lá. ”Mas em certo lugar testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, de glória e de honra o coroaste, E o constituíste sobre as obras de tuas mãos; todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” (Hb 2:6-9).

O que poucos percebem é que a estratégia de Satanás tem outro objetivo mais sutil e adota a abordagem indireta de destruir o senso moral e de responsabilidade do ser humano. O diabo tenta convencer o homem que ele não é um ser responsável por seus atos, mas que tudo o que faz é apenas resultado de seus instintos naturais e simiescos obtidos por processos evolutivos. Se não passamos de macacos, que culpa temos nós machos de sentirmos desejo de copular com tantas fêmeas quantas estiverem ao nosso alcance? Evolutivamente falando, se o nosso sêmen é de qualidade, o melhor é depositá-lo no maior número de fêmeas. Ou quiçá em outros machos, como os macacos fazem, não para procriar, mas por mera diversão.

Vivendo como animais e obedecendo apenas aos nossos instintos e hormônios, podemos deixar a consciência de lado e obedecer ao slogan muito usado nas campanhas de publicidade: “Você merece dar este presente a si mesmo”! É assim que nos tornamos cada vez mais obesos, indolentes, viciados e egocêntricos. Ou você não percebe isto na sociedade moderna?

Dentro do mesmo raciocínio irracional, que mal há em nos livrarmos de nossos macaquinhos ainda bebês ou dos macacões velhos e doentes, se são de uma linhagem ruim ou representam um estorvo à nossa evolução? Além disso, animais precisam garantir que seu território seja defendido, e quem é incapaz de se defender é descartável. Assim nada haveria de errado em promover guerras contra nossos semelhantes símios e exterminá-los, para que nosso clã e linhagem prevaleçam. Afinal, na teoria da evolução a sobrevivência é um direito dos mais fortes.

Nada de errado, portanto, em pensarmos e agirmos como macacos, em práticas como infidelidade, adultério, poligamia, homossexualismo, pedofilia, assassinatos, guerras, abortos, infanticídios, canibalismo, traições e tantos outros costumes simiescos. Alegar que não devemos praticar essas coisas porque evoluímos é conversa para macaco dormir, pois nossos bisavós continuam por aí, firmes, fortes e saltitantes pelos galhos das árvores. Aliás, do ponto de vista deles, são muito mais evoluídos do que nós humanos, já que vivem perfeitamente bem sem tantos apetrechos que nós humanos precisamos e em perfeita harmonia com o meio ambiente, algo que não conseguimos fazer.

Se não passamos de macacos, então não temos o direito de escravizar ou manter em cárcere privado nossos semelhantes, como fazemos nos zoológicos. Também precisaríamos eliminar as fazendas onde é promovido o trabalho escravo que obriga bovinos, ovinos e equinos a trabalham duro apenas em troca de alimento. O que pensar nos laboratórios de mutações e instalações de extermínio que criamos, as quais fariam de Josef Mengele e Adolf Hitler meros aprendizes de feiticeiro? Nelas torturamos, matamos, trituramos e cozinhamos nossos semelhantes suínos para transformá-los em salsicha.

Talvez um evolucionista corra se defender dizendo que o nível que atingimos na evolução nos dá o direito de subjugar os animais menos evoluídos para fazer valer a lei do mais forte. Mas por acaso não foi nesta posição de domínio (não de crueldade) que Deus colocou o homem desde o princípio? “Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo; as aves do céu, e os peixes do mar, e tudo o que percorre as sendas dos mares” (Sl 8:6-8).

Macacos me mordam se eu estiver errado ao afirmar que, se não passamos de animais, não existe vida eterna. Nunca teríamos sido criados por Deus, nunca teríamos recebido o sopro Divino e a capacidade de nos comunicarmos com o Criador, e nossa triste existência terminaria com a morte. Sem moral, sem responsabilidade, sem juízo, sem ressurreição, sem vida eterna – o melhor seria fazer como Paulo escreveu em tom de sarcasmo, após mencionar que em Éfeso havia lutado contra animais: “Se, como homem, combati em Éfeso contra as bestas, que me aproveita isso, se os mortos não ressuscitam? Comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1 Co 15:32). Ao argumentar contra os que defendem um homem-macaco que nem é Tarzan, seria errado este meu sentimento de estar lutando contra bestas? Não fui eu quem disse que os evolucionistas são animais; são eles que insistem ser.

Para terminar, deixo uma prima pulga para abrigar-se atrás da orelha dos evolucionistas: Se a evolução é um fato, em que estágio dela deveríamos estar para ter absoluta certeza de nossa origem e destino? Sim, pois se nosso cérebro continua evoluindo, o que nos garante que ele teria já evoluído o bastante para tirar conclusões corretas? Seria suficiente estarmos no século 21 ou o mais prudente seria aguardamos mais alguns milhões de anos antes de afirmar que “somos todos macacos”? Digo isto porque lá na frente poderemos olhar para as teorias atuais do mesmo modo como olhamos velhas fotos e nos envergonhamos, dizendo: “Nossa! Veja minha roupa, que ridícula! Eu acreditava estar na última moda”! O mais provável é que lá na frente diremos: “Nossa! Veja aquela teoria, que ridícula! E eu acreditava que aquilo era ciência”!

Não quero brigar com os evolucionistas, mas rogo a Deus para que possa levá-los a crer em Jesus e nos encontrarmos na eternidade com Cristo nos céus. Espero que você não esteja entre os que dizem ser Napoleão ou um macaco.

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A assembleia se reúne para ler livros?

Embora seja salutar que os irmãos passem um tempo juntos lendo e comentando livros de autores cristãos que ensinam a sã doutrina, esta não é uma prática que encontramos na doutrina dos apóstolos como sendo uma das reuniões da assembleia. O que encontramos na Palavra é que os primeiros cristãos se reuniam ao nome do Senhor Jesus “e perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” (Atos 2:42).

A “doutrina dos apóstolos” é o ensino inspirado que eles nos deixaram. Evidentemente ao perseverarmos na doutrina dos apóstolos estaremos também buscando o ensino da Palavra de Deus como um todo, pois os apóstolos constantemente citavam o Antigo Testamento em suas cartas para apontar como aquelas “sombras” ou “figuras” do passado se cumpriam agora em Cristo. No início da igreja não existia o Novo Testamento e as cartas dos apóstolos eram a doutrina que circulava entre as assembleias, além de revelações oportunamente feitas pelo Espírito por meio dos profetas (como eram os próprios apóstolos). Paulo enviava cartas a uma assembleia e exortava que fosse lida em outra e vice-versa.

“E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodiceia lede-a vós também” (Cl 4:16).

“Pelo Senhor vos conjuro que esta epístola seja lida a todos os santos irmãos” (1Ts 5:27).

Hoje não temos apóstolos ou profetas (no sentido de revelações fresquinhas vindas de Deus) mas temos a doutrina dos apóstolos e o Espírito Santo para nos guiar em toda a verdade. Foi com estas instruções que o apóstolo Paulo se despediu dos anciãos de Éfeso, entregando-os, não a algum sistema religioso, líder, dogma ou liturgia, mas a Deus e sua Palavra. “Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e à palavra da sua graça; a ele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados” (Atos 20:32).

Mas como seria hoje ensinada a “doutrina dos apóstolos” nas reuniões da assembleia? Por intermédio de irmãos que tenham algum dom de ministério da Palavra e nos moldes do que é ensinado em 1 Coríntios 14:26-40: “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. E, se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus. E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro. Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados”.

Como se pode perceber, tudo o que acontece em uma reunião da assembleia é em tempo real, ou seja, embora os irmãos que ensinam possam trazer o que aprenderam em seus exercícios individuais no estudo e meditação da Palavra, não trazem nada escrito para ler na reunião. O ministério é ao vivo e em cores.

Embora muitos irmãos possam exercer seus dons por meio da pregação e ensino em diferentes lugares, e usando diferentes meios como preleções, livros, folhetos e mais recentemente áudio e vídeo, na assembleia vemos que o ensino é feito na própria presença do Senhor, que está no meio, e do Espírito Santo que tudo dirige. “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18:20). Não se trata de uma reunião informal, nem dirigida por um homem ou aberta a palpites. Tudo é feito com a decência, ordem e respeito de quem sabe que o Senhor está no meio e é o eixo em torno do qual todas as coisas giram.

Na Palavra de Deus não existe qualquer ideia de uma “igreja virtual” ou congregada virtualmente, ou de um ministério trazido pronto para apenas ser apresentado por meio impresso ou eletrônico. A palavra “assembleia” significa “reunião” e esta tem um lugar definido no tempo e no espaço, à semelhança de quando o Senhor determinou o lugar e hora de seu encontro com os discípulos: “E, chegada a hora, pôs-se à mesa, e com ele os doze apóstolos” (Lc 22:14). Ou quando se encontrou com os discípulos a portas fechadas e em um encontro reservado, com lugar e tempo bem definidos: “Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco” (Jo 20:19).

Portanto é importante entender que, apesar de devermos estar sempre abertos a aprender dos irmãos, seja pelo ministério falado, escrito ou entregue por meios eletrônicos, quando a assembleia está reunida o caráter é outro. Ainda que Deus possa usar homens ali, não é para ouvir a homens que estamos ali, mas para recebermos o ministério da palavra pela direção do Espírito. E aqui entra algo muito importante sobre a palavra dita a seu tempo (e não enlatada), pois somente o Espírito Santo saberá quando é o momento de se trazer uma palavra de “edificação, exortação e consolação”, pois “o que profetiza fala aos homens, para edificação, exortação e consolação” (1 Co 14:3). “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação” (1 Co 14:26).

Mas será que quando uma assembleia é pequena e faltam dons de ministério da Palavra não poderíamos substituí-los pelo ministério escrito ou gravado? Entendo que esse tipo de ministério pode ser muito proveitoso se utilizado em outra maneira ou lugar, mas não na reunião da assembleia, por mais que humanamente falando ele possa trazer benefícios. Muitos erros na cristandade aconteceram por boa intenção. Colocar um homem à frente tinha a boa intenção de preencher a lacuna da falta de dons de ministério. Imprimir um “programa” ou liturgia com os textos previamente selecionados e explicados, como fazem em algumas igrejas católicas e protestantes, também tinha a boa intenção de evitar que algum ministrante inexperiente saísse dos trilhos. O problema é que essas “boas intenções” acabam esbarrando nesta ordem: “Não extingais o Espírito” (1 Ts 5:19). Há diversas maneiras de se “extinguir” o Espírito na reunião da assembleia.

Uma é colocando um homem à frente para que ensine, quer ele esteja inspirado ou não; quer ele esteja moralmente apto ou não. E isto nos leva a outra forma de se “extinguir” o Espírito, que é o pecado. Uma pessoa em pecado pode querer ou ser obrigada (no caso de um clérigo) a falar na carne e estará assim impedindo a ação do Espírito. As tradições, dogmas e liturgias previamente estabelecidas também não deixam margem para o Espírito agir com liberdade. É por isso que muitos cristãos nas denominações se sentem frustrados. Eles sabem que a Bíblia ensina uma coisa, mas não podem dizer aquilo ali porque a tradição e o dogma daquela “igreja” ensina outra, ou então a liturgia adotada não prevê improvisos. A falta de união entre os irmãos e as constantes intrigas também acabam apagando o Espírito, pois todos estarão tão ocupados uns com os outros que não terão ouvidos para escutar seu sussurrar.

Mas sua dúvida é se seria correto a assembleia congregar para o ministério da Palavra e, ao invés de ser este trazido por irmãos ali reunidos, alguém ler um livro, ouvir um áudio ou assistir um vídeo contendo o ministério de algum irmão vivo ou morto. Embora isso possa ajudar em muito a edificação dos santos (se for um material contendo a sã doutrina), não seria correto fazê-lo numa reunião com o caráter que tem a reunião de assembleia quando esta se reúne para “perseverar na doutrina dos apóstolos” por meio do ministério de diferentes dons de ensino, portanto não seria possível exercer o “falem dois ou três profetas, e os outros julguem… Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados” (1 Co 14:29-31). Como poderíamos julgar em tempo real o que está sendo lido em um livro? Como tomar as medidas que às vezes são necessárias nesse julgamento, como por exemplo corrigir o irmão que disse aquilo?

Outro problema seria substituir o ministério de “dois ou três” ensinado em 1 Coríntios 14 pelo ministério de um líder, guru ou mentor, transformando seu ensino em um dogma a ser seguido, como fazem algumas denominações religiosas. Estas chegaram até a adotar os nomes dos homens que foram usados por Deus no passado, como a Igreja Luterana (Lutero), Igreja Wesleyana (Wesley), etc. É interessante lembrar que J. N. Darby, que nos deixou uma ótima tradução das Escrituras, alertava que esta deveria ser usada apenas para estudos particulares, pois ele próprio nas reuniões usava a Versão King James, como faziam os irmãos com os quais ele congregava e como fazem hoje também as assembleias dos irmãos reunidos ao nome do Senhor nos países de língua inglesa.

As reuniões contempladas na passagem que diz que “perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” (Atos 2:42) são, portanto, ministério da Palavra, a ceia do Senhor e a reunião de oração. A ceia do Senhor é mais voltada para a adoração; a doutrina dos apóstolos é praticada pelo exercício local dos dons de ensino, e a reunião de oração permite que os irmãos tragam suas necessidades ou aquelas pertinentes à assembleia para compartilhá-las com os irmãos e, juntos, as apresentarem ao Senhor.

Estas são as ocasiões quando a igreja ou assembleia está congregada no caráter de “dois ou três reunidos” ao nome do Senhor. Não haveria como incluir nesse caráter as ocasiões quando os santos se reúnem, por exemplo, apenas para cantar hinos, ouvir gravações ou assistir vídeos de palestras da Palavra ou ler livros. São atividades muito salutares para o cristão ocupar-se com elas, mas não são reuniões da assembleia, pois os dons presentes não estão sendo exercitados como acontece quando cada reunião é descrita na Palavra. Além disso, o caráter de reuniões assim é informal, e não solene como quando o Senhor se põe no meio. Tenho certeza de que o clima era bem diferente quando os discípulos do Senhor se encontravam informalmente para comer ou conversar, daqueles momentos quando o Senhor se punha no meio deles para ensiná-los, ouvir suas necessidades ou ser contemplado e adorado.

É fácil enxergar a diferença se substituirmos as três reuniões - ministério da Palavra, adoração na ceia do Senhor e oração - por atividades que podem até mesmo parecer ter os mesmos objetivos:

Lermos um livro, ouvirmos uma gravação ou assistirmos um vídeo de ministério da Palavra seria a mesma coisa que deixarmos o Espírito Santo agir livremente e decidir quem ele quer usar para ministrar? Ter um programa previamente estabelecido, redigido por alguém que nem está presente, com um tema escolhido de antemão, seria a mesma coisa que o Espírito decidir se naquele momento a assembleia precisa de palavras de edificação, exortação ou consolação?

Assistirmos a um vídeo da ceia do Senhor seria a mesma coisa que participarmos dela, com pão e vinho e louvor? Ouvir uma banda, uma cantora ou uma gravação ou vídeo de hinos seria a mesma coisa que participarmos do canto conjunto e unânime dos santos reunidos? No céu o único que estará “no palco” será o Cordeiro de Deus, e o canto será de todos para ele, e não de alguém para uma audiência. Quando estamos reunidos em assembleia para adoração devemos pensar nisso como uma expressão na terra daquilo que faremos no céu.

Lermos orações previamente impressas em um livro de orações (se não estou enganado a Igreja Anglicana faz isso) seria a mesma coisa que apresentarmos as nossas necessidades a Deus, termos o “amém” de todos e darmos também ações de graça em uníssono?

Percebe como fica estranho pensarmos em algo assim no contexto de uma reunião da assembleia? Então como fazer em tempos de fraqueza como estes, quando talvez os melhores dons nem sequer estejam entre nós em uma pequena assembleia, mas espalhados pelas denominações e contaminados com ensino errôneo? Deveríamos mudar as bases estabelecidas por Deus em sua Palavra? Não. Devemos simplesmente reconhecer nossa fraqueza e fazer apenas aquilo que estiver dentro de nossas possibilidades.

Não há irmãos com conhecimento suficiente da Palavra para ministrarem numa pequena assembleia? Então o melhor não é tentar adaptar a reunião de ministério da Palavra transformando-a numa leitura de livro ou sessão de vídeo, mas simplesmente suprimi-la, ficando apenas com as reuniões da ceia do Senhor e de oração, já que estas não dependem de dons, pois todos somos igualmente sacerdotes com acesso a Deus para adorá-lo e também para levarmos as orações uns dos outros diante do trono da graça.

Mas nada impede que os irmãos promovam reuniões informais (que podem ser quando termina a ceia do Senhor ou a reunião de oração) para ler a Palavra acompanhada de livros de irmãos mais dotados, ouvir gravações de outras reuniões, assistir vídeos, cantar hinos, conversar, etc. Tudo deve ser feito com decência e ordem como convém aos santos, mas entendendo não ser aquela uma reunião da assembleia, que é quando o Senhor prometeu estar no meio de dois ou três congregados ao seu nome.

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Preciso entender para ser salvo?

A salvação não precisa ser “entendida” para ter efeito, porque se assim fosse haveria algo que dependeria de nós, de nossa inteligência e grau de conhecimento. Ao contrário, a salvação é recebida pela fé, não pela inteligência, e por isso Paulo resume de maneira tão breve a mensagem do evangelho em 1 Coríntios 15:1-4: “Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão. Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”. Da parte do homem pecador basta crer em Jesus, como mostram estas passagens:

”E, tirando-os para fora, disse: Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar? E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa. E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa“ (Atos 16:30).

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado“ (Mc 16:16).

“E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:14-16).

”Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido“ (Rm 10:8-11).

Agora vamos analisar estas passagens e compará-las com a falsa ideia de que seria preciso alguém entender a salvação ou mesmo ter a certeza absoluta de estar salvo antes de poder considerar-se salvo. Se o conhecimento da salvação fosse necessário para obtê-la, em Atos 16 Paulo e Silas deveriam ter dito algo mais ou menos assim ao carcereiro de Filipo: “Crê no Senhor Jesus Cristo e, quando você tiver certeza de sua salvação e do perdão de seus pecados serás salvo“… No caso de João 3 seria preciso que os israelitas no deserto entendessem como uma serpente de bronze era capaz de curar suas feridas, antes de serem efetivamente curados, o que levaria a uma salvação, não por fé, mas pela razão. Sem entendimento não haveria cura.

A passagem de Romanos 10 nos fala de crer no coração, portanto bem abaixo do cérebro e da razão e também em um lugar escondido onde estão guardados nossos sentimentos. Como não conhecemos o coração e os sentimentos íntimos de uma pessoa, não temos como julgar se ela crê ou não, a não ser pelo que sai de seus lábios ou pelos frutos de sua vida. Mas neste último caso também seria preciso esperar algum tempo antes de vê-los, lembrando que o ladrão na cruz não teve esse tempo e mesmo assim foi salvo. No caso dele e no nosso também a certeza de sua salvação não veio por entendimento das Escrituras ou por uma conclusão racional, mas pela fé na palavra do Senhor.

Antes de continuar é bom lembrar que apenas o Senhor conhece os salvos. De nossa parte podemos apenas deduzir que alguém seja ou não salvo por sua confissão da boca, por suas obras e seu andar. “Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus“ (2 Tm 2:19).

A salvação do crente é mostrada em figura na salvação do povo hebreu no Livro de Êxodo. Os primogênitos israelitas são ali substituídos no juízo pela morte do cordeiro, atravessam o fundo mortal do mar, se veem num deserto e mais tarde entram na terra prometida. Do mesmo modo existem diferentes etapas no processo de salvação, porém sabemos que, uma vez que a pessoa tenha nascido de novo, isto é, recebido vida que vem do alto pela aplicação que o Espírito Santo faz da Palavra numa alma, essa não terá mais escapatória. O Senhor completará a boa obra que começou nela como fez com Cornélio, um homem nascido de novo, porém não salvo, ao menos até ouvir o evangelho da morte e ressurreição de Cristo, crer e receber o Espírito Santo.

Traduzi um resumo que encontrei que talvez ajude a mostrar esses estágios. É inegável que uma pessoa que professe fé em Jesus, porém não tenha certeza do perdão de seus pecados, não estará vivendo completamente liberta ou na plena liberdade que Cristo lhe assegura. Mas se a sua fé for genuína é apenas uma questão de tempo até que ela perceba que já estava liberta e só não tinha entendido isso. Quando o guarda destranca a porta da cela, o preso ali está tecnicamente liberto, ainda que demore um tempo até ele perceber isso e caminhar até o lado de fora da prisão. Ninguém ousaria dizer que ele não foi libertado só porque está confuso e não entendeu ainda o que aconteceu.

Tenho para mim que a maioria dos salvos só irá obter a certeza de sua completa libertação no leito de morte ou no último segundo. Mas que Deus não deixará de salvar alguém que invoca o nome de Jesus, isso é líquido e certo. Afinal, estamos falando de um Deus que entregou o seu Filho para morrer por nós e não vai querer que se perca uma alma sincera, ainda que simples e sem grandes conhecimentos, só porque não teve capacidade intelectual de racionalizar sua salvação ou preencher algum formulário com todas as respostas corretas.

Um exemplo maravilhoso de salvação é o de Nicodemos, um homem que foi levado pelo Espírito Santo a ouvir a Palavra em João 3, nasceu de novo e passou a se preocupar com os interesses do Pai defendendo Jesus no final do capítulo 7 do mesmo evangelho e finalmente se apresentando de forma corajosa e destemida (enquanto outros fugiam) para ajudar a sepultar Jesus (Jo 19). Obviamente Nicodemos ainda não fazia parte da igreja que só seria formada em Atos 2, mas quando olhamos o caso de Cornélio temos o processo completo: ele era nascido de novo, e por esta única razão podia buscar a Deus, ouviu o evangelho completo de Pedro, incluindo a morte e ressurreição de Cristo, creu e recebeu o Espírito Santo.

Este texto que encontrei parece resumir bem o processo da salvação de uma alma, a saber, o novo nascimento, o selo com o Espírito, a convicção de estar morto para os seus pecados, para a lei, para a carne e para o mundo, e o desfrutar do fato de estar assentado, em Cristo e com Cristo, nos lugares celestiais.

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (Ef 1:13-14).

1. Nascemos de novo, recebemos vida eterna, e nos tornamos filhos de Deus pela fé na Pessoa de Cristo (Evangelho de João, 1 João e Gálatas). Somos, ao mesmo tempo, convertidos, vivificados e santificados pela ação da Palavra aplicada em nós pelo Espírito.

2. Nossos pecados são remidos, e somos lavados e justificados, e somos selados com o Espírito Santo quando colocamos fé na morte de Cristo e em seu sangue derramado na cruz. (Romanos, 1 jo 1, Efésios e Atos 10).

3. Precisamos nos considerar mortos para o pecado com base no fato de Cristo ter morrido por nós para sofrer o juízo, e pelo fato de termos morrido com ele. (Rm 6).

4. Obtemos a libertação de nós mesmos, depois de termos passado na prática por Romanos 7) e entendermos nossa incapacidade de nos ajudarmos a nós mesmos. Nossa libertação é igualmente obtida pela fé na morte de Cristo em nosso lugar e em sua ressurreição, com base na qual receberemos completa libertação na ressurreição do corpo, e com base em que obtemos a libertação presente, enxergando o pecado em nós como já tendo sido julgado na morte de Cristo, e caminhando por fé na liberdade em que somos colocados em Cristo. (Rm 7-8:11).

5. Existem outros pontos posteriores não abordados neste resumo, como nossa posição na casa de Deus e no corpo de Cristo, além do arrependimento. (T. Roberts).

A carta aos Romanos é o evangelho explicado, portanto ali podemos ver mais detalhes de como Deus trabalha na alma que foi vivificada pela Palavra aplicada pela ação do espírito (a água e o Espírito de João 3, ou novo nascimento).

O capítulo 1 nos fala da condição do homem e do mal generalizado encontrado no mundo, em especial no paganismo. O capítulo 2 mostra como é infrutífera a tentativa humana de controlar o mal, inclusive da incapacidade da Lei mosaica em justificar o homem. A conclusão no capítulo 3 é que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, merecendo assim o juízo. Então no final do mesmo capítulo é revelada a justiça de Deus e o sangue de Cristo, o qual assumiu na cruz o lugar do homem pecador. Romanos 4 nos fala da justificação do homem por graça e o capítulo 5 mostra o domínio da graça e seus efeitos.

Uma vez tendo deixado claros o pecado, o juízo e a provisão de Deus para o pecador, o capítulo 6 vai tratar dos efeitos disso no homem perdido e escravo do pecado, da lei e da carne. O capítulo 6 fala da libertação do mundo e do pecado em seu sentido exterior, o que é tipificado no batismo que representa considerarmo-nos mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus. O capítulo 7 fala das cadeias da lei sendo rompidas pela morte de Cristo, que ressuscitou e, portanto, não está mais sujeito à lei. O crente vive pela fé no Filho de Deus em sua condição atual. Romanos 8 nos fala da libertação da carne, o que se obtém pelo poder do Espírito que agora habita no crente e o capacita a viver em novidade de vida.

Quando lemos Romanos 7 encontramos um homem aflito e buscando a libertação. Ao final do capítulo ele clama: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”, mas a resposta vem logo em seguida: “Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado. Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus [que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito]. Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 7:24-25; 8:1-2 - a parte entre chaves não consta dos melhores manuscritos).

Considere o homem de Romanos 7 como tendo sido vivificado, ou seja, ele já nasceu de novo, tem vida vinda de Deus e pode agora chamar a Deus de Pai, mas ele ainda não está liberto. Não é alguém perdido em seus pecados, mas também não é alguém liberto. É possível cair em dois erros quando o assunto é o homem do capítulo 7 comparado ao do capítulo 8. Alguns acham que o homem do capítulo 7 ainda não se converteu, que é um incrédulo perdido em seus pecados. A razão de considerá-lo assim é a palavra “carnal” que aparece em Romanos 7: “eu sou carnal, vendido sob o pecado”. Mas é preciso entender a diferença entre “carnal” e “natural”.

Existe o homem “natural”, o “carnal” e o “espiritual”. O homem de Romanos 7 não é o homem natural, “morto em ofensas e pecados” (Ef 2:1) e este assunto é melhor detalhado nos capítulos 2 e 3 de 1 Coríntios. No capítulo 2 o apóstolo diz que “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Co 2;14). No capítulo 3 o termo usado é outro, pois está falando de crentes e não de incrédulos. Crentes carnais, mas ainda assim crentes. “Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens”? (1 Co 3:3).

Portanto uma pessoa convertida pode não ser uma pessoa “espiritual”, e é por isso que Paulo faz esta distinção ao escrever aos Gálatas: “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado” (Gl 6:1). Ao exortar os que são “espirituais” a ajudarem os “carnais”, Paulo demonstra que um está mais capacitado que o outro a identificar o mal e ajudar a restaurar seu irmão, mas também mostra que essa é uma condição variável, pois mesmo o “espiritual” deve vigiar para não cair.

William Kelly escreve em seu artigo “Deliverance”: “Quem são eles (os ‘espirituais’)? Aqueles que conhecem melhor o odioso mal que existe na carne e, o que é ainda mais importante, a graça de Deus. Estes podem, portanto, se apiedarem das almas que são enganadas e se desviam do Senhor. Um homem carnal conhece tão pouco a Deus e a si mesmo que não é apto para fazer esse trabalho (de ajudar a restaurar seu irmão). Ele acabaria errando, tanto para o lado da camaradagem, que o levaria a dar pouca importância ao pecado, como para o lado da aspereza. O homem espiritual, por graça, mantém o equilíbrio. Ele é capaz de condenar o pecado e ao mesmo tempo auxiliar a alma em graça visando sua restauração”.

Isto nos faz entender que a carnalidade pode se manifestar em um crente tanto na forma de libertinagem como de legalismo. É fácil enxergar esta segunda tendência quando vemos que o homem do capítulo 7de Romanos está aflito por não conseguir ver em seu corpo de carne uma completa sujeição à lei. Ele cai no farisaísmo quando deixa de fazer essa cobrança de si mesmo e passa a cobrar isso dos outros.

Ao fazermos esta distinção entre o natural, o carnal e o espiritual é preciso entender que apenas o primeiro ainda não está salvo. Um crente carnal possui o Espírito Santo (“se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” - Romanos 8:9), porém não anda no Espírito ou julga as coisas no Espírito. O homem carnal de Romanos 7 está nessa batalha porque é nascido de novo e tem vida vinda de Deus, ou nem se incomodaria com isso se fosse incrédulo. Ele quer fazer o bem, mas se sente miserável por não conseguir. Ele busca a Deus, ao contrário do homem natural descrito em Romanos 3. O homem nascido de novo tem horror ao pecado e se deleita em Deus, mas pode ainda não viver na condição de liberdade do homem de Romanos 8.

Resumindo, somos salvos pela fé em Cristo, e não pelo entendimento de nossa salvação. E a fé é um dom de Deus e é ele o autor de nossa salvação, não nós ou nossas certezas. Se fosse diferente e precisássemos ter certeza de nossa salvação para termos garantia dela, ao menos nesta parte o mérito de nossa salvação seria nosso e mesmo essa certeza poderia variar de pessoa para pessoa. Enquanto alguns viveriam radiantes com a certeza do perdão de seus pecados, outros teriam aqui e ali algumas dúvidas que lhes causariam inquietação. Ou então, quando caíssem em pecado e perdessem a comunhão com Deus, poderiam também se sentir vacilantes em afirmar que estariam completamente salvos (embora efetivamente estivessem desde o momento em que creram em Jesus).

Se a salvação dependesse de nossos sentimentos de certeza ela também iria variar conforme nossas emoções. Poderíamos encontrar pessoas que afirmaram durante anos a certeza de sua salvação, mas que por alguma disfunção física ou mental causada por enfermidade chegassem ao fim da vida duvidando dela. Podemos descansar na certeza de que Deus não deixa confuso alguém que busca por ele ou clama pelo nome de Jesus para ser salvo.

“Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10:11-13)

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Aliança de noivado ou casamento é pecado?

Você escreveu fazendo uma pergunta que parecia ser uma dúvida, mas depois que respondi achando estar diante de um cristão procurando aprender, sua resposta revelou que você não tinha uma dúvida, mas apenas estava buscando oportunidade de apresentar suas afirmações. Considerando o volume de e-mails que recebo, evito gastar tempo respondendo para pessoas que escrevem apenas para discordar ou me desafiar para um debate. Prefiro usar meu tempo para ensinar os que desejam sinceramente aprender o que a Bíblia diz sobre diversos assuntos.

Inicialmente você perguntou: ”como a cristandade deve se comportar com relação ao uso das alianças de casamento uma vez que essas são de origem pagã? Diz a Bíblia que não devemos tocar no que é imundo. Como interpretar essa questão da perspectiva bíblica cristã”?

Quando respondi com o exemplo do anel que o pai colocou no dedo do filho pródigo, você veio com uma longa explicação tentando justificar que aquilo era uma parábola, portanto tudo ali era simbólico e não servia como endosso do Senhor para o uso de alianças ou anéis. Você acrescentou dizendo ainda ser “uma mística perigosa o ato de usar uma aliança de casamento” e que “quantos mesmo usando aliança estão dentro de lugares com pessoas que não deveriam? E quantos que não usam aliança respeitam de verdade o compromisso? Creio que certas verdades deveriam ser pregadas pelo sistema religioso”.

Seus argumentos são atirados a esmo e eu começaria dizendo que Deus não criou nenhum sistema religioso depois do judaísmo (que Deus colocou de lado), portanto argumentar que “certas verdades deveriam ser pregadas pelo sistema religioso” é um argumento míope, pois não enxerga onde está hoje o mal maior da cristandade, que é justamente dividir os cristãos por diferentes sistemas religiosos. Deus criou “um corpo” e não vários.

O argumento de que certas pessoas usam aliança e não respeitam o compromisso, enquanto outros não usam e “respeitam de verdade o compromisso”, serve para qualquer coisa. Eu posso apontar pessoas que usam ou não automóveis, computadores, sapatos, cuecas… pegue qualquer coisa como exemplo e você encontrará usuários fiéis e infiéis. Eu diria ainda que o ato de não usar uma aliança por motivos religiosos é, na realidade, mais uma superstição ou mandamento criado por homens para poderem se achar mais justos do que outros. Será que você repara em alguém de aliança e o considera inferior a você que não usa aliança? É melhor ler a parábola do fariseu e do publicando orando no Templo, pois isso está me cheirando a farisaísmo.

O argumento de ser a aliança de noivado ou casamento um costume católico também não tem fundamento. Se você se diz contrário ao uso de aliança baseado na ideia de que ela, como escreveu, “foi imposta pelo Papa Inocente II”, então é melhor parar de usar o Novo Testamento, pois sua compilação de 27 livros é fruto do que foi decidido pelos bispos de Roma. Durante a Reforma Protestante o próprio Lutero não queria aceitar os livros de Hebreus, Tiago, Judas e o Apocalipse. Eles constavam da versão de Jerônimo, a Vulgata, que traduziu os textos bíblicos do hebraico e grego para o latim logo no início do cristianismo. Mas Lutero acabou cedendo na hora de traduzir a Bíblia para o alemão, pois eles já faziam parte do cânon usado pela igreja católica.

O fato de anéis ou alianças serem usados em rituais pagãos não significa que não possamos usá-los. Facas também são usadas em rituais pagãos e não acredito que você tenha deixado de comer frango com farofa depois que descobriu uma tigela cercada de velas numa encruzilhada. E quando falta luz em sua casa tenho certeza de que você tem uma vela na gaveta para essa emergência, e se tiver filha, provavelmente coloque fitas em seu cabelo. Tudo isso é usado na macumba e na adoração de demônios.

O costume de usar alianças em compromissos de noivado e casamento não é invenção católica, mas é bem mais antigo. Em nossa cultura o costume foi herdado dos romanos pagãos, tendo sido adotado por judeus e cristãos como um símbolo visível de compromisso. Antes que você se regozije e exclame: “Ahá! Então é um costume pagão”! Devo lembrá-lo que dos romanos também herdamos o Direito Romano, a república, os algarismos romanos, o concreto, os livros encadernados, o calendário Juliano, as privadas e os encanamentos nas casas. Se você é tão rigoroso contra o uso de elementos do paganismo, fico imaginando como deve ser difícil sua vida sem usar o calendário, já que os nomes dos meses são em sua maioria nomes de deuses pagãos da Roma antiga.

Janeiro vem do deus Jano, Fevereiro se refere ao festival religioso Februália ou Purificação, Março é em honra ao deus Marte, Abril tem a ver com Afrodite, deusa do amor, Maio celebra Maia, mãe do deus Mercúrio, Junho vem de Juno, deusa protetora das mulheres, Julho foi criado em homenagem a Júlio César no ano 44 a.C., Agosto veio para homenagear o imperador César Augusto em 8 D.C. Até que poderia ser uma vantagem evitar os meses com nomes pagãos e ficar apenas com Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro para trabalhar. Mas considerando que o Imposto de Renda leva o equivalente a cinco meses de salário do trabalhador, todos os anos você ficaria devendo um mês para o Leão.

O uso de anéis é costume antigo entre o povo de Deus. Quando Tamar se disfarçou de prostituta para seduzir Judá, ela pediu que ele lhe desse “o teu selo, e o teu cordão, e o cajado que está em tua mão” (Gn 38:18). A palavra “selo” é, no original, sinete ou anel de assinatura, como os usados pelos reis para “carimbar” um documento ou um lacre. O próprio Senhor usa a mesma expressão ao falar através do profeta Jeremias “Vivo eu, diz o Senhor, que ainda que Conias, filho de Jeoiaquim, rei de Judá, fosse o anel do selo na minha mão direita, contudo dali te arrancaria” (Jr 22:24).

Quando Tiago fala da discriminação que os cristãos praticavam já nos primeiros dias, argumenta “se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo” (Tg 2:2), o que mostra que havia cristãos que tinham o costume de usar anéis. A repreensão de Tiago não é contra o que usava o anel, mas contra os que discriminavam os mais pobres favorecendo os mais ricos. Naquele tempo alguém andar com um sinete ou anel de assinatura era como hoje andar com um cartão de crédito, pois o sinete era a garantia em promissórias e outros documentos.

No Egito Antigo o anel era também um símbolo de autoridade, pois “tirou Faraó o anel da sua mão, e o pôs na mão de José” ao dar a ele a posição de vice-rei de todo o Egito. Mas no passado já vemos um anel ser usado como sinal de compromisso, não diretamente do noivo dando à noiva, mas do servo do pai do noivo. Quando Abraão enviou seu servo em busca de uma noiva para seu filho Isaque, após encontrar Rebeca e certificar-se estar diante da escolhida, o servo explica aos pais dela o que fez: “Então eu pus o pendente no seu rosto, e as pulseiras sobre as suas mãos” (Gn 24:47). Esse “pendente” era na realidade uma argola no nariz e significava compromisso.

Tenho certeza de que você tem mais uma dezena de argumentos contra anéis, pulseiras, mas não estou interessado em ouvir. Será que você pertence a alguma religião legalista, que avalia a fé das pessoas pelas roupas que vestem, ou se usam ou não anéis? Então devo lembrá-lo de que quando o Senhor Jesus esteve na terra ele tratou com brandura os corruptos e as prostitutas e falou com rigor contra os religiosos cheios de justiça própria, como eram os fariseus.

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Posso testemunhar de Cristo na ilegalidade?

Você perguntou se estar ilegal em outro país, entendendo que Deus o enviou para residir e dar testemunho ali, teria algum respaldo da Palavra de Deus. Vou perguntar algo parecido: Assaltar um banco, entendendo que Deus o mandou assaltar para contribuir para a obra do evangelho, teria algum respaldo na Palavra de Deus? Viu o absurdo que é tentar santificar o ilícito e justificar o erro? Quem está ilegal em outro país pode dizer o que quiser, mas não pode querer se justificar com tal argumento. Ao dizer “estou ilegal” ele já diz tudo.

Alguém poderia entrar ilegalmente na Coreia do Norte, por exemplo, não para trabalhar e ganhar dinheiro, mas com o único objetivo de levar a Evangelho, por ser esta a única maneira de fazer o nome de Cristo naquele país onde isso é proibido. Quem faz isso chega a arriscar a vida, mas está amparada pelo que Pedro disse aos que o proibiam de pregar: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).

Mas dizer que entrou ilegalmente em um país onde o evangelho é permitido porque tinha a intenção de testemunhar de Deus não cola por uma razão muito simples: Que testemunho de Deus você daria à polícia se fosse pego? O único testemunho seria de que cristãos não obedecem às autoridades. Mas devemos obedecer às autoridades em tudo aquilo que isso não significar desobediência a Deus. Os alemães usaram da desculpa de obedecerem às autoridades enquanto matavam judeus, mas obviamente estavam distorcendo o sentido da obediência a Deus.

“Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela. Porque ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal. Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela consciência. Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo sempre a isto mesmo” (Rm 13:1-6).

O que a passagem diz é que toda autoridade foi instituída por Deus, inclusive quando age com injustiça. Lembre-se de que Jesus foi entregue injustamente à morte por Pilatos, a quem ele disse: “Nenhum poder [autoridade] terias contra mim, se de cima não te fosse dado” (Jo 19:11). A passagem de Romanos também mostra que resistir à autoridade é resistir a Deus (e isto inclui manifestações contra o governo, Atos de desobediência civil, etc.), e que a autoridade é ministro de Deus, e não dos homens, e tem poder de vida e morte sobre os homens. Diz ainda que devemos pagar impostos, independente de considerá-los abusivos ou não.

Quando Jesus foi cobrado ele ordenou a Pedro que fosse pescar e pagasse o imposto com a moeda que encontraria na boca do Peixe. Havia três lições ali: a primeira era a submissão à autoridade que exigia o imposto, a segunda era que as coisas não caem simplesmente do céu, mas exigem trabalho (pescar), e a terceira que, quando trabalhássemos em obediência às autoridades e cumprindo nossas obrigações com o pagamento de impostos, Deus supriria nossas necessidades de forma miraculosa, ainda que fosse mediante o trabalho.

Você falou ainda de outras artimanhas que cristãos estariam usando, como viajar ao Brasil para voltar ao país estrangeiro com novo passaporte mentindo que perdeu o atual, e ainda inventar algum esquema para conseguir ilegalmente a aposentadoria. Ora, todos esses ilícitos são pecados graves e nem é preciso dizer que o cristão deve evitá-los. A pessoa que se envolveu com isso deve abandonar essas práticas e confessar seus pecados a Deus e aos irmãos. Provavelmente ela será disciplinada no lugar onde congrega, pois não tem cabimento um agrupamento de cristãos fazer vista grossa para essas transgressões, pois não são meros deslizes, mas graves e premeditadas.

Existem situações, como as que citou depois, quando um cristão se envolve com algum esquema que parece lícito até ficar patente tratar-se de pirâmide financeira ou algo semelhante. Enquanto o esquema é tolerado pelas autoridades por ainda não existir clareza quanto à sua legalidade os irmãos não podem agir além de admoestar o irmão alertando que aquilo pode ser um erro. A Palavra nos ensina que devemos ter cuidado até com as coisas lícitas, pois mesmo que sejam legais elas podem não ser apropriadas a um cristão. Por exemplo, o Uruguai legalizou o uso da maconha, mas será que um cristão deveria usá-la? Eu entendo que não.

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma. Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam” (1 Co 6:12; 10:23).

Mas a partir do momento que algo é declarado ilícito o cristão deve deixar imediatamente aquela prática, a menos que estejamos falando de países contrários ao evangelho que proíbem a pregação e a reunião dos cristãos, pois se deixássemos de fazer isso estaríamos desobedecendo a Deus. Geralmente o que move alguém a entrar em esquemas de dinheiro fácil não é a necessidade, pois é possível ganhar a vida até lavando privadas, o que nem todos estão dispostos a fazer. A questão é que esses esquemas apelam para a ganância e o desejo de ficar rico sem grandes esforços. A avareza, que é o amor ao dinheiro, é um pecado tão grave quanto prostituição e adultério. Muitos cristãos se envolvem nisso por desejarem levar um padrão de vida acima daquele que Deus tem para eles.

É claro que um cristão pode ser rico, se Deus abrir as portas para que seja e tenha o suficiente para si e para ajudar a outros e à obra de Deus. Mas devemos nos lembrar de que isso é exceção, e não a condição normal ao cristão que vemos em Tiago 2:5 e 1 Timóteo 6:9: “Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? … Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína”.

Nicodemos, José de Arimateia, Barnabé, Lídia e também as mulheres que serviam a Jesus com seus bens eram pessoas ricas, mas repare que elas aparecem na Palavra sempre conectadas com sua voluntariedade em ajudar. O que tinham era na realidade de Deus, que havia colocado em suas mãos mais do que necessitavam para poderem ajudar a outros. José de Arimateia doou um sepulcro novo para Jesus, Nicodemos comprou os aromas para seu sepultamento, Barnabé entregou sua propriedade para a manutenção da obra do Senhor e Lídia, uma empresária, abria sua casa para os irmãos. As mulheres que seguiam a Jesus providenciavam para que nada faltasse a ele e aos apóstolos. Apesar de Jesus ser capaz de multiplicar pães e peixes era seu desejo que os que o seguiam tivessem tal exercício, como acontece hoje.

Você menciona ainda cristãos sacoleiros e entendo que muitas vezes as dificuldades econômicas exigem que alguém viaje a outro país para trazer mercadorias e vender no mercado informal. Existe um limite legal para fazer isso e o cristão deve respeitá-lo, ou corre o risco de passar de comerciante informal, como é um vendedor de balas no semáforo, a um contrabandista. Muitos que insistem nessa prática acabam perdendo a mercadoria e até mesmo presos, aí sim, sem condições de sustentar sua família, quando não se envolvem com quadrilhas e ficam amarrados a elas correndo o risco de serem mortos se abandonarem o esquema. Se um cristão estiver fazendo isso em caráter emergencial deve buscar logo uma alternativa ou um meio de legalizar sua atividade, pois não existe na Palavra de Deus nenhum respaldo para continuar trabalhando na ilegalidade.

Nossa carne é extremamente ladina, e precisamos vigiar contra ela, pois sempre terá bons argumentos para agirmos fora da lei. Se cremos que Deus realmente provê nosso alimento e com que nos vestirmos, podemos orar e buscar fazer a sua vontade, tendo a certeza de que no momento certo ele proverá, não para sermos ricos, mas para o necessário.

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A salvação é condicional?

A passagem em Colossenses 1:21-23 pode dar a impressão de que a salvação é condicional, e realmente dará se tirarmos o versículo 23 de seu contexto, não apenas na epístola, mas no conjunto das Escrituras: “SE, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido” (Cl 1:23). Mas entenda que este “se” não está aí como condição para colocar em dúvida a salvação de um crente verdadeiro e sincero, mas para nos julgarmos se realmente estamos salvos pela fé ou se estamos tentando conquistar ou preservar nossa salvação pelas nossas obras ou comportamento. É pela fé que somos salvos e é pela fé que permanecemos salvos, porque este é o alicerce (“fundados”). Veja a passagem toda:

“A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou no corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis, se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Co 1:21-23).

Repare que Deus está falando de um verdadeiro salvo e de como ele mudou completamente de posição: de estranho e inimigo de Deus por causa de suas obras más, para reconciliado, santo, irrepreensível e inculpável aos olhos de Deus. Tudo isso aconteceu não por nossos méritos, mas pela obra daquele que “nos reconciliou no corpo da sua carne (de Cristo), pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis e inculpáveis”. Não fomos nós mesmos que nos reconciliamos com Deus e nos apresentamos santos, irrepreensíveis e inculpáveis, mas tudo isso foi feito por Cristo. No que diz respeito ao nosso pecado, morremos com Cristo e no que diz respeito à nossa nova vida, estamos já ressuscitados com Cristo. A passagem abaixo diz tudo:

“Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição; sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos; sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos certamente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8:5-11).

Apesar de nossa condição atual ser ainda de pessoas vivendo em um corpo de carne e sujeito ao pecado, nossa posição já permanente é a de quem morreu e ressuscitou. Falta apenas passarmos da condição para assumirmos definitivamente a posição que já temos diante de Deus. É mais ou menos como um presidente que ganha as eleições: ele já tem garantida sua posição de presidente do país, mas sua condição é a de quem ainda aguarda o dia em que receberá a faixa presidencial. Quem conhece o processo sabe que nesse ínterim ele já deve comportar-se como presidente. Portanto, enquanto não estivermos em nossos corpos ressuscitados somos exortados a sermos aqui perante o mundo aquilo que já somos ali perante Deus. E aos olhos de Deus somos “santos, e irrepreensíveis e inculpáveis” (Cl 1:22).

O teste para qualquer um que diz ser cristão é observar se permanece fundado e firme na fé. Se permanecer, então ele é uma pessoa verdadeiramente santa e inculpável aos olhos de Deus. Quem é nascido de novo irá, sem dúvida alguma, permanecer na fé, mesmo que seu caminhar tenha altos e baixos. Não é o fato de ele eventualmente vir a cair em pecado que irá significar que nunca foi salvo, “porque sete vezes cairá o justo, e se levantará; mas os ímpios tropeçarão no mal” (Pv 24:16). A evidência de sua salvação está no voltar a se levantar, pois aquele que tem o Espírito de Cristo já é dele (Rm 8:9) e sua consciência não o deixará tranquilo enquanto estiver prostrado. A diferença entre o perdido e o salvo não está em este último ser incapaz de pecar, mas em ser capaz de confessar o seu pecado e voltar à comunhão com Deus. O ímpio, quando peca, não liga nem um pouco por ter ofendido a Deus e segue despreocupadamente em seu caminho de impiedade.

Portanto, o verdadeiro salvo não se moverá “da esperança do evangelho” que é, em sua essência, a graça ou favor imerecido de Deus para com o pecador. Ele pode perder sua comunhão com Deus e viver miseravelmente até recuperá-la, mas não perderá sua salvação que é eterna e foi dada gratuitamente por Deus, “porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Rm 11:29). Mas aquele que um dia apenas professou crer (como Simão, o mago, de Atos 8:13) ou adotou uma religião deixando de lado alguns maus hábitos logo será como uma porca lavada que volta a se revolver no lamaçal. (2 Pe 2:22). Às vezes isto pode não ser muito evidente para quem enxerga de fora, pois, uma das características do falso cristão dos últimos dias é que ele tem “aparência de piedade”, ou seja, é hipócrita (veja mais em 2 Timóteo 3). Este representa a semente que caiu sobre o terreno rochoso, que recebe a Palavra até com alegria (ou, como costumamos dizer, só no “oba-oba”), mas não tem raiz e logo se seca.

Mas a verdadeira fé tem raiz, pois é “fundada”, isto é, enraizada e incapaz de sair do lugar. Já a falsa profissão cristã, tal qual planta seca, é desarraigada com facilidade e levada por qualquer vento, seja ele de doutrina ou de sedução carnal. Ao contrário da falsa conversão, a verdadeira fé faz a esperança do evangelho ficar cada vez mais preciosa ao coração à medida que o tempo passa, mas o falso cristão não gosta de ser confrontado com a Verdade da Palavra de Deus, preferindo agarrar-se aos dogmas e preceitos de sua religião, muitos deles sem qualquer base bíblica. A verdadeira fé sente o coração arder sempre que escuta falar de Jesus; sempre que lê ouve ou lê a Palavra de Deus; a falsa fé só sente alegria com as manifestações exteriores da religiosidade humana, como títulos eclesiásticos, posição de destaque em sua religião, festivais, shows, eventos sociais na “igreja”, etc.

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Os gigantes sobreviveram ao dilúvio?

Entendo que os “gigantes” de que fala o capítulo 6 de Gênesis não seriam necessariamente homens grandes, mas grandes homens. ”Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama” (Gn 6:4). Uma teoria é que as histórias acerca desses homens com superpoderes tenham dado origem às lendas dos deuses da mitologia egípcia, grega e romana. É bastante comum na mitologia encontrarmos exemplos de “deuses” casando-se com mulheres e gerando homens poderosos.

Apesar de a ideia de anjos copulando com seres humanos ser refutada por alguns, quando reunimos outras passagens da Bíblia ela começa a ganhar sentido. Judas, por exemplo, fala de duas instâncias envolvendo anjos: ”E aos anjos que não guardaram o seu principado (“sua condição original”, segundo a versão de J. N. Darby, literalmente “domicílio”), mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne [literalmente “carne estranha”], foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno” (Jd 1:6-7).

O interessante é que tanto Judas quanto Pedro citam o Livro de Enoque, o qual obviamente não é a Palavra de Deus, mas que ao menos nas passagens citadas ganha um lugar no cânon sagrado, as quais são assim endossadas pelos dois apóstolos. Compare a passagem acima de Judas com o texto tirado do apócrifo 1 Enoque que citamos aqui apenas a título de ilustração. Volto a alertar que o livro de Enoque não é a Palavra de Deus, mas faz parte da tradição judaica:

“Ide e fazei conhecido dos Vigilantes do céu quem abandonou os lugares celestiais, o lugar santo e eterno, e se contaminou com mulheres… Por terdes abandonado os lugares celestiais santos e eternos, e deitado com mulheres e se contaminado com as filhas do povo… não fiz esposas para vós, pois a habitação que cabe aos seres espirituais dos lugares celestiais são os lugares celestiais… Atai as mãos e os pés de Azazel e jogai-o nas trevas… Deus cobriu sua face para que não veja a luz; para que ele seja lançado no fogo no grande dia do juízo… Atai Semjaza e os outros que estão com ele, os quais fornicaram com as mulheres, para que morram junto com elas em toda a sua corrupção… Atai-os por setenta gerações sob as rochas da terra até o dia de seu juízo e de sua consumação, até que termine o juízo eterno” (1 Enoque 12:4; 15:3, 7; 10:4-6; 10:11-12).

Pedro também inclui uma citação do livro de Enoque que você irá identificar como sendo o final do texto logo acima: ”Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo; E não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, pregoeiro da justiça, com mais sete pessoas, ao trazer o dilúvio sobre o mundo dos ímpios; E condenou à destruição as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinza, e pondo-as para exemplo aos que vivessem impiamente” (2 Pe 2:4-6).

Entendo que os três episódios reunidos e citados por Pedro numa só sequência estão intimamente relacionados. O primeiro por nos remeter a Gn 6 e ao intercurso ocorrido entre anjos que assumiram a forma humana e mulheres. Estes estão presos até agora e é bom observar que não são todos os anjos caídos na rebelião de Satanás que se encontram presos hoje, portanto estes devem ter feito algo muito fora do padrão de simplesmente servirem de emissários ou ministros do diabo.

O segundo episódio fala do dilúvio, e não é difícil concluir que Deus fez isso para evitar a corrupção de toda a descendência humana. Ele havia prometido no Éden que da semente da mulher viria o Salvador, portanto uma estratégia de Satanás pode muito bem ter sido a de corromper essa semente e transformar a raça humana numa raça híbrida.

Finalmente menção é feita a Sodoma e Gomorra, o episódio quando os homens da cidade quiseram ter relações com ”carne estranha”, isto é, os dois anjos enviados por Deus para salvar Ló e sua família.

Mas voltando à sua pergunta inicial, se os gigantes de Gênesis 6 teriam sobrevivido ao dilúvio, a resposta é um enfático NÃO! A razão é simples, a Palavra de Deus afirma categoricamente que ninguém, além de Noé e sua família, sobreviveu ao dilúvio, portanto quem se atreveria a contestar o que diz a Palavra de Deus? Infelizmente existem alguns que discordam da Palavra de Deus neste ponto, mas seria surpresa se eles não existissem, pois aí as próprias profecias bíblicas que falam desses seriam invalidadas.

“Disse o Senhor: ‘Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, os homens e também os animais grandes, os animais pequenos e as aves do céu. Arrependo-me de havê-los feito’. A Noé, porém, o Senhor mostrou benevolência… Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne em que há espírito de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará” (Gn 6:7-17).

“E eu convosco estabeleço a minha aliança, que não será mais destruída toda a carne pelas águas do dilúvio, e que não haverá mais dilúvio, para destruir a terra” (Gn 9:11).

“E não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem” (Mt 24:39).

“Comiam, bebiam, casavam, e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio, e os consumiu a todos” (Lc 17:27).

“E não perdoou ao mundo antigo, mas guardou a Noé, pregoeiro da justiça, com mais sete pessoas, ao trazer o dilúvio sobre o mundo dos ímpios” (2 Pe 2:5).

“Pelas quais coisas pereceu o mundo de então, coberto com as águas do dilúvio” (2 Pe 3:6).

A menos que esses ”valentes que houve na antiguidade, os homens de fama” (Gn 6:4) fossem também anfíbios, eles também acabaram morrendo no dilúvio como todos os seres terrestres. A Bíblia não menciona se depois do dilúvio os anjos teriam voltado a praticar a mesma coisa, mas eu particularmente creio que não. Creio que os gigantes que encontramos a partir daí provavelmente seriam homens comuns, como existem pigmeus e gigantes até hoje e eles não tem nada de especial além da estatura. Mil anos mais tarde do episódio de gn eles aparecem descritos pela mesma palavra hebraica “nefilim” em Números 13:33. Existe uma dúvida se a palavra “nefilim” deve ser traduzida como “gigante”, “caído” ou “que faz cair”. No dicionário hebraico uma das opções seria “brutamontes”.

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O dispensacionalismo tem erros graves?

Você disse que o site que visitou não está vinculado a nenhuma denominação, mas a verdade é que apenas o site não está vinculado. Seu autor e todos os demais autores ali são clérigos ou leigos ligados a algum sistema religioso denominacional. O próprio dono do site faz parte da liderança de uma igreja presbiteriana. A doutrina do site é presbiteriana em sua essência e os presbiterianos seguem a ”Teologia do Pacto”, sobre a qual estou traduzindo um livro de Bruce Anstey em www.dispensacao.blogspot.com.

Não é de surpreender que o presbiterianismo (cujos líderes são chamados de “Reverendos”) seja avesso ao dispensacionalismo, mas não pense que o problema deles está na escatologia. O cerne da questão é que quando irmãos do século 19 (como Darby, Kelly, Mackintosh, Bellett, Dennett, Fereday, etc.) resgataram a verdade da Igreja e de sua posição distinta em relação a Israel, resgataram também o ensino de como a igreja deve funcionar, revelando assim a falta de fundamento bíblico para cargos e posições como “reverendos” dirigindo a congregação, ou “pastores” formados por cursos de teologia e ordenados por homens (e não como um dom dado por Cristo).

É evidente que quando alguém contesta essa estrutura clerical e eclesiástica não faltarão clérigos que se sentem ameaçados de perder seus empregos e logo adotem uma estratégia de “demonizar” tudo o que os irmãos do século 19 escreveram sobre as dispensações e outros assuntos.

O artigo que você enviou, chamado de ”Os erros do dispensacionalismo”, e escrito pelo Reverendo Ronald Hanko, chega a ser engraçado pela ingenuidade com que distorce o dispensacionalismo para depois apontar o que supostamente seriam erros. Começa citando a “Bíblia de Estudo Scofield”, escrita por outro “reverendo” que meramente adotou parte do ensino dos irmãos do século 19, mas deixou de fora aquilo que obviamente comprometeria sua posição de líder de uma denominação.

Então fala dos ”erros flagrantes do dispensacionalismo”, entre os quais estaria o que chama de ”método falho de interpretar a Escritura”, a saber, que ”o dispensacionalismo segue um literalismo escrito que, como um escritor aponta, é realmente o literalismo dos fariseus, que não viram e não podiam ver que Cristo era um Rei espiritual, e assim o crucificaram”. O que ele está dizendo é que considerar a Bíblia como sendo a literal revelação de Deus é um ”método falho de interpretar a Escritura”. Porém o apóstolo Paulo, ao explicar a revelação que foi dada aos apóstolos, aponta a literalidade da revelação, palavra a palavra:

“Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. As quais [coisas de Deus] também falamos, não com PALAVRAS de sabedoria humana, mas com as [PALAVRAS] que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais” (1 Co 2:9-13).

Além de considerar a interpretação literal das escrituras como um ”método falho de interpretar”, o autor diz que o dispensacionalismo ensinaria que ”todo o Antigo Testamento e algumas partes do Novo Testamento são aplicados aos judeus e nos é dito não haver nenhuma aplicação aos cristãos no Novo Testamento, exceto talvez como um objeto de curiosidade”. Isto que ele faz é deturpar um ensino para depois dizer que o ensino é deturpado, e em seguida explicar que ”toda Escritura é proveitosa e aplicável aos cristãos” como se os dispensacionalistas não ensinassem assim.

Ora, nenhum irmão dentre os que creem nas dispensações ousaria dizer que o Antigo Testamento é apenas ”um objeto de curiosidade”. O Antigo Testamento é a Palavra de Deus, porém deve ser entendido em seu contexto e à luz da doutrina dada à Igreja e encontrada nas epístolas do Novo Testamento. E essa mesma doutrina nos ensina que o que foi escrito no Antigo Testamento foi escrito para nosso proveito, não para ser aplicado ”ipsis litteris” a hoje, mas como sombras e figuras que apontavam para a revelação completa que temos hoje em Cristo. A razão? Simples, os próprios apóstolos disseram que era para ser assim:

(Cl 2:16-17) ”Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo”.

(Hb 8:5) ”Os quais servem de exemplo e sombra das coisas celestiais…”.

(Hb 10:1) ”Porque tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas…”.

(1 Co 10:6) ”E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram”.

(Hb 9:24) ”Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro…”.

O artigo termina dizendo que ”é a oposição do dispensacionalismo à espiritualização que leva à sua negação do reino celestial e espiritual de Cristo. É a visão errônea das Escrituras adotada pelo dispensacionalismo que é a raiz de todos os seus erros”. Por “espiritualização” entenda que ele quer dizer que as coisas que estão na Palavra de Deus não devem ser consideradas em seu contexto histórico ou dispensacional (para serem aplicadas segundo seu contexto, quando foram ditas e a quem foram ditas), mas devem ser ”espiritualizadas”. Assim, sempre que você encontrasse “Israel” no Antigo Testamento deveria ”espiritualizar” a palavra e transformá-la em ”Igreja”. Mas se o autor do artigo tivesse lido o que está na primeira edição da Bíblia King James de 1535, teria visto este comentário de Miles Coverdale no prefácio: ”Será de grande auxílio para entenderes as Escrituras se atentares, não apenas para o que é dito ou escrito, mas de quem e para quem, com que palavras, em que época, onde, com que intenção, em que circunstâncias, e considerando o que vem antes e o que vem depois”.

A dificuldade da ideia usada pela ”Teologia do Pacto” de ”espiritualizar” a interpretação da Bíblia está em saber se devemos ”espiritualizar” também os verbos, porque quando o Senhor Jesus diz em Mt 16 ”edificarei a minha igreja” (Mt 16:18), porque qualquer pessoa com um mínimo de bom senso saberia que ele estava se referindo a algo ainda futuro, que seria edificado, e não que já existia em sua própria época (o período dos evangelhos).

Foi por ”espiritualizar” o Antigo Testamento e considerar as bênçãos e promessas a Israel como pertencentes à Igreja que o catolicismo e o protestantismo perseguiram os judeus e buscaram a conquista do mundo até com o uso de armas. Nessa visão Jesus só viria quando os cristãos tivessem levado o evangelho a todo o mundo e estabelecessem aqui o Reino. Portanto valeria tudo nessa empreitada, inclusive as “Cruzadas” e as guerras chamadas “santas”. Afinal, no Antigo Testamento Deus ordenava a Israel que dizimasse os exércitos inimigos.

O que pouca gente sabe é que essa doutrina ”espiritualiza” também a esperança do cristão de modo a colocá-la na terra, e não no céu. Ou seja, a “espiritualização” aí funciona mais como uma ”materialização” do que é ensinado, prometendo que a Igreja no futuro viveria numa terra restaurada (promessa feita a Israel no Antigo Testamento) e não nos ”novos céus” com Cristo, como vemos em Apocalipse. Por isso a igreja não estaria aqui no caráter de peregrina e estrangeira, mas apenas aguardando a oportunidade para tomar de assalto a terra e desfrutar das promessas feitas a Israel (ou devo dizer Igreja?) no Antigo Testamento. A consequência mais moderna e perniciosa dessa doutrina é a ”Teologia da Prosperidade”. Afinal, se Deus prometeu saúde e riqueza, por que razão não as reivindicar para o aqui e agora?

Mas não são todos os clérigos que têm essa aversão aos ensinos dos irmãos, como a demonstrada pelo autor desse artigo. O conhecido evangelista do século 19, D. L. Moody, disse que se todos os livros do mundo fossem queimados ele ficaria contente se lhe restassem uma cópia da Bíblia e uma coleção dos comentários de C. H. Mackintosh sobre o Pentateuco. C. H. Spurgeon disse de William Kelly que ele era “um escritor eminente da escola exclusivista de Plymouth (…) expõe habilmente as escrituras, mas com um toque peculiar do seu partido teológico. (…). Kelly é um homem que, nascido para o universo, estreitou sua mente para um movimento”. D.M. Panton (outro pastor protestante) disse que “o movimento dos irmãos e sua importância é muito maior que a Reforma”, e Griffith Thomas, clérigo anglicano, que “entre os filhos de Deus foram eles os mais capazes em dividir corretamente a Palavra da verdade”.

A título de curiosidade, vale lembrar que muitos clérigos e teólogos abraçaram em parte os ensinos dispensacionalistas dos irmãos do século 19. Os mais conhecidos são Cyrus. I. Scofield, D. L. Moody, Donald Grey Barnhouse, Charles E. Fuller, M. R. DeHaan, Jerry Falwell, Jim Bakker, Paul Crouch, Pat Robertson, Jimmy Swaggart, Billy Graham, Charles Ryrie, Dwight Pentecost, John Walvoord, Eric Sauer, Charles Dyer, Tim LaHaye, Grant Jeffrey e Hal Lindsey. Além de presidentes norte-americanos como Jimmie Carter e Ronald Reagan e organizações como Moody Bible Institute, Dallas Theological Seminary e International Christian Embassy, Jerusalém.

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Devo proibir minha mãe de ver TV?

Você escreve dizendo que abandonou muitas práticas do passado, porém ao que me parece está forçando sua família a fazer o mesmo. Você está agindo errado ao obrigar sua mãe a não assistir TV. Também cometeu um grande erro ao tirar a TV de casa, pois a casa e a TV são de mãe e se você mora com ela deveria estar sujeita a ela como ensina a Palavra de Deus: “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa” (Ef 6:2).

A fé é individual e cada um responderá de si mesmo para Deus. Se você não quer assistir TV então não assista, fique em outro lugar, vá fazer outra coisa e deixe sua mãe fazer o que ela quiser. Não é por deixar de ver TV ou ouvir música que sua mãe será salva, mas por crer no Senhor Jesus Cristo. Não queira forçar outros a terem a mesma fé que você tem.

“Tens tu fé? Tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova” (Rm 14:22).

Você disse algo sobre quebrar as imagens de santos católicos que sua mãe possui. Não entendi se você já fez isso ou pretende fazer, mas sair por aí quebrando imagens de católicos é crime. Veja o que diz o Código Penal: “Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia: Pena-detenção, de 1 (um) a 6 (seis) meses ou multa”. Você quer praticar um crime para combater um erro? É por causa de pessoas que fazem coisas assim que o nome de Cristo é difamado entre os incrédulos. ”Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Rm 2:23-24).

Aparentemente você ainda não entendeu que a salvação é por graça e não pela observância de preceitos da Lei dada a Moisés. Os israelitas destruíam os ídolos dos pagãos porque viviam em outra dispensação e Deus ordenava que assim fizessem. Eles eram cidadãos da terra e deviam confirmar sua posição terrena. Mas o cristão age de maneira diferente porque seu lugar não é aqui no mundo. O cristão é cidadão do céu.

Nós não fomos chamados a melhorar o mundo ou a obrigar as pessoas a viverem como cristãs. Cristianismo que quer obrigar pessoas a agirem como cristãs está mais para o que fazem os radicais islâmicos que matam aqueles que não rezam segundo a sua cartilha. Fomos chamados a pregar as boas novas (pergunte à sua mãe se ela acha “boas novas” isso que vocês estão pregando) para que as pessoas se convertam e sejam levadas deste mundo quando Cristo vier buscar sua igreja.

Como foi que o apóstolo Paulo se comportou quando visitou Atenas em Atos 17:16-34? Apesar de se encontrar em meio a dezenas de ídolos, não tocou um dedo em nenhum deles, ao contrário buscou uma forma de usar daquilo para começar uma conversa com os pagãos e apresentar-lhes o testemunho de Deus. Paulo sabiamente percebeu que entre os muitos altares havia um dedicado ao “Deus Desconhecido”, que não possuía nenhuma estátua ou imagem. Então usou isso como ponto de partida.

Quando os atenienses mostraram não ter interesse no que Paulo pregava ele simplesmente ”saiu do meio deles” (Atos 17:33). Não ficou ali brigando, não promoveu passeatas e nem destruiu os ídolos pagãos. Quando as pessoas não aceitam, a estratégia cristã é sair do meio delas e não arranjar confusão ou tentar obrigá-las a viver de modo parecido com um cristão. Mas Deus tinha um propósito para a missão de Paulo em meio àqueles pagãos e ”chegando alguns homens a ele, creram; entre os quais foi Dionísio, areopagita, uma mulher por nome Damaris, e com eles outros” (Atos 17:34).

Lembre-se de que o Senhor Jesus entrou e saiu deste mundo sem mudar nada na sociedade. Do jeito que o mundo estava quando Jesus entrou aqui é o jeito como o mundo ficou depois que ele saiu, somente mais culpado por ter rejeitado e crucificado o Filho de Deus. Mas ele não tentou destituir os governantes, não promoveu passeatas contra o governo, não lançou sua candidatura a um cargo, não criou um “partido cristão”, não destruiu os ídolos dos romanos que eram invasores (obviamente eles trouxeram consigo seus ídolos quando invadiram a terra de Israel) e nem sequer ofereceu resistência quando o prenderam para levá-lo à cruz. Ao contrário, curou a orelha de um dos que tinham ido prendê-lo, depois que Pedro, em seu zelo sem entendimento, usou de uma espada para ferir o homem.

Talvez você argumente que o Senhor agiu com rigor ao virar as mesas dos cambistas e expulsá-los do Templo de Jerusalém, mas naquele momento ele estava agindo como aquilo que ele era mesmo, o Senhor do Templo. Aquela era a casa de Deus e o Senhor não podia deixar passar aquele tipo de profanação do lugar de adoração a Deus. Mas hoje não existe mais o Templo e o próprio Deus permitiu que fosse destruído porque na dispensação atual as pessoas não devem mais adorar em templos e nem viver segundo a Lei dada aos judeus. Hoje o cristão adora em espírito e verdade e é ele próprio o templo de Deus.

Quanto ao convite que sua irmã que é espírita faz para você comer churrasco na casa dela, e você não vai porque ”ali tem muita comilança, bebedeira, e música” acredito que também esteja agindo de forma precipitada. Se ela convida você para almoçar é porque gosta de você e quer ser gentil. Não é à toa que fique desapontada quando você se recusa a ir. Se você não acha correta a ”comilança, bebedeira e música” então simplesmente deve comer pouco, não beber ou beber aquilo que achar correto e não preste atenção à música. Eu vou ao supermercado e às vezes tem música que não me agrada nem um pouco, mas nem por isso vou deixar de fazer minhas compras.

O cristão é exortado a apartar-se do mal, mas não há mal algum em comer, beber e ouvir música porque é bem possível fazer estas coisas de forma a não se exceder. O Senhor comia, bebia e ouvia música, mesmo porque é impossível não ouvir música se você está em um ambiente onde ela está sendo tocada.

“Veio o Filho do homem, comendo e bebendo e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores” (Mt 11:19).

Talvez vocês precisem rever os conceitos que receberam de quem lhes pregou o evangelho, porque ao que parece não foi o evangelho da graça que encontramos na Palavra de Deus, mas algum tipo de mensagem legalista oferecendo a salvação a alguns que se consideram melhores que os outros por evitarem certas coisas. Paulo alertou os Colossenses contra os que tentariam dominá-los por uma religião de regras, deixando claro que nosso velho homem foi morto na cruz.

“Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; as quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Cl 2:20-23).

O melhor a fazer agora é pedir desculpas à sua mãe e colocar a TV dela de volta no lugar. Afinal, você entrou em contato comigo através da Internet e eu pergunto: Acaso na Web você não tem tudo o que tem na TV e muito mais? Sua mãe teria toda razão se proibisse você de usar a Internet com base no mesmo argumento que você usou para proibi-la de ver TV.

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Como identificar a voz do diabo?

Quando recebi seus últimos três e-mails fiquei realmente preocupado, pois no primeiro você perguntava se o Senhor (Jeová) do Antigo Testamento seria o mesmo deus Baal dos babilônicos, baseando-se no que você chamou de “correntes” que ensinam assim. Depois queria saber se Abraão era ladrão e se Deus era algo que nem ouso repetir aqui, porque um ateu lhe disse ser assim. Finalmente quis saber se Deus mandou Abraão fazer coisas erradas. Acho que você precisa de um “tutorial” de como identificar a voz do diabo.

A primeira vez que Satanás aparece na Bíblia ele vem travestido de serpente. A Bíblia diz que antes do pecado a serpente era o mais astuto dos animais, ou seja, mais inteligente que o porco, o polvo, o corvo, o golfinho e o elefante, este último considerado o mais inteligente. Talvez isto tenha feito Eva cair na conversa do diabo e se você aprender a identificar sua voz ficará livre de muitos erros.

“Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos, Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gn 3:1-5).

Repare que Satanás começa distorcendo o que Deus disse e colocando dúvidas na cabeça de Eva sobre a bondade de Deus. Segundo a pergunta de Satanás, Deus estaria privando Adão e Eva de comerem de todas as árvores. Mas a proibição era apenas para uma, e Eva esclarece isto, só que erra ao acrescentar que Deus teria dito para nem tocar no fruto da árvore que estava no meio do jardim. Deus não disse isso, mas sempre que abrimos a guarda para dialogar com o inimigo nossa mente acaba pregando peças em nós.

Então vem o segundo ataque também no sentido de fazer Eva pensar que Deus não era bom e estava querendo privá-los de algo, neste caso de terem os olhos abertos para serem “como Deus, sabendo o bem e o mal“. Pronto, agora você já tem o primeiro tom da voz do diabo para saber reconhecê-la quando a ouvir. Ele sempre irá querer colocar em dúvida a bondade e justiça de Deus. O que fazer? Fuja de tudo e de todos os porta-vozes do diabo que lhe venham trazer a mais tênue ideia que coloque em dúvida a bondade de Deus.

Ao dar ouvidos às “correntes” que disse afirmar que Deus e Baal são a mesma coisa, e ao ateu que lhe disse que Abraão era ladrão e Deus ordenava a ele que praticasse o mal, você começou uma conversa com o diabo e abriu sua mente para ele enfiar nela um monte de dúvidas, tanto é que até me escreveu perguntando a respeito. Sei que argumentará que só estava querendo saber o que responder aos que trouxeram tal dúvida. Quer a resposta? A mais simples é esta: ”eu sei em quem tenho crido“ (2 Tm 2:12). Se o ímpio que levanta essas questões quiser a resposta deve primeiro conhecer a Deus. Sem conhecê-lo não irá jamais entender. Mas se quiser mais, então medite nestas passagens:

“Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (1 Jo 1:5); “Deus é amor” (1 Jo 4:8); “O caminho de Deus é perfeito; a palavra do Senhor é provada; é um escudo para todos os que nele confiam” (Sl 18:30); “Tu és santo [separado de pecado]” (Sl 22:3); “Deus, que não pode mentir” (Tt 1:2); “Deus é juiz justo” (Sl 57:11). Eu poderia continuar desfilando atributos de Deus como justiça, misericórdia, graça, compaixão, verdade, imutabilidade, etc., mas acredito que estes sejam suficientes para você identificar a voz do diabo quando ele sussurrar direto em sua mente, ou por meio de um de seus ímpios emissários. Sua voz irá sempre insinuar que Deus é injusto e mau, e o simples fato de se ocupar com seus argumentos irá contaminar sua mente e gerar dúvidas.

Mas a voz do diabo também tem outras tonalidades. Uma delas irá causar confusão em sua mente e gerar sentimentos como amargura, inveja, vanglória, mentiras, espírito faccioso, hipocrisia, extremismos, exasperação, discórdia, etc. O remédio para isso está em Tiago 3:13-18 e 1 Co 14:33:

“Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria. Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa. Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia. Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz… Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz”.

Em outros momentos Satanás irá querer acusá-lo (ou fazer com que você fique acusando outros), pois ele é “o acusador de nossos irmãos” (Ap 12:10), mas geralmente isso é muito forte no sentido de fazer você duvidar de sua própria salvação, achando-se perdido e não merecedor do perdão de Deus e da restauração à comunhão.

Que não somos merecedores isto é fato, mas que Deus está pronto a perdoar todo aquele que se aproxima dele com um espírito contrito e quebrantado também é uma bendita verdade. Se você creu em Jesus como seu Salvador, tenha sempre em mente que, “portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus“ (Rm 8:1) e que o próprio Jesus assegurou, ao falar de suas ovelhas: “Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai” (Jo 10:29).

Voltamos assim a descansar nos atributos e na natureza de Deus, que não é a de um tirano que tenha prazer em condenar, mas de um Deus Salvador que deseja salvar. “Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva” (Ez 33:11); “Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomando-os pelos seus braços, mas não entenderam que eu os curava. Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor, e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e lhes dei mantimento” (Os 11:3-4).

A voz de Satanás também soa no sentido de incutir medo em seu coração, por isso é bom lembrar que ”visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele [Cristo] participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hb 2:14); ”e é por Cristo que temos tal confiança em Deus; não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus,” (2 Co 3:4-5); ”segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor, no qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” (Ef 3:11-12).

E ainda que o inimigo sussurre pensamentos de pavor em nossos ouvidos se tivermos de passar pela morte física, o melhor é ter na ponta da língua o que Paulo escreveu inspirado pelo Espírito Santo: ”Porque sei que disto me resultará salvação, pela vossa oração e pelo socorro do Espírito de Jesus Cristo, segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a confiança, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte. Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (Fp 1:19-21).

Portanto, esteja pronto para identificar a voz do diabo de forma rápida, pois ela tentará injetar dúvidas em seu coração sobre a bondade de Deus, sua justiça, a imutabilidade de sua salvação ou até de sua direção no caminhar e provisão para suas necessidades nesta terra. Se Satanás tentou colocar dúvidas no coração do próprio Filho de Deus quando foi tentado no deserto, por que achar que ele não ficaria tentando fazer o mesmo conosco?

Lá ele tentou semear dúvidas na mente de Jesus: ”Se tu és o Filho de Deus…”, disse o diabo levantando dúvidas sobre quem era o Senhor. Na mesma ocasião quis fazer o Senhor duvidar que o Pai lhe daria o suprimento, sugerindo que ele próprio transformasse pedras em pão, e finalmente tentou suborná-lo com todos os reinos do mundo para que Jesus deixasse de servir ao Pai e servisse o diabo.

Há ainda outras maneiras que o diabo usa para tentar nos tirar a paz, e uma delas é nos amedrontando com as notícias escabrosas dos telejornais sensacionalistas, que são produzidos com técnicas de manipulação para viciar seus espectadores. Alguém que se alimente deles irá viver preocupado e assustado com as perversões do mundo, o que lhe roubará a paz que o Senhor deseja dar. A Palavra de Deus ensina o que deveria ocupar nossos pensamentos, e certamente não são os crimes e aberrações desses telejornais que irão nos ajudar neste sentido:

“Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3:1-3).

Resumindo, a voz de Satanás pode ser facilmente identificada, pois ela:

… Colocará dúvidas em sua mente sobre a justiça, bondade e santidade de Deus;

… Irá insinuar que Deus quer privar você de ser feliz por permitir em sua vida situações dolorosas e impedir que você desfrute de certos prazeres ou de ter seus planos concretizados;

… Fará você duvidar de que Deus está pronto a lhe perdoar, mesmo quando você se arrepender e confessar seus pecados;

… Tentará fazer você se desesperar achando que Deus se esqueceu de você e não irá prover o suficiente para suas necessidades;

… Irá querer infundir o medo da morte em seu coração, mesmo que você creia no Senhor, que seus pecados foram todos pagos lá na cruz e que Deus lhe prometeu um lugar na glória;

… Irá encher sua mente de preocupações com notícias ruins para roubar a paz que tem em Cristo;

Portanto, concentre-se em ouvir a voz do Senhor para viver seguro e feliz em sua jornada aqui. E refute imediatamente qualquer voz diferente, sabendo que ela vem do inimigo de nossas almas, o diabo. Em Jo 10:3-5 temos princípios importantes: Primeiro, se você é ovelha do Pastor que é Jesus deve estar sempre atenta a ouvir sua voz. Esta é a voz que interessa e deve preencher seus ouvidos. Mas para ouvir a sua voz é preciso saber identificá-la, e para isso é preciso conhecê-la. Você só consegue reconhecer a voz de alguém passando muito tempo ouvindo essa pessoa falar, e é para isso que serve a leitura constante da Palavra de Deus: para conhecer a voz do bom Pastor.

“A este [Jesus] o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos“ (Jo 10:3-5).

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Por que tanto silêncio nas reuniões?

Você esteve pela primeira vez em uma reunião de irmãos congregados ao nome do Senhor e chamou sua atenção o silêncio que acontece muitas vezes entre uma coisa e outra. Refiro-me à quando um irmão propõe um hino e ao terminarmos de cantar nem sempre outro irmão propõe outro hino ou oração ou ministra um comentário da Palavra de Deus. Mas certamente não foi apenas o silêncio que chamou sua atenção. Você também percebeu que não havia um homem à frente dirigindo a reunião, como é costume nos diferentes grupos de cristãos.

A descrição bíblica mais clara que temos de como funciona uma reunião da assembleia está em 1 Coríntios 14:26-40, e o trecho começa justamente dizendo o que fazer quando nos reunimos: “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação…” (1 Co 14:26).

Qualquer leitor atento e livre do condicionamento religioso das denominações logo percebe que na passagem não existe um dirigente além do Espírito Santo de Deus e ninguém está olhando para um ”padre” ou ”pastor” esperando para saber o que fazer, pois é em torno de Cristo, e não de um homem, que estão congregados. ”Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18:20). Assim, ”um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Faça-se tudo para edificação” (1 Co 14:26).

A passagem segue dizendo que ”tratando-se de profetas [Os que proferem a Palavra de Deus], falem apenas dois ou três” (1 Co 14:29), indicando que o ministério da Palavra em uma reunião da assembleia ou igreja não está limitado a um “padre” ou “pastor” e muito menos a pessoas indicadas por eles. É o Espírito quem decide e levanta quem trará a Palavra porque somente o Espírito de Deus sabe as reais necessidades daquela assembleia para aquele momento.

A passagem continua dizendo ”e os outros julguem” (1 Co 14:29), apontando a responsabilidade que a assembleia tem de julgar tudo o que está sendo falado segundo o padrão que temos na Palavra de Deus. Se alguém trouxer uma palavra contendo erros doutrinários, ou que venha a tumultuar a ordem, os irmãos podem pedir a esse irmão que se cale. Embora no mundo religioso você não veja isso acontecer com frequência e esteja até acostumado com expressões do tipo ”a igreja do padre Fulano” ou ”a igreja do pastor Sicrano”, a assembleia congregada ao nome do Senhor tem apenas a Jesus no centro, e ninguém mais.

Sem um homem na direção, ”todos podereis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados” (1 Co 14:31), lembrando que esse ”profetizar” não se trata de algum balbuciar extático (em êxtase) porque ”os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas” (1 Co 14:32). Isto elimina de vez a desculpa de alguém dizer que, por ser dirigido pelo Espírito Santo, não é capaz de exercer o autocontrole. Ninguém deve perder o controle de si mesmo quando ministra a Palavra na assembleia, e a sequência explica: ”porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz”.

O apóstolo continua dizendo algo que não estava restrito à assembleia em Corinto, mas era praticado ”em todas as igrejas dos santos”, de modo coerente com o endereçamento da própria epístola que é universal e não depende da época e nem do lugar: ”À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1 Co 1:2).

Além de tudo isso, o que mais vemos que era praticado ”em todas as igrejas dos santos”? ”As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas [plural e não restrito a Corinto], porque não lhes é permitido falar” (1 Co 14:34). Embora algumas traduções coloquem vírgula e ponto final após a sentença no versículo 33, outras a ligam ao versículo 34, como você pode reparar nestas duas versões abaixo:

“Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos. As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei” (1 Co 14:33-34) - Almeida Revista e Corrigida Fiel.

“Porque Deus não é de confusão, e sim de paz. Como em todas as igrejas dos santos, conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina” (1 Co 14:33-34) - Almeida Revista e Atualizada.

Tanto uma versão como a outra não trazem problemas quando lemos isso em associação com o que Paulo escreve em 1 Coríntios 7:17: ”É o que ordeno em todas as igrejas”.

A passagem deixa clara a ordem para as irmãs não falarem durante as reuniões da assembleia. Elas obviamente cantam junto com os irmãos, pois falar e cantar são coisas diferentes, e dizem o ”amém” depois que algum irmão ora, apenas concordando com o que foi orado e não ministrando algo de si mesma. Sim, eu conheço todos os argumentos usados para desobedecer esta e muitas outras doutrinas que foram dadas a Paulo, o principal deles de que a cultura da época assim o exigia. Se a cultura fosse a bússola do cristão deveríamos considerar normais o sexo fora do casamento e a união de casais do mesmo sexo, práticas amplamente aceitas na cultura atual.

Você também reparou que as irmãs traziam a cabeça coberta, por um véu, lenço ou chapéu, e isto tem a ver com o que é ensinado em 1 Coríntios 11:1-16, outra das doutrinas dadas a Paulo que foi relegada ao esquecimento no século 20 (porque antes as mulheres cristãs obedeciam este preceito). A cobertura da cabeça também não é por causa da cultura, e fica fácil entender isso perguntando à própria Palavra de Deus: ”As mulheres deveriam cobrir a cabeça por causa dos costumes locais, porque algumas tinham sido prostitutas e tiveram a cabeça raspada ou por quê”? A resposta clara e inequívoca da Palavra de Deus é: ”Por causa dos anjos” (1 Co 11:10). Ao que me consta os anjos não seguem moda e cultura, portanto o que valia para então vale para hoje.

A passagem mostra também que a cobertura da cabeça (o texto original não traz “véu”, mas cabeça “velada”, isto é, coberta) é um ”sinal de poderio”, ou seja, de submissão à cabeça da mulher que é o varão. Este, por sua vez, não cobre a sua cabeça (aqui cabelo não conta como também não conta no caso da mulher) por causa de sua cabeça, que é Cristo. O próprio Senhor também faz parte desta ordem: ”Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo” (1 Co 11:3). Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso jamais iria considerar o texto como discriminatório, pois se fosse estaríamos discriminando Cristo como sendo inferior a Deus. Trata-se apenas de uma ordem que Deus estabeleceu.

O apóstolo Paulo finaliza a passagem deixando claro que as coisas que escreve devem ser obedecidas sem discutir pois, ”são mandamentos do Senhor” (1 Co 14:37), não de Paulo.

Mas sua pergunta estava relacionada apenas ao silêncio que percebeu na reunião, porém eu não poderia deixar de falar de toda a ordem da reunião de assembleia para você entender o contexto. Uma reunião da assembleia não tem o mesmo caráter de uma pregação do evangelho, por exemplo, quando a responsabilidade de falar é do irmão que irá exercer seu dom de evangelista ou pelo menos ”fazer a obra de um evangelista” (2 Tm 4:5), como Paulo exortou Timóteo a fazer por aparentemente ”evangelista” não ser o seu dom.

No caso de uma pregação do evangelho ela não é feita à igreja, ainda que muitos irmãos em Cristo estejam presentes, mas a incrédulos. O que prega tem a responsabilidade da reunião e de apresentar a mensagem com começo, meio e fim e não faria sentido ele ficar em silêncio esperando outros falarem, como acontece na reunião da assembleia. Não é uma reunião da assembleia de crentes, mas uma pregação do evangelho a incrédulos e ninguém esperaria que um incrédulo tomasse a palavra ou fizesse apartes.

Se já não viajei o suficiente discorrendo sobre a ordem da reunião da assembleia em 1 Coríntios 14 vou viajar agora para o Antigo Testamento porque o silêncio tem tudo a ver com a diferença entre a adoração de Israel e da igreja. Em Israel os adoradores não tinham o Espírito Santo habitando neles, como temos hoje. Eles precisavam de um templo de pedras (o único autorizado por Deus estava em Jerusalém), uma classe sacerdotal (clero) que fizesse a intermediação entre o povo (leigos) e Deus, um grupo de homens que eram sustentados pelo povo, os Levitas, para cuidar dos afazeres do templo e também do louvor, e todo um aparato físico, como instrumentos musicais, altares e utensílios.

Da conversa do Senhor Jesus com a mulher samaritana em João 4 aprendemos que aquela forma de adoração estava acabada e que Deus estaria então dando início a uma nova maneira de se adorar:

“Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4:19-24).

O contraste é claro: os judeus adoravam em verdade, pois o faziam segundo os oráculos de Deus que lhes haviam sido confiados, mas não adoravam em espírito porque era uma adoração exterior. A palavra aqui é ”espírito” no sentido do espírito humano do adorador, o qual nesta atual dispensação da igreja está em conexão direta com o Espírito Santo, como mostra Romanos 8:

“Recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito [Santo] testifica com o nosso espírito [humano] que somos filhos de Deus… Também o Espírito [Santo], semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito [Santo] intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito [Santo], porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos” (Rm 8:15-16, 26-27).

Observação: Nem todas as traduções são corretas na hora de tratar a palavra “espírito” na carta aos Romanos, às vezes confundindo Espírito Santo com espírito humano. Na dúvida sugiro que consulte a excelente versão de J. N. Darby (em inglês, francês e alemão) ou a de W. Kelly em inglês, que distinguem corretamente as duas palavras.

Repare que o que Jesus disse à mulher era algo totalmente novo. O crente seria dirigido pelo Espírito Santo de dentro para fora e não apenas de fora para dentro como era um israelita. A adoração do israelita era exterior e necessitava de todo um paramento para ser eficaz, enquanto a adoração cristã parte do interior do crente, do lugar onde o próprio Espírito de Deus habita na presente dispensação. É por isso que o judeu manifestava sua adoração de forma muito mais visível e audível, enquanto o cristão tem o privilégio de adorar a Deus em absoluto silêncio e imobilidade. Uma irmã na reunião da assembleia, mesmo sem dizer nada, pode estar ali em total adoração a Deus, pois sua adoração é em espírito. Mas só será também em verdade se estiver de acordo com as escrituras, e infelizmente não posso afirmar que estas sejam obedecidas em todos os grupamentos cristãos. Ao contrário de Israel também não temos outro sacerdote que não seja o próprio Senhor e nós mesmo somos, todos os salvos, um sacerdócio santo.

Mas se o silêncio pode significar adoração enquanto estamos reunidos ao nome do Senhor, pode também denunciar nossa fraqueza quando o assunto é o ministério da Palavra e o exercício dos dons. Vivemos numa época de ruína e os melhores dons podem não estar ali onde estamos congregados somente ao nome do Senhor, mas espalhados pelas diversas seitas ou divisões da cristandade. Nada podemos fazer para remediar isso a não ser reconhecermos que houve um tempo quando havia ”muitas luzes no cenáculo” [andar superior da casa], mas não vivemos mais nesse tempo do início da igreja. A maior parte das ”luzes” caíram ao nível do mundo, como o jovem Êutico da janela, depois de ter ficado com um pé dentro e outro fora da assembleia até despencar ao nível do chão (veja Atos 20:9-12).

A igreja como um todo caiu do mesmo modo como caiu Israel por desprezar a Palavra de Deus e a direção do Senhor. ”Como se escureceu o ouro! Como se mudou o ouro puro e bom! Como estão espalhadas as pedras do santuário sobre cada rua!”, diz Lamentações 4:1 acerca de israel. Mesmo assim eles achavam que eram justos e corretos enquanto crucificavam seu Messias, o Senhor da glória, até Deus os ter rejeitado por um tempo permitindo que o Templo que tanto prezavam fosse reduzido a escombros no ano 70. A igreja segue o mesmo caminho e é denunciada pelo Senhor em Apocalipse 3:15-18, uma clara descrição de seu estado atual de orgulho, riqueza e, ao mesmo tempo, cegueira e nudez.

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas” (Ap 3:15-18).

Portanto, uma resposta breve à sua dúvida sobre o silêncio excessivo entre uma e outra atividade na reunião de assembleia se deve, primeiro ao estado de fraqueza em que vivemos hoje como um remanescente congregado somente ao nome do Senhor e fora dos sistemas religiosos, onde está a grande maioria de nossos irmãos. Segundo, porque precisamos esperar pela direção do Espírito antes de agir na forma de um hino, oração ou ministério da Palavra. Terceiro, porque mesmo em silêncio podemos adorar em espírito e Deus entenderá que fazemos assim em submissão a ele se estivermos também adorando em verdade, e não seguindo preceitos de homens e sendo liderados por eles.

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Como Deus nos enxerga?

Pessoas com algum tipo de queimadura precisam ter suas escaras arrancadas para que a pele nova apareça. A pele nova já está lá, escondida, mas evitamos mexer nas escaras da velha pele porque dói. Assim somos nós também depois que cremos em Cristo: temos agora uma nova natureza que é perfeita como a nova pele sob as escaras, e é assim que Deus nos vê e é assim que nos deixará entrar na sua presença. Mas as feias escaras do velho homem ocultam esse novo homem e ao menos que sejam arrancadas continuaremos andando aqui como esses zumbis horríveis que somos no velho homem.

O primeiro passo para andarmos em novidade de vida é saber que estamos livres desse cadáver ambulante pela morte de Cristo. Daí em diante é um processo minuto a minuto de nos desvencilharmos dele considerando-o como ele verdadeiramente é visto por Deus: morto. “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 7:24-25). Só assim o que é novo, que já temos em Cristo e já nos pertence, pode vir à tona. Mas esse desvencilhar-se do velho homem para nos revestirmos do novo também só é possível em Cristo e não no poder do velho homem ou da Lei.

Deus nos vê em Cristo e é esta nossa segurança. “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1). “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3:3).

Gostei desta historinha que li e que indica que na presença de Deus você só entra se estiver muito bem acompanhado:

“Um poderoso rei senta-se em seu trono para julgar o povo. Auxiliado pelos guardas, seus súditos aguardam em longas filas por uma audiência com o rei. De repente as portas do salão se abrem de supetão com grande ruído e todos olham para a entrada com a respiração em suspense. Surgem ali dois garotinhos, um está limpo e outro chora por estar coberto de lama. Resoluto, o garoto limpo agarra o outro e o arrasta pelo tapete vermelho em direção ao trono. Os guardas desembainham suas espadas esperando por um sinal do rei para se livrarem daqueles intrusos. Mas o rei levanta sua mão e seu rosto se abre em um sorriso. O primeiro garoto para diante do rei e puxa o sujo para mais perto de si, dizendo, ‘Papai, este é meu amigo. Ele está machucado e com medo. Eu disse a ele que você poderia ajudá-lo’. O rei abre seus braços e abraça os dois garotos, sem se importar com a lama que suja suas vestes reais. Então olha para os olhos assustados do garoto enlameado e diz: ‘Qualquer amigo de meu filho é bem-vindo. Vou ajudar você” (traduzido e adaptado de “GotQuestions.org”).

“Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto”. (Ef 2:13).

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Minhas escolhas são a vontade de Deus?

Sua dúvida tem a ver com a predestinação, algo que a Bíblia afirma claramente em algumas passagens, como Ef 1:4-6, que diz: “Como também nos elegeu nele [em Cristo] antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” .

Outras passagens são Efésios 1:11, “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade [não nossa]”, e Romanos 9:14-16, “Que diremos pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”.

Não podemos negar que a Palavra de Deus também fala da responsabilidade do homem em sua perdição eterna por não crer em Jesus, mas no que diz respeito à sua salvação sabemos que no final ninguém terá de que se gloriar na presença de Deus e a iniciativa de buscá-lo jamais teria partido de nós, por sermos por natureza inimigos dele, pois “não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Rm 3:10-12).

Então só posso crer que eu só poderia estar escrevendo isto porque um dia Deus me elegeu e predestinou juntamente com muitos “com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo; em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” (Ef 1:12-14).

Embora muitos cristãos insistem em afirmar que poderão perder uma posição tão segura que temos em Cristo, descanso na certeza de que ainda que eu mesmo quisesse escapar das mãos do Pai e fugir para longe dele até isto seria impossível, como o Senhor Jesus deixou bem claro nestas passagens: “Dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai” (Jo 10:28-29).

As palavras “nunca” e “ninguém” querem dizer exatamente isto que significam: “nunca” e “ninguém”. Se você perguntar quem seria capaz de arrebatar uma ovelha da mão do Pai a resposta é “ninguém”. Se perguntar quando é que uma ovelha de Cristo poderia se perder eternamente a resposta do próprio Senhor é “nunca”. Você duvidaria do que o Senhor afirmou? Nem eu.

Bendita certeza esta, de que aquele que crê em Cristo “tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24)! Que tremendo cântico de louvor pode sair da boca de cada um que foi salvo pela fé e que pode ousadamente declarar com todas as letras:

“Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8:31-39).

Mas se Deus “nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo… porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Pe 3:1-5; 1 Tessalonicenses 5:9), será que nossas escolhas teriam sido também predeterminadas por Deus? Será que quando eu decido ir pela direita ou pela esquerda, comer isto ou aquilo, dormir ou acordar, etc. teria sido sempre dirigido por Deus por ter sido tudo isto predeterminado a meu respeito?

Esta foi sua dúvida e a resposta é não, muito embora Deus soubesse de cada uma de suas escolhas, pois é onisciente e também presciente. É claro que nenhuma folha cai sem que não seja da vontade de Deus, mas se isto pudesse significar que quando somos tentados e caímos é porque Deus nos tentou e nos levou à queda a resposta clara da Palavra de Deus é que “ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz” (Tg 1:13-14). Quero dizer com isto que nenhum cristão poderá se valer da desculpa de ter acabado desta ou daquela maneira no final porque Deus o levou a errar aqui ou ali, ou que Deus tenha predeterminado suas escolhas, inclusive as erradas.

Nossas escolhas são nossa responsabilidade e quando feitas na carne colhemos de seus frutos nesta vida, o que vale para incrédulos e crentes. Em Gálatas 6:7 lemos: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá”. Um pai cria um filho para ser herdeiro seu, mas se o filho vai chegar à maioridade com saúde ou não vai depender de como ele se comportou em sua juventude. Se existe a vontade de Deus existe também a permissão de Deus. Um pai pode querer que seu filho não se machuque, mas pode também permitir que ele suba na mesa que o pai disse para não subir, só para deixar ele aprender da maneira mais difícil se arrebentando no chão.

Um exemplo disto você encontra na história de Balaão em Números 22 e para entender sugiro que você leia todo o capítulo. Ali, em um determinado momento, o ganancioso Balaão é convidado pelos inimigos de Israel a profetizar contra o povo de Deus e amaldiçoá-lo. Porém Balaão é instruído por Deus no modo como devia proceder: “Então disse Deus a Balaão: Não irás com eles” (Nm 22:12).

Aquilo deveria ter sido suficiente para Balaão. Deus havia abençoado Israel e não permitiria que fosse amaldiçoado. Porém a ganância daquele homem o levaria a insistir e a perguntar novamente a Deus, mesmo quando já tinha uma resposta clara e inequívoca de como proceder. Então parece que Deus muda de ideia, como se fosse possível a Deus vacilar entre dois pensamentos: “Veio, pois, Deus a Balaão, de noite, e disse-lhe: Se aqueles homens te vieram chamar, levanta-te, vai com eles” (Nm 22:20).

No primeiro caso era a vontade de Deus, clara e soberana, e no segundo era a permissão de Deus dada em virtude da insistência de Balaão e para sua própria ruína. Deus sabia que Balaão era ganancioso e iria de qualquer maneira seguir com os inimigos de Israel. Tudo indica que Balaão, que não era do povo de Deus, também não seria salvo no final, pois de sua própria boca sai uma profecia que lhe é contrária e que sela seu destino em um lugar distante de Deus, como era o lugar do rico na história contada por Jesus, que de onde estava via Abraão e Lázaro em seu seio:

“Então, proferiu a sua palavra e disse: Palavra de Balaão, filho de Beor, palavra do homem de olhos abertos, palavra daquele que ouve os ditos de Deus e sabe a ciência do Altíssimo; daquele que tem a visão do Todo-Poderoso e prostra-se, porém de olhos abertos: Vê-lo-ei, mas não agora; contemplá-lo-ei, mas não de perto” (Nm 24:15-17).

Antes que você indague como Deus poderia usar um profeta ganancioso como Balaão e que nem mesmo seria salvo no final, lembre-se de que no mesmo capítulo 22 de Números Deus usa a boca da jumenta de Balaão para profetizar na tentativa de frustrar a loucura de Balaão que queria seguir adiante com sua vontade própria na ilusão de que Deus teria contradito sua ordem inicial. Também em João 11:49-52 usou a boca do sumo-sacerdote Caifás para profetizar que seria necessário morrer um homem para que não perecesse toda a nação. Aquele mesmo Caifás estava entre os que logo depois iriam condenar Jesus à morte. Só Deus sabe que destino teve Caifás, mesmo que tenha sido usado por Deus para proferir uma sentença que, apesar de fazer parte dos planos de Deus, envolvia a responsabilidade do homem. Lembre-se do que Jesus disse: “É inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo”! (Mt 18:7).

Portanto, da próxima vez que você decidir seguir sua própria vontade, mesmo depois de ter a clara e inequívoca Palavra de Deus e a direção do Espírito de como proceder, não se iluda achando que circunstâncias favoráveis e portas abertas para a sua vontade própria sejam um sinal de que Deus mudou de ideia. Você pode estar sendo vítima de sua própria concupiscência e Deus nada mais está fazendo além de “dar linha”, como faz o pescador para deixar que o peixe se afaste pensando estar livre do anzol. E é a história de um grande peixe que me vem à mente para ilustrar isto.

Jonas tinha recebido de Deus uma ordem muito clara para ir a Nínive pregar o arrependimento àquele povo, porém decidiu ir na direção contrária. Jonas poderia muito bem ter achado que o fato de ter encontrado um barco prestes a zarpar seria uma indicação de que Deus havia mudado de ideia e estava provendo o necessário para isso. “Jonas se dispôs, mas para fugir da presença do Senhor, para Társis; e, tendo descido a Jope, achou um navio que ia para Társis; pagou, pois, a sua passagem e embarcou nele, para ir com eles para Társis, para longe da presença do Senhor” (Jn 1:3).

O resto da história você já conhece: Deus envia uma tempestade, Jonas é lançado ao mar pelos marinheiros, acaba engolido por um grande peixe que iria vomitá-lo na praia onde receberia novamente a ordem original dada por Deus: “Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama contra ela a mensagem que eu te digo” (Jn 3:2). Em outras palavras, Jonas havia voltado ao ponto de partida e toda a responsabilidade de sua desobediência seria dele, enquanto toda a glória de sua desobediência ser transformada em bênção seria de Deus. Sim, bênção para nós, pois lembre-se de que a experiência desastrada de Jonas acaba sendo usada pelo Senhor como uma figura de sua morte e ressurreição, quando disse:

“Uma geração má e adúltera pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o do profeta Jonas. Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra” (Mt 12:39-40).

E apenas para mostrar quão maior que nossos pensamentos são os propósitos de Deus, e como é perfeita e completamente interligada a sua Palavra, observe que é de Jope que Jonas tenta fugir da ordem dada por Deus para pregar aos gentios de Nínive, mas é também da mesma Jope que séculos mais tarde parte Pedro para pregar ao gentio Cornélio, o centurião, inaugurando assim a presença dos gentios no corpo de Cristo que é a Igreja (leia mais em Atos 10).

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Devo deixar meus pais interferirem na educação de meus filhos?

Você ficou chateado quando soube que seus sogros, que o tratam como filho, haviam levado sua filha a uma “rezadeira” ou “benzedeira” como são chamadas mulheres que alegam tirar “mau olhado” de crianças doentes. Será que por causa do bom relacionamento e do respeito que você nutre por seus sogros você deveria fechar os olhos para algo assim e permitir que eles continuem a dar uma educação religiosa à sua filha, mesmo sabendo ser esta contrária à Bíblia?

Quando uma pessoa se casa forma uma nova unidade familiar e já não tem mais que obedecer seus pais, porém devem continuar a honrá-los. Obedecer e honrar são coisas diferentes. Eu posso honrar uma autoridade, como meu chefe no trabalho, mas serei obrigado a desobedecê-lo se ele me obrigar a fazer coisas contrárias à Palavra de Deus. Quando o assunto são nossos pais, devemos respeitá-los mesmo que o casamento tenha causado uma mudança no relacionamento. A Bíblia ensina que os filhos sempre devem ouvir e considerar os conselhos dos pais (uma boa leitura é o Livro de Provérbios), pois o natural é que eles tenham maior experiência de vida, mesmo aqueles que são incrédulos. Então, em questões como educação formal, saúde e cuidados é sempre bom ponderar o que nos ensinam nossos pais.

Aos filhos pequenos e jovens que ainda estão sob a autoridade dos pais, isto é, não são independentes, a Bíblia deixa claro o princípio da obediência:

“Vós, filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor” (Cl 3:20).

Porém depois de casados os filhos já não devem obediência aos pais (permanecem a honra e o respeito), já que constituíram uma nova unidade familiar. Nesta o marido é a cabeça e, portanto, a autoridade, mesmo que seja incrédulo e sua esposa crente. Mas, no que diz respeito aos pais, apesar de não ser mais uma questão de obediência, continua sendo uma questão de honra:

“Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa.“(Ef 6:2).

No lar a responsabilidade de governá-lo é tanto do marido quanto da esposa, portanto quando um dos cônjuges joga essa responsabilidade no outro alegando já ter suas preocupações está desprezando o ensino claro da Palavra. Também não deve existir discórdia quando o assunto é o cuidado dos filhos, pois estes percebem claramente coisas assim acontecerem e acabam perdendo o respeito pelos pais ou escolhendo aquele que acham “mais bonzinho”, mesmo que seja o que poderá acabar acostumando mal o filho.

“Quero, pois, que as que são moças se casem, gerem filhos, governem a casa, e não deem ocasião ao adversário de maldizer” (1 Tm 5:14).

Portanto, sua filha é responsabilidade sua e de sua esposa, e não de seus pais ou sogros. Então cabe a vocês decidirem juntos como deve ser a educação dela, em especial a educação cristã, como nos exorta a Palavra de Deus: “Vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor” (Ef 6:4).

Deixar que seus pais ou sogros levem seus filhos a lugares ou cerimônias que são contrárias à Palavra de Deus não é criá-los “na doutrina e admoestação do Senhor”, por mais que os pais ou sogros acreditem estar fazendo o melhor para seus filhos. Conheci um pai que contratou uma prostituta para seu filho adolescente por achar que aquilo seria importante em sua educação sexual. Se, como cristãos, achamos uma aberração fazer algo assim, colocando o filho em contato com a impureza moral, o que pensar de deixá-lo exposto à impureza religiosa?

O melhor será deixar claro para seus sogros a posição de vocês e como desejam criar seus filhos, fazendo isso com muito tato e respeito para não os ofender e nem deixar que a situação se transforme em discussão. Se eles não creem no Senhor de nada adiantará argumentar porque não entenderão isso também. Para eles o que importa é o bem-estar da menina, por isso ficaram tão surpresos quando você se opôs a eles por terem levado sua filha a uma benzedeira.

Se eles fossem muçulmanos radicais talvez levassem a menina para ser circuncidada. Pais muçulmanos seguem essa prática da religião acreditando ser o melhor para seus filhos. A Lei Islâmica prescreve: “Circuncisão é obrigatória (para cada homem e mulher) pela remoção do pedaço da pele da glande do homem, mas a circuncisão da mulher se dá pela remoção do clitóris (isto é chamado Hufaad)”. Será que pais cristãos deveriam permitir que seus pais ou sogros muçulmanos fizessem isso com uma neta só para não perderem a amizade?

Não se intimide se encontrar oposição, apenas não discuta e deixe clara a sua posição. Todos os que se convertem acabam tendo algum tipo de oposição dos pais. Alguns por causa da conversão, outros por causa das práticas diárias e há ainda os que saíram de uma denominação para congregarem somente ao nome do Senhor e são rechaçados pelos pais, mesmo crentes, que permanecem nos sistemas religiosos que os homens criaram.

Não deveria ser motivo de espanto sermos rejeitados mesmo por familiares, porque o Senhor deixou muito claro que isso aconteceria. O cego curado foi rejeitado por seus pais quando os fariseus fizeram pressão sobre eles e temeram ser expulsos da sinagoga. Muitos pais se envergonham de seus filhos terem se convertido (ou abandonado o sistema religioso), pois isso para eles é uma desonra diante de amigos ou mesmo de irmãos cristãos denominacionais.

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os seus familiares” (Mt 10:34-35).

“Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo; como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (1 Pe 1:13-19).

“Ora, pois, já que Cristo padeceu por nós na carne, armai-vos também vós com este pensamento, que aquele que padeceu na carne já cessou do pecado; para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus. Porque é bastante que no tempo passado da vida fizéssemos a vontade dos gentios, andando em dissoluções, concupiscências, borrachices, glutonarias, bebedices e abomináveis idolatrias; e acham estranho não correrdes com eles no mesmo desenfreamento de dissolução, blasfemando de vós. Os quais hão de dar conta ao que está preparado para julgar os vivos e os mortos” (1 Pe 4:1-5).

“Porque, persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1:10).

Sugiro que leia a excelente série de artigos “Como educar a criança” de autoria de J. C. Ryle e publicados originalmente com o título de “The duties of parents” entre os séculos 18 e 19.

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Devo me preocupar com o que pensam de mim?

Sim e não. É bom lembrar que quando você se converteu ganhou de Deus uma nova natureza, que está em total antagonismo à velha natureza, a carne, que vive em você. Então a preocupação com o que as outras pessoas pensam de você pode ter dois aspectos: Ou elas estão se referindo à sua velha carne ou ao “novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4:24).

Como cristãos sua preocupação não deveria ser quando falam mal de você injustamente. Ao contrário, você deveria estar mais preocupado quando incrédulos falam bem de você. Veja o que o Senhor Jesus diz: “Ai de vocês, quando todos falarem bem de vocês, pois assim os antepassados deles trataram os falsos profetas” (Lc 6:26 - NVI). O que o Senhor pensava da opinião ou aparência das pessoas? Podemos descobrir pelas palavras de seus adversários: “Chegando, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te importas com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens” (Mc 12:14).

O apóstolo Paulo não dava a mínima para o que os outros pensavam dele, e aprendemos isto de Gálatas 1:10, quando ele diz: “Porque, persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1:10). Mas este “não dar a mínima para o que os outros pensam” não é no sentido de viver uma vida inconsequente fazendo a própria vontade e ofendendo a Deus e aos homens, mas de viver apenas preocupado com a opinião de Deus, não dos homens. “Porque também Cristo não agradou a si mesmo”, mas se dispôs a servir de uma espécie de “para-raios” atraindo para si toda injúria dirigida a Deus: “Sobre mim caíram as injúrias dos que te injuriavam” (Rm 15:30).

Ao se referir ao seu ministério, Paulo mostrou bem a quem ele servia: “Falamos, não como para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações. Porque, como bem sabeis, nunca usamos de palavras lisonjeiras, nem houve um pretexto de avareza; Deus é testemunha; e não buscamos glória dos homens, nem de vós, nem de outros” (1 Ts 2:4-6).

Há muitas razões para agirmos de modo contrário a este demonstrado por Paulo. Podemos omitir a verdade ou esconder o evangelho para sermos populares entre as pessoas e não sofrermos perseguições. Eu e você certamente já tivemos oportunidade de testemunhar de Cristo e não o fizemos porque logo veio um pensamento em nossa mente: “O que essa pessoa irá pensar quando souber que eu sou cristão”? Esta é uma forma de conservarmos uma reputação de neutralidade diante de incrédulos para sermos aceitos por eles.

Mas é um engano pensar que os incrédulos aceitam um crente totalmente. Quando Davi decidiu se esconder justamente entre os inimigos de Deus foi preciso fazer-se e louco para não ser morto por eles, e assim é o cristão que quer ser popular entre incrédulos: acabará sempre sendo visto como um louco: “E Davi levantou-se, e fugiu aquele dia de diante de Saul, e foi a Aquis, rei de Gate. Porém os criados de Aquis lhe disseram: Não é este Davi, o rei da terra? Não se cantava deste nas danças, dizendo: Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares? E Davi considerou estas palavras no seu ânimo, e temeu muito diante de Aquis, rei de Gate. Por isso se contrafez diante dos olhos deles, e fez-se como doido entre as suas mãos, e esgravatava nas portas de entrada, e deixava correr a saliva pela barba. Então disse Aquis aos seus criados: ‘Eis que bem vedes que este homem está louco; por que mo trouxestes a mim? Faltam-me a mim doidos, para que trouxésseis a este para que fizesse doidices diante de mim?‘” (1 Sm 21:10-25).

Também podemos ser do tipo lisonjeador por pretexto de avareza, isto é, para lucrar com isso, ganhar votos ou por qualquer outro motivo. Somos treinados desde pequenos a sermos educados na presença das pessoas, e isso é ótimo. O Senhor não chegou para a mulher na beira do poço em João 4 logo trazendo à conversa que ela tinha dormido com vários homens, mas deixou que o assunto chegasse ao ponto em que sua vida de escolhas erradas viesse à tona com a intenção de salvá-la. Ele foi, ao mesmo tempo, educado e honesto em suas colocações, pois não tinha vindo no caráter de quem esmaga “o caniço rachado” ou apaga “o pavio fumegante”, isto é, não pisava nas pessoas já feridas e nem as desmotivava. Mas ao mesmo tempo não era um lisonjeador barato pois não buscava a glória dos homens.

Existe um equilíbrio que é bíblico entre viver de modo agradável a Deus e ao mesmo tempo não ser inconveniente diante dos homens. Muitos cristãos saem por aí batendo com a Bíblia na cabeça das pessoas e expondo todos os seus erros até receberem o troco, que geralmente vem com força total. Aí saem orgulhosos de estarem sendo perseguidos, pois se lembram da passagem que diz que “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Tm 3:12). A questão é que esse tipo de perseguição não veio por desejarem viver piedosamente, mas por terem sido brutos, inconvenientes e ofensivos em suas abordagens.

O apóstolo Pedro escreveu sobre o cuidado que devemos ter para não darmos motivo para os incrédulos falarem mal de nós: “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que fazem guerra contra a alma, mantendo exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação” (1 Pe 2:11-12).

Quando algum incrédulo criticar nosso mau proceder, aí sim devemos nos preocupar e corrigir nossos passos, porque se um incrédulo é capaz de enxergar em nós algo que cause escândalo é porque nosso andar está até pior do que o daqueles que não temem a Deus. Como Paulo escreveu, ao falar do homem que vivia em pecado moral na assembleia de Corinto: “Geralmente se ouve que há entre vós fornicação, e fornicação tal, que nem ainda entre os gentios se nomeia, como é haver quem abuse da mulher de seu pai” (1 Co 5:1).

Mas se as críticas e perseguições forem consequência de nosso andar piedoso, então não há com o quê nos preocuparmos, cuidando sempre de reagirmos com mansidão e temor: “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis; antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós, tendo uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, fiquem confundidos os que blasfemam do vosso bom porte em Cristo. Porque melhor é que padeçais fazendo bem (se a vontade de Deus assim o quer), do que fazendo mal” (1 Pe 3:14).

Juntando tudo, devemos nos preocupar com o que as pessoas pensam de nós? Sim e não. Sim, se o que pensam de nós for de algum modo ofensivo a Cristo por ser consequência de nosso mau testemunho neste mundo. Não, se o que pensam de nós for o resultado de estarmos vivendo para a glória de Deus. No primeiro caso devo considerar o outro, que pensa ou fala mal de mim, uma espécie de “consultor gratuito”. Consultores são contratados para encontrar defeitos nas empresas e ajudá-las a corrigi-los. Se formos acusados justamente nossa reação deve ser reconhecer nossos erros e deixá-los. Devemos também nos retratarmos para com aqueles que se sentiram ofendidos. Mas se formos acusados injustamente devemos nos sentir felizes por padecermos fazendo o bem.

“Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus; quanto a eles, é ele, sim, blasfemado, mas quanto a vós, é glorificado. Que nenhum de vós padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como o que se entremete em negócios alheios; mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus nesta parte” (1 Pe 4:14-16).

“Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus. Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente” (2 Pe 2:19-23).

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Uma denominação em uma cidade é a igreja no local?

Não, uma denominação em uma determinada localidade não tem o mesmo status das igrejas que encontramos no Novo Testamento. As igrejas que nas epístolas vemos denominadas pela cidade ou região eram “a igreja” de Deus que estava naquelas cidades, tanto quanto um quartel ou “Tiro de Guerra” em uma cidade brasileira é o Exército Brasileiro naquela cidade, mesmo que abrigue apenas dois ou três soldados.

É certo que essas denominações podem ter em seu meio muitos salvos, mas não são “a igreja” de Deus naquela localidade. Voltando ao exemplo do exército, se alguns soldados decidissem formar numa cidade um “Clube do Sargento Tainha” (tirei o nome de um gibi de minha época apenas para exemplo) eles poderiam fazê-lo. Mas se dissessem que aquilo era o Exército ou que teria qualquer representatividade como Exército Brasileiro seriam todos presos por amotinação. Uma decisão tomada numa assembleia local como eram as do Novo Testamento era respeitada por todas as assembleias em todo o mundo de então. Do mesmo modo, o que um quartel local faz afeta todo o Exército Brasileiro, mas o que os membros do “Clube do Sargento Tainha” fizerem não representa o modo de agir e pensar do Exército Brasileiro.

Para entender por que uma denominação não pode ser biblicamente “a igreja” em uma localidade, basta entender que ao crer a pessoa é acrescentada ao corpo de Cristo, a única Igreja reconhecida por Deus. Isso é uma obra divina, não humana. “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” (1 Co 12:27).

Em uma denominação você precisa se fazer membro dela por decisão sua, mesmo depois de já ter sido acrescentado ao corpo de Cristo quando creu. As decisões tomadas na filial local de uma denominação não têm a chancela do céu, porque não foram tomadas em nome do Senhor, mas em nome da organização ali representada e em nome da qual aquelas pessoas estão reunidas. A elas não estão sujeitos todos os salvos em toda a terra, como vemos acontecer na igreja do Novo Testamento (leia em Atos 15 e 16 como uma decisão tomada em uma assembleia afetava a todas elas). Não se pode atribuir a isso o que o Senhor expressou em Mateus 18:20 “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Existe uma exclusividade no nome do Senhor que não pode ser compartilhada com nenhum outro nome.

Na cristandade o termo “igreja” é usado no sentido de uma organização à qual você se filia, ou mesmo a um edifício ao qual você vai para adorar a Deus (como era o templo de Jerusalém). Essas ideias não encontram qualquer respaldo na doutrina dos apóstolos. Extraí do livro “A ordem de Deus”, de Bruce Anstey, o texto a seguir que mostra o absurdo de usarmos a palavra “igreja” para qualquer outra coisa que não sejam as próprias pessoas que Cristo salvou:

“Uma irmã das Antilhas, que havia aprendido algo sobre a verdade da igreja, foi questionada pelo “Ministro” de uma denominação local da razão de ela não ‘ir mais à igreja’. Sua resposta foi: ‘A única igreja que encontro na Bíblia é aquela que se lançou ao pescoço de Paulo e o beijou’, referindo-se a Atos 20:37. Então, apontando para o edifício no final da rua, continuou: ‘Se aquela coisa ali se lançar ao meu pescoço, ela vai me matar”! (Extraído do livro “A ordem de Deus”, de Bruce Anstey).

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Posso abandonar minha esposa?

A Palavra de Deus é bem clara quanto a esta questão: “Todavia, aos casados mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher” (1 Co 7:10-11). Este versículo mostra que uma pessoa que crê no Senhor Jesus e é casada não deve deixar seu cônjuge, porém ao mesmo tempo mostra o que fazer caso essa separação ocorra: “Que fique sem casar”. Podemos criar mil desculpas para passar por cima desta ordem, mas não existe felicidade na desobediência à Palavra de Deus e sugiro a leitura deste trecho de um artigo de Gordon Hayhoe com o título “O Amigo e as coisas que nunca mudam”:

“Então chegaram ao pé dele os fariseus, tentando-o e dizendo-lhe: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto o que Deus ajuntou não o separe o homem… Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério” (Mt 19:3-6, 9).

Creio que estas coisas estão escritas na Palavra de Deus como uma mensagem para nós da importância do matrimônio e da solenidade da união matrimonial. Nestes dias, quando o matrimônio é tratado com tanta leviandade, existe uma tendência de que até mesmo os cristãos sejam afetados pela atitude leviana que o mundo tem para com o matrimônio. Precisamos voltar ao que Deus falou. O que fez o Senhor Jesus? Ele disse que se você quer saber a vontade de Deus sobre este assunto você tem que voltar ao princípio, pois o Senhor não muda. Creio que precisamos receber estas coisas hoje. Sabemos que às vezes o relacionamento não é tão feliz quanto deveria ser. Às vezes é tenso. E, certamente, todo esforço deveria ser feito para promover o amor. Costuma-se dizer que para um matrimônio ser feliz o marido precisa ser cem por cento para sua esposa, a esposa cem por cento para o marido e ambos juntos cem por cento para o Senhor. Creio que é por isso que está escrito que “o cordão de três dobras não se quebra tão depressa” (Ec 4:12).

Foi isto o que Deus planejou e ordenou. Mas na época em que vivemos as pessoas veem o matrimônio muito levianamente e dizem que tais ideias são antiquadas; dizem que hoje em dia é muito mais fácil simplesmente se divorciar e casar novamente. Isto é algo muito solene. Quando pensamos que o relacionamento matrimonial é uma figura de Cristo e da Igreja; que a mulher em sua posição representa a Igreja, e que o marido em sua posição representa Cristo, o Noivo da Igreja, isto traz à tona a real responsabilidade. E é este o padrão que nos é apresentado nas Escrituras. “Vós, maridos, amai vossas mulheres como também Cristo amou a Igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5:25).

Temos assim o que Deus colocou. Mas quando você conversa com as pessoas, descobre que elas têm todos os tipos de opiniões, e que estas mudam. Escutei até mesmo um cristão dizer certa vez: “Ora, eu não poderia continuar vivendo com tal pessoa se ela não me amasse”. Ao invés de reconhecer que há um modo de se superar o problema, até mesmo onde exista falta de amor, tal era a atitude dessa pessoa. Mas não está em conformidade com as Escrituras. As Escrituras dizem que foi assumida uma responsabilidade e trata-se de uma solene responsabilidade diante de Deus.

Estou mencionando isto porque creio que todas estas coisas são o meio onde o inimigo age para tentar e destruir o padrão divino - o padrão que Deus estabeleceu em sua preciosa Palavra. Sigamos em conformidade com o que Deus colocou em sua Palavra e haverá bênção em fazermos assim. Quando pensamos na espécie de Igreja que Cristo amou; quão maravilhosa é sua graça para conosco! Será que nós sempre o amamos como deveríamos? Sempre correspondemos aos seus direitos sobre nós como deveríamos? E ainda assim, acaso ele parou de nos amar? Não! Ele é sempre o mesmo. Por isso diz, “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12:21). Portanto isto coloca diante de nós a responsabilidade do matrimônio.

(…)

Estou dizendo estas coisas porque neste mundo que muda a cada dia não percebemos o quanto, do que o mundo faz e diz, que nos afeta a ponto de nos fazer descuidados em seguir as instruções da Palavra de Deus na assembleia. Não nos preocupamos em reconhecer o quão sério é o divórcio e o quanto Deus diz que o detesta (Ml 2:16). E enquanto assistimos ao desmoronamento dessa ordem que Deus planejou - toda a felicidade e gozo que Deus planejou quando o marido e a esposa estão em seu relacionamento correto e feliz - o quanto tudo isso é corrompido. Oh, irmãos, temos o Livro de Deus; temos Aquele que não muda! - Gordon Hayhoe, extraído de http://manjarcelestial.blogspot.com.br:2013:11/o-amigo-e-as-coisas-que-nunca-mudam.html.

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Jesus era negro?

Você menciona uma teoria de que Moisés teria sido negro, que os judeus seriam negros e que Jesus teria tido pele bem morena. Se Moisés era negro não sei, mas tudo leva a crer que sua esposa era negra, originária da atual Etiópia.

Se Moisés foi negro ou não, se Cristo era moreno ou não, que diferença isso faz? Deus não considerou isso importante, pois se considerasse teríamos instruções a respeito na doutrina dos apóstolos. Mas tudo o que temos em Atos e nas epístolas é que havia irmãos de diferentes etnias e tons de pele.

Portanto hoje aqueles que consideram o ser ou não ser desta ou daquela cor estão apenas fazendo tempestade em copo d’água (ou buscando “pelo em ovo” ou “chifre em cabeça de cavalo”, como se costuma dizer) para criar alarde de algo que não tem qualquer importância. Fuja dessas coisas, das teorias conspiratórias e coisas do gênero porque não trazem qualquer proveito. Ocupe-se com Cristo, e não com as bombas de fumaça que o diabo lança na tentativa de olharmos para outro lado.

Jesus tinha pele escura? Os verdadeiros judeus seriam negros ou brancos? Na verdade, aparência física do Senhor é hoje totalmente irrelevante porque ele não está mais do mesmo modo como esteve aqui. Ele assumiu a forma humana para morrer e dar um fim à raça de Adão, inaugurando uma nova linhagem, da qual ele ressuscitado é o primeiro representante (“as primícias”). Ele foi o último Adão e é o segundo homem.

(1 Co 15:45-47) “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante…. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu”.

(1 Co 15:22-23) “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda”.

Portanto ficar ocupado com a aparência que Jesus teve neste mundo ou com a cor da pele das pessoas não faz qualquer sentido neste tempo pós-ressurreição de Cristo. Medite neste versículo:

(2 Co 5:16) “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo”.

Fazendo uma analogia, isso é como discutir se é melhor comprar um Gordini ou Dauphine e a resposta é que não devemos perder tempo com eles (a menos que você seja um colecionador), pois ambos saíram de linha e foram substituídos por carros modernos que não têm qualquer semelhança com os modelos do passado.

(2 Co 5:17) “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criação é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”.

Sabe aquela imagem de Jesus que você vê em livros de histórias, imagens ou crucifixos? Supondo que essas imagens fossem fiéis à realidade da época (o que provavelmente não são), ninguém mais irá vê-lo daquele jeito. Hoje ele está no céu em glória, e não em humilhação, fraqueza e morte como esteve aqui.

“Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” (Hb 2:9).

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Existem santos?

Você escreveu dizendo não concordar com uma afirmação minha de que “os santos foram uma invenção da Igreja Católica” e aproveitou para aparentar concordância com o que escrevi, dizendo que concorda que o “principal intercessor ou mediador é mesmo o Senhor Jesus Cristo”. Obviamente eu não disse isso porque a Bíblia não diz isso. A Bíblia não diz que Jesus seja o “principal Mediador”, e sim o único Mediador entre Deus e os homens. Se dissermos que Jesus é o “principal” mediador precisaremos dizer também que Deus é o principal Deus, o que nos levaria a pensar na existência de outros. “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, o qual se entregou a si mesmo como resgate por todos” (1 Tm 2:5-6).

Quando você abotoa errado o primeiro botão da camisa todos os outros acabarão errados e você só descobre isso ao abotoar o último (ou sobra uma casa ou um botão). É o caso deste assunto dos santos e muitos outros no catolicismo e em outras religiões. O problema está no primeiro botão, ou seja, na definição bíblica do que seja ser santo. A definição sua (creio ser a do catolicismo também) é: “a Igreja Católica afirma também que os Santos (como, por exemplo, São Paulo, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, São Francisco de Assis), pelo grau de proximidade e de obediência a Deus que atingiram, podem, assim, ser chamados ‘santos’“.

Mas será esta a “casa” do “primeiro botão”? Será que é isto que Deus diz ser o significado de “santo”? Não. Na Bíblia o significado de “santo” é “separado para Deus”. Por isso no Antigo Testamento um mero utensílio, como uma bacia ou um candelabro, podia ser santo, pois era “santificado” ou separado para uso do Senhor. Você depois acrescenta que “através do bom exemplo dos santos pode-se também aproximar-se de Deus”, mas eu posso observar uma bacia ou candelabro a vida inteira e não ficar um milímetro mais perto de Deus. A santidade no caso do cristão possui dois aspectos: o absoluto e o relativo. Todo aquele que creu em Jesus como seu Salvador é santo no sentido absoluto da palavra. Foi separado (“santificado”) para Deus pela obra de Cristo.

“Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez. Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hb 10:10, 14).

“E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus” (1 Co 6:11).

Por esta razão as epístolas dos apóstolos são dirigidas aos “santos”, isto é, aos cristãos desta ou daquela localidade. Obviamente nenhum deles tinha sido “canonizado” como faz o catolicismo, nem podia apresentar algum milagre em seu currículo. Eles eram santos simplesmente pelo fato de um dia terem sido separados para Deus pela fé em Cristo, assim como hoje qualquer crente em Jesus é santo.

” E respondeu Ananias: Senhor, a muitos ouvi acerca deste homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém” (Atos 9:13).

“Mas agora vou a Jerusalém para ministrar aos santos” (Rm 15:25).

“À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1:2).

“Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus” (Ef 1:1).

“Aos santos e irmãos fiéis em Cristo, que estão em Colossos” (Cl 1:2).

O outro aspecto da santificação é a prática, isto é, quando permitimos que a santidade (separação) absoluta que temos por graça, e não por esforço ou mérito, seja manifestada em nossa vida prática. Por isso Deus diz que devemos ser santos. Seria algo como alguém ter ascendência real mas andar como mendigo e precisar da exortação: “Deixe essa condição de mendigo e assuma a posição de rei que você possui por nascimento”.

“Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pe 1:15-16).

“Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade” (Cl 3:12).

Quanto à falsa ideia de que exista um grupo de homens e mulheres no céu (os chamados santos católicos) intercedendo por nós por terem maior proximidade de Deus, se conferirmos na Bíblia veremos que a situação é oposta: somos nós que devemos interceder pelos santos.

“Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos” (Ef 6:18).

Obviamente porque santos são todos os nossos irmãos que creem em Cristo e estão vivendo aqui no mundo. Interceder por mortos não é algo que um cristão deva fazer, e tampouco pedir ajuda a eles. Qualquer tentativa de se comunicar com mortos, sejam eles “São Isto” ou “Santa Aquilo”, é absolutamente proibida por Deus em sua Palavra.

“Quando, pois, vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram: Porventura não consultará o povo a seu Deus? A favor dos vivos consultar-se-á aos mortos?” (Is 8:19).

Evidentemente estes versículos soarão estranhos para você, a menos que compreenda de uma vez por todas que “santo” não é uma classe especial de homens e mulheres que viveram segundo um certo padrão, realizaram milagres em vida ou depois da morte e merecem tal posição, como você diz, “pelo grau de proximidade e de obediência a Deus que atingiram”. Mas se você entender que todo aquele que crê em Cristo como Salvador é santo, porque assim a Palavra de Deus (e não alguma junta de homens) o diz, então criar tal casta de pessoas será algo contrário à Palavra e uma desonra para a posição singular que o Filho de Deus ocupa perante o Pai como nosso Intercessor.

“Quando Pedro ia entrando na casa, Cornélio dirigiu-se a ele e prostrou-se aos seus pés, adorando-o. Mas Pedro o fez levantar-se, dizendo: ‘Levante-se, eu sou homem como você’“ (Atos 10:25-26).

Você escreve ainda que “através do bom exemplo dos santos pode-se também aproximar-se de Deus”. Será? A Bíblia deixa muito claro que ninguém consegue aproximar-se de Deus por suas boas obras, sejam elas originais ou inspiradas em outros. Deus nos abriu amplamente o caminho da aproximação por meio do único sacrifício realizado na cruz. No Antigo Testamento o sumo sacerdote só podia entrar no Santo dos Santos, a presença de Deus, levando uma bacia com o sangue de um animal sacrificado. Hoje o Cordeiro já foi sacrificado e todo o que nele crê é um sacerdote com licença e ousadia para aproximar-se de Deus.

“Portanto, irmãos, temos plena confiança para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus, por um novo e vivo caminho que ele nos abriu por meio do véu, isto é, do seu corpo. Temos, pois, um grande sacerdote sobre a casa de Deus. Sendo assim, aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada e tendo os nossos corpos lavados com água pura. Apeguemo-nos com firmeza à esperança que professamos, pois aquele que prometeu é fiel” (Hb 10:21).

Para encerrar, gostaria de contar algo que aconteceu comigo quando lecionava para crianças numa pequena cidade no interior de Goiás, onde eventualmente eu costumava falar do evangelho aos meus alunos. Uma aluna perguntou:

— Professor, o que o senhor acha de Nossa Senhora?

Numa classe quase totalmente católica, os pais não estavam muito à vontade de um professor não católico eventualmente falar de Jesus a seus filhos. Logo percebi que a pergunta tinha sido mandada pelo pai ou pela mãe para ver minha reação. Decidido a nunca bater de frente em questões de fé, ao invés de dar uma opinião desfavorável às crenças dos alunos a respeito de Maria, pedi à menina que escrevesse seu nome numa folha de papel. Ela escreveu.

Depois saí pela sala recolhendo lápis e canetas dos alunos e, indo até a garota, fui colocando os lápis e canetas entre seus dedos, enchendo sua mão. Aí pedi que ela escrevesse novamente seu nome com todas aquelas canetas em sua mão, o que obviamente não conseguiu. Então perguntei:

— De quantas canetas você precisa para escrever?

— Uma.

— As outras ajudam ou atrapalham?

— Atrapalham.

— O mesmo acontece com Jesus. Ele é suficiente e qualquer coisa ou pessoa que você acrescentar não vai ajudar. A Bíblia fala de “um só Mediador”, Intermediário ou Intercessor. Não precisamos de mais de um.

Portanto, se quiser que os outros botões da camisa fiquem em seu devido lugar, antes de fazer alguma afirmação procure na fonte, a Palavra de Deus. Só assim sua camisa vai fechar corretamente no final.

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Posso evangelizar com folhetos?

Alguns cristãos acreditam que só devemos evangelizar da maneira como os primeiros cristãos evangelizavam, isto é, pregando em ruas, praças, salões ou residências. Isso excluiria meios modernos, como distribuição de folhetos e muito menos mensagens em mídias eletrônicas. Obviamente não vemos uma evangelização por folhetos nos tempos bíblicos porque o papel talvez não fosse conhecido na Palestina do primeiro século, apesar de já ter surgido no Oriente onde foi inventado. Nos tempos bíblicos os textos eram escritos manualmente em placas de argila, tábuas de madeira, placas de metal, peles de animais e papiros, uma espécie de papel rudimentar. A imprensa viria bem depois (apesar de ter sido inventada no Oriente antes de Gutemberg).

Se hoje nos limitássemos a utilizar os meios (mídias) do Antigo e Novo Testamento nossas Bíblias viriam em rolos de peles, pois onde você lê “livro” na Bíblia o original significa “rolo”. A importância da evangelização não está na mídia utilizada, mas na mensagem. Hoje evangelizamos usando multimídia, além do papel, mas já ouvi argumentos de irmãos contrários à utilização da Internet por ser um meio que reúne muita perversão. O mesmo pode ser dito da mídia papel e do livro. Entre em uma biblioteca e você encontrará uma Bíblia ao lado de um livro de doutrina pagã ou um romance erótico. Do mesmo modo a Web é também uma vasta livraria e, porque o mundo jaz no maligno, até mesmo a pura e santa Palavra de Deus será encontrada nas mesmas mídias (ou meios, como papel, etc.) utilizadas pelo inimigo de nossas almas.

A maravilha do folheto evangelístico, que hoje também pode ser produzido na forma de mensagens breves em mídia eletrônica além de áudio ou vídeo, está na rapidez como ele coloca um pecador diante da Palavra de Deus. Hc 2:2 diz: “Então o Senhor me respondeu, e disse: Escreve a visão e torna bem legível sobre tábuas, para que a possa ler quem passa correndo”. Originalmente essas tábuas ou “tabletes” talvez fossem de madeira ou argila, mas o foco estava na facilidade como podiam transmitir a mensagem. Assim é o folheto evangelístico e a própria Bíblia que hoje pode ser encontrada em forma de “tablete” nas mãos de cada pessoa que possua um smartphone ou tablet.

Mas, voltando especificamente à mídia papel, o que fazer quando a evangelização usando folhetos impressos é proibida? Na verdade, é preciso diferenciar as coisas. Há lugares onde a evangelização é proibida, independente do meio utilizado, como acontece em alguns países islâmicos. Mas há lugares, inclusive no Brasil, onde a panfletagem é proibida, independente se tenha cunho evangelístico ou comercial para a venda de produtos, imóveis, serviços etc. Somos ensinados a obedecer as autoridades, por isso é preciso sabedoria e cuidado no modo como evangelizamos para não transgredirmos alguma lei, não contra a evangelização, mas contra o meio utilizado.

Se eu estiver em um lugar onde exista uma lei dizendo ser proibido evangelizar de camisa preta, terei o cuidado de usar uma camisa branca. Estarei evangelizando sem desrespeitar a lei. Mas se a lei disser que é proibido evangelizar de qualquer maneira, então serei obrigado a transgredir esse mandamento de homens para me ater ao mandamento de Deus, que diz: “Pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo” (2 Tm 4:2). Pedro, que fora preso por pregar o evangelho, deixou claro que não iria parar de evangelizar, dizendo às autoridades: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).

Mas o cristão sábio procurará andar neste mundo sem causar escândalo “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus… Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado” (1 Co 10:32; 2 Co 6:3), fazendo a obra tendo sempre em mente a admoestação do Senhor: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas” (Mt 10:16).

Infelizmente alguns gostam de ser perseguidos porque isso faz com que se sintam mártires, e costumam citar: “Todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Tm 3:12). Pessoas assim acham que quando não estão sendo perseguidos é porque não estão fazendo a obra de Deus. No caso da evangelização por folhetos em lugares onde a panfletagem é proibida devemos nos lembrar da passagem: “Que nenhum de vós padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como o que se entremete em negócios alheios; Mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus nesta parte” (1 Pe 4:15-16). Assim, se algum cristão for advertido, multado ou preso por distribuir folhetos em local proibido é bom perguntar a si mesmo se está sofrendo perseguição por sua fé ou por ter violado a lei.

Em algumas denominações religiosas existe uma pressão grande pela evangelização e às vezes o objetivo nem é a conversão de pecadores a Cristo, mas o aumento do faturamento da “igreja”. Seus membros são coagidos a evangelizar às vezes com ameaças de perda da salvação ou de maldição. É muito usado o versículo de Ezequiel 3:18 que fala de Deus cobrando do profeta o sangue do ímpio que morrer sem ter sido avisado de sua impiedade. Se observar o contexto verá que tudo ali tem a ver com o profeta Ezequiel, a quem foi dada aquela ordem relacionada a uma missão específica para a qual Deus o enviava como atalaia para Israel. Quem achar que o contexto não é importante e que a passagem vale para qualquer um então sugiro que saia na rua, procure uma prostituta e case-se com ela, porque foi isso que Deus ordenou que o profeta Oseias fizesse: “Vai, toma uma mulher de prostituições” (Os 1:2).

Eu já distribuí muitos folhetos nas ruas, mas sem ser mandado por ninguém que não fosse o desejo colocado por Deus em meu coração. É errado ordenar que alguém saia por aí pregando o evangelho se essa pessoa ainda não teve um exercício com Deus a respeito disso e nem está sendo dirigida por ele. Eu utilizo a Internet para evangelizar, mas seria errado eu exigir de outros a mesma coisa. Se faço isso é porque senti como sendo algo que o meu Senhor queria que eu fizesse, e se meu irmão não faz do mesmo modo é porque deve ter um exercício diferente com seu Senhor. Acredito que no céu ficaremos surpresos quando descobrirmos que irmãos e irmãs que raramente eram vistos estavam engajados muito mais na conversão de almas do que muitos que moram nos púlpitos.

Podemos até ter desejo de fazer algo, mas devemos ser dirigidos pelo Senhor, e não por um irmão ou uma organização. Se você acha que não existe “contraindicação” em pregar o evangelho, então ficará surpreso com esta passagem: “E, passando pela Frígia e pela província da Galácia, foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia” (Atos 16:6). Um cristão que faz algo que não seja sob a direção do Espírito Santo estará fazendo isso na carne. Cada um deve ter o seu próprio exercício para com Deus de como evangelizar, e querer se intrometer no modo como o Senhor deseja usar um irmão não me parece aconselhável, principalmente quando me lembro do que o Senhor disse a Pedro:

“E Pedro, voltando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava… disse a Jesus: Senhor, e deste que será? Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu” (Jo 21:20-22).

Hoje em minha cidade é proibido distribuir folhetos nas ruas ou fazer panfletagem, seja de mensagens do evangelho, seja de propaganda comercial. Uma vez a Editora Verdades Vivas foi notificada porque alguém tinha comprado e distribuído folhetos no centro da cidade e a calçada ficou cheia de folhetos recusados. Para evitar a multa foi preciso explicar para a prefeitura que a distribuição não era da editora, mas de pessoas que compravam o material. No próprio folheto estava claro que o material não era para ser usado de forma a sujar as calçadas.

Em nosso país ainda não existe proibição à evangelização, mas existe proibição conta panfletagem em algumas cidades e também em lugares como aeroportos, escolas e shopping centers, independentemente de ser evangelho ou propaganda. Não acredito ser correto transgredir a lei para entregar folhetos nesses lugares, mas não sou eu quem vai impedir alguém de fazer isso, pois essa é uma questão entre aquele que distribui e seu Senhor. Mas sempre é possível cumprir a lei (evitando a panfletagem) e mesmo assim evangelizar as pessoas nesses lugares. Ao invés de espalhar folhetos para todo lado, pode ser bem mais eficaz levar alguns no bolso para dar a alguém com quem temos contato direto, como a balconista, o frentista do posto de gasolina, a pessoa sentada ao lado no ônibus etc. Em casos assim é possível valorizar o folheto dizendo coisas como “Tenho um presente para você” ou “Esta mensagem aqui me ajudou muito e poderá ajudar você também”.

Às vezes deixo um folheto dentro da revista de bordo do avião ou “esquecido” junto com as revistas em algum consultório. A leitura tem mais valor se a pessoa ficar curiosa por saber o que é aquilo. Eu me lembro de estar na rodoviária de São Paulo e um senhor ao meu lado visivelmente querendo me entregar um folheto (tinha um maço em sua mão), mas todo tímido. Eu, da minha parte, ainda era incrédulo e estava louco de curiosidade para ler o que ele tinha na mão, mas pelo jeito ele não teve coragem. Aí ele se levantou e “esqueceu” um folheto no banco, o qual evidentemente acabei lendo. Não me converti por efeito direto daquele folheto, mas algum tempo depois e hoje consigo lembrar de várias situações semelhantes e posso ver que faziam parte do processo de afunilamento no qual Deus estava me colocando até me levar a Cristo.

A pregação oral do evangelho, em ruas, praças, escolas, salões etc., é sempre bastante eficaz. Já fiz evangelização em ruas, porém essa atividade tem ficado cada vez mais difícil por causa dos escândalos causados por pregadores de certas denominações que mais parecem querer mandar todo mundo para o inferno do que apresentar o céu às pessoas. Mas se alguém sentir-se chamado pelo Senhor para pregar a céu aberto é importante fazê-lo. Muitas pessoas se convertem ao ouvirem o evangelho assim e, mais uma vez, cada um deve dar contas ao seu Senhor e não a homens.

Quando trabalhava no centro de São Paulo costumava gastar parte de meu horário de almoço para ouvir um pregador no calçadão perto do Teatro Municipal. Ao contrário daqueles que costumamos ver por aí, que ficam dando socos na Bíblia e fazendo voz de monstro para assustar os transeuntes, esse falava do evangelho com uma paixão e um brilho no olhar que realmente cativava as pessoas. Falava do amor, da salvação, do perdão, da obra de Cristo. Conversei com ele algumas vezes e me contou que havia se convertido lendo uma Bíblia que um Testemunha de Jeová deixara em seu carro. Mesmo lendo aquela Bíblia com seu texto adulterado pela Sociedade Torre de Vigia, que nega a divindade de Cristo, acabou crendo em Jesus, Deus e Homem.

Ele não era um pregador “profissional” ou mandado por alguma “igreja”, mas tinha o dom e aproveitava seu horário de almoço para pregar. Curiosamente ele estava sendo processado pelo presidente de uma farmacêutica multinacional cuja sede ficava por ali e não aguentava mais ouvir o evangelho cujo som era canalizado até o último andar de seu edifício. Entrou com uma ação alegando que ele usava amplificador de som sem autorização da prefeitura, mas ele recorreu provando que tudo o que possuía era uma voz potente.

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Por que ninguém encontrou a espada inflamada?

Você fez várias perguntas, dentre elas: Por que ninguém teria conseguido localizar a espada inflamada que o querubim segurava para guardar o caminho da árvore da vida (Gn 3:24)? O sangue de Adão e Eva eram de um tipo diferente do sangue humano? Por que Deus puniria tão severamente seres como Adão e Eva (que você chamou de “primitivos”)? Qual seria a população da Terra se Adão não tivesse pecado?

Não sei se você é realmente convertido, mas o simples fato de levantar questões assim pode ter dois motivos. Primeiro, é provável que você conheça a Cristo mas viva navegando por sites e blogs de ímpios, ateus e céticos em busca de questionamentos e teorias sobre Deus e a Bíblia. É melhor gastar seu tempo em algo mais produtivo porque nesses lugares não vai encontrar coisa alguma que preste, e é Deus quem lhe diz isto:

“Mas ao ímpio diz Deus: De que te serve repetires os meus preceitos e teres nos lábios a minha aliança, uma vez que aborreces a disciplina e rejeitas as minhas palavras?” (Sl 50:16-17).

“Pois a boca do ímpio e a boca do enganador estão abertas contra mim. Têm falado contra mim com uma língua mentirosa. Eles me cercaram com palavras odiosas, e pelejaram contra mim sem causa. Em recompensa do meu amor são meus adversários; mas eu faço oração. E me deram mal pelo bem, e ódio pelo meu amor” (Sl 109:2-5).

Segundo, você demonstra que seu interesse não está na Pessoa de Cristo, mas em curiosidades ou aparentes contradições da Bíblia. Isto porque uma pessoa que crê realmente no Salvador sabe que Deus é justo e sua Palavra perfeita, e assim descansado procura viver de forma a glorificar a Deus por palavras e atos. Existe à sua disposição um volume que é a Palavra de Deus e buscar a verdade fora dele é demonstrar insatisfação com o que Deus nos deu. Em outras palavras, é cuspir no prato que comeu ou, em muitos casos, que nem comeu ou quis experimentar o sabor!

A Bíblia toda é a respeito de Cristo e se alguma coisa não foi revelada nela é porque essa coisa não tem qualquer importância para a exaltação de Cristo e “para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” (Cl 1:10). O que Deus nos revelou é suficiente para “a vida e piedade”, portanto agora sou eu quem pergunta: das coisas que Deus revelou em sua Palavra, será que você as tem levado em conta para pautar sua vida e piedade? O quanto bebemos de fontes escusas pode demonstrar o grau de insatisfação que temos com a pura e cristalina água da Palavra que sai da Rocha, que é Cristo.

“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo. E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade. Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele em quem não há estas coisas é cego, nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados” (2 Pe 1:3-9).

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Servos perdem a salvação?

Você mencionou a parábola do servo prudente em Mateus 24:45-51 e também dos talentos em Mateus 25:14-30 indagando como poderíamos afirmar que o crente não perde a salvação se nas duas parábolas Jesus está falando de servos e não de incrédulos e nelas os servos negligentes são lançados nas trevas exteriores. As passagens são estas:

“Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim. Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens. Mas se aquele mau servo disser no seu coração: o meu senhor tarde virá; e começar a espancar os seus conservos, e a comer e a beber com os ébrios, virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora em que ele não sabe, e separá-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes” (Mt 24:45).

“Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens… Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste; e, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei?… Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes”. (Mt 25:14-30).

Quando ler os evangelhos tenha em mente que ali não existem cristãos, mas judeus. A igreja só seria fundada em Pentecostes, portanto antes disso não existia cristianismo do modo como o conhecemos e nem pessoas tendo o Espírito Santo habitando nelas, como é hoje o caso de todo aquele que verdadeiramente creu em Jesus. Os discípulos do Senhor eram judeus, adoravam no Templo de Jerusalém e ofereciam sacrifícios de animais mortos, como José e Maria fizeram no início dos evangelhos. Quando Jesus curava, ele ordenava ao curado que se apresentasse aos sacerdotes do templo para as oferendas que a Lei determinava em casos assim. Entenda que nada disso faria sentido se aquilo fosse cristianismo, mas estava bem de acordo com o judaísmo.

O próprio Jesus deixou claro que estava aqui neste mundo tratando com judeus e não com gentios: “E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15:24). Ao enviar seus discípulos ele também deixou claro que missão deles nada tinha a ver com os gentios, mas era exclusivamente para judeus: “Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10:5-6).

Tendo isto em mente é preciso entender também que o evangelho que Jesus e seus discípulos pregavam era o “evangelho do Reino”, anunciando o Rei que havia chegado para reinar. Um rei tem súditos e entre eles podem ser encontrados os que são fiéis ao rei e os que não são fiéis. O reino que era anunciado, apesar de ter sua origem nos céus, e por isso ser chamado em Mateus de “reino dos céus”, devia ter sido instalado na terra caso os judeus recebessem o seu Rei.

Como os judeus não receberam o Rei, o reino passou a existir aqui em forma invisível, conforme o Senhor avisou nesta passagem: “E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes e disse: o reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17:20-21). Mesmo estando o Rei entre eles os judeus não se davam conta de que se encontravam dentro da esfera de um reino que reúne tanto joio como trigo, falsos e verdadeiros servos ou súditos do Rei.

Virá um dia quando o Rei Jesus voltará para estabelecer na terra seu reino de modo manifesto a todos e então os maus servos serão lançados nas trevas exteriores. Mas quando isso acontecer, a Igreja, que são os salvos por Cristo da atual dispensação, já terá sido removida da terra pelo menos sete anos antes no arrebatamento e descerá com Cristo para o evento descrito em detalhes em Mateus 25.

Resumindo: nos evangelhos você não encontra a Igreja, pois esta não existia ainda e o Senhor prometeu que edificaria sua Igreja (Mt 16:18). Nos evangelhos a relação dos homens com Cristo é a de servos porque ele veio para reinar sobre os seus, mas os seus não o receberam (Jo 1:11). Então algo novo acontece após a morte, ressurreição e glorificação do Senhor, que é transformar em nova criação todo aquele que recebe a Cristo, não como Rei (pois agora ele não está tratando com judeus apenas), mas como Senhor (Jo 1:12; Romanos 10:9).

Para compreender estas coisas você precisará deixar de lado as ideias da teologia do pacto (geralmente aceita nas denominações fundamentalistas), que considera a Igreja apenas uma continuação de Israel e detentora das promessas feitas outrora àquele povo. Depois precisará entender o que a Palavra de Deus ensina sobre as diferentes dispensações, que mostram que no presente momento Israel foi colocado de lado por um pouco de tempo, como Paulo explica em Romanos 11, para fundar a Igreja, o corpo de Cristo, e fazer dela o testemunho de Deus na terra.

A qualquer momento a Igreja será arrebatada para os céus (1 Ts 4:17) e dentre os que ficarem aqui, judeus e gentios, se levantará um remanescente de judeus fiéis que serão considerados por Deus o verdadeiro Israel, o qual anunciará que o Rei está voltando para reinar, ao que muitos gentios atentarão e se converterão em súditos do Rei Jesus quando ele estabelecer seu reino de mil anos na terra

Mas mesmo durante esse reino aqui as pessoas não estarão ressuscitadas, mas serão pessoas normais em seus corpos de carne natural como o que temos hoje, e que terão sobrevivido à grande tribulação. É por isso que, ao descrever a grande tribulação em Mateus 24, o Senhor diz que “se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria” (Mt 24:22). A terra será restaurada, mas apenas o suficiente para servir de morada para os que habitarão no reino de Cristo (enquanto isso a Igreja reinará com Cristo a partir do céu).

Durante esse reino de Cristo na terra as pessoas adoecerão, porém terão recursos de cura, e morrerão de velhas, ou serão mortas quando pecarem. A passagem a seguir mostra como será o governo de Cristo na terra nesse reino, com julgamentos diários (de manhã) daqueles que pecarem; a seguinte fala dos que morrerão de idade avançada e na outra fala de cura para as nações. Obviamente no céu não haverá nações, como existem hoje, mas elas existirão na terra durante o reino de mil anos de Cristo.

“Os meus olhos estarão sobre os fiéis da terra, para que se assentem comigo; o que anda num caminho reto, esse me servirá. O que usa de engano não ficará dentro da minha casa; o que fala mentiras não estará firme perante os meus olhos. Pela manhã destruirei todos os ímpios da terra, para desarraigar da cidade do Senhor todos os que praticam a iniquidade” (Sl 101:6-8).

“E exultarei em Jerusalém, e me alegrarei no meu povo; e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor. Não haverá mais nela criança de poucos dias, nem velho que não cumpra os seus dias; porque o menino morrerá de cem anos; porém o pecador de cem anos será amaldiçoado. E edificarão casas, e as habitarão; e plantarão vinhas, e comerão o seu fruto” (Is 65:19).

“No meio da sua praça, e de um e de outro lado do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês; e as folhas da árvore são para a saúde das nações” (Ap 22:2).

Portanto, aqui continuará sendo a terra, e não o céu. No final dos mil anos “os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão” (2 Pe 3:10), e haverá “novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (2 Pe 3:13), dos quais a Bíblia não fala quase nada por se tratar do estado eterno.

Portanto, voltando à sua pergunta inicial, os servos de que falam as passagens dos evangelhos não são necessariamente salvos por Cristo, mas apenas sujeitos a Cristo de coração ou por conveniência (como ocorre hoje na cristandade). Por isso existe a possibilidade de aqueles que nunca se converteram de verdade serem lançados no lago de fogo.

Mas, como você mesmo mencionou em outra parte, os que creem realmente em Cristo têm a promessa inabalável de João 14:16, que diz “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre”. Obviamente alguém que foi salvo por Cristo tem o Espírito Santo habitando em si para sempre e não poderá jamais se perder, pois o Espírito Santo não ficaria para sempre nessa pessoa se ela fosse lançada no lago de fogo.

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Não existe perdão para quem duvida dos profetas?

Ao tentar contestar minha afirmação de que não existem mais profetas como os que existiram no início da Igreja você cometeu vários equívocos. Talvez o mais grave tenha sido considerar que a revelação de Deus não esteja completa, ao dizer que muita coisa que Deus disse não está na Bíblia. Isso dá margem para que os modernos falsos profetas apresentem suas “revelações” ou “profetadas” como se fosse a Palavra de Deus. Em tom ameaçador você também escreveu que estou incorrendo no pecado sem perdão, ao duvidar que esses “profetas” modernos do meio pentecostal sejam inspirados pelo Espírito Santo. Para embasar sua afirmação você citou esta passagem:

“Portanto, eu vos digo: todo o pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada aos homens. E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro” (Mt 12:31-32).

A ameaça de blasfêmia contra o Espírito é uma forma de terrorismo psicológico bastante usada em denominações pentecostais. O raciocínio que tentam incutir em seus seguidores é este: se o pastor prega inspirado pelo Espírito Santo, então quem contestar o que o pastor diz está pecando contra o Espírito e, portanto, será condenado ao lago de fogo por não ter mais perdão. Quem deixar a igreja daquele pastor também sofrerá a mesma pena pelo mesmo motivo.

O que esses manipuladores e mercadores de almas não contam para suas ovelhas é que a passagem é a conclusão de todo um contexto no qual os fariseus, vendo os milagres que Jesus fazia pelo Espírito Santo, afirmavam: “Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios” (Mt 12:24). Portanto, a menos que alguém renegue completamente a obra do Espírito, que hoje é convencer o homem “do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16:8), é impossível alguém ficar privado de perdão nos mesmos moldes daquilo que os fariseus fizeram, pois para isto seria necessário que Jesus estivesse na terra fazendo milagres, como era o caso ali.

Ao negar que a revelação de Deus esteja completa, obviamente para dar assim carta branca a qualquer um que se declare profeta no mesmo nível dos que nos deixaram as Escrituras do Novo Testamento, você atropela a afirmação de Paulo, que escreveu:

“Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja; da qual eu estou feito ministro segundo a dispensação de Deus, que me foi concedida para convosco, para cumprir [completar] a palavra de Deus; o mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos” (Cl 1:24-26).

O último mistério que foi revelado a Paulo e que esteve oculto até dos profetas do Antigo Testamento e dos apóstolos antes dele, foi o mistério da Igreja:

“A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo; para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Ef 3:8-10).

Aliás, são nove os mistérios que foram revelados com exclusividade através do apóstolo Paulo:

  1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9.

Cristo ressuscitado e glorificado nos céus “deu dons aos homens” e “deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Ef 4:8-12). Paulo, juntamente com os outros “santos apóstolos e profetas” foram usados por Deus para revelarem o “mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são coerdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho”.

Quanto ao fato de não existirem mais profetas como os do início da Igreja fica claro pela passagem que os coloca no mesmo nível dos apóstolos na colocação dos alicerces da casa de Deus. Se somos “edificados sobre o fundamento” obviamente seria uma pretensão muito grande alguém hoje querer se considerar parte do fundamento ou alicerce.

“Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef 2:19-22).

Hoje restam os dons de evangelista, pastor e doutor ou mestre, e qualquer um desses atua como profeta, não no sentido de trazer novas revelações, mas de proferir a Palavra de Deus já revelada. É por isso que na ordem para a reunião dos cristãos é feita distinção entre os profetas e o que traz revelação. Os profetas poderiam ser quaisquer irmãos que o Espírito usasse para falar da parte de Deus para a assembleia, mas a revelação seria dada àquele que fosse profeta no sentido do dom de Efésios4, já que naquela época os cristãos ainda não tinham a completa revelação de Deus como a temos hoje e nem podiam abrir uma Bíblia impressa em suas reuniões.

“E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro” (1 Co 14:29-30).

Veja que a passagem não limita o ministério da palavra apenas àqueles que tivessem o dom de profeta, mas a palavra era franqueada a todos que o Espírito quisesse usar, como também ocorre hoje:

“Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados” (1 Co 14:31).

Agora veja o absurdo que o seu raciocínio gera ao me ameaçar com a perdição eterna por eu duvidar do ministério dos pretensos profetas modernos. Como alguém poderia obedecer esta passagem de 1 Coríntios 14:29 e julgar o que diz um profeta na reunião da igreja se sobre essa pessoa recair a ameaça de nunca mais ser perdoada? Ali diz claramente que os outros, que escutam o ministério do irmão que profetiza (no sentido de proferir ou falar da parte de Deus), devem julgar o que ele está dizendo. Se perceberem algum desvio da sã doutrina devem ordenar que se cale ou dê maiores explicações.

Mas percebo que seus equívocos têm raízes mais profundas, pois você não consegue diferenciar um profeta do Antigo Testamento de um profeta dado por Cristo para colocar os fundamentos da casa de Deus. Isso decorre do erro de pensar que no Antigo Testamento as pessoas tinham o Espírito Santo habitando nelas de forma permanente como é o caso hoje para aqueles que creem em Jesus. Para tentar provar sua tese você citou 1 Samuel 10:10 que diz que o Espírito de Deus se apoderou de Saul, que profetizou no meio dos profetas de Israel. Citou também a passagem de Juízes 14:6, quando o Espírito do Senhor se apossou de Sansão capacitando este a despedaçar um leão. Mas se esqueceu de citar Números 22:28 quando “o Senhor abriu a boca da jumenta” de Balaão e ela profetizou.

Certamente você não acredita que o Espírito Santo tenha habitado naquela jumenta, mas há de concordar comigo que aquela era uma manifestação excepcional e passageira, como eram os demais casos de homens usados pelo Espírito no Antigo Testamento. Por isso Davi roga a Deus no Salmos 51:11“não retires de mim o teu Espírito Santo”, algo que não faria sentido um crente fazer hoje, pois aos salvos do período da Igreja o Senhor prometeu que daria “outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14:16).

Obviamente nenhum dos casos encontrados no Antigo Testamento é igual ao habitar do Espírito hoje na Igreja coletivamente e em cada crente individualmente, pois para que isto acontecesse era preciso que antes Cristo morresse, ressuscitasse e subisse à glória. Os exemplos que deu são de ocasiões em que o Espírito agiu na terra em pessoas, mas não habitou nelas permanentemente. O Senhor Jesus também esteve na terra antes de sua encarnação (como no encontro com Abraão), mas foi somente em sua encarnação que assumiu definitivamente a forma humana. Preste atenção no final deste versículo que aponta esta condição para que o Espírito Santo fosse dado aos homens.

“E isto disse ele do Espírito que haviam de receber os que nele cressem; porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado” (Jo 7:39).

Você confunde os profetas do Antigo Testamento com o dom de profecia dado à Igreja. No Antigo Testamento uma jumenta profetizou para Balaão porque Deus usava homens e até animais como instrumentos para falar por intermédio deles. Mas isso nada tinha a ver com os dons dados aos homens na atual dispensação da Igreja. Para que os homens recebessem os dons de apóstolo, profeta, evangelista, pastor e doutor, Cristo precisava antes morrer, ressuscitar e subir aos céus.

“Por isso diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, E deu dons aos homens… E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Ef 4:8-11).

Ao dizer que Paulo nos aconselha a buscar de Deus o dom de profetizar, talvez esteja se referindo a 1 Co 14:1, que diz: “Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar”. Se verificar o texto grego verá que a palavra “dons” não existe nos originais, mas foi introduzida apenas para dar mais sentido à frase, a qual deve ser lida assim: “procurai com zelo os espirituais [pneumatikos], mas principalmente profecia [propheteuo]”.

J. N. Darby coloca “procurai com zelo as manifestações espirituais”, porque nada do que é dito neste versículo e nos seguintes tem a ver com os dons dados por Cristo em Efésios4, mas aqui são manifestações do Espírito que são geralmente momentâneas, e por isso mesmo melhor traduzida como manifestações, que acontecem em um determinado momento, e não dons, que são dádivas entregues e incorporadas naqueles que os recebem.

Resumindo, quem crê em Cristo hoje tem o Espírito Santo habitando em si como selo ou garantia de sua redenção, como ensina Ef 1:13, pois “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9). Isso nunca aconteceu com os santos do Antigo Testamento “porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado” (Jo 7:39). Quando em Lucas 11:13 o Senhor exortou os discípulos a pedirem o Espírito Santo aquilo foi por eles ainda não o terem habitando neles, mas as orações dos discípulos em Atos 1:14 certamente incluíam tal pedido, pois elas foram respondidas em Atos 2 com a descida do Espírito Santo.

A partir de então os cristãos receberam dons para a edificação da Igreja que acabava de ser fundada, e depois de a revelação dos mistérios de Deus ter sido completada especialmente pelo apóstolo Paulo já não há necessidade dos dons de apóstolos e profetas mencionados em Efésios 4, permanecendo os evangelistas, pastores e doutores.

Mas é inegável que irmãos continuam a ser enviados pelo Espírito Santo para a obra de Deus, e neste sentido pode-se até aplicar a palavra apóstolo, pois é este o termo grego [Apóstolos] tanto para os apóstolos que conhecemos, como para aqueles que eram enviados para uma missão específica, como Epafrodito que é chamado pela mesma palavra grega “apóstolos” em Filipenses 2:25: “Epafrodito… vosso enviado [Apóstolos]”.

Também podemos chamar de profetas hoje aqueles que falam da parte de Deus, não com novas revelações, mas expondo a Palavra e submetendo-se ao julgamento e escrutínio dos irmãos quanto ao que fala. “Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados. E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Co 14:31-32). Deixe de fora este julgamento dos que ministram conforme é ordenado por Deus e o resultado é essa profusão de falsos profetas espalhados pela cristandade ameaçando seus seguidores com a perdição eterna caso sejam contestados.

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Por que atentados como o da revista Charlie Hebdo em Paris?

O atentado contra a revista “Charlie Hebdo” foi praticado por radicais islâmicos como forma de vingança contra a zombaria que é marca registrada da revista, não apenas contra o islamismo, mas também contra o cristianismo, judaísmo e outras religiões, além de políticos e celebridades. Embora eventos como este nos entristeçam e até gerem um sentimento de revolta e desejo de revanche, basta conhecer um pouco de história para saber que atos assim não são novidade.

Os radicais islâmicos fazem hoje o que os radicais Cruzados católicos fizeram dos séculos 11 ao 13 na tentativa de “libertar” Jerusalém, e também os Inquisidores fizeram do século 12 ao 19 contra muçulmanos, judeus, ciganos, pagãos ou até mesmo contra cristãos que insistissem em ler as Escrituras ou discordar do Papa em Roma. Nessa época muitos judeus e muçulmanos eram convertidos à força sob a ameaça de perderem os bens e a vida. Houve também uma Inquisição protestante, porém mais branda. Nesses casos a crueldade se devia à falta de compreensão da cidadania celestial do crente em Cristo, daí a ideia de que precisavam conquistar o mundo para Cristo, inclusive usando armas. O equivalente islâmico desse esforço conquistador pelo qual os fins justificam os meios seria a “jihad”, conforme explica o próprio Maomé:

“Está escrito que Amr bin Abasah disse: Fui ter com Maomé e perguntei: ‘Oh mensageiro de Alá, qual é a melhor jihad?’ Maomé disse: ‘A de um homem cujo sangue é derramado e o seu cavalo é ferido’” (Sunan Ibn Majah 2794).

Por incrível que pareça, os termos “cruzada” e “guerra santa” foram usados pelo presidente dos EUA por ocasião da invasão do Iraque e essa ideologia ainda existe hoje de forma velada em uma vertente da cristandade. Ela tem o nome de “Teologia do Domínio”, subproduto da “Teologia do Pacto” que considera a Igreja como sucessora e detentora das promessas feitas a Israel. Ela se baseia principalmente no Antigo Testamento, quando Deus ordenava aos israelitas para tomarem posse da terra de Israel inclusive matando seus habitantes originais, homens, mulheres e crianças.

O islamismo se baseou no Antigo Testamento judeu para costurar suas doutrinas, por isso dentro da fé islâmica é perfeitamente normal matar homens, mulheres e crianças de qualquer povo que ofenda Maomé, a quem chamam de “Profeta”, ou “Alá”, ao qual consideram seu Deus mas jamais podem chamar de Pai por tal intimidade ser proibida naquela religião. O Alcorão traz diversos textos incentivando a conquista e conversão pela espada, a revanche e o ataque físico aos infiéis, nada diferente do que você encontra no Antigo Testamento.

Mas para os cristãos que realmente creem em Jesus, o Filho de Deus, que veio ao mundo para morrer na cruz no lugar do pecador e, em misericórdia e graça, salvar e unir pessoas de todos os povos em um só corpo - a Igreja - muitas práticas do Antigo Testamento foram retificadas pelo próprio Jesus e receberam um “Eu porém vos digo…”. Se os radicais islâmicos conhecessem a Jesus, que é Deus e Homem, com autoridade para retificar o Antigo Testamento, conheceriam também o ”Eu, porém vos digo…” e não sairiam por aí matando pessoas. O problema é que, apesar de existir uma vertente mais “politicamente correta” da religião islâmicas, falta às suas escrituras, o Alcorão, um “Novo Testamento”. Por isso elas continuam trazendo o mesmo “olho por olho e dente por dente” (Ex 21:24; Mateus 5:38 - Sura 05:54), porém sem o ”Eu, porém vos digo” de Jesus (Mt 5:39).

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes. Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai Celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 38:45).

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Estarei perdida para sempre?

Você contou que se converteu e passou a frequentar uma igreja que ocupa grande espaço na TV. Mas, depois de alguns meses encontrou na Bíblia o pecado sem perdão e passou a ter medo de cometê-lo. Na igreja lhe disseram que esse pecado era blasfemar contra o Espírito e isso foi suficiente para você não conseguir controlar maus pensamentos e achou que tinha cometido tal pecado. Entrou em depressão, vivia chorando e com medo de ir para o inferno. Você acabou abandonando aquela igreja e passou os últimos sete anos sofrendo com a ideia de estar perdida eternamente.

Sinto dizer que você não está sozinha. Muitas pessoas que frequentam ou frequentaram igrejas pentecostais acabam vítimas de terrorismo psicológico e acabam entrando em depressão por acharem que estão perdidas. Muitos pregadores de milagres usam desse argumento de “blasfemar contra o Espírito” por afirmarem que fazem milagres em nome de Jesus e pelo Espírito Santo, portanto alegam que se alguém duvidar deles estará blasfemando contra o Espírito. Mas o próprio Jesus nos alertou contra os tais:

“Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7:15-23).

Esses contra os quais Jesus fala não são pagãos, feiticeiros, espíritas, macumbeiros, etc., mas são homens que professam ser cristãos e fazer milagres em nome de Jesus. São os mesmos contra os quais Paulo e Judas escrevem em 1 Timóteo 3 e Judas 1. Judas os compara a Janes e Jambres, os magos de Faraó que imitavam os milagres que Deus fazia por intermédio de Moisés.

Existem passagens nos evangelhos que são específicas para aquele momento em que a passagem ocorria. Por exemplo, é comum você aprender de pregadores pentecostais que Jesus teria levado sobre si as nossas enfermidades na cruz e por isso jamais deveríamos ficar doentes. Caso ficarmos, devemos repreender a enfermidade lembrando que na cruz Jesus as levou todas sobre si.

Mas a verdade é que quando Jesus curava estavam se cumprindo as Escrituras que diziam que ele levaria sobre si as enfermidades das pessoas que ele curava, que foi o que profetizou Isaías 53:4: “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido”. O contexto todo do capítulo é dirigido ao povo que rejeitou o Messias, isto é, os judeus.

“Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido” (Is 53:2-4).

É apenas depois, no versículo 5, que o profeta faz alusão à sua obra na cruz, porém nos versículos anteriores está falando de Jesus vivo, em seu andar aqui neste mundo, sem beleza, desprezado, rejeitado, trabalhando arduamente e tomando para si as enfermidades das pessoas que curava, algo que só ele podia fazer por ser sem pecado e, portanto, imune às enfermidades. Se o ensino desses pregadores pentecostais fosse correto, não teríamos Epafrodito, Timóteo e outros discípulos doentes como vemos no Novo Testamento.

As enfermidades continuam aí e estamos sujeitos a elas porque estamos num corpo ainda corrompido pelo pecado. É só depois de ressuscitados que não experimentaremos mais doenças. Uma pinta na pele, uma cárie no dente, a redução da visão e audição, ou até mesmo a calvície são enfermidades, e mesmo esses pregadores que afirmam tal mentira não conseguem esconder essas enfermidades, mesmo que se tratem secretamente de outras em clínicas e hospitais particulares para seus seguidores acharem que eles nunca adoeçam.

Entenda que a profecia de Isaías se cumpriu quando Mateus disse que ela estava se cumprindo, ou seja, quando Jesus curava as pessoas enquanto andava aqui:

“E, chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados, e ele com a sua palavra expulsou deles os espíritos, e curou todos os que estavam enfermos; para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças” (Mt 8:16-17).

Quanto à sua dúvida sobre o pecado sem perdão, veja que quando Jesus disse aquilo ele estava bem ali na frente dos fariseus curando pessoalmente as pessoas e sendo acusado de fazer aquilo pelo poder de Satanás. Ao fazerem aquilo os fariseus estavam blasfemando assim contra o Espírito Santo. Mas aquela era uma situação bem específica para aquele momento, como era também a passagem em que a profecia de Isaías se cumpriu ao Jesus tomar para si as enfermidades dos que eram curados.

Veja a passagem da blasfêmia como é apresentada no Evangelho de Marcos:

“Em verdade vos digo que tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e as blasfêmias que proferirem. Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de pecado eterno. Isto, porque diziam: está possesso de um espírito imundo” (Mc 3:28-30).

Repare que eles estavam dizendo que Jesus estava possesso de um demônio, o que seria impossível você dizer hoje, pois Jesus já não está no mundo, e sim na glória.

Outro ponto: uma pessoa que fique atribulada por ter tido um mau pensamento contra o Espírito Santo obviamente só poderá ser alguém que está sendo tocada em sua consciência pelo mesmo Espírito para confessar esse pecado a Deus. Se ela fosse totalmente indiferente a isso aí sim seria preocupante, pois ainda não teria sido despertada pelo Espírito, que é quem nos convence de pecado. Mas por estar sendo tocada neste sentido é porque tem vida em si mesma.

Lembre-se de que se blasfêmia fosse hoje um pecado sem perdão, Paulo jamais teria sido salvo, pois ele escreve: “A mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injurioso; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade” (1 Tm 1:13).

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Você não tem fé na humanidade?

Você quer saber se tenho fé na humanidade? Minha resposta é um grande e sonoro “NÃO”! Eu absolutamente não acredito na humanidade, não tenho fé no ser humano e não nutro qualquer esperança de que os descendentes de Adão — inclusive eu — venham a evoluir. A razão é que procuro ter a mesma opinião de Deus neste e em outros assuntos. E qual é a opinião que Deus tem da humanidade?

“E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gn 6:5). Repare que Deus “viu” tanto a maldade dos Atos como dos pensamentos. Nós só conseguimos enxergar ações, nunca pensamentos ou intenções, portanto é mais seguro confiar na avaliação que Deus faz do homem.

Talvez você argumente que isso foi antes do Dilúvio, como de fato foi, mas que depois o homem teria se comportado melhor. Você não está falando sério, está? Deus enviou o Dilúvio justamente porque “encheu-se a terra de violência” (Gn 6:11). Apesar de Deus ter dado a Noé e sua família uma segunda chance a história do homem continua a ser escrita com tinta de sangue em páginas de crueldade. Os jornais de hoje estampam a foto de um menino de dez anos sendo usado por radicais islâmicos do ISIS para decapitar seus prisioneiros. Semana passada outro grupo islâmico usou uma menina bomba para matar duas dezenas de pessoas.

Se você me perguntar se acredito no ser humano só posso dizer que acredito que ele seja capaz de atrocidades cada vez maiores em sua senda de rebeldia e inimizade contra Deus. Desde Caim, matar seus semelhantes é o esporte preferido dos seres humanos, e os milhões que são assassinados todos os dias só comprovam isso. Em sua Palavra, a Bíblia, Deus diz: “todos os que me odeiam amam a morte” (Pv 8:36). Se a morte não exercesse tamanho fascínio sobre nós não existiram tantos filmes violentos campeões de audiência.

Mas então por que Jesus teria vindo ao mundo ensinar tantas coisas boas? Acaso não seria isso um sinal de que ele tinha fé na humanidade e acreditava que os seres humanos só precisariam se esforçar para se tornarem pessoas melhores? Não, ele não veio ao mundo para ensinar, embora o ensino fizesse parte de seu ministério para mostrar o que seria o homem segundo o padrão de Deus. O ensino e o andar perfeito de Jesus só nos tornam mais culpados por sermos incapazes de atender a esse padrão. A verdade é que Jesus veio ao mundo para morrer em lugar do pecador e ressuscitar como o primeiro exemplar de uma nova Criação, passando assim uma borracha na descendência de Adão, na qual Deus decidiu colocar um ponto final. Mas vamos ver a opinião que Jesus também tinha do ser humano:

“E, estando ele em Jerusalém pela páscoa, durante a festa, muitos, vendo os sinais que fazia, creram no seu nome. Mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia; e não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem” (Jo 2:23-25).

A opinião que Deus tem do homem revelada em outros livros da Bíblia não é diferente. O apóstolo Paulo escreve em sua carta aos Romanos aquilo que costumo chamar de “Currículo do Homem”:

“Cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia… Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm 1:29-32; 3:10-18).

Se nada disso convence você de que o homem é mau até a medula é porque você mesmo não se considera tão ruim assim e está esperando alcançar o favor de Deus com base em seus méritos. Mas se você nem pensaria em recompensar por mérito um funcionário com um currículo assim, por que acha que Deus faria diferente ao tratar comigo e com você? Ainda que você quisesse encontrar uma pessoa boa e obediente na face da terra Deus lhe diria para não perder seu tempo, “porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente” (Sl 143:2).

O único critério pelo qual uma pessoa pode ser salva eternamente é com base na graça e misericórdia de Deus, que entregou seu Filho Jesus para morrer no lugar do pecador. “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia… porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 11:32; 3:23-24). Se prestou atenção nas palavras de Paulo quando ele explicou o que é o Evangelho ou “boas novas” em sua carta aos Coríntios, terá percebido que ele não disse que o Evangelho seja uma série de regras ou ordenanças para melhorar o homem. Veja o que ele diz:

“Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão. Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Co 15:1-4).

Portanto o evangelho não é um manual de como você precisa viver para merecer o céu, mas a boa notícia de que seus pecados foram pagos por Cristo na cruz, pois ele morreu para sua redenção e ressuscitou para sua justificação.

Esqueça a ideia de que existam pessoas boas, das quais você seria um exemplar. Quando ocorre um atentado sangrento, como o dos jihadistas em Paris que assassinaram friamente pessoas desarmadas em um jornal e em uma mercearia, como nos sentimos? Ficamos naturalmente revoltados e desejosos de vingança por acharmos que, aos olhos de Deus, somos melhores que os terroristas. Mas veja o que Deus diz da humanidade como um todo:

“Não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com a rede, as suas mãos fazem diligentemente o mal; assim demanda o príncipe, e o juiz julga pela recompensa, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles tecem o mal. O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos” (Mq 7:2-4).

Se você ainda tem fé na humanidade é porque não acredita no que Deus diz de você e de todos nós, porém “se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós… Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo [a Deus] mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1 João 1:8, 10). O problema é que julgamos as coisas tendo a nós mesmos como padrão e nos esquecemos de que, para Deus, o padrão é ele próprio, e sua sentença é: “Ninguém há bom senão um, que é Deus” (Mc 10:18). Se você disser que tem um ‘bom coração’, Deus responderá que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso” (Jr 17:9).

Se argumentar que com uma boa educação é possível melhorar o homem, Deus dirá que “todo o homem é embrutecido no seu conhecimento” (Jr 10:14), pois a educação humana serve apenas para algumas coisas desta vida. No que diz respeito à condição humana, sua origem e destino, Deus diz:

“Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1 Co 1:19-21).

Se neste ponto você está se sentindo humilhado e em um nível mais baixo que um capacho, então está no ponto certo para deixar de ter fé na humanidade, que inclui eu e você, e confiar somente em Deus, que enviou o seu Filho para nos salvar. Isto fará toda a diferença para você, que deixará de ser chamado por Deus de “maldito” para ser chamado de “bendito”. Você não acha que é uma mudança que vale a pena? Veja o que ele diz:

“Maldito o homem que confia no homem [humanidade], e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! Porque será como a tamargueira no deserto, e não verá quando vem o bem; antes morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável. Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja confiança é o Senhor. Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto” (Jr 17:5-8).

Agora jogue fora essa sua fé na humanidade e aceite a dádiva de Deus, Cristo, o único que foi capaz de agradar a Deus em todo o seu andar. Ele é o Filho de Deus que se fez Homem para morrer e ressuscitar. A boa notícia do Evangelho é que Deus deu por encerrada a raça de Adão, da qual toda a humanidade faz parte, e iniciou uma nova criação em Cristo ressuscitado. Ao crer em Jesus como seu Salvador todos os seus pecados são perdoados, você é selado com o Espírito Santo e passa a aguardar a hora da transferência para o céu junto com todos os que fazem parte dessa “nova criação”, da qual o Homem Cristo Jesus é o primeiro exemplar. A promessa de Jesus é esta: “Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24).

Se depois de tudo você ainda continua tendo fé na humanidade, então boa sorte nessa sua caminhada sem Deus, porque ele certamente não irá compartilhar de sua opinião. Quando você não crê no que Deus diz acaba crendo nas bobagens dos homens, por mais sábios que eles sejam considerados por seus semelhantes igualmente estúpidos. É o caso de Mahatma Gandhi, que antes de me converter a Cristo, ocupava um lugar de honra em minha biblioteca e era um de meus ídolos. Ele dizia: “Você não deve perder a fé na humanidade. A humanidade é como um oceano; se algumas poucas gotas do oceano forem de água suja isso não torna o oceano sujo”. Diante de tamanha contradição ao que Deus afirma da humanidade eu só poderia perguntar se você confiaria numa jarra de água limpa na qual foram pingadas algumas gotas com o vírus do Ebola.

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Por que os terroristas islâmicos matam?

Os terroristas islâmicos matam por egoísmo. Desde cedo são doutrinados a buscarem a morte violenta em nome de Alá para si e para os infiéis, se quiserem ser perdoados dos pecados e merecer o Paraíso, onde só entram Profetas, Justos e Shahids ou mártires. Tão logo seja detonada a bomba que tem grudada ao corpo, ou o terrorista seja atingido pelas balas dos infiéis, ele será recepcionado como mártir no Paraíso por 72 virgens de olhos negros, pele branca e cabelos pretos que não ficam menstruadas, não evacuam e são perfeitamente depiladas. Ali ele tomará vinho, o que era proibido aqui na terra, e terá à disposição 72 camas para se esbaldar de prazer. Enquanto isso uma rua na Palestina ganhará uma placa com seu nome e crianças e jovens serão incentivadas a seguir seu exemplo.

Já as meninas terroristas são motivadas pela promessa de viverem nuas com corpos translúcidos satisfazendo os desejos desses valentes rapazes que deram suas vidas pelo prêmio que elas irão lhes proporcionar. São elas que compõem o time de 72 virgens que formarão o harém exclusivo de cada mártir masculino. Para quem vive numa cultura islâmica isso não tem nada de promiscuidade, pois as 72 mulheres só poderão ter um homem como esposo e cada homem só poderá se deitar com seu próprio harém. Acredite se quiser, mas existe um componente romântico em tudo isso, e não pense que eu esteja sendo sarcástico ou desrespeitoso para com a religião islâmica. Qualquer muçulmano com um mínimo de inteligência e conhecimento do Alcorão saberá que esta é a descrição encontrada nos sites de sua religião, e é baseada em seus textos sagrados.

Com uma motivação assim qualquer jovem desencontrado e recalcado estará pronto a obedecer cegamente aos clérigos radicais islâmicos. Por sua vez os clérigos que recrutam, doutrinam e lavam a mente desses jovens também o fazem visando um prêmio, que é a notoriedade em seu círculo religioso por sua capacidade de formar um grande e fiel exército de soldados de Alá. Pense em um time de futebol: os terroristas são os jogadores e os clérigos os técnicos. E a torcida? Esta é formada pelo povo simpatizante, que vibra cada vez que um jovem marca um gol ao se despedaçar com suas vítimas numa explosão ou ser abatido por uma rajada de balas de soldados infiéis. Alguns destes infiéis costumam lubrificar suas balas com gordura de porco a fim de ultrajar os muçulmanos, já que o consumo desta carne é proibido naquela religião.

Enquanto os que estão fora dessa cultura assistem horrorizados os vídeos dos atentados na TV, para os simpatizantes da causa isso é como assistir “American Idol”. Se você duvida, procure no Youtube por vídeos do povo festejando nas ruas de comunidades islâmicas a queda das torres no 11 de setembro ou algum outro atentado de grande repercussão.

E as armas? Bem, dinheiro é o que não falta entre os magnatas do petróleo do mundo islâmico, mas para muitos o dinheiro não é suficiente para ganhar notoriedade e prestígio entre os seus pares. A solução é investir em algum grupo terrorista do mesmo modo que um magnata ocidental investiria em um time de futebol para ser notícia. Isso faz bem para a imagem e para os negócios em uma cultura pautada numa religião que promove a conversão dos infiéis pela espada. Mas não pense que ataques islâmicos sejam atos tresloucados desprovidos de planejamento, consciência e critério. Segundo uma sobrevivente, um dos dois terroristas que fuzilaram os cartunistas do “Charlie Hebdo” repetiu várias vezes para o outro que eles não matavam mulheres. Mas o outro parece não ter escutado, pois acabou fuzilando Elsa Cayat. Em 2013, no ataque a um shopping center no Quênia, para identificar e poupar muçulmanos os terroristas perguntavam antes a cada um o nome da mãe do profeta Maomé. Quem não soubesse era morto.

Enquanto o clérigo radical é o que podemos chamar de “coach” motivacional, a célula ou grupo terrorista se incumbe de treinar, aparelhar e enviar o futuro mártir para sua missão. Esse grupo precisa mostrar serviço se quiser obter o financiamento dos magnatas em suas tendas refrigeradas, daí o maior IBOPE ficar com os grupos que promoverem as ações mais cruéis, sangrentas e espetaculares. Aparentemente ninguém nesse meio tinha atingido o status de Osama Bin Laden e da Al-Qaeda, mas no momento em que escrevo parece existir uma certa competição entre Al-Qaeda e ISIS pela audiência. Por isso mais de um grupo pode acabar reivindicando a responsabilidade por um ataque e depois ser desmentido, por ter sido praticado por algum psicopata de turbante sem ligação com qualquer grupo islâmico.

Resumindo, o terrorista mata e morre pelo prazer que lhe espera no Paraíso, enquanto clérigos, magnatas e grupos radicais têm no dinheiro e no prestígio a recompensa que procuram. Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento de marketing e natureza humana é capaz de chegar a esta conclusão. Mas o egoísmo de fazer algo em troca de recompensa não se restringe ao mundo islâmico. Adam Smith, considerado o pai da economia, afirmava no século 18 que “não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu interesse próprio”. Em suma, o que move a civilização ocidental judaico-cristã é o mesmo motor do egoísmo que acende o pavio da bomba do terrorista. Pergunte a Caim se não foi isso que o levou a matar seu irmão. Pergunte ao presidente da mais poderosa nação do planeta se não é isso que os torna dispostos a fazer qualquer coisa para garantir o “american way of life”.

Se você conhece a natureza humana pecadora e caída que herdamos de Adão não irá se surpreender que esses mesmos sentimentos de um radical islâmico estão latentes também no coração de qualquer ocidental criado dentro de uma cultura judaico-cristã. O cristianismo, do modo como a maioria das pessoas o enxerga, não difere do islamismo neste aspecto. Qualquer pessoa do mundo ocidental cristão que viva pela máxima de que “fora da caridade não há salvação” não percebe que a diferença só está no tipo de atentado, pois o combustível é o mesmo egoísmo das ações terroristas ou capitalistas. Para garantir cada um seu Paraíso um explode inocentes e o outro dá esmolas. Para ambos, o “dano” ou “benefício colateral” de sua ação - o morto no atentado ou o mendigo alimentado - não passa de um inocente útil que está ali para servir ao propósito egoísta de quem irá usá-lo de trampolim para o Paraíso.

Mas o verdadeiro cristianismo que você encontra na Bíblia é radicalmente contrário, tanto ao islamismo fundamentalista quanto ao cristianismo caritativo popularmente professado pelas massas. No verdadeiro cristianismo você pode até dizer que “fora da caridade não há salvação”, mas o significado é radicalmente diferente daquele pregado pela maioria das religiões chamadas cristãs. Fora da caridade, não minha, mas de Deus, é que não há salvação. A minha caridade tem tanto valor em prol de minha salvação quanto o número de vítimas do terrorista. O que realmente vale é a caridade de Deus, o único que podia dar algo que tivesse valor aos seus próprios olhos, e ainda assim para alguém que fosse realmente necessitado, como é cada um de nós, pecadores perdidos mendigando por perdão. E foi por isso que Deus entregou o seu próprio Filho para assumir nosso lugar de culpa e juízo na cruz do Calvário.

“Nisto se manifestou a caridade de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos. Nisto está a caridade: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 4:9-10).

Se você espera ganhar o céu com suas boas obras e caridade em prol dos menos favorecidos acabará descobrindo que não irá chegar lá porque seu motivo era egoísta. Além disso a Palavra de Deus é clara ao afirmar que “pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2:8-9). Nenhuma obra, sofrimento ou martírio pode salvar o pecador.

Uma vez visitei uma mulher muito católica, que estava há anos numa cama com dores horríveis por conta de uma artrose deformante. Depois de ouvir o evangelho da caridade de Deus, da graça e da salvação pela fé em Cristo, pregado por um irmão que estava comigo, ela se enfureceu e passou a gritar: “Como assim?! Quer dizer que todos esses anos de dor e sofrimento não contam para minha salvação?” Espero sinceramente que antes de sua morte ela tenha sido desarmada pela graça de Deus e tenha se livrado do explosivo dos sofrimentos que levava em seu corpo, nos quais ela tanto confiava para chegar ao Paraíso.

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Por que Jesus não curava adúlteros?

A resposta à sua pergunta é simples. Jesus não curava ou libertava adúlteros porque a Bíblia nunca trata o adultério como uma doença ou possessão demoníaca. Adultério é pecado e ponto final. Por isso o Senhor Jesus, quando questionado se a mulher adúltera devia ser apedrejada, desafiou aqueles que estivessem sem pecado a atirarem a primeira pedra, o que nenhum deles fez. Por ser Deus e Homem ele era o único sem pecado que poderia ter apedrejado a mulher, mas não o fez. Tudo o que disse a ela foi: “Nem eu também te condeno; vai-te e não peques mais”.

Por ser Deus ele podia, não apenas reeditar o que havia escrito na Lei dada a Moisés, como também perdoar o pecado da mulher. Mas ele não a curou e nem expulsou algum espírito maligno que a levasse a adulterar. Simplesmente ordenou que não pecasse mais. Ao não a apedrejar Jesus não estava tornando o adultério um pecado insignificante, mas apenas mostrando que “a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17). Com ele estava o perdão, não o apedrejamento previsto na Lei, mas também não a vista grossa para com o pecado. O que era pecado na Lei continuou sendo pecado depois que Cristo veio trazendo salvação.

Em Êxodo20:14 a ordem era muito clara: “Não adulterarás”. A penalidade também estava prevista na Lei para o adultério em suas diferentes formas e também para outras relações sexuais contrárias à natureza e à ordem dada por Deus para o matrimônio. Ainda que Jesus tivesse perdoado a mulher adúltera, a Lei previa uma punição severa para este e todos os outros pecados descritos nesta passagem de Levítico.

“Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera. E o homem que se deitar com a mulher de seu pai descobriu a nudez de seu pai; ambos certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles. Semelhantemente, quando um homem se deitar com a sua nora, ambos certamente morrerão; fizeram confusão; o seu sangue será sobre eles. Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles. E, quando um homem tomar uma mulher e a sua mãe, maldade é; a ele e a elas queimarão com fogo, para que não haja maldade no meio de vós. Quando também um homem se deitar com um animal, certamente morrerá; e matareis o animal. Também a mulher que se chegar a algum animal, para ajuntar-se com ele, aquela mulher matarás bem assim como o animal; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles” (Lv 20:10-12, 14-16).

O mundo trata hoje o adultério como coisa banal e ele é o tema principal de muitos romances, filmes e novelas. Os sites que promovem aventuras extraconjugais para pessoas casadas são cada vez mais populares. A poligamia dos artistas de Hollywood é admirada e invejada por muitos. Todas as noites as famílias reunidas diante da TV são reprogramadas para considerarem o adultério como alternativa para um casamento sem paixão. Os telespectadores torcem para que o galã da novela descarte a esposa sem graça para ficar com a outra, tão linda e sensual, que sofre com a indiferença de seu próprio marido, que no enredo geralmente possui uma amante. O primeiro beijo dos dois é aguardado com grande expectativa e a cena na cama é o “grand finale”.

Mas se a opinião pública considera isso normal, como um estilo de vida alternativo, a opinião de Deus acerca do matrimônio não mudou e tudo o que sai fora disso é, aos seus olhos, uma aberração. Para deixar claro que o fato de Jesus ter perdoado a adúltera não colocava o adultério fora da lista de pecados, ele o tornou ainda mais grave quando afirmou: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela” (Mt 5:27-28). Quando percebemos que, aos olhos de Deus, a simples cobiça de imoralidade sexual é gravíssima, quanto mais nos sentimos necessitados de um Salvador, pois não há quem não cobice! Entende agora por que Cristo precisava vir morrer em nosso lugar para nos salvar? “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” (Rm 11:32).

Você confessa crer no Senhor Jesus como seu Salvador, portanto está bem ciente de que o adultério é uma afronta contra Deus. Embora você não perca sua salvação caso venha a pecar, acabará perdendo sua comunhão com Deus e sua vida ficará miserável até confessar e deixar esse pecado. Caso não esteja nem preocupado com seu ato e transforme isso num estilo de vida, é melhor questionar se um dia você realmente creu no Senhor, pois alguém que tenha sua consciência insensível ao pecado provavelmente nunca foi salvo e muito menos tem o Espírito Santo habitando em si.

“Assim, o que adultera com uma mulher é falto de entendimento; aquele que faz isso destrói a sua alma” (Pv 6:32). Davi sabia muito bem o que era sentir-se assim, pois caiu em adultério e não apenas o ato em si rompeu sua comunhão com Deus, como as consequências de seu pecado o acompanharam pelo resto da vida. É neste sentido, de consequências ruins para a vida presente, que fala a passagem de Gálatas 6:7: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”.

Embora Davi tenha amargado as consequências de seu pecado em diversos aspectos de sua vida prática, sua consciência atribulada mostrava o quanto ele era um genuíno homem de Deus e sua comunhão com Deus foi restabelecida quando ele confessou seu pecado: “Quando eu guardei silêncio, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo o dia. Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio. Confessei-te o meu pecado, e a minha maldade não encobri. Dizia eu: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a maldade do meu pecado” (Sl 32:3-5).

Você, que crê em Jesus, não apenas como seu Salvador, mas como seu Senhor ou dono de sua vida, deve saber que o adultério é tratado nas epístolas dos apóstolos como uma das obras da carne, nossa velha natureza que jamais melhora e só sabe pecar. No projeto original de Deus ele criou o homem e a mulher para se unirem numa só carne, se amarem e procriarem. Qualquer distorção a esse plano original é abominável aos olhos de Deus e só pode resultar em desastre. “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros” (Hb 13:4). Paulo chama a relação sexual entre um homem e uma mulher unidos pelo matrimônio como o “modo natural de suas relações íntimas” e “contato natural”, enquadrando qualquer outro tipo de relação ou impureza sexual como “contrário à natureza” (Rm 1:26-27).

Mas o problema é que você diz não sentir atração por mulheres solteiras, só por casadas, e tem muitos amigos que sentem o mesmo que você, só que alguns não só praticam o adultério como transformaram isso num estilo de vida. Você diz sentir-se atribulado e por isso quer saber se existe uma cura para este desvio de conduta, mas como eu já expliquei, adultério não é doença, mas sim pecado. Você diz que deseja fazer a vontade do Senhor, mas acha que por ter pensamentos no sentido de adulterar não existe caminho de volta. O ponto positivo é que você deseja fazer a vontade do Senhor e está disposto a viver sozinho o resto da vida, do que adulterar. Assim, apesar de sentir-se atraído por mulheres casadas e até ter se apaixonado uma vez por uma, não quer agir errado. Mesmo assim esse sentimento e atração estão tirando sua paz e você nem mesmo sente vontade de congregar com os irmãos.

O fato de você nunca ter cometido uma relação sexual ilícita como é o adultério, mas só sentir atração por mulheres casadas, mostra que tem considerado sua comunhão com Deus mais importante do que fazer sua própria vontade. Cobiças e desejos todos nós temos, mas como diz o ditado, “se não posso evitar que as andorinhas voem sobre minha cabeça, posso impedir que façam ninho em meu cabelo”.

Quando nos convertemos recebemos de Deus uma nova natureza, mas continuamos com a velha carne latente em nós e querendo nos arrastar para o pecado. A nova natureza não é capaz de pecar porque é perfeita e vem de Deus, mas a velha só sabe pecar e para ela não existe conserto. Está totalmente arruinada e na cruz, Cristo colocou um fim nela ao morrer pregado naquele madeiro como o “último Adão” (1 Co 15:45), assumindo ali os nossos pecados e encerrando assim a primeira Criação. Ele ressuscitou depois como o “segundo Homem” (1 Co 15:47) e “primícias” (1 Co 15:20), ou “primeiros frutos” da “nova Criação” (2 Co 5:17; Gl 6:15 - Versão J. N. Darby). Por isso quem está em Cristo é “nova Criação” e, ainda que estejamos arrastando em nós este velho “tabernáculo” ou corpo de carne deteriorada pelo pecado, “também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu” (2 Co 5:1-8).

Como quem viaja de carro velho e sabe que qualquer descuido pode acabar em desastre, viajamos nesta vida em constante vigilância, pois nossos freios são precários. Nosso coração ou mente carnal continuará produzindo pensamentos que, se acalentados e alimentados, nos levarão a pecar. “Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais” (Mt 15:19 NVI). “Cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1:14-15). Considerando que tudo começa na mente, o jeito é evitar tudo e todos que possam influenciar sua mente, causando esse tipo de cobiça que irá atraí-lo, seduzi-lo e, depois de ter concebido, levará você a pecar.

Não tente dialogar com o pecado ou com os sentimentos que querem fazê-lo pecar. Fuja do pecado. Muita gente acha que deve fugir do diabo e resistir ao pecado, mas a Bíblia ensina diferente: “Resistam ao diabo” (Tg 4:7 NVI) e “Fujam da imoralidade sexual” (1 Co 6:18 NVI). Nossa carne não tem freios para o pecado, mas nosso espírito está pronto para resistir a nosso inimigo espiritual. Dar corda aos pensamentos e desejos pecaminosos e largar seu caminhão velho “na banguela” sabendo que os freios irão falhar no final. Lembre-se de que, quando a mulher de Potifar quis seduzir José para que ele se deitasse com ela, ele não ficou ali tentando convencê-la do contrário. Ele fugiu! “Sucedeu num certo dia que ele veio à casa para fazer seu serviço; e nenhum dos da casa estava ali; e ela lhe pegou pela sua roupa, dizendo: Deita-te comigo. E ele deixou a sua roupa na mão dela, e fugiu, e saiu para fora” (Gn 39:11-12).

Davi caiu em adultério porque estava desocupado numa época quando os reis deveriam estar no campo de batalha. Seu adultério começou com o que hoje é chamado de “voyerismo”, o equivalente a olhar pelo buraco da fechadura ou mais modernamente passear por sites de pornografia ou pelos perfis de mulheres sedutoras nas redes sociais. “No tempo em que os reis saem à guerra… Davi ficou em Jerusalém. E aconteceu que numa tarde Davi se levantou do seu leito, e andava passeando no terraço da casa real, e viu do terraço a uma mulher que se estava lavando; e era esta mulher mui formosa à vista. E mandou Davi indagar quem era aquela mulher; e disseram: Porventura não é esta Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu? Então enviou Davi mensageiros, e mandou trazê-la; e ela veio, e ele se deitou com ela” (2 Sm 11:1-4).

Portanto, não fique preocupado pensando em como “ser curado” dessa sua tendência e nem fique tentando combater pensamentos pecaminosos neste sentido, pois lutar contra pensamentos é na verdade atracar-se a eles. Fuja, vá fazer outra coisa, pensar em algo diferente. O ditado “mente vazia, oficina do diabo” cabe muito bem aqui. Fuja também das amizades desses que você disse que têm as mesmas tentações que você ou até já se entregaram a esse estilo de vida que a Bíblia chama de pecado. Evite tudo o que possa despertar em você essa compulsão, como você evitaria se tivesse passado por um tratamento contra vícios como álcool, drogas, pornografia, jogos de azar, etc. Pessoas assim precisam se manter longe de quem bebe ou usa drogas, de sites eróticos, baralho, corridas de cavalo e bancas de apostas. Elas aprendem a nunca se considerarem fortes o suficiente para resistir ao apelo dessas coisas, por isso sabem que é mais seguro manter distância delas.

Viva cada dia de uma vez, e se não sentir atração por mulheres solteiras, então viva só. Existem milhões de solteiros que são muito bem resolvidos vivendo assim. Não pense que um relacionamento amoroso, e principalmente contrário à vontade de Deus, fará de você uma pessoa feliz. Quantos você conhece que vivem um inferno justamente por estarem em um relacionamento, seja ele lícito ou ilícito? E quantos vivem pulando de relacionamento em relacionamento sem nunca se darem por satisfeitos? Lembre-se de que, uma vez convertido a Cristo o seu corpo passou a ter um dono, o Senhor:

“Fujam da imoralidade sexual. Todos os outros pecados que alguém comete, fora do corpo os comete; mas quem peca sexualmente, peca contra o seu próprio corpo. Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos? Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês” (1 Co 6:15-20).

Neste ponto você deve estar achando que estou louco ou não entendi sua pergunta, pois em nenhum momento você perguntou por que Jesus não curava adúlteros, e nem disse que sentia atração por mulheres casadas. Você escreveu perguntando sobre uma “cura para o homossexualismo” e dizendo que sente atração por homens, não por mulheres. Decidi usar desta abordagem para mostrar a você que a Palavra de Deus considera qualquer relação sexual fora do matrimônio como pecado, seja ela o adultério, a fornicação ou o homossexualismo.

Agora leia tudo outra vez substituindo “adultério” por homossexualismo, “atração por mulheres casadas” por “atração por pessoas do mesmo sexo” e assim por diante. A forma de você se precaver de um pecado é a mesma para precaver-se do outro, pois ambos têm a mesma origem, a carne ou velha natureza, e são concebidos no coração antes de serem paridos no ato sexual. Ambos vêm igualmente sendo tratados pela mídia e opinião pública como escolhas pessoais ou estilos de vida, e não do modo como Deus os enxerga, ou seja, pecados.

Se você ficou decepcionado por não encontrar Jesus curando ou libertando algum homossexual, concluindo assim que não existiria solução para seu problema, não se sinta sozinho. Qualquer cristão sujeito a qualquer tentação passa pela mesma dificuldade, porque ser tentado é algo que faz parte da vida cristã. Por isso oramos “não nos deixes cair em tentação” (Mt 6:13) e não “não nos deixes sermos tentados”. A solução dada por Deus está aqui:

“Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória. Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência, as quais vocês praticaram no passado, quando costumavam viver nelas” (Cl 3:2-7 NVI).

Embora a Bíblia seja considerada homofóbica por alguns, ela continua sendo a Palavra de Deus e nela encontramos o que Deus pensa a respeito deste e de outros pecados. Um pecado não é pecado só quando praticado contra o próximo, mas também o é quando praticado contra Deus. Nestes casos Deus costuma também chamar de “abominação”, e por isso a prostituição, que é um pecado sexual mesmo quando praticado com um consenso entre as pessoas, é usada por Deus como figura para a idolatria.

Todavia, ao contrário do que determinava a Lei de Moisés, o Senhor não apedrejou a mulher adúltera, mas tratou-a com graça e compaixão. Por isso também o cristão não deve discriminar, injuriar, perseguir ou ferir alguém que esteja vivendo em pecado, como muitas vezes fazem pessoas que se dizem “cristãs”. Devemos agir em graça como o Senhor agiria, e esta é também a direção dada na Palavra de Deus para hoje, sabendo que todos nós estamos sujeitos a pecar: “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado” (Gl 6:1).

Neste ponto você talvez pergunte por que existem tantos “pastores” homossexuais ou simpatizantes dizendo o contrário sobre o homossexualismo e até fundando “igrejas de diversidade sexual” onde pregam uma “teologia inclusiva”. Este não é um assunto para o cristão genuíno resolver, mas dos quais deve manter-se longe, pois “o Senhor conhece os que são seus”, e a continuação da passagem mostra que a responsabilidade do crente é “afaste-se da iniquidade todo aquele que confessa o nome do Senhor” (2 Tm 2:19). Quanto aos que ensinam essas distorções, eu pergunto: Quem a justiça dos homens trata com maior rigor, o dependente químico ou o traficante? Com Deus não será diferente, pois esses “mudaram a verdade de Deus em mentira” (Rm 1:25). “Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (1 João 2:4).

Sugiro que medite nestas passagens para conhecer o que Deus pensa do homossexualismo, algumas das quais foram extraídas de um contexto no qual ele tratava também do adultério, da prostituição e de outras relações sexuais ilícitas:

“Chamaram Ló e lhe disseram: “Onde estão os homens que vieram à sua casa esta noite? Traga-os para nós aqui fora para que tenhamos relações com eles”. Ló saiu da casa, fechou a porta atrás de si e lhes disse: “Não, meus amigos! Não façam essa perversidade”! (Gn 19:5-7 NVI).

“Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é” (Lv 18:22).

“Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação” (Lv 20:13).

“Quando estavam entretidos, alguns vadios da cidade cercaram a casa. Esmurrando a porta, gritaram para o homem idoso, dono da casa: ‘Traga para fora o homem que entrou na sua casa para que tenhamos relações com ele’! O dono da casa saiu e lhes disse: “Não sejam tão perversos, meus amigos. Já que esse homem é meu hóspede, não cometam essa loucura” (Jz 19:22-23).

“Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos… Por isso também Deus os entregou [abandonou] às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; pois mudaram a verdade de Deus em mentira… Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro” (Rm 1:21-27).

“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus” (1 Co 6:9-10).

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A igreja é mais hospital que tribunal?

A dúvida está numa frase que circula nas redes sociais dizendo que “A igreja precisa ser mais hospital e menos tribunal”. Quando li a frase fiquei apreensivo. Primeiro porque ela estava assinada com o endereço do site de um cantor evangélico e ele certamente estaria se referindo à “igreja” como instituição ou denominação, ou seja, a organização que os homens criam, com seu clero, templo e departamentos, mas que não tem fundamento na Palavra de Deus.

Quando alguém que não conhece a sã doutrina, em especial a doutrina dos apóstolos dada à igreja, e tenta descrever o que é a igreja eu fico com um pé atrás. Ainda que o que ele diga possa parecer correto, nem sempre o que quis dizer será, pois, uma pessoa dentro de um sistema religioso denominacional irá enxergar e avaliar tudo com lentes denominacionais.

A frase é uma adaptação de outra de autoria de Agostinho, bispo de Hipona (que viveu entre os anos 354-430 da era cristã) e é considerado um dos “doutores da igreja”, obviamente a católica e alguns ramos do protestantismo. Ele escreveu que “A igreja é um hospital para pecadores e não um museu para santos”. Agostinho com certeza vislumbrava a igreja conforme a doutrina católica, de que fora da igreja católica não há salvação. Portanto os pecadores deveriam ser introduzidos na igreja católica para serem salvos. Sua frase, portanto, estava errada por não considerar que é em Cristo, e não na igreja, que os pecadores encontram a salvação. Muitas seitas evangélicas trazem a mesma doutrina quando pregam que é preciso pertencer a esta ou aquela seita para estar salvo, ou então quando enxergam a igreja como uma espécie de agência evangelizadora, quando a evangelização é tarefa de pessoas individualmente.

É um grande erro basear doutrinas naquilo que diziam os chamados “pais da igreja” ou “doutores da igreja”, que eram os bispos e autores dos primeiros séculos. Dentre eles os mais conhecidos são, além de Agostinho de Hipona, Ambrósio, Tomás de Aquino, Atanásio de Alexandria, Jerónimo, João Crisóstomo, Clemente de Alexandria, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Tertuliano e outros. Foram eles que cedo se apartaram da doutrina dos apóstolos e ensinaram doutrinas errôneas que deram origem ao papismo, clericalismo, monasticismo e tantos outros erros.

Quando Paulo se despediu dos anciãos de Éfeso ele avisou que isso aconteceria: “Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos” (Atos 20:29-30). Ainda que muitos desses homens chamados de “padres” ou “patriarcas” ou “doutores da igreja” possam ter sido fiéis a Cristo, mesmo assim eles estavam imersos no erro do clericalismo que foi um dos primeiros que tomou conta da igreja logo após a partida dos apóstolos.

Fui buscar alguma opinião entre os irmãos do século 19 que conheciam e praticavam a sã doutrina e encontrei este comentário de G. V. Wigram. Ele descreve sim a assembleia local como hospital, mas limitado ao povo de Deus e não a incrédulos. Ele coloca assim:

“A igreja é a casa de Deus, o corpo de Cristo, e serve em sua condição aqui como enfermaria, sala de aula, guarita de vigilância e hospital do povo celestial de Deus. Mas isto apenas para aqueles que são recebidos como pertencendo a Cristo e mediante um testemunho genuíno. E aqui, observe bem, não são os que buscam ou demonstram interesse que são chamados cristãos. São os salvos, os que podem ocupar seus lugares nessa companhia, que reconhecem a doutrina e comunhão dos apóstolos (Atos 2:42); e são de um só coração e de uma só alma (Atos 4:32) por meio da presença e do poder do Espírito”

Então, colocando as coisas nos devidos lugares, primeiro a igreja é o corpo de Cristo, do qual fazem parte todos os salvos. Ela é também a casa de Deus, que é o testemunho visível e responsável desse corpo, e neste sentido é que a assembleia local atua, recebendo os salvos à comunhão para perseverarem na doutrina dos apóstolos, partirem o pão na ceia do Senhor e elevarem a Deus suas orações (Atos 2:42). Mas, antes de ser esse hospital, que não é uma organização, mas um organismo no qual os próprios santos cuidam uns dos outros, a assembleia local funciona como um tribunal para julgar os que são recebidos à comunhão e tirar os que estão em pecado, como nos ensina 1 Co 5.

Portanto é errado dizer que a igreja é “… menos um tribunal”, pois para se participar da comunhão da igreja é preciso sim passar pelo escrutínio dos irmãos. Não entender isto é o que costuma levar a uma reação muito comum entre cristãos quando surpreendidos em algum erro, e dizem “Vocês não podem me julgar”! Os irmãos não só podem como devem julgar, pois o ato de julgar é bíblico. Não julgamos pensamento e intenções, mas julgamos atitudes, doutrinas e o testemunho de nossos irmãos.

“Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu. Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18:16-18).

“Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (1 Co 5:12-13).

“Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a esta vida”? (1 Co 6:2-3).

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Por que isso e por que aquilo?

Se você tiver filhos pequenos saberá que o que mais fazem é perguntar. Crianças querem saber a razão de tudo, mesmo que suas mentes ainda não estejam maduras o suficiente para entender as respostas. Uma pesquisa publicada pelo site britânico Littlewoods.com descobriu que as crianças fazem cerca de 300 perguntas por dia. Na Inglaterra as cinco perguntas campeãs das crianças são: Por que a água é molhada? (35%); onde termina o céu? (34%)? De que são feitas as sombras? (33%); por que o céu é azul? (20%); e por que os peixes respiram embaixo da água? (18%).

Mas na Web você encontra também perguntas curiosas feitas por crianças, como “Por que caranguejo não tem pálpebras?”, “Por que não consigo lamber meu bumbum?“, “O que acontece se eu jogar um tomate no sol?”, “Antigamente os barcos tinham rodas?”, “Por que cavalos dormem em pé?”, “Por que não fabricam legumes gostosos”? Quando elas perguntam coisas assim achamos uma graça e nem sempre nos damos ao trabalho de responder porque elas não iriam entender, ou porque para algumas perguntas nós mesmos não teremos respostas (eu não sei a razão de cavalos dormirem em pé!).

Agora imagine nossas perguntas como devem soar para Deus! Não devemos nos surpreender de muitas vezes ficarmos sem resposta. A própria ciência não tem respostas para muitas coisas. Quer um exemplo? “Por que gatos ronronam?“, “Por que a bicicleta não cai?”, “O que causa os raios?”, “Por que lâmpadas atraem insetos?”, “Por que dormimos?”, “Por que existem destros e canhotos?“, “Por que o bocejo é contagioso?”, “O que causa a eletricidade estática?“, “O que causa a gravidade?”, “Quantos planetas existem em nosso sistema solar?“, “Por que o gelo é liso?”, “De onde vem o ‘deja vu’“? (sensação de já ter passado por aquilo), etc. As respostas que existem por aí não são respostas, porque levam a novas perguntas. Você pode explicar que a bicicleta não cai por causa da força centrífuga gerada pelas rodas, mas não saberá explicar que força é essa.

A primeira coisa que aprendemos quando cremos no Salvador é que a Palavra de Deus é a revelação daquilo que ele quis revelar ao homem. Aquilo que, por alguma razão, ele não quis revelar você não encontrará nela. E é o que acontece com suas duas perguntas: “Se Deus é onisciente, por que criou Lúcifer sabendo que iria se rebelar?” E “Se Deus expulsou Satanás do céu para a terra, por que criou Adão e Eva na terra sabendo que Satanás estaria lá”? Não sei se você encontrará resposta para elas na Bíblia, mas posso adiantar que na segunda pergunta você comete um equívoco muito comum entre os cristãos. Na verdade Deus ainda não expulsou Satanás do céu, mas por causa de sua rebelião ele caiu da posição que ocupava, como dizemos de um presidente que caiu ou perdeu o mandato. Satanás continua no céu, como você lê nos dois primeiros capítulos de Jó e só será expulso de lá no futuro, que é o que você encontra em Apocalipse12. Mesmo assim ele eventualmente passeia pela terra.

A Bíblia só diz que Deus criou os anjos e também o homem, mas não diz a razão de ter feito isso sabendo que eles iriam se rebelar. Nem mesmo posso afirmar que um dia saberemos a razão, pois como aconteceu com Jó que no final ficou sem respostas para suas perguntas, ficaremos satisfeitos de conhecer a Deus como ele ficou. Se ler os últimos capítulos do livro de Jó verá que o próprio Deus desarma a altivez com que Jó vinha questionando as coisas fazendo a ele algumas perguntas para as quais Jó não tinha resposta. No final Jó testifica: “Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:6). Mas acaso Deus explicou a ele a razão de ter tirado tudo que tinha? Aparentemente não.

É mais ou menos assim: você está num avião e tem absoluta confiança no piloto. Você não vai à cabine cada vez que o avião dá uma guinada, sobe, ou desce para perguntar ao piloto por que ele fez aquilo, como ele fez aquilo, o que fará a seguir, etc. Mesmo se ele explicasse você talvez não entenderia, então tudo o que faz é relaxar e seguir viajando sabendo que sua vida está em boas mãos. Ao contrário do avião, que podemos até imaginar como as coisas serão quando chegarmos no destino, com Deus nem isso conseguimos imaginar. Será tão, mas tão surpreendente, que mesmo Paulo, que viu um pedacinho do céu, ficou sem palavras.

“Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu. E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar” (2 Co 12:2-4).

Mas você deveria se dar por satisfeito por entender muitas coisas que não entendia antes da conversão e que continuam herméticas para os incrédulos. Isto porque para entender as coisas de Deus é preciso ter o Espírito de Deus e para receber o Espírito de Deus é preciso crer em Jesus como Salvador, o que não acontece se a pessoa não tiver experimentado um novo nascimento. Aos incrédulos a Palavra de Deus é uma grande incógnita e é por isso que eles zombam dos que creem com um riso de hiena, o animal que vive contente por comer dos restos de carniça abandonados pelo leão.

“E alguns criam no que se dizia; mas outros não criam. E, como ficaram entre si discordes, despediram-se, dizendo Paulo esta palavra: Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías, dizendo: Vai a este povo, e dize: De ouvido ouvireis, e de maneira nenhuma entendereis; E, vendo vereis, e de maneira nenhuma percebereis. Porquanto o coração deste povo está endurecido, E com os ouvidos ouviram pesadamente, E fecharam os olhos, para que nunca com os olhos vejam, nem com os ouvidos ouçam, nem do coração entendam, E se convertam, E eu os cure” (Atos 28:24-27).

“Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória. Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus… Ora, o homem natural [inconverso] não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Co 2:7-14).

“O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” (Pv 1:7).

“Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Porque quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Rm 11:33-36).

Às vezes penso que aos olhos de Deus somo como estas crianças que não entendem a própria sombra.

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Arrebatamento: Verdade ou mito?

Você escreveu que gosta das coisas que publico, mas ficou decepcionado ao saber que creio no arrebatamento, o qual, segundo você disse, “foi grandemente alardeado na série ‘Deixados para Trás’ produzido por Hollywood e agora vem com toda força e nova roupagem no filme de Nicolas Cage”. Você afirma ainda que o arrebatamento é “algo totalmente engendrado pelos Illuminati que dominam os estúdios de Hollywood” e acrescenta alguns links na tentativa de provar que isso é “totalmente antibíblico”. Seu e-mail termina dizendo que em sua cidade há vários admiradores de meu ministério que estão intrigados por eu aceitar a “teologia dos Illuminati que não tem base bíblica” e pedindo “um novo vídeo postado pelo Mario que conhecemos e admiramos corrigindo a interpretação pré-tribulacionista”.

Fiz o que pediu e fui ver os links que enviou, um de um site do tipo “imprensa marrom” que “Illuminati” no nome só traz teorias conspiratórias para tentar provar que qualquer coisa ruim que aconteça no planeta é culpa dos tais Illuminati. Nem perdi meu tempo em ir adiante com este e fui tentar os outros links, todos de um mesmo site. Sinceramente eu acho que você não examinou os fundamentos da pessoa que criou o site, pois se tivesse examinado veria que o fato de ela não acreditar no arrebatamento é o menor dos males.

O site é de uma mulher que diz um dia ter tido um sonho no qual Deus a teria escolhido para restaurar as verdades dadas à igreja. Como se Deus pudesse se contradizer ao escolher essa mulher para ensinar doutrina, pois a Palavra de Deus proíbe que a mulher ensine (1 Tm 2:12), o site traz uma série de textos de autoria da autoproclamada profetiza dizendo que as almas dos ímpios serão aniquiladas no final, que a Trindade é um mito, que o destino da Igreja não é o céu, que devemos guardar o sábado porque o domingo é marca da besta, que a perdição não é eterna e a salvação não pode ser recebida pela fé, mas por imitar a vida santa de Cristo.

Você tem certeza de ser este mesmo o site que quis me passar para provar que o arrebatamento não tem base bíblica? Sinceramente, se você diz que aprecia o evangelho que tenho pregado, ou você nunca entendeu o que eu disse ou não está avaliando com cuidado a fonte que usa para rejeitar o arrebatamento. A terceira opção seria você crer em toda a bobagem que aquela mulher prega, mas espero sinceramente não ser este o seu caso. Em seus devaneios a sonhadora do site afirma uma série de argumentos contra o arrebatamento, os quais chama de “irrefutáveis”, mas foi fácil refutar um a um e até postei a refutação na área de comentários, mas algumas horas mais tarde vi que ela tinha refutado minha refutação e excluiu meu comentário.

Mais tarde achei que nem deveria ter perdido meu tempo em comentar ali, pois o que aquela mulher precisa mesmo é do evangelho para crer em Cristo para a remissão de seus pecados. Sua afirmação de que a salvação é pela imitação de Cristo deixa muito claro que ela ainda não conhece a salvação eterna recebida por graça e pela fé em Jesus e em seu sacrifício no Calvário.

Mas é triste ver nos comentários cristãos incautos caindo na conversa dela que não é nem um pouco inofensiva. Ao eliminar o arrebatamento da perspectiva do cristão ela elimina também a bendita esperança de nosso encontro com Cristo a qualquer momento e joga essa esperança para algum momento no fim do mundo, além de lançar seus leitores na incerteza da salvação (pois os faz pensar que terão de passar pelo juízo final) e fazer com que se preocupem mais com “guerras e rumores de guerras” (Mt 24:6) do que com o encontro com o Senhor. Tinha um que, na área de comentários, já pedia para ela escrever algo sobre como preparar-se para a “grande tribulação” com dicas de “como se manter em momentos de crise e guerra, como obter agua potável, como plantar, como aproveitar ao máximo as cascas e sobras de alimentos, como criar animais, noções básicas de defesa, etc.”

Quando comecei a ler os “argumentos irrefutáveis” logo percebi que ela deve ter aprendido sobre o arrebatamento em livros e filmes como “Deixados para trás”, o que equivale apresentar uma lista de “argumentos irrefutáveis” contra a medicina depois de assistir o seriado “House”. Aquele filme e muitos livros alarmantes que falam do arrebatamento têm tanta base bíblica quanto um gibi. Por isso boa parte dos argumentos nem precisam ser refutados porque não apontam para versículos que falam do arrebatamento, mas aqueles que esses filmes e livros ensinam que seriam o arrebatamento, todos eles tirados dos evangelhos.

O problema é que não temos o arrebatamento nos evangelhos, pois foi um dos mistérios (1 Co 15:51) revelados a Paulo, que nem era convertido quando Jesus andou aqui. Capítulos como Mateus 24 e Lucas 21 não fazem qualquer menção ao arrebatamento da igreja, mas são exclusivamente dirigidos aos judeus e falam tanto da destruição do Templo como da grande tribulação. Portanto vou tratar das passagens que são citadas por apresentarem alguma dificuldade também a crentes sinceros, em especial as que trazem a expressão “no último dia”. A autora tenta provar que não haveria arrebatamento porque a ressurreição só deve ocorrer “no último dia”. As passagens são:

“E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6:39-40). A mesma expressão aparece ainda em João6:44, 54 e 11:24. A outra passagem é Jo 12:48 que diz: “Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia”. O comentário da autora é que tanto a ressurreição quanto o juízo final de todos os homens ocorreriam “no último dia”, o que provaria que o crente iria passar pela “grande tribulação”.

Ocorre que a última passagem está falando do juízo daqueles que rejeitarem o Senhor e não receberem as suas palavras, categoria em que a própria autora se encaixa ao não crer no que a Bíblia diz que a salvação é pela fé em Cristo. Os ímpios que rejeitarem a salvação que há em Cristo Jesus, e não em nosso andar, e não creram em suas palavras passarão pelo juízo final ou “Grande Trono Branco” de Apocalipse 20:11-13. Nenhum daqueles que comparecer ao juízo final será salvo, pois ali se trata de um tribunal para lavrar as sentenças e não para julgar se alguém andou fazendo o bem ou para pesar as boas ações comparando-as com as más ações para ver se a pessoa será salva ou não. Naquele momento os salvos já estarão na companhia de Cristo, que prometeu: “Quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação [ou juízo], mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24).

Mas então por que diz que tanto a ressurreição quanto o juízo final aconteceriam todos no “último dia”? Porque “dia” tem vários significados e nem sempre se refere a um período de 24 horas. Por exemplo, Sofonias 1:15-16 fala de “dia” como um período de “grande tribulação”: “Aquele dia será um dia de indignação, dia de tribulação e de angústia, dia de alvoroço e de assolação, dia de trevas e de escuridão, dia de nuvens e de densas trevas, dia de trombeta e de alarido contra as cidades fortificadas e contra as torres altas”. A expressão “dia” não delimita necessariamente uma data, como vemos em Gênesis 26:33: “Por isso é o nome daquela cidade Berseba até o dia de hoje”. Isto não significa que amanhã a cidade teria necessariamente outro nome. Também pode ser usado para falar de um período futuro, como em Gênesis 30:33: “Assim testificará por mim a minha justiça no dia de amanhã”. Se você me perguntar se já atingi a estabilidade financeira e eu responder que “ainda não, mas um dia chego lá” você não irá querer saber a data, pois estou apenas falando de um tempo futuro e não de um dia de 24 horas.

Na Bíblia você encontra expressões como “o dia do juízo”, “o dia do Senhor” e “no último dia” com diferentes significados para dias e épocas diferentes relacionadas a diferentes pessoas. Portanto, nos evangelhos quando Jesus fala da ressurreição no “último dia” está falando de um período de tempo que engloba todo o período desde a vinda de Cristo para receber os seus santos nos ares, até o tempo “quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força” (1 Co 15:24). Assim, a ressurreição do “último dia” mencionada no Evangelho de João inclui a ressurreição tanto dos salvos quanto dos perdidos, mas estas não ocorrem em um mesmo momento, mas como mostram outras passagens estão separadas por um intervalo de ao menos mil e sete anos.

Para entender isto sugiro que leia em www.respondi.com.br os textos “Haverá mais de uma ressurreição” e “Quem participa da primeira ressurreição”? O simples fato de a Palavra de Deus falar de uma “primeira ressurreição” em Apocalipse 20:5-6 demonstra que haverá mais de uma. Lembre-se também de que “um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pe 3:8).

A autora do site usa então a passagem de 1 Coríntios 15:22-26 na tentativa de provar que, exceto a ressurreição de Cristo que já ocorreu, todos os outros eventos acontecerão em sequência, mas nesse mesmo “último dia”: “…assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda. Depois virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte”.

O problema é: se Cristo vai voltar no “último dia” para ressuscitar os salvos primeiro, os perdidos depois e finalmente lançar “a morte e o inferno… no lago de fogo” (Ap 20:14), quanto tempo ele irá reinar? Pois a passagem é clara em mostrar que ele irá reinar do momento em que voltar até aniquilar o último inimigo, que é a morte, o que daria apenas algumas horas de reinado antes de entregar “o reino a Deus, ao Pai” (1 Co 15:24). “Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés” e “o último inimigo… é a morte”.

Outra passagem que ela usa para tentar provar que só deveríamos aguardar por uma única vinda de Jesus no “último dia” é Hebreus 9:27-28: “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo, assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação. “Usar esta passagem para provar isso é tão válido quanto dizer que se vou estar em São Paulo hoje e no Rio amanhã fica provado que não existe nenhuma cidade entre estas duas.

No próximo argumento ela é obrigada a alterar uma passagem para justificar sua tese: “E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele” (Jd 1:14-15).

Seu argumento é que, já que Cristo voltará no último dia que é quando acontecerá a ressurreição dos salvos e a condenação dos ímpios, esses “santos” que virão com o Senhor não poderiam ser os salvos levados no arrebatamento, mas devem ser “anjos”. Para embasar seu argumento ela cita Lucas 9:26: “Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos”.

Para mim a explicação mais simples, e que não implica trocar “santos” ou acrescentar “anjos” em Judas 1:14-15 e Zacarias 14:5, é que em sua vinda para reinar, e depois para a grande batalha final do Armagedom, Jesus virá tanto com seus anjos como com seus santos. Alterando, tirando ou acrescentando palavras ao texto bíblico é possível provar qualquer coisa, que é o que a autora tenta fazer aqui.

O argumento seguinte não prova nada, pois certamente Jesus voltará para julgar os vivos e os mortos e a passagem que ela menciona evidentemente não inclui o arrebatamento porque os vivos e mortos que serão julgados no final são apenas os perdidos, não os salvos. A passagem que citou é esta e seu objetivo não é assinalar os tempos proféticos, mas exortar Timóteo a pregar a Palavra com urgência diante da horrível expectativa que aguarda os perdidos: “Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino, que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo” (2 Tm 4:1-2). Como já mencionei, Jo 5:24 mostra que aquele que crê em Cristo “não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” no momento em que creu.

O argumento seguinte é muito usado pelos que tentam negar o arrebatamento, mas isso só demonstra sua ignorância por achar que só exista na Bíblia uma trombeta. Ela coloca a “última trombeta” de 1 Coríntios 15:51-52, que é a “trombeta de Deus” de 1 Tessalonicenses 4:16 e efetivamente fala da ressurreição e arrebatamento dos santos, como se fosse a mesma coisa da “trombeta” do “sétimo anjo” de Apocalipse 10:7 e 11:15-18, que é uma trombeta para anunciar o final da grande tribulação e início do reino de Cristo na terra, e do “rijo clamor de trombeta” de Mateus 24:29-31, que fala dos anjos que ajuntarão os judeus dos quatro cantos da terra. Apocalipse fala também de outras trombetas que soarão antes da sétima trombeta, todas elas anunciando juízos contra os habitantes da terra no tempo da grande tribulação.

No argumento seguinte ela demonstra mais uma vez total ignorância das Escrituras ao querer provar que a vinda de Cristo não será secreta ou invisível aos incrédulos no arrebatamento, mas que “todo olho o verá” (Ap 1:7), “com poder e grande glória” (Lc 21:27) e “como o relâmpago que sai do oriente e se mostra até ao ocidente” (Mt 24:27). Para justificar isso usa da passagem em Atos 1:10-11 na qual os anjos dizem aos discípulos: “Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir”.

Ela se esquece de um detalhe: a subida de Cristo às alturas foi diante de judeus (não igreja, porque ela só veio a existir em Atos 2) e sua descida à terra será também para judeus, “assim” ou “do modo como” (Atos 1:11), no mesmo “monte das Oliveiras” (Zc 14:4). Para a igreja o Senhor não desce à terra, mas são os ressuscitados e arrebatados que sobem para encontrá-lo nos ares. “…os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares” (1 Ts 4:16-17).

Seu argumento final tenta provar que os salvos por Cristo da presente dispensação da Igreja passarão pela grande tribulação, e para tanto ela usa as passagens de Mateus 24:9-14 e Lucas 21:9-11. O versículo 13 de Mateus 24 diz que “aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo” e os versículos em Mateus 24:22 e Marcos 13:20 dizem que “se o Senhor não abreviasse aqueles dias, nenhuma carne se salvaria” mostram claramente tratar-se da salvação da vida natural, do corpo, para entrar vivo no reino milenial de Cristo. A passagem toda não está falando de arrebatamento, mas de morte, pois alguns serão “tirados” da terra como foram os mortos “nos dias de Noé” e o contrário de morte para quem está vivo é ser “salvo” da morte e conservar sua “carne” ou corpo vivo.

Outros versículos apontam claramente tratar-se da grande tribulação que atingirá principalmente o remanescente judeu fiel que habitará na terra de Israel no período após o arrebatamento, e dão detalhes de estarem falando para judeus na Palestina. Por exemplo: “os que estiverem na Judéia, fujam para os montes… e orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem no sábado” (Mt 24:16, 20). Eu pergunto que diferença faria para um cristão que mora no Piauí essa fugo acontecer no inverno ou no sábado? Ah, me esqueci que a dona do site prega que os cristãos devem guardar o sábado! Mesmo assim, que diferença faria fugir no inverno para quem mora no Piauí?

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Como lidar com a degradação da sociedade?

Você demonstrou preocupação com a degradação da sociedade, com o desmoronar dos costumes e a influência que isso tem nas gerações mais novas. Como criar nossos filhos num mundo onde sexo livre, aborto e homossexualismo são normais? Onde filmes, desenhos e brinquedos ficam cada vez mais sinistros com dragões, vampiros e demônios? Onde artistas e cantores adotam um estilo cada vez mais “dark” e satanista, influenciando as novas gerações? E o que pensar do avanço dos radicais islâmicos, que crucificam, degolam e queimam cristãos? Como criar nossos filhos em um mundo assim?

Oras, criando nossos filhos do mesmo modo como faziam nossos irmãos do primeiro século, vivendo numa cultura greco-romana hedonista na qual sexo livre, aborto e homossexualismo eram normais. Os cristãos de então não se sentiam nem um pouco incomodados pois sabiam que da janela de seus lares para fora existia uma coisa chamada “mundo” que nada tinha de cristão e nem tinha a obrigação de fingir ser. O próprio Senhor já havia ensinado que existia um imenso abismo entre os que eram seus e tudo aquilo que era do “mundo”, que é todo o sistema de coisas das quais Satanás é o príncipe. Em sua oração de despedida Jesus disse:

“Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus… Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou… Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo… E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste… Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste a mim. E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja” (Jo 17:9-26).

A confusão na cabeça dos cristãos sinceros começou quando o cristianismo virou religião oficial nos tempos do Imperador Constantino e os cristãos começaram a achar que o mundo lhes pertencia. Na época o cristianismo foi adaptado ao mundo pagão e o mundo pagão ao cristianismo, e ao invés de os cristãos evangelizarem visando resgatar pessoas do mundo para Cristo passaram a tentar dar ao mundo e seus habitantes uma aparência cristã, exigindo dos pagãos que vivessem como cristãos. Deu no que deu e hoje estranhamos quando os pagãos ao nosso redor, mesmo aqueles batizados numa religião cristã, teimam em se livrar do jugo religioso que receberam de cristãos sinceros e ingênuos. Será que não sabiam que “ninguém deita vinho novo em odres velhos; doutra sorte, o vinho novo rompe os odres e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se”? (Mc 2:22).

Por incrível que possa parecer, o sentimento correto para o cristão hoje deve ser este: “O mundo que se dane”! Se você ficou surpreso com minha expressão é porque não percebeu que ela é apenas outra maneira de dizer que “o mundo jaz no maligno” (1 Jo 5:19). Se você tem feito orações por um mundo melhor saiba que está na contramão do que ensinou o Senhor, que disse: “Não rogo pelo mundo” (Jo 17:9). Ore por aqueles que são de Cristo neste mundo e para que os demais se convertam, mas não para que este mundo se transforme em um lugar tão maravilhoso que ninguém vá querer sair daqui para morar no céu.

Aos cristãos resta criarem seus filhos como fez a mãe de Moisés, sabendo que era inevitável lançá-lo no escuro rio da morte, como ordenava Faraó (o diabo) às parteiras dos hebreus e a todos os pais tementes ao Deus que habitavam no Egito (o mundo). Joquebede, mãe de Moisés, “concebeu e deu à luz um filho; e, vendo que ele era formoso, escondeu-o três meses. Não podendo, porém, mais escondê-lo, tomou uma arca de juncos, e a revestiu com barro e betume; e, pondo nela o menino, a pós nos juncos à margem do rio. E sua irmã postou-se de longe, para saber o que lhe havia de acontecer” (Ex 2:2-4). O resto da história você já sabe: a filha de Faraó encontrou o cesto, percebeu que o bebê era hebreu e, abordada pela sempre vigilante irmã de Moisés, esta se dispôs a buscar uma mulher hebreia para criar a criança para a princesa egípcia. Foi assim que Joquebede não apenas pode criar seu filho como recebeu um salário para isso.

Repare que Joquebede não deixou de lançar seu filho no lugar de morte como havia sido ordenado, mas ela tomou alguns cuidados. Colocou-o num cesto revestido de barro e betume, ou seja, impermeável à influência mortal das águas do rio; colocou o cesto próximo à margem entre os juncos, evitando assim que a corrente o levasse para longe, e instruiu sua filha mais velha a permanecer vigilante. Assim deve ser uma mãe cristã quando envia um filho para a escola deste mundo para ser “instruído em toda a ciência dos egípcios” (Atos 7:22) como foi Moisés. Ela deve criar em seu filho uma camada protetora que venha a repelir as influências nefastas deste mundo. Isto não se consegue a não ser pelo ensino da Palavra, pela oração e dependência do Senhor.

Mas em virtude do volume de água suja que penetrou na cristandade, é preciso também permanecer longe das religiões, mesmo cristãs, que ensinam que devemos fazer deste mundo um lugar melhor para Cristo vir aqui reinar, tomando partido na política, na sociedade, nas leis e até nas guerras. Escrevo isto dos EUA, onde estou de passagem e onde vejo muitos cristãos sinceros preocupados com a deterioração dos costumes principalmente por este país ser poderoso e influente. Como barrar essa degradação dos costumes para resgatar a imagem de uma nação supostamente cristã? Não há como, porque essa imagem era tão genuína quanto um cenário de Hollywood, e todo cenário um dia desmorona.

Lembre-se de que para nossos irmãos do primeiro século, não havia maior influência sócio-política-econômica do que a do Império Romano, ou costumes mais libertinos do que os dos gregos. Mas para nossos irmãos de então estava muito claro que “as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus” (1 Co 10:20). O que está acontecendo agora neste país, que acabará influenciando também o resto do mundo ocidental, é que a fantasia cristã que as pessoas usavam ficou tão podre que começou a aparecer debaixo dela a roupa do Halloween, ora de bruxa, ora de zumbi, ora de demônio. Mas nada de extraordinário, porque essa roupa sempre esteve ali.

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As cartas dos apóstolos são para nós?

Sim e não. A primeira forma de identificar se uma carta foi escrita para você é observar o pronome usado. Se o apóstolo escreve “vós” ou “vocês” então ela foi escrita para muitas pessoas, e isso pode incluir “nós”. Se ele diz “tu” ou “você” então é uma carta pessoal e individual. Em ambos os casos podem existir particularidades apenas para aquele grupo específico de cristãos quando dirigida a uma igreja, ou coisas que são genéricas ou suficientes para também servirem para mim e para você numa carta pessoal. Para isso vale a instrução, dada a Timóteo, mas que nos pode ser útil: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja [divide ou reparte] bem a palavra da verdade” (2 Tm 2:15).

Tome como exemplo o endereçamento da carta de Paulo aos Coríntios: “Paulo (chamado apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus), e o irmão Sóstenes, à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: Graça e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1:1-3). Repare que o endereçamento é, ao mesmo tempo, para a assembleia em Corinto (“à igreja de Deus que está em Corinto”), e também para nós que cremos em Cristo, não importa onde: “aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar…”.

Na carta o autor pode tratar de assuntos particulares à assembleia em Corinto, mas um pouco de discernimento irá mostrar que alguns problemas são comuns a todas as assembleias, portanto o modo de lidar com o problema pode servir também para todos. É o caso do capítulo 5 e de como lidar com alguém vivendo em pecado moral, mas que continua participando da comunhão na ceia do Senhor. A ordem do apóstolo é geral o suficiente para ser aplicada a todas as igrejas em todos os tempos e lugares.

“Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais. Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (1 Co 5:9-13).

Ele ensina duas coisas que servem para nós também. Primeiro, que não podemos evitar conviver com incrédulos ou devassos deste mundo, pois precisamos trabalhar, estudar ou às vezes até morar na mesma casa com eles. Mas quando se tratar de alguém “dizendo-se irmão”, a ordem é para que “com o tal nem ainda comais”. O ato de comer inclui tanto uma refeição casual como a Ceia do Senhor. Considerando que é à mesa do Senhor que expressamos comunhão, a conclusão é que aqueles que professam ser irmãos e estão vivendo em pecado devem ser excluídos da comunhão, isto é, devem deixar de participar da Ceia do Senhor. A ordem “Tirai, pois, dentre vós esse iníquo” (vers. 13) não deixa dúvidas quanto a isso.

Se na ceia você comunga com “aquele que se dizendo irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador” (1 Co 5:11), você está sendo contaminado pelo pecado dele. É por isso que o apóstolo começa falando do fermento, que é uma figura do pecado e contamina pelo contato. “Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento” (1 Co 5:6-7). Deixe uma massa com fermento tocar numa outra sem fermento e esta também fermentará. Este princípio, embora escrito para os irmãos em Corinto, vale para todas as assembleias. Você o encontra até nos preceitos dos profetas do Antigo Testamento:

“Assim diz o Senhor dos Exércitos: Pergunta agora aos sacerdotes, acerca da lei, dizendo: Se alguém leva carne santa na orla das suas vestes, e com ela tocar no pão, ou no guisado, ou no vinho, ou no azeite, ou em outro qualquer mantimento, porventura ficará isto santificado? E os sacerdotes responderam: Não. E disse Ageu: Se alguém que for contaminado pelo contato com o corpo morto, tocar nalguma destas coisas, ficará ela imunda? E os sacerdotes responderam, dizendo: Ficará imunda” (Ag 2:11-13).

Que as coisas que Paulo escreve em sua carta aos Coríntios e às outras igrejas pode ser bem aproveitadas por nós e por todos os cristãos em todas as épocas e lugares fica fácil de perceber pelo fato de ele instruir as igrejas a compartilharem mutuamente as cartas: “E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodiceia lede-a vós também” (Cl 4:16).

Quando Paulo escreve: “Por esta causa vos mandei Timóteo, que é meu filho amado, e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo, como por toda a parte ensino em cada igreja” (1 Co 4:17), ele mostra que, mesmo nas cartas enviadas a indivíduos, como Timóteo, há coisas que podem servir para “cada igreja”. Mais adiante, quando Paulo vai tratar da ordem nas reuniões da igreja, e particularmente da posição a ser assumida pelas mulheres, ele começa dizendo: “Como em todas as igrejas dos santos…” e termina dizendo que “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor” (1 Co 14:33-37).

Nas cartas particulares, como as escritas a Tito ou Timóteo, existem instruções que podem valer tanto para nós individualmente, como para a igreja de Deus coletivamente. Temos boas pistas que nos ajudam a discernir o que é uma coisa e o que é outra. Por exemplo, veja o caso da escolha dos presbíteros (sinônimo de bispos ou anciãos). Sabemos que eles eram escolhidos pelos apóstolos: “E, havendo-lhes [Barnabé e Paulo], por comum consentimento, eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido” (Atos 14:23).

Isso acontecia mesmo em cidades onde já existiam igrejas, o que mostra que não era uma tarefa para irmãos que não tivessem o apostolado ou que não tivessem sido diretamente comissionados por um apóstolo, como fez Paulo com Tito ao deixá-lo em Creta: “Por esta causa te deixei em Creta, para que… de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei” (Tt 1:59). A ordem dada a Tito não era uma ordem dada a todos os cristãos, ou Paulo (acompanhado de Barnabé) não precisaria ter eleito anciãos em cada igreja por onde passava (Atos 14:23).

Quando os apóstolos partiram não deixaram ninguém (como Tito) comissionado para a tarefa, porém em sua despedida Paulo deu uma pista: Os presbíteros eram também escolhidos pelo Espírito Santo, como mostra Atos 20:28: “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (Atos 20:28). Então, quando lemos ordens diretas em epístolas pessoais como a de Tito, não devemos assumir que aquilo foi dito a nós e nem pensarmos que temos procuração para eleger presbíteros, pois não temos.

Hoje, sabendo que o Espírito Santo também tem parte nessa tarefa, podemos descansar no fato de que ele continua elegendo irmãos responsáveis para cuidar do rebanho. Embora não existam mais presbíteros eleitos ou designados por homens, podemos reconhecer aqueles que o Espírito Santo escolheu. Como? Simplesmente observando sua conduta e seu empenho em cuidar das ovelhas. Aos Tessalonicenses Paulo exortou: “E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam” (1Ts 5:12). “Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas” (Hb 13:17). Em outra carta ele acrescenta que os irmãos deviam até mesmo se preocupar com as necessidades materiais desses: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário” (1 Tm 5:17-18).

Obviamente isso nada tem a ver com o modelo clerical adotado no cristianismo, que coloca um homem à frente de uma congregação. Nas Bíblia os presbíteros ou anciãos ou bispos são sempre no plural, e não ficam à frente da reunião dos irmãos, nas quais os dons são usados livremente pelo Espírito Santo e não ficam restritos a um homem à frente. O cuidado com as necessidades materiais também nada tem a ver com uma carreira profissional, mas é algo segundo a necessidade e uma iniciativa que parte dos irmãos, e nunca por solicitação daquele que trabalha. Nem preciso dizer que os irmãos que servem de coração na obra do Senhor não deverão trazer essa função como título, tipo “Ancião Fulano”, “Presbítero Sicrano” ou “Bispo Beltrano”. Fazer isso seria muita pretensão e uma tentativa de se sobressair sobre os demais irmãos, não é mesmo? Temos um caso assim em “Diótrefes, que procura ter entre eles o primado” (1 João 1:9).

Portanto, ao ler as epístolas sempre procure saber a quem aquilo está sendo dirigido, para não cair no erro de assumir para si uma tarefa que foi designada a outro (como é o caso da eleição de presbíteros dada a Tito). Mas talvez você encontre instruções que possam servir particularmente a você, se estiver com problemas de estômago, como tinha Timóteo. Paulo escreveu a ele, mas você pode aproveitar a receita: “Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades” (1 Tm 5:23).

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As mulheres devem lavar os pés dos irmãos?

Sua dúvida está relacionada à passagem de 1 Timóteo 5:1-16 que traz instruções para as viúvas entre os irmãos. Muito do que é dito a elas também pode ser aplicado às irmãs em geral, como é o caso do trecho que gerou sua dúvida, “se exercitou hospitalidade, se lavou os pés aos santos, se socorreu os aflitos, se praticou toda a boa obra” (1 Tm 5:10).

O lavar dos pés era um costume dos judeus, tanto para si mesmos, como para os visitantes que chegavam a uma casa. É fácil entender isso em uma sociedade onde não existiam ruas e calçadas e as condições climáticas produziam muita poeira. Quando um visitante chegava podia-se tanto dar a ele uma bacia com água, como ordenar a um servo que lavasse os pés do visitante, caso fosse uma casa mais rica. Portanto, quem lavasse os pés de alguém precisaria se encurvar como fazia um servo, humilhando-se a fazer uma tarefa assim. Foi exatamente o que o Senhor fez com seus discípulos:

“Jesus… levantou-se da ceia, tirou as vestes, e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos, e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido… Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes” (Jo 13:3-17).

Um anfitrião podia demostrar sinal de hospitalidade lavando os pés de seu convidado ou ordenando a um servo que o fizesse. O ósculo (beijo) fazia parte da saudação e provavelmente também um pouco de azeite derramado sobre a cabeça do visitante. O Senhor, quando visitou a casa de um fariseu, observou que este não lhe deu água para os pés: “E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e mos enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento” (Lc 7:44-46).

Portanto a passagem das viúvas pode tanto ter este significado literal de praticar hospitalidade dando ao convidado tudo o que precisa, como também significar colocar-se numa posição de humilhação como o Senhor ensinou ao lavar os pés dos discípulos. Existe ainda o significado espiritual, que é aplicar a água da Palavra (Ef 5:26) àquela parte que teve contato com o mundo, para tirar a “poeira” que vai grudando em nós. Mulheres não têm um ministério público de ensino e pregação da Palavra, mas podem muito bem aplicar a Palavra no relacionamento com os irmãos, “lavando seus pés”, isto é, ajudando-os a se livrarem das contaminações do mundo. Mulheres podem ser de grande encorajamento neste sentido porque os homens tendem a dar ouvidos a elas, principalmente quando observam nelas uma conduta exemplar.

“Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos; para que também, se alguns não obedecem à palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra; considerando a vossa vida casta, em temor” (1 Pe 3:1-2).

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Devo apresentar meu filho no templo?

Você escreve dizendo que sua família pede que você apresente seu filho ao Senhor em alguma igreja, seja ela católica ou evangélica, por isso quer saber se existe fundamento bíblico para a apresentação ou dedicação de crianças no templo. A Bíblia mostra que os pais de Jesus o levaram para ser apresentado no Templo de Jerusalém e aquilo estava bem de acordo com a dispensação na qual viviam, porque todos ali eram judeus vivendo dentro do judaísmo e havia um Templo em Jerusalém que era o único lugar físico reconhecido por Deus como lugar de adoração a ele.

No judaísmo quando nascia um menino ele primeiro precisava ser circuncidado, conforme determinava o que Deus disse a Abraão, antes mesmo da Lei dada por intermédio de Moisés:

“Disse mais Deus a Abraão: Tu, porém, guardarás a minha aliança, tu, e a tua descendência depois de ti, nas suas gerações. Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Que todo o homem entre vós será circuncidado. E circuncidareis a carne do vosso prepúcio; e isto será por sinal da aliança entre mim e vós… E o homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança” (Gn 17:9-14).

Depois, além da circuncisão da criança, a mãe devia passar por um processo de purificação de 40 dias, como fez Maria depois de Jesus ter sido circuncidado:

“E, quando os oito dias foram cumpridos, para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto antes de ser concebido. E, cumprindo-se os dias da purificação dela, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor (Segundo o que está escrito na lei do Senhor: Todo o macho primogênito será consagrado ao Senhor); e para darem a oferta segundo o disposto na lei do Senhor: Um par de rolas ou dois pombinhos” (Lc 2:21-24).

Você deve ter reparado na passagem que por três vezes a Lei é mencionada, o que indica que estamos vendo uma cena típica do judaísmo. O ritual de purificação da mãe dependia se a criança era do sexo masculino ou feminino, como instruía a Lei dada a Moisés em Levítico 12:1-8:

“Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, dizendo: Se uma mulher conceber e der à luz um menino, será imunda sete dias, assim como nos dias da separação da sua enfermidade, será imunda. E no dia oitavo se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio. Depois ficará ela trinta e três dias no sangue da sua purificação; nenhuma coisa santa tocará e não entrará no santuário até que se cumpram os dias da sua purificação. Mas, se der à luz uma menina será imunda duas semanas, como na sua separação; depois ficará sessenta e seis dias no sangue da sua purificação. E, quando forem cumpridos os dias da sua purificação por filho ou por filha, trará um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola para expiação do pecado, diante da porta da tenda da congregação, ao sacerdote. O qual o oferecerá perante o Senhor e por ela fará propiciação; e será limpa do fluxo do seu sangue; esta é a lei da que der à luz menino ou menina. Mas, se em sua mão não houver recursos para um cordeiro, então tomará duas rolas, ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para a propiciação do pecado; assim o sacerdote por ela fará expiação, e será limpa”.

José e Maria eram pobres, por isso ofereceram apenas duas rolas ou dois pombinhos, e não um cordeiro, que era a oferta padrão. Ao final desse processo é que a mãe comparecia ao Templo de Jerusalém para apresentar a criança, como fizeram os pais de Jesus. Segundo a Lei o primogênito pertencia ao Senhor (Ex 13:2), daí ser apresentado ao Senhor no Templo de Jerusalém.

Portanto, se você quiser imitar o que fizeram José e Maria, primeiro deve circuncidar seu filho (se for menino, obviamente), depois sua mulher deve cumprir os dias da purificação, sacrificar um cordeiro (ou duas pombinhas se vocês forem pobres) e finalmente apresentar a criança ao Senhor no Templo de Jerusalém, porque aquele é o único Templo e santuário reconhecido por Deus.

Mas espere um pouco! Hoje tem uma mesquita islâmica no lugar do Templo! Então já deu para você perceber que não poderá cumprir os requisitos do judaísmo, não só por esta razão, mas também porque você faz parte de outro povo, a Igreja, que nada tem de judaísmo e nem de adoração segundo os moldes terrenos dados a Israel. A Igreja adora, não em Jerusalém ou qualquer outro templo de pedras, mas em espírito e em verdade. Os que fazem parte do corpo de Cristo não vão apresentar seus filhos diante de um sacerdote porque todo crente hoje faz parte de uma “geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2:9).

Portanto esqueça a chamada “dedicação da criança” ou “apresentação da criança” ou “cultinho do bebê” ou qualquer outro nome que se dê a levar a criança a alguma igreja ou templo moderno para colocá-lo diante de um homem autodenominado sacerdote, bispo, pastor ou algo do tipo. Nada disso tem base na doutrina dos apóstolos dada à Igreja. O fato de algo estar na Bíblia não significa que deve ser feito, pois é preciso ver a quem aquilo foi dito, onde, quando e com que finalidade.

“Disse-lhe a mulher [samaritana]: Senhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4:19-24).

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Como permanecer na fé com teorias assim?

Você escreveu desconsolado e com sua fé abalada pelo vídeo que assistiu, o qual tenta provar que Jesus não passaria de um plágio de lendas e fábulas pagãs da antiguidade. Você pergunta: “Como permanecer na fé tendo histórias idênticas e mais antigas que a de Cristo”? A resposta é: evitando essas histórias “idênticas” porque elas não passam de teorias conspiratórias (que conspiram contra a fé). O costume de se ocupar com teorias conspiratórias já é considerado hoje uma forma de vício semelhante às drogas, álcool e pornografia, pois sua ocupação acaba afetando o estado mental e a personalidade dos que se ocupam com elas. Como?

Como acontece com a droga, bebida ou sexo, aquele que é obcecado por teorias conspiratórias acaba querendo cada vez mais, e quanto mais inacreditáveis elas forem, melhor se sentirá. O caminho de volta, como acontece com qualquer viciado, é difícil, daí a necessidade de evitá-las a qualquer custo. Mas o que acontece na mente de um viciado em teorias conspiratórias? Ele se sente orgulhoso por conhecer segredos que as pessoas comuns não conhecem e passa a sentir-se mais inteligente, perspicaz e sábio.

Ele pode até aparecer na TV em uma matéria gravada em Alto Paraíso para revelar como as pessoas ali serão poupadas das desgraças que cairão sobre o mundo por estarem vivendo sobre um grande cristal. Ou caminhará olhando para todos os lados na tentativa de reconhecer algum reptiliano invasor e achando que só ele está percebendo o invisível. Resumindo, ele se achará mais do que os que são menos. Não se esqueça de que, das três promessas mentirosas de Satanás, uma era para encher seu ego: “Sereis como Deus, sabendo o bem e o mal… a soberba da vida” (Ap 3:5; 1 Jo 2:16).

Não quero dizer com isto que não existam teorias conspiratórias que não tenham um fundo de verdade. Certamente algumas podem até ser verdade, mas como nunca sabemos quais, o caminho mais seguro para o cristão é ocupar-se 24 horas com a maior de todas as “teorias conspiratórias”. Qual? A que diz que existe uma conspiração de extraterrestres que há milênios estão empenhados em enganar os seres humanos a não crerem no que Deus diz. O líder desses extraterrestres, que a Bíblia chama de “principados… potestades… príncipes das trevas… hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6:12), havia sido designado para Administrador da terra, porém sua soberba o tirou dessa posição. Então ele procurou destruir o primeiro Administrador humano da Criação e sua esposa, Adão e Eva, e conseguiu, com a introdução do pecado na humanidade.

Mas como Deus prometeu que da mulher viria aquele que esmagaria sua cabeça, esse líder, também conhecido como Satanás, Diabo, Serpente ou Dragão, tentou de todas as maneiras impedir que ficasse alguma mulher no sentido humano da palavra para o Filho de Deus nascer no mundo por meio dela. Alguns de seus emissários assumiram a forma humana e inseminaram mulheres para gerar delas seres híbridos e poderosos (Gn 6), dos quais jamais poderia nascer o Cristo. Impedido em seu intento graças ao dilúvio que destruiu a todos os dessa linhagem transgênica, e sabendo que o Libertador nasceria dos hebreus, ele tentou impedir isso matando os meninos hebreus no Egito quando o povo de Deus era escravo ali.

Mais tarde tentou outros estratagemas, até o dia em que, sabendo que o Salvador prometido havia chegado, instigou Herodes a matar todos os meninos de uma determinada região, entre os quais poderia estar Jesus. Quando ficou claro e patente que o Filho de Deus havia escapado e estava vivo e atuante, moveu todos os pauzinhos, entre os quais, Judas, para levá-lo à morte, sem saber que nisso estaria sua própria derrota: Jesus morreu e ressuscitou. Hoje, incapaz de causar qualquer dano à Cabeça, o diabo continua agindo na tentativa de atrapalhar a vida dos membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja. É com esta “teoria conspiratória” que você deveria se ocupar, porque tenho certeza de que ela é muito mais real e interessante que qualquer outra que fale de invasões alienígenas, Illuminati que querem conquistar o mundo ou que foi o Chapolim Colorado quem atirou no Kennedy.

Você já deve ter escutado o ditado que diz que “a curiosidade matou o gato”. Esse ditado surgiu na Idade Média, quando alguns acreditavam que os gatos pretos traziam má sorte. Então preparavam armadilhas que atraíssem os gatos por sua curiosidade natural e eles assim eram mortos. Hoje o diabo usa e abusa do meio multimídia para “matar o gato”, isto é, o cristão curioso e que ainda vacila em sua fé. Para isso ele usa seus instrumentos, geralmente ateus, céticos ou pessoas de religiões não cristãs com algum conhecimento de ciência, história, geografia, sociologia, etc. Junte a isso todos os recursos da computação gráfica e você tem documentários que parecem muito reais.

Inclua-se aí alguns produzidos por canais reputados, como “NatGeo”, “Discovery Channel”, “The History Channel”, “The Science Channel”, além dos especializados em teorias conspiratórias e também filmes de temas bíblicos, geralmente produzidos por incrédulos, que podem conhecer história, geografia e artes cênicas, mas não fazem ideia do que a Bíblia diz. Mas a forma mais sutil de Satanás agir é usando pessoas com algum título ou posição clerical da cristandade para serem entrevistadas nesses programas, dando às bobagens que falam acerca de Cristo e da Palavra de Deus um ar de credibilidade. O Espírito Santo, por meio de Paulo, avisou que seria assim:

“Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras” (2 Co 11:13-15).

O que você esperaria que os ímpios e incrédulos fizessem? Eles não mediriam esforços para denegrir a imagem do Senhor e para isso serão capazes de tudo. Não vi o vídeo que você enviou (só o início para ver o título) porque tenho por princípio não assistir qualquer coisa que eu saiba de antemão que irá falar mal de meu Senhor. Quando você deixa sua curiosidade levá-lo a passear por sites e vídeos assim precisa se lembrar de que estará diante de coisas produzidas por inspiração de um querubim que tem 6 mil anos de experiência em enganar os seres humanos. Também não vejo filmes de temas bíblicos, no máximo apenas alguma ficção passada na antiguidade ou talvez um documentário sobre outros personagens encontrados na Bíblia, como reis, impérios, etc. Quando eu era incrédulo acreditava piamente em todas as bobagens escritas por Erich von Däniken, autor de “Eram os deuses astronautas” (não perdia um livro dele) e ele usava muito a Bíblia para embasar suas mentiras e teorias.

Quer com conselho? Quando alguém vier falar mal do Senhor responda como fazia Paulo: “eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia” (2 Tm 1:12). E pare de ficar passeando por sites e vídeos de teorias conspiratórias contra Cristo, a Bíblia, os apóstolos, etc., a menos que queira ser mais um gato morto. Pense assim: Se não existissem essas teorias conspiratórias a Bíblia estaria errada, pois nela os apóstolos previram que tais teorias surgiriam. Como elas surgiram com força total nos últimos dias, então temos mais uma prova para confiarmos na Palavra de Deus.

“Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas (outra versão diz “fábulas profanas e de velhas caducas”), e exercita-te a ti mesmo em piedade” (1 Tm 4:7).

“Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef 4:14).

“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Tm 4:3-4).

“Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência” (1 Tm 4:1-2).

“Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2 Tm 3:13-17).

“Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade” (2 Pe 1:16).

“E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2 Pe 3:15-16).

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles” (Hb 1:1-4).

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Os primeiros cristãos frequentavam uma igreja?

Você ficou em dúvida porque uma passagem de Atos parece indicar que havia um lugar onde os cristãos se reuniam. “E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinaram muita gente” (Atos 11:26). Como você tem lindo textos e escutado vídeos e áudios afirmando que o cristão não deve frequentar uma denominação ou templo para adorar, esta passagem parece contradizer isso. Afinal, os primeiros cristãos iam ou não iam a uma igreja para adorar? Na conversa que o Senhor Jesus teve com a mulher samaritana antes que a Igreja fosse formada no dia de Pentecostes, ela levantou a questão do correto lugar de adoração:

“Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4:20-24).

O Senhor deixou bem claro para ela que o tempo de adorar em um lugar físico e tangível como era o Templo de Jerusalém estava para terminar. A adoração seria então de outra maneira e já não mais dependeria de um lugar tangível, pois seria “em espírito e em verdade”. Seria uma adoração acessível a qualquer um em qualquer lugar, pois o espírito humano está sempre com o cristão, desde que fosse em verdade, ou seja, fundamentada na Palavra de Deus.

O Senhor declarou, a respeito do Pai: “A tua palavra é a verdade” (Jo 17:17), e indo um pouco além, sabemos que o apóstolo Paulo seria escolhido para receber “o mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo; para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Ef 3:1-10). Considerando que o próprio Pedro atestou que o que Paulo escreveu tem o mesmo status “das outras Escrituras” (2 Pe 3:16), podemos deduzir que o “adorar em espírito e em verdade” é adorar em conformidade com a “sã doutrina…“, e não segundo aqueles que amontoariam “para si doutores conforme as suas próprias concupiscências” (2 Tm 4:3-4). Essa sã doutrina o apóstolo não entregou apenas “à igreja de Deus que está em Corinto”, mas “aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1:2).

Então, se o adorar “em espírito e em verdade” não é o mesmo que congregar em uma igreja, como é que os primeiros cristãos iam a ‘uma igreja’ como fala o texto em Atos 11:26? Se você entender o que não é igreja fica mais fácil (entre parênteses coloquei algumas expressões normalmente usadas para a palavra “igreja”):

Igreja não é um edifício de tijolos (“O passarinho fez ninho no telhado da igreja”).

Igreja não é uma denominação (“Antonio congrega na Igreja Batista”).

Igreja não é uma ONG beneficente (“A Igreja enviará uma equipe de médicos aos desabrigados”).

Igreja não é uma pessoa jurídica (“O CNPJ da igreja é….”).

Igreja não é uma escola (“A Igreja ensina que…”).

Igreja não é uma pessoa (“Pertenço à igreja do Pastor Fulano”).

A palavra “igreja” vem do grego “eklesia” que significa “reunião” ou “congregação” ou “assembleia” ou “ajuntamento”. Tanto é que existem passagens no Novo Testamento onde a palavra aparece e não tem nada a ver com os cristãos. Veja por exemplo esta passagem que no grego trazem “eklesia” ou “igreja” onde em algumas traduções trazem “ajuntamento” ou “assembleia”:

“Uns, pois, clamavam de uma maneira, outros de outra, porque o ajuntamento [eklesia] era confuso; e os mais deles não sabiam por que causa se tinham ajuntado“ (Atos 19:32). Aqui a tradução poderia ter sido ”… porque a igreja era confusa” que não estaria errada, apesar de não estar falando de cristãos, mas do ajuntamento de pessoas. Porém no grego é a mesma palavra “eklesia” usada para falar dos salvos por Cristo. É o caso também aqui:

“Então o escrivão da cidade, tendo apaziguado a multidão, disse: Homens efésios… se alguma outra coisa demandais, averiguar-se-á em legítima assembleia [eklesia]. Na verdade, até corremos perigo de que, por hoje, sejamos acusados de sedição, não havendo causa alguma com que possamos justificar este concurso. E, tendo dito isto, despediu a assembleia [eklesia]” (Atos 19:35-41).

Nos dois casos você poderia ler “…averiguar-se-á em legítima igreja” e”…despediu a igreja” que a tradução estaria igualmente correta. Os tradutores da Bíblia para evitar confusões preferiram utilizar palavras diferentes na tradução de “eklesia”, que passou a ser igreja para quando se refere a uma reunião de cristãos e assembleia ou ajuntamento quando fala de pessoas em geral.

Então, quando o versículo que você citou diz que “sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja” (Atos 11:26) não significa que eles foram a algum prédio de tijolos e nem que se fizeram membros de alguma organização ou denominação, mas que simplesmente participaram daquela assembleia ou reunião ou congregação ou ajuntamento de irmãos em Cristo.

Agora vem a parte interessante:


Se na assembleia (eklesia) governada pelo escrivão de Éfeso existissem alguns convertidos misturados naquela manifestação, eles certamente eram membros do corpo de Cristo, porém na qualidade de participantes de uma assembleia (eklesia) da cidade de Éfeso não representavam o corpo de Cristo, e sim a cidade de Éfeso.

Numa assembleia (eklesia) de presbiterianos (uso como exemplo, poderia ser outra denominação) certamente muitos são membros do corpo de Cristo, mas quando reunidos na qualidade de presbiterianos não podem representar o corpo de Cristo, mas apenas uma facção do testemunho cristão conhecida como Igreja Presbiteriana. Se eles saírem daquele sistema para estarem congregados somente ao nome do Senhor aí sim estarão reunidos em assembleia (eklesia) na qualidade de representantes do corpo de Cristo.

Pode soar estranho ou injusto dizer isto, mas eu pergunto: Quando os presbiterianos (ou batistas, ou metodistas, etc.) estão reunidos em assembleia (eklesia) acaso eles representam o corpo de Cristo? Não, porque eu faço parte do corpo de Cristo e não sou presbiteriano (ou batista, ou etc.). Portanto, ainda que representem uma facção do testemunho do corpo de Cristo, não podem representar o corpo como um todo, pois uma denominação é excludente por denominar apenas alguns membros do corpo de Cristo como “igreja”.

Outro desafio ao seu pensamento: Se hoje todas as denominações desaparecessem, permanecendo apenas os verdadeiros salvos, a Igreja continuaria na terra? Certamente, pois a existência da Igreja, que é o corpo de Cristo, não depende de nenhuma denominação. Onde iriam então congregar esses cristãos? Na igreja (eklesia) onde quer que estivesse reunida “em espírito e em verdade”, pois “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18:20).

“O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Co 10:16).

“Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também. Pois todos nós fomos batizados em um Espírito [no dia de Pentecostes], formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito… Assim, pois, há muitos membros, mas um corpo” (1 Co 12:12-14, 20).

“Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação” (Ef 4:4).

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A filha de Jairo estava morta ou moribunda?

Você ficou em dúvida sobre a inerrância das Escrituras quando percebeu que em um evangelho Jairo fala que sua filha está morta e em outros dois que ela estava moribunda. Afinal, quando ele procurou a ajuda de Jesus ela estava moribunda ou já tinha morrido? As duas respostas são corretas porque ela pode ter morrido enquanto ele falava com o Senhor e cada evangelista registrou um aspecto de sua conversa, ficando apenas para Marcos e Lucas incluírem a parte em que os mensageiros chegam vindos da casa de Jairo.

“Falava ele ainda quando um dos dirigentes da sinagoga chegou, ajoelhou-se diante dele e disse: ‘Minha filha acaba de morrer. Vem e impõe a tua mão sobre ela, e ela viverá’” (Mt 9:18, 35).

“Então chegou ali um dos dirigentes da sinagoga, chamado Jairo. Vendo Jesus, prostrou-se aos seus pés e lhe implorou insistentemente: ‘Minha filhinha está morrendo! Vem, por favor, e impõe as mãos sobre ela, para que seja curada e viva’. (…) estando ele ainda falando, chegaram alguns do principal da sinagoga, a quem disseram: A tua filha está morta; para que enfadas mais o Mestre?” (Mc 5:22-23, 35).

“Então um homem chamado Jairo, dirigente da sinagoga, veio e prostrou-se aos pés de Jesus, implorando-lhe que fosse à sua casa porque sua única filha, de cerca de doze anos, estava à morte. (…) estando ele ainda falando, chegou um dos do príncipe da sinagoga, dizendo: ‘A tua filha já está morta, não incomodes o Mestre’. (Lc 8:41-42, 49).

Já que em Marcos diz que Jairo implorava “insistentemente” é possível imaginar um processo repetitivo e contínuo de pedidos pela cura de sua filha moribunda. Então chegam os mensageiros e dão a mensagem da morte e seria natural que Jairo mudasse seu pedido de “está morrendo” para “está morta”. Talvez Marcos e Lucas tenham registrado esse pedido contínuo (“está morrendo”) enquanto Mateus tenha registrado apenas o pedido final de Jairo: “está morta”.

Você encontra outras situações assim em que os textos se complementam, como no caso da morte de Judas que, em Mateus 27:5 diz que “ele atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar” e em Atos 1:18 que “precipitando-se, rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram”. Deixando de lado a possibilidade de ele ter ido se enforcar e mudado de ideia no caminho e decidido saltar de um lugar alto, um detetive teria juntado os dois relatos e deduzido que Judas foi se enforcar de um lugar alto e a corda (ou o galho) pode ter se rompido e ele caiu de grande altura, derramando suas entranhas como acontece em quedas assim.

Se alguém disser que o meio-irmão de Saddam Hussein morreu enforcado e decapitado você poderia estranhar, mas a verdade é que ele era muito gordo e sua cabeça foi arrancada pelo peso do corpo durante o enforcamento. Assim ele foi enforcado e decapitado.

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Sua meta é ir para o céu?

Não, minha meta não é ir para o céu. Lembro-me de alguém que fez a mesma pergunta. Era um advogado da empresa onde eu trabalhava, com quem precisei viajar e ficar junto no mesmo quarto de hotel. Logo que nos conhecemos dei a ele um folheto evangelístico e sua pergunta foi: “Sua esperança é morar na terra ou no céu”?

Pela pergunta eu logo vi que ele pertencia à religião chamada de “Testemunhas de Jeová”, cuja esperança é viver para sempre numa terra restaurada e livre dos problemas encontrados aqui. Por mais que negasse a divindade de Cristo ou o perdão dos pecados por graça somente, no final de nossa semana juntos ele confessou que muito do que eu lhe havia falado do evangelho até fazia sentido. Mas ele gostava mesmo era deste mundo, por isso a proposta de sua religião lhe era tão apetitosa. Seu sonho era continuar vivendo aqui neste mundo para sempre, só com a parte boa e sem a parte ruim. Algo como um eterno piquenique sem formigas ou mosquitos.

Para você entender a razão de minha meta não ser morar no céu, vou dar um exemplo. Imagine que seu artista preferido irá se apresentar hoje à noite no Teatro Municipal e você está louco para ir vê-lo. O problema é que os ingressos são caríssimos. Você não tem dinheiro, mas tem um amigo que trabalha no Teatro Municipal e liga para ele para ver se pode quebrar seu galho. O diálogo seria mais ou menos assim:

— Oi, estou louco para ir ao Teatro. Será que você não quebra este galho?

— Claro! Para você já está liberado.

— Sério?! Você conseguiria para mim um lugar perto do palco?

— Sem problema, na primeira fileira ou até no palco se preferir.

— Uau! No palco do Teatro Municipal! Você só pode estar brincando!

— Não estou não, e ainda dou a você livre acesso aos camarins.

— Puxa! Nem sei como agradecer! A que horas posso estar aí hoje?

— Hoje não vai dar, porque tem um show com um cara muito famoso. Mas amanhã sem problemas, porque o teatro estará vazio.

Entendeu agora? Minha meta não é ir para o céu, assim como a sua meta nesta situação hipotética não era ir ao Teatro Municipal, pois o lugar em si não significaria nada sem o seu artista preferido. Se a minha meta fosse ir para o céu eu poderia talvez escolher entre diferentes “céus”. Poderia preferir o céu muçulmano, com suas virgens, ou o nirvana ou qualquer “céu” que me agradasse. Por isso você não encontra na Bíblia a expressão “ir para o céu” como sendo a meta do cristão.

Quando o Senhor disse ao ladrão convertido na cruz, “em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23:43), a força da expressão não estava em “estarás… no Paraíso”, mas em “estarás comigo”. Pela mesma razão, quando o apóstolo Paulo fala de seu desejo de partir desta vida, ele não diz que tinha “desejo de partir, e estar no céu, porque isto é ainda muito melhor”, mas sim de “estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Fp 1:23).

As religiões prometem diferentes destinos de paz, tranquilidade e beleza, como a terra restaurada das Testemunhas de Jeová, ou o paraíso das delícias dos muçulmanos. Mas ir para esses “céus” é como ir ao Teatro Municipal no dia seguinte, ou seja, quem você realmente quer encontrar não estará lá. O que atrai o cristão a morar no céu não é o céu, mas quem está no céu: Cristo ressuscitado e glorificado à direita do Pai. Se a sua meta for qualquer coisa menos que isto, o que você está realmente buscando é um piquenique sem formigas, e não a companhia de Cristo eternamente.

Portanto, da próxima vez que perguntar aos seus filhos algo como “Você quer ir para o céu?“, talvez seja melhor perguntar “Você quer ir estar com Cristo”? Esta é a meta.

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Pessoas do mesmo sexo podem se casar?

Antes de falar de casamento ou matrimônio de pessoas do mesmo sexo, é preciso dividir o assunto em partes, perguntando primeiro “O que é casamento?” E depois “Quem une um casal”? Mas antes mesmo de responder a estas perguntas é preciso também entender que Deus enxerga a humanidade em duas classes, e estas não são por cor da pele, conta bancária ou opção sexual. Deus enxerga os homens como “salvos” e “perdidos”. Isto fica claro quando o apóstolo Paulo escreve aos cristãos em Éfeso, mostrando que agora eles ocupavam uma posição diferente da que ocupavam antes.

“[Deus] vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Ef 2:1-3).

A nova posição daqueles cristãos de Éfeso é a mesma de todo cristão, e contrasta com a posição de antes da conversão. Antes eles estavam espiritualmente mortos, andando segundo a moda deste mundo, em conformidade com “o príncipe das potestades do ar”, que é Satanás, “do espírito que agora opera nos filhos da desobediência”, isto é, nos que permanecem na incredulidade.

Para que eles não se enganassem achando-se melhores que os incrédulos, o apóstolo deixa claro que era esta a mesma posição que eles próprios ocupavam aos olhos de Deus, antes de terem sido salvos pela fé em Cristo: “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Ef 2:3).

Portanto, antes de continuarmos com este assunto de casamento gay é preciso que você decida de que lado está desta linha que divide a humanidade entre salvos e perdidos. Se você continua morto em seus pecados e andando segundo a moda do mundo, do qual Satanás é “o príncipe” (Jo 16:11), em desobediência a Deus e sua Palavra, e sendo guiado pelos desejos de sua carne e de seus pensamentos, a sentença é clara: Você é um “filho da ira” de Deus, ou seja, está debaixo do juízo de Deus que pode alcançá-lo a qualquer momento.

Antes de querer saber sobre casamento, você precisará resolver a questão de seu destino eterno, pois casamentos só valem para esta vida. A solução para a eternidade está nos versículos seguintes que mostram também a quem os cristãos de Éfeso deviam a transformação que os tirou de uma posição e os colocou em outra:

“Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie, porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2:4-10).

Ou seja, não tinha sido por mérito que eles haviam sido transportados da posição de perdidos para a de salvos, mas por Deus e pela “misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou…“, pela “graça… pela sua benignidade para conosco…“, nos dando a salvação “por meio da fé…” que não veio de nós, mas foi um presente ou “dom de Deus”. Tal salvação “não vem das obras, para que ninguém se glorie”, pois “as boas obras” somente têm seu lugar após termos sido salvos, e não são boas obras nossas, mas “as quais Deus preparou para que andássemos nelas”.

Considerando que existe uma divisão tão clara que separa a humanidade entre salvos e perdidos, não é de estranhar que exista também uma divisão de opiniões quando o assunto é o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas alguém poderia indagar que, se assim é, por que existem tantos cristãos favoráveis ao homossexualismo? Estariam eles perdidos? Só existe alguém que tem competência para dizer quem é salvo e quem está perdido, e esse alguém é o Senhor. “O Senhor conhece os que são seus”. Conhecer quem é ou não é de Cristo não é tarefa minha ou sua, mas é importante lembrar que o mesmo versículo fala da responsabilidade que têm aqueles que realmente são dele: “Qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Tm 2:19).

Mas, será que homossexualismo é iniquidade? Como meu assunto aqui é o matrimônio, e não o que hoje é chamado de “opção sexual”, deixo a você a tarefa de descobrir na Bíblia o que Deus pensa do homossexualismo: Gênesis 19:5-7, Levítico 18:22, Levítico 20:13, Deuteronômio 23:18, Juízes 19:22-23, 1 Reis 14:24, 1 Reis 15:12, 1 Reis 22:46, Romanos 1:26-28, 1 Co 6:9-10, 1 Timóteo 1:10.

Se eu fosse um homossexual não ficaria preocupado com o que as pessoas iriam pensar de mim. Pouco me importaria o julgamento que elas fizessem de mim. Eu não perderia meu tempo tentando defender minha posição ou tentando “convertê-las” à minha opção sexual. Eu me preocuparia, isto sim, com o julgamento de Deus, pois é este o julgamento que importa. Esse julgamento será baseado, não em um código civil, mas na sua Palavra. Jesus disse: “Se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo. Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; A PALAVRA que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia” (Jo 12:47-48).

Mas vamos voltar às perguntas do princípio, “O que é casamento”? e “Quem une um casal”? Se temos por certo que o que Jesus diz é a verdade, então o melhor é perguntar a ele para ter estas respostas, e sua resposta é clara e não deixa dúvidas: “Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19:4-6). Ele responde que casamento é quando o homem se une à mulher, e que essa união quem faz é Deus, e ponto final. Para um bom entendedor estas palavras deveriam bastar, menos para aqueles que não querem se sujeitar à Palavra de Deus. Neste caso, Jesus diz “quem não receber as minhas palavras… a palavra que tenho pregado… o há de julgar no último dia” (Jo 12:48).

Mas então por que tantas “igrejas” estão aceitando e até ministrando a união de pessoas do mesmo sexo? Bem, se as pessoas, individualmente, não querem se submeter ao que Jesus diz em sua Palavra, não é de espantar que pessoas, coletivamente, também não se sujeitem. Mas aí o problema tem também um outro lado, que é a falta de entendimento da segunda pergunta, “Quem une um casal?”, para a qual a resposta é “Deus”.

Com a criação de um clero na cristandade, coisa que não havia na doutrina dos apóstolos, foram criadas também atribuições para dar poder a esses clérigos, sejam eles padres ou pastores. Uma dessas atribuições foi a de unir as pessoas em matrimônio, o que costumamos chamar de “casar no religioso”. Acontece que, nem no Antigo Testamento e nem no Novo, Deus concedeu a homem algum o poder de dizer “Eu vos declaro marido e mulher”. Ou seja, não existe o tal “casamento religioso” praticado pelas religiões. É Deus quem une, não o homem. Havendo tal erro sido adotado na cristandade, as consequências vieram a seguir. Hoje muitas “igrejas” são coagidas a efetuarem o “casamento religioso” de pessoas do mesmo sexo para evitarem processos por discriminação.

O único ser humano com autoridade para dizer “Eu vos declaro marido e mulher” é o juiz de paz, nos países onde o casamento homossexual é legalizado. Mas neste caso o juiz de paz está celebrando um contrato ou união civil entre duas pessoas dentro da legislação humana. Esse “casal” poderá ser reconhecido legalmente com todos os direitos e deveres de qualquer sociedade civil.

Mas ninguém poderá dizer, com base na Palavra de Deus, que foi Deus quem uniu aquelas pessoas, porque não foi. Ainda que se prendam com algemas de titânio; ainda que obtenham certidão de casamento civil em todos os cartórios do mundo, ou se submetam a um “casamento religioso” em todos os templos de todas as religiões, mesmo assim Deus não as uniu. A condição explicitada pelo próprio Senhor Jesus foi de que para Deus unir um casal este seja formado por um homem e uma mulher. Ainda que o governo e a sociedade reconheçam e respeitem essa união, do ponto de vista do matrimônio instituído por Deus ela é tão legítima quanto uma nota de 3 reais.

Então os cristãos devem lutar contra o casamento gay? De maneira nenhuma. Se eu for passar férias na China seria loucura querer obrigar os chineses a falarem português, gostarem de samba e misturarem feijão ao arroz que já comem. Eu seria estrangeiro ali e não poderia dar palpite no modo de vida deles, nem em seu governo e instituições. Quando a Bíblia mostra que a humanidade está dividida entre salvos e perdidos ela também mostra que eles possuem diferentes cidadanias. O salvo não é deste mundo e sua cidadania é celestial. O perdido é deste mundo e sua cidadania é terrena.

Por que então existem tantos cristãos que fazem campanha contra o casamento gay e até perseguem homossexuais? Porque não entendem essa diferença e também porque são influenciados pela teologia adotada na maioria das religiões cristãs fundamentalistas. Essa teologia ensina erroneamente que a Igreja é apenas uma continuação de Israel. Considerando que Israel foi o povo que Deus escolheu para dominar a terra que recebeu de Deus, o raciocínio desses cristãos é que devem ter pela terra o mesmo zelo que tinha Israel, expulsando dela tudo o que for impuro. É uma espécie de compulsão por arrancar o joio do mundo para deixar só o trigo. Mas o que disse Jesus?

Usando de uma parábola para explicar o Reino dos Céus, ele disse que um inimigo semeou joio na seara de trigo do dono da fazenda, e seus servos perguntaram ao dono se deviam arrancar o joio. A resposta foi: “Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro” (Mt 13:24-30). O “Reino dos Céus” é a esfera da profissão cristã que é regida pelos céus, mas que está na terra e traz uma mistura de verdadeiros e falsos convertidos. Vivemos na época em que joio e trigo crescem juntos antes que os primeiros sejam destinados ao fogo e os últimos aos celeiros celestiais.

Desde os tempos da Idade das Trevas os cristãos que se acham herdeiros das promessas terrenas feitas a Israel se empenham em arrancar o joio e, em algumas épocas, a literalmente queimá-lo. Essa falta de entendimento nos leva também a deduzir que existam dois tipos de crentes, mesmo entre os que são verdadeiros e sinceros: os espirituais e os carnais. Por espirituais temos a figura de Abraão, um servo de Deus que entendeu que era peregrino aqui e devia habitar literalmente em tendas e longe das cidades. Já o seu sobrinho, Ló, representa o crente carnal, que vive por vista, e não por fé.

“Ló viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada… Então Ló escolheu para si toda a campina do Jordão, e partiu Ló para o oriente, e apartaram-se um do outro. Habitou Abrão na terra de Canaã e Ló habitou nas cidades da campina, e armou as suas tendas até [chegar em] Sodoma” (Gn 13:10-12).

Quando chegamos no capítulo 19, descobrimos que Ló não somente acabou habitando na cidade de Sodoma, de cujo nome e fama vêm os termos “sodomia” e “sodomitas”, mas não se contentou com isso. Ele acabou assumindo uma posição de juiz entre eles, pois quando Deus está para destruir Sodoma e manda anjos avisarem Ló, “vieram os dois anjos a Sodoma à tarde, e estava Ló assentado à porta de Sodoma” (Gn 19:1). Na antiguidade a porta de uma cidade era como um tribunal de pequenas causas, onde os anciãos julgavam as disputas entre os cidadãos, contratos eram firmados e documentos autenticados (Dt 21:19; Josué 20:4). Mais adiante os habitantes iriam jogar isso na cara de Ló: “Como estrangeiro este indivíduo veio aqui habitar, e quereria ser juiz em tudo?” (Gn 19:9).

Os cristãos que hoje se intrometem nos assuntos deste mundo, querendo ser vistos “assentados à porta da cidade” para julgar questões que não lhes dizem respeito, merecem a mesma repreensão que os sodomitas deram a Ló: “Como estrangeiro este indivíduo veio aqui habitar, e quereria ser juiz em tudo?” (Gn 19:9). Portanto, ao cristão não interessa com quem fulano ou sicrana dormem e se devem ou não se unir em matrimônio ou se a novela vai ou não exibir um beijo gay. Ele deve é cuidar de sua própria vida, e não querer obrigar os incrédulos a viverem do modo como acredita ser o correto. Isso seria como o turista brasileiro querer obrigar a introdução do feijão com arroz na merenda escolar da China. Ainda que eles aceitem mudar sua dieta, isso não fará deles brasileiros, do mesmo modo como um incrédulo que ande como cristão nunca será salvo por isso.

A parte que cabe ao cristão é ser um testemunho neste mundo, levar a Palavra de Deus em amor e compaixão aos perdidos, sejam eles gays ou héteros. O Senhor Jesus conversou normalmente com a mulher samaritana, o que surpreendeu os discípulos pois os judeus não conversavam com os samaritanos, e muito menos um homem judeu puxaria conversa com uma mulher samaritana e ainda mais de reputação duvidosa. Ao cristão cabe manter o seu relacionamento com o seu cônjuge dentro daquilo que Deus ordena e que “venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém, aos que se dão à prostituição, e aos adúlteros, Deus os julgará” (Hb 13:4).

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Satanás não pode tocar no crente?

Você viu uma frase motivacional, dessas que circulam nas redes sociais, que dizia: “‘Filho, você não sabe quantas vezes o inimigo quis te destruir, mas tu és meu, e o que é meu ele não toca’ - assinado Deus”. A ideia de sermos imunes aos ataques de Satanás não é bíblica, e o primeiro exemplo que me vem à mente é o de Jó um homem temente a Deus que, com autorização divina, foi afligido por Satanás.

O autor da frase que você leu provavelmente tenha se baseado em 1 João 5:18, que diz: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca”. Mas a passagem fala daquilo que é gerado por Deus, ou seja, da nova natureza que agora possui aquele que foi salvo. Esta realmente não pode ser de modo algum tocada ou influenciada pelo maligno pois é uma natureza que vem de Deus e nada tem a ver com a velha natureza que continua habitando em nós.

Somente aqueles que creram em Jesus Cristo, em sua divindade e obra segundo as Escrituras, possuem essa nova natureza e, também, são incapazes de pecar, têm suas orações ouvidas quando em conformidade com a vontade de Deus, vencem o mundo, etc., como o próprio apóstolo João diz:

“Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido… Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé… Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida… E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve… Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (1 Jo 5:1-21).

Mas, no sentido de ainda estarmos vivendo neste corpo não ressuscitado e no mundo, é possível sim sermos afligidos pelo diabo, mas para isso ele precisará passar pelo céu e obter uma autorização de Deus, como foi no caso de Jó (veja Jó capítulos 1 e 2). O diabo peneirou a Pedro, por quem Cristo intercedeu, criou perseguições e dores aos apóstolos e certamente ainda hoje aflige os cristãos em todo o mundo. Todavia, mesmo em meio à mais feroz perseguição, dor física e sofrimento mental a nova natureza que temos em nós permanece intacta e não pode ser tocada pelo maligno.

Deus permitiu que Paulo recebesse algum tipo de aflição física para não se gloriar, portanto Satanás pode sim tocar o corpo do crente: “E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar” (2 Co 12:7).

Paulo determinou que o transgressor de 1 Coríntios 5 fosse “entregue a Satanás para destruição da carne”, o que significava que ele seria morto por Satanás embora seu espírito estaria salvo. “…seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus” (1 Co 5:5).

Portanto é preciso cuidado com frases motivacionais que parecem ter fundamento cristão, mas não têm. O objetivo delas é desacreditar a Palavra de Deus, pois quando achamos que elas são verdadeiras acabamos um dia nos decepcionando por não ter dado certo e acharemos que é a Palavra de Deus que está errada.

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Você acredita na descoberta da Arca da Aliança?

Se eu acredito que a arca da aliança foi descoberta? Bem, tirando a descoberta feita por Indiana Jones, ninguém mais sabe onde ela está. Segundo a Wikipedia, os lugares onde a arca supostamente estaria incluem o Monte Nebo, a Etiópia, o sul da África, França, Estados Unidos, Roma, Inglaterra, Irlanda e Egito, além de alguns que alegam que ela esteja escondida sob a esplanada do Templo (onde existe uma Mesquita e acho que foi o lugar onde Indiana Jones a encontrou) ou enterrada sob o monte da Caveira onde Cristo foi crucificado. Existem ainda os que acreditam que ela esteja em São Paulo, mas ali não passa de uma arca falsa colocada em um templo falso.

Se alguém descobrir o que sobrou da verdadeira arca, isso não terá importância alguma, pois ela já cumpriu o seu papel quando foi construída, que era o de representar a Cristo, como testemunho de Deus na terra, e também a aliança de Deus para com o seu povo de Israel. A “Arca da Aliança” ou “Arca do Testemunho” ou “Arca de Jeová” como é chamada na Bíblia, era uma caixa de madeira de acácia medindo 1,30 centímetros de comprimento por 79 centímetros de altura e largura, revestida de puro ouro por dentro e por fora. Nas laterais havia anéis de ouro nos quais eram enfiados varais para carregá-la. Sobre ela havia uma tampa, chamada de “propiciatório”, com duas figuras de querubins.

A arca era uma figura de Cristo em sua manifestação em perfeita justiça (ouro) revestindo a madeira (humanidade, pois a madeira cresce a partir da terra). A tampa ou propiciatório representava o trono de Jeová na terra. Dentro da arca havia as duas pedras da Lei, que representavam a justiça que Deus exigia do homem, um pote de ouro contendo o maná, e a vara de Aarão que floresceu. O conjunto todo também apontava para Cristo, Deus e Homem, o único que podia cumprir toda a justiça de Deus, além de significar sua graça sacerdotal para com o pecador (a vara de Aarão que floresceu, não a de Moisés que feriu a rocha) e alimento (o pão que desceu do céu), como descreve Hebreus 9:3-5:

“Mas depois do segundo véu estava o tabernáculo que se chama o santo dos santos, que tinha o incensário de ouro, e a arca da aliança, coberta de ouro toda em redor; em que estava um vaso de ouro, que continha o maná, e a vara de Arão, que tinha florescido, e as tábuas da aliança; e sobre a arca os querubins da glória, que faziam sombra no propiciatório”.

Assim como Cristo foi um peregrino aqui, e o cristão também é, a arca peregrinou até o Templo de Salomão ser construído em Jerusalém, quando ela descansou em seu lugar na terra. Quando ela é vista no templo em 1 Reis ali é dito que “na arca nada havia, senão só as duas tábuas de pedra, que Moisés ali pusera” (1 Rs 8:9). O povo já não era peregrino e não precisava mais do maná, pois podia comer do grão da terra prometida, e o sacerdócio de Cristo em seu caráter itinerante também não era mais necessário como nos tempos da peregrinação.

“E todos os homens de Israel se congregaram ao rei Salomão, na ocasião da festa, no mês de Etanim, que é o sétimo mês. E vieram todos os anciãos de Israel; e os sacerdotes alçaram a arca. E trouxeram a arca do Senhor para cima, e o tabernáculo da congregação, juntamente com todos os objetos sagrados que havia no tabernáculo; assim os trouxeram para cima os sacerdotes e os levitas. E o rei Salomão, e toda a congregação de Israel que se congregara a ele, estava com ele diante da arca, sacrificando ovelhas e vacas, que não se podiam contar nem numerar pela sua quantidade. Assim trouxeram os sacerdotes a arca da aliança do Senhor ao seu lugar, ao oráculo da casa, ao lugar santíssimo, até debaixo das asas dos querubins. Porque os querubins estendiam ambas as asas sobre o lugar da arca; e os querubins cobriam, por cima, a arca e os seus varais. E os varais sobressaíram tanto, que as pontas dos varais se viam desde o santuário diante do oráculo, porém de fora não se viam; e ficaram ali até ao dia de hoje. Na arca nada havia, senão só as duas tábuas de pedra, que Moisés ali pusera junto a Horebe, quando o Senhor fez a aliança com os filhos de Israel, saindo eles da terra do Egito” (1 Rs 8:2-9).

A importância da arca não estava no que ela era materialmente falando, mas no que significava. A arca representava a aliança ou concerto de Deus com o seu povo de Israel (além de ela ter outros significados, como as particularidades que apontam para Cristo). Como Israel foi rejeitado “em parte” (Rm 11:25), a arca nunca mais foi vista na terra. Mas ela é vista no céu em Apocalipse 11:19 mostrando que Deus ainda se lembra do concerto que fez com seu povo, o qual voltará a ser restaurado no futuro.

“E abriu-se no céu o templo de Deus, e a arca da sua aliança foi vista no seu templo; e houve relâmpagos, e vozes, e trovões, e terremotos e grande saraiva” (Ap 11:19).

“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, E desviará de Jacó as impiedades. E esta será a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados. Assim que, quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição, amados por causa dos pais. Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Rm 11:25-29)

A última menção da arca no Antigo Testamento talvez seja a do profeta Jeremias, mas ali ele fala de um tempo ainda futuro, do milênio, quando Cristo estiver reinando e já não existir necessidade da arca porque eles terão o próprio Senhor (o qual a arca também era uma representação).

“E sucederá que, quando vos multiplicardes e frutificardes na terra, naqueles dias, diz o Senhor, nunca mais se dirá: A arca da aliança do Senhor, nem lhes virá ao coração; nem dela se lembrarão, nem a visitarão; nem se fará outra” (Jr 3:15).

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Devo me preocupar com o “chip da Dilma”?

Alguns cristãos não vivem sem uma dose diária de adrenalina, mas não é nos esportes radicais que procuram por ela, e sim nas teorias conspiratórias. Uma hora sentem calafrios de pensar que podem perder a salvação, como se existisse algo ou alguém capaz de tirar uma ovelha das mãos do Pai. Jesus deixou claro: “Dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai” (Jo 10:28). Outra hora acham que nem salvos estão por não terem crido no nome hebraico de Jesus, ou perseverado numa lista de regras de alguma denominação. Há também os que perdem o sono preocupados com uma conspiração que estaria tramando dominar o mundo. Bem, esta de fato existe e sempre existiu.

Na fila dos pretendentes ao domínio global já passaram Nabucodonosor, Alexandre, Júlio César, Gengis Khan, Hitler e até um ratinho, o “Cérebro”, do desenho animado. A quem me diz que os Illuminati, Lex Luthor ou Dart Vader planejam dominar o mundo, eu respondo: “Que faça bom proveito”! Afinal o mundo já está dominado pelo “príncipe deste mundo” (Jo 14:30) e a maioria das pessoas nem sabe disso. Satanás já domina as pessoas na sua incredulidade, e até mesmo influencia os crentes por meio de “…falsos apóstolos [que] são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça” (2 Co 11:13-15).

Se você ainda for incrédulo, andando “segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência… nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”, então você já é guiado pelo diabo sem perceber. A libertação só virá se crer em Cristo para ser salvo e perdoado de todos os seus pecados. Só então estará apto a andar segundo “as obras… que Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2:1-10). Só assim “Deus lhe dará arrependimento para conhecer a verdade, e tornar a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele está preso” (2 Tm 2:25).

O problema é que muitos dos que já receberam a salvação pela fé em Cristo acabam não desfrutando da nova vida por viverem perturbados, “quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o Dia do Senhor” (2 Ts 2:2). Neste capítulo de 2 Tessalonicenses Paulo fala de dois eventos distintos: a “vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e nossa reunião com ele” (vers. 1) e “o dia do Senhor” (vers​. 2 - ARA e Darby). A “vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e nossa reunião com ele” é a esperança apropriada a todo cristão — o arrebatamento da Igreja — quando Cristo descerá até os ares onde nos encontraremos com ele, “transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (1 Co 15:52). O “dia do Senhor” é um evento diferente e posterior, quando Cristo descerá até a terra para julgar as nações e estabelecer seu reino. No primeiro ele desce só até os ares; no segundo ele coloca seus pés sobre o Monte das Oliveiras, o mesmo lugar de onde partiu deste mundo (Zc 14:4; Atos 1:9-12).

Paulo conforta os tessalonicenses dizendo: “Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição” (2 Ts 2:3). Antes de qual acontecimento ele diz que se manifestará o anticristo, “o homem do pecado, o filho da perdição”? Antes do último evento que ele citou, ou seja, antes do “dia do Senhor”. Uma paráfrase do que ele diz seria algo assim: “Considerando o arrebatamento, que será quando nos reuniremos com nosso Senhor Jesus Cristo, peço que vocês não sejam enganados por insinuações, palavras e textos, como se o dia do Senhor já tivesse chegado”. Portanto, qualquer que sejam os boatos (e a Internet ajuda em muito a espalhá-los) o cristão não deve viver em sobressaltos achando que o anticristo virá para puxar seu pé quando estiver dormindo à noite. A esperança do cristão (aquilo que ele espera) não é o anticristo, mas ele deve “esperar dos céus a seu Filho, a quem [Deus] ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura” (1 Ts 1:10).

Então, quando eu pensava já ter visto de tudo, de teorias de Illuminati, “caixões do FEMA” até um “chip do Obama”, eis que surge o “chip da Dilma”! Quando saiu a notícia do tal “chip do Obama” muitos cristãos ficaram aterrorizados. Mas a coisa foi perdendo força, talvez por descobrirem que o Obama nunca foi presidente do Brasil. Então o jeito foi trazer à tona “o chip da Dilma” para injetar uma nova dose de adrenalina nos pobres cristãos escravos de falsos profetas e alarmistas. Teria fundamento o tal “chip da Dilma”? Bem, antes é preciso entender que a presidente Dilma deu uma declaração na TV expressando o desejo do governo de unificar as informações de cada cidadão brasileiro com uma identidade única. Nada de mais aí, considerando tantos documentos com os quais temos de lidar. A evolução disso para um chip é um caminho natural e não é nenhuma novidade. Afinal temos microchips que nos identificam até no polegar. Sim, pois quando você coloca seu polegar num leitor de digital para votar, abrir uma porta ou acessar o caixa eletrônico, o sistema associa seu polegar às suas informações gravadas em um chip em algum lugar. Você não vai cortar seu polegar por isso, vai?

Meu carro possui um microchip que o mecânico pode acessar para saber o que está errado com seu funcionamento. No para-brisas há outro microchip com minhas informações que acionam a cancela de pedágios e estacionamentos debitando o gasto em minha conta. Na capa de meu passaporte há um chip que, quando identificado pelo oficial da imigração mostra até minha foto na tela do computador. Se você está preocupado em ter de usar um microchip para comprar coisas no futuro, então é melhor livrar-se de seu cartão de crédito, porque é exatamente isso que ele faz. Celulares também trazem um microchip com sua identificação que permitem a você comprar ao aproximá-lo de um terminal. A preocupação de ter um microchip implantado sob a pele nem faz muito sentido em quem já vive grudado ao celular. Alguns carregam microchips implantados literalmente sob a pele, como cães, gatos, milionários que temem sequestros e pessoas com marca-passo, dispensador de medicamentos ou sistemas de temperatura e pressão que precisam estar conectados a um hospital para transferência de dados.

Não faz muito tempo, antes que existissem microchips do tamanho de um grão de arroz, havia cristãos que tremiam só de olhar para um código de barras, achando que aquela era a marca da besta. Conheci um que não comprava produtos com código na embalagem, mas se ele tivesse continuado assim teria morrido de fome, pois hoje absolutamente tudo traz um código de barras impresso, até a carta que você recebe pelo correio. O pavor de muitos vem da tentativa de se interpretar duas passagens de Apocalipse que falam de uma marca que será colocada nas pessoas que se submeterem ao anticristo:

“…e faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na sua mão direita, ou nas suas testas, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome… E seguiu-os o terceiro anjo, dizendo com grande voz: Se alguém adorar a besta, e a sua imagem, e receber o sinal na sua testa, ou na sua mão, também este beberá do vinho da ira de Deus, que se deitou, não misturado, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro” (Ap 13:16-17; 14:9-10).

A passagem não fala de um microchip, mas de uma marca ou sinal que nem sabemos o que é, e nem precisamos saber porque quem precisará se ocupar com isso serão os deixados para trás após o arrebatamento. É no período de 7 anos antes da vinda de Cristo para reinar que o anticristo se manifestará e essas coisas terão relevância. Mas os que se converterem então (apenas os que nunca escutaram o evangelho antes do arrebatamento) saberão muito bem de que se trata esse “sinal” ou “marca”. Quanto a nós, “Deus não é Deus de confusão, senão de paz” (1 Co 14:16) e não nos deixaria no escuro se fosse um enigma para nós resolvermos. Confiar na integridade de Deus é saber que, quando ele decidiu destruir Sodoma e Gomorra explicou antes sua intenção de forma clara e inequívoca a Abraão e a Ló. “E disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que faço”? (Gn 18:17). Deus revelou a ele e Abraão entendeu de pronto, mas Ló vacilou, porém mesmo assim os anjos o tiraram à força para não ser consumido pelo juízo. O primeiro versículo de Apocalipse1:1 mostra que é assim que Deus faz, pois ele quer “mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer” (Ap 1:1).

Você sabe o que significa a “marca” ou “sinal”? Nem eu, então o melhor é vivermos tranquilos, pois se Deus quisesse nos revelar ele nos revelaria como certamente fará com o remanescente de judeus que se converterá após o arrebatamento da Igreja. Deixe de se preocupar com aquilo que não é para você, aprendendo a lição que o Senhor deu a Pedro quando este quis saber o que aconteceria com João: “Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu” (Jo 21:22).

Voltando à passagem que fala da “marca” ou “sinal” em Apocalipse, é preciso lembrar que temos diante de nós um livro de símbolos e qualquer estudioso das Escrituras entenderá que a fronte e a mão, lugares onde esse “sinal” será colocado, nos falam, respectivamente, dos lugares de nosso corpo onde são tomadas as decisões (o cérebro) e do membro que usamos para colocar em prática tais decisões (a mão). São os mesmos lugares em que Deus ordenava que os israelitas trouxessem sua Palavra: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração… Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos” (Dt 66-8). Alguns judeus religiosos trazem até hoje uma fita ou uma caixinha com textos da Lei amarrada na testa e outra na mão. O que eles não entendem é que Deus exigia obediência, e não um enfeite. Junte isso com a passagem de Apocalipse e você entenderá que é de obediência ao anticristo que ela fala, pois logo em seguida à passagem você encontra o contraste e o que caracteriza os que não trazem o sinal da besta: “Os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Ap 14:12).

Paulo mostra que esta é também a característica daqueles que hoje fazem parte do corpo de Cristo, pois uma pessoa fica serva daquele a quem ela presta obediência, seja a Cristo, seja ao inimigo de nossas almas: “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça? Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Rm 6:16). Os que obedecerem ao anticristo se colocarão voluntariamente sob seu comando, tanto para pensar (“fronte” ou “testa”) como para agir (“mão”). Um verdadeiro servo de Deus não perderá seu tempo hoje, na dispensação da graça de Deus, ocupado com algum tipo de código ou chip, mas conservará seus pensamentos e ações sob o comando da Palavra de Deus e de ninguém mais. Lembre-se de que o “sinal” que Deus exigia no Antigo Testamento que os israelitas trouxessem sobre a testa e na mão significava obediência. Não havia qualquer poder na coisa em si, mas na obediência. Você é controlado por aquele a quem você obedece, pare de obedecer a cada “vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef 4:14), às “fábulas profanas e de velhas caducas” (1 Tm 4:7), sendo um dos que “apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência”, ou acabará servo desses falsos profetas que visam tirar a tranquilidade dos filhos de Deus.

Não tenha receio do “chip da Dilma”, mas pode ficar preocupado se lançarem no mercado algum tipo de “Dilma Chips” (tipo “Elma Chips”). Aí sua preocupação será com a saúde, pois se comer demais acabará engordando.

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Cristãos podem fazer inseminação artificial?

Você perguntou se seria correto um casal cristão fazer inseminação artificial por causa de sua dificuldade em engravidar sua esposa. A ciência caminha a passos largos e nem sempre temos tempo suficiente para descobrir se as possibilidades que surgem estão de acordo com o que a Bíblia ensina. A falta de oração, conhecimento da Palavra e de paciência para esperar no Senhor pode nos levar a tomarmos decisões erradas. É o caso de pais que tentam durante longo tempo ter filhos e, depois que decidem adotar uma ou mais crianças, vem a gravidez há muito esperada. O normal é que eles acabem sendo abençoados tanto pelos filhos que adotaram como pelos biológicos, pois Deus tem prazer em cumprir sua vontade em nós.

Enquanto algumas dessas possibilidades tecnológicas modernas envolvem apenas novas tecnologias que podem ajudar em nossa vida e trabalho, outras dizem respeito à manipulação da própria vida, a qual pertence a Deus. Ele diz: “Eis que todas as almas são minhas” (Ez 18:4) e “O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela” (1 Sm 2:6). Portanto, ao tratarmos de assuntos envolvendo a vida humana é bom pisarmos sobre ovos, para não pisarmos sobre óvulos, isto é, tratarmos a concepção de um ser humano como algo que podemos tratar do modo que nossa cabeça nos guiar.

Este é um princípio que precisamos ter em mente quando se trata de novas tecnologias envolvendo a vida humana, e a inseminação artificial se encaixa neste contexto, como também se encaixam outros temas polêmicos, como concepção “in vitro”, experiências com célula tronco, anticoncepcionais e aborto. Outro princípio importante que devemos aplicar a este e outros dilemas é aquele ensinado pelo Senhor Jesus quando foi questionado acerca do divórcio, que Deus havia suportado na vida dos patriarcas de Israel e também na Lei dada a Moisés. Jesus respondeu:

“Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim… Desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea. Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á a sua mulher, e serão os dois uma só carne; e assim já não serão dois, mas uma só carne” (Mt 19:8; Marcos 10:6-8).

Só esta passagem já esclarece muitas outras coisas, além do divórcio que é o tema dela. O Senhor indica que se quisermos saber a vontade de Deus acerca de uma unidade familiar devemos voltar ao princípio, ao projeto original que aponta que Deus criou o macho e a fêmea para formarem um casal e procriarem. Portanto, o casal no projeto original de Deus deve ser formado por um homem e uma mulher, não um homem e muitas mulheres, ou uma mulher e muitos homens, ou dois homens ou duas mulheres.

Lembrando que Deus nos criou com a função de o adorarmos, “porque o Pai procura a tais que assim o adorem” (Jo 4:23), no que diz respeito à vida física na terra o casal homem-mulher foi criado também com uma função muito clara de se multiplicar e administrar toda a Criação: “E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra” (Gn 1:27).

Essa união homem-mulher, sua multiplicação e domínio sobre a Criação faziam parte de um plano maior que está relacionado a Cristo. Medite, por exemplo, nestas passagens e você entenderá:

“Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível… Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” (Ef 5:25-32).

“Mas em certo lugar testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, de glória e de honra o coroaste, e o constituíste sobre as obras de tuas mãos; todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos. Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” (Hb 2:6-10).

Juntando tudo o que vimos até aqui, Deus é o autor e dono da vida, escolheu o homem e a mulher para multiplicá-la, deu ao homem poder e autoridade para administrar sua criação, e tudo isso converge em Cristo, “porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas” (Rm 11:36), “porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele… para em todas as coisas ter a primazia” (Cl 1:16-17).

Portanto, a Bíblia não é um manual para o ser humano ser próspero e feliz, mas é a revelação de Deus acerca de seu Filho. Tudo o que está nela é aquilo que tem a ver com Cristo, e o que não tiver qualquer relação com o Filho de Deus não será encontrado na revelação de Deus. Talvez isto decepcione alguns que achavam que o assunto principal da Bíblia fosse o ser humano, como se comportar, etc. Não é. O seu tema principal é Cristo.

Portanto, quando temos questões como a da inseminação artificial, nossa primeira preocupação não deve ser o nosso próprio umbigo, ou o que eu ganho ou perco com isso, mas como isso pode afetar a verdade de Deus acerca do seu Filho. “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor… E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Rm 14:8; Colossenses 3:17).

Já vimos que Deus escolheu um casal formado por homem e mulher para multiplicar a vida na terra, portanto não faz qualquer sentido um casal cristão optar por não ter filhos se ambos forem férteis. A menos que existam questões que impossibilitem a procriação ou até mesmo a adoção de crianças abandonadas, todo argumento contrário ao “crescei e multiplicai-vos” é fútil e egoísta. “Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão. Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade. Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava” (Sl 127:3-5).

Talvez alguns argumentem que não querem ter filhos porque dá muito trabalho, ou por não terem condições financeiras para criá-los, ou para poupá-los da violência deste mundo. Argumentos assim não colam, pois, o mesmo Salmos 127 começa falando exatamente de questões como trabalho e recursos para constituir uma casa ou família, preocupação com a segurança e o alívio e descanso que encontramos quando confiamos no Senhor. “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono” (Sl 127:1-3).

Mas você escreveu porque quer ter filhos, porém problemas de esterilidade impedem isso. Se a questão fosse apenas de inseminação artificial, como retirar seu sêmen e introduzi-lo em sua esposa, não acredito que houvesse algum impedimento bíblico para isso, pois a fecundação e concepção numa relação homem-mulher continua existindo, apenas usando de uma “posição”, vamos chamar assim, diferente da tradicional “papai-mamãe”.

O que dizer então da inseminação artificial usando espermatozoides de um doador? Bem, aí a coisa muda completamente de figura, pois precisamos dar mais um passo atrás na questão para tratarmos de outra: seria correto um cristão doar seu esperma (ou a mulher doar seus óvulos) para inseminação artificial? Considerando que o espermatozoide é a porção do homem que irá formar a criança ao fecundar um óvulo de uma mulher, a rigor essa criança será filha biológica desse homem e da mulher cujo óvulo foi fecundado. Isso é diferente do descarte do sêmen na masturbação ou polução noturna, quando o espermatozoide é descartado antes de se transformar em um ser vivo. A doação de esperma ou óvulos é uma decisão consciente e deliberada de conceber um filho, porém em um ventre desconhecido, para ser criado por desconhecidos, em condições que o pai (ou a mãe, no caso de doadora do óvulo) será incapaz de imaginar e interferir.

Será que eu, como cristão, iria desejar algo assim para um filho meu? Seria correto que ele fosse criado por pessoas que poderiam maltratá-lo física ou psicologicamente, ou talvez o criassem em alguma religião contrária a Deus e à sua Palavra? Talvez você alegue que a mãe de Moisés entregou seu filho para ser criado pela filha de Faraó, mas ali a alternativa era deixar que fosse morto. O que ela fez resultou em bênção para o povo de Deus. Por outro lado, Sara não teve paciência em aguardar um filho que viesse de Deus e insistiu com seu marido Abraão para que tomasse a egípcia Agar como uma espécie de “mãe de aluguel”, o que logo após o parto se tornou em grande problema para o casal. Nem preciso dizer que até hoje o povo judeu sofre as consequências de uma decisão precipitada. Ismael, filho que Agar teve com Abraão, é o pai dos árabes.

Uma vez um colega numa empresa onde trabalhávamos veio me perguntar sobre o que fazer. Ele havia engravidado sua namorada e ambos cogitavam recorrer ao aborto. Sugeri que deixassem a criança nascer e depois a matassem, caso não gostassem dela. Obviamente ele entendeu meu sarcasmo e ainda me convidou para seu casamento numa cerimônia reservada, na qual eu e minha família éramos talvez os únicos estranhos ao seu círculo familiar. O filho nasceu e eles nunca se arrependeram disso. A princípio sua dificuldade estava em não considerar um embrião como um ser humano, com identidade e direito à vida. Mas a Bíblia deixa muito claro que é na concepção que o ser humano passa a existir, pois ali ele já possui sua identidade.

Ou você acha que o Filho de Deus só se tornou Homem ao sair do ventre de Maria? Você diria que aquele que foi concebido pelo Espírito Santo no ventre da virgem ainda não era o Salvador? O Salmos 139 fala do ser humano desde o momento zero de sua existência, desde a sua “substância ainda informe”: “Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139:13).

Voltando à questão da doação do espermatozoide para gerar um filho em ventre alheio, do lado da mãe a concepção terá ocorrido por um intercurso com um estranho, ainda que remoto e sem contato físico de corpos. A mulher cristã pode ter em mente o versículo de 1 Coríntios 6:19-20 que diz: “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus”. Embora o contexto fale de prostituição, e a inseminação artificial não é o caso, ainda assim o corpo que temos não deve ser utilizado com outro motivo que não seja para a glória de Deus. Toda vida é dada por Deus para sua glória, mas ainda assim a maneira como ela é gerada é de responsabilidade do homem, pois nascemos “do sangue… da vontade da carne… da vontade do homem” (Jo 1:13).

A doação de esperma ou óvulos pode ainda levar a uma outra questão, esta também controversa se analisada à luz da Palavra de Deus. Refiro-me ao procedimento “in vitro” ou de proveta, quando um espermatozoide é colocado para fecundar um óvulo fora do corpo da mãe e o embrião resultante do processo é colocado no útero da mulher que irá desenvolvê-lo, seja ela a futura mamãe ou uma “barriga de aluguel”.

Quando se trata de um procedimento envolvendo apenas o casal, sem o uso de espermatozoides ou óvulos de estranhos, pode até parecer que não é diferente de uma inseminação artificial. Porém, há uma grande diferença, pois na inseminação artificial a concepção se dá dentro do útero da mulher, enquanto no processo “in vitro” a concepção acontece em um recipiente exterior, e para garantir seu sucesso os médicos costumam produzir mais de um embrião. Enquanto um é utilizado para a gravidez, os outros são congelados para uso posterior (se a mulher quiser ter outros filhos), ou finalmente descartados ou utilizados em experiências com células tronco. Cabe um lembrete aqui: aqueles embriões já são seres humanos, e apenas se encontram em um processo de criogenia ou suspensão das atividades vitais por congelamento.

A criogenia — neste caso a criopreservação — já funciona a nível de embriões, e também é utilizada hoje em crianças e adultos de forma parcial para reduzir suas funções vitais, e poderá vir a ser usada no futuro para suspender quase totalmente essas funções de modo a “religá-las” mais tarde. Não estou falando dos que congelam corpos mortos na tentativa de trazê-los de volta à vida, mas de uma suspensão controlada dos sinais vitais numa hibernação como nas viagens espaciais dos filmes de ficção. Isto já existe na natureza, em insetos e répteis que passam meses presos no gelo e depois acordam quando chega a primavera. Portanto, ainda que um embrião seja congelado ao ponto de ser preservado assim durante um longo tempo, a vida já existe nele e esta se manifestará quando colocado nas condições ideais de um útero.

Em minha opinião o descarte desses embriões excedentes, ou seu uso para experiências de célula tronco, não é muito diferente de praticar um aborto, pois também implica na eliminação de uma vida que já se iniciou. Se você concorda que o aborto é contrário à vontade de Deus irá concordar também que Deus não aprovaria um procedimento assim.

Portanto, sugiro que você e sua esposa orem a respeito da decisão a tomar, a fim de “que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual; para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” (Cl 1:9). Afinal, depois de termos sido salvos já não pertencemos mais a nós mesmos, mas a Deus, que deve ser soberano em como devemos utilizar nosso corpo e também no modo como devemos constituir família.

Talvez você alegue que “adotar” o espermatozoide ou óvulo de estranhos seja a mesma coisa que adotar uma criança, mas não posso concordar. A adoção de crianças órfãs ou rejeitadas é um ato de misericórdia e compaixão que encontra total respaldo até no modo como Deus nos tratou quando recebemos “o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo” (Rm 8:15-17). Deus “nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (Ef 1:5-6). Uma vez adotados, a exortação para nós é: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados” (Ef 5:1).

Como filhos, devemos agir do modo como o Filho de Deus agiu quando andou aqui, ou seja, em total submissão à vontade de Deus, mesmo sabendo que sua própria vontade era perfeita e jamais entraria em conflito com a vontade de seu Pai. Muitos de nós no passado agimos de maneira contrária a essa vontade, quando andávamos “sem Deus no mundo” (Ef 2:12), porém agora devemos agir, como escreve o apóstolo Pedro, “como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância” (1 Pe 1:14).

Você escreveu por estar em um dilema, e quando nos encontramos em um dilema precisamos orar e reunir o máximo de aconselhamento, fatos e conhecimento da Palavra antes de tomarmos uma decisão. Dei a você alguns fatos e pareceres bíblicos, agora cabe a você e a sua esposa orarem quanto à decisão a tomar para que isso resulte em glória para Deus. Você e sua esposa foram colocados nessa situação por alguma razão, provavelmente porque Deus quis provar a fé de vocês tendo em mente objetivos de bênção. O modo como reagirão a essa prova poderá trazer tanto alegria quanto tristeza, mas em qualquer caso sempre sabemos que a obediência a Deus, produza ela alegria ou tristeza temporária, será sempre o melhor caminho.

“Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma. E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada. Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte. Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa” (Tg 1:3-7).

Em última instância, lembre-se de que ter filhos não é um ‘direito’ dos homens, mas algo que recebemos como “herança do Senhor” (Sl 127:3). No original hebraico o sentido da palavra é de uma propriedade de Deus que nos é entregue como uma dádiva, não como um direito de fazermos o que bem entendermos dela. Por isso somos exortados a criar nossos filhos para Deus, não para nós mesmos, porque um dia daremos conta de como os trouxemos ao mundo, do que fizemos com eles e de como os preparamos para que um dia recebessem a vida eterna e se tornassem igualmente filhos de Deus pela fé em Cristo. Conheço casais que não podiam ter filhos e adotaram filhos que não podiam ter pais. Apesar de ter dois filhos biológicos acabei adotando um que precisava de pais, e realmente foi algo que veio de Deus, principalmente considerando a maneira como ele chegou até nossa família. Se quiser saber algo a respeito visite www.querocontar.net

Talvez minha resposta chegue aos ouvidos de irmãos em Cristo que um dia agiram ainda na incredulidade, antes de terem sido salvos, ou mesmo depois, porém de forma precipitada ou por ignorarem tudo o que está relacionado a uma decisão assim. O Senhor disse que “o servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; mas o que a não soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoites será castigado. E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá” (Lc 12:47-48). Neste caso devemos sempre nos lembrar de que não temos um Deus cruel, que se agrade de nossa miséria e sofrimento, mas um que pode nos disciplinar como o pai disciplina a seu filho, porém tendo em vista seu crescimento e maior comunhão. De fato, “toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela. Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas, e os joelhos desconjuntados, e fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que manqueja não se desvie inteiramente, antes seja sarado” (Hb 12:11-13).

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Deus precisa descansar?

Deixe-me ver se entendi: você contou a um amigo que decidiu abandonar os sistemas religiosos para congregar somente ao nome do Senhor, mas aí o cara quis mostrar que você não sabe de nada porque não fez teologia como ele fez. Então, para demonstrar que ele é superior a você em conhecimento bíblico (por causa do curso de teologia que fez), apresentou uma questão para a qual ele diz não existir resposta na Bíblia.

A questão de seu amigo teólogo de salto alto era esta: “Se a Bíblia é infalível e Deus realmente existe da forma como o conhecemos sendo o Todo Poderoso e Criador dos Céus e da Terra, porque ela diz que Deus criou tudo em 6 dias e ‘descansou’ no 7º dia? Se Deus é Deus como ele precisou de descanso? E por que Ele demorou 6 dias, não poderia ter feito tudo ‘num piscar de olhos’?“.

Eu não perderia meu tempo com um sujeito assim, porque é claramente um inimigo da cruz de Cristo, um ímpio. E quem diz isso não sou eu, mas ele próprio ao colocar dúvidas sobre a natureza de Deus e sua Palavra. O primeiro a fazer isso foi o diabo no jardim do Éden e de lá para cá esse trabalho tem sido feito por religiosos de carteirinha.

Devemos nos lembrar de que Deus tem uma vontade, a qual é sempre perfeita e jamais devemos contestar. Podemos não compreender sua vontade, mas de maneira nenhuma colocá-la em dúvida. Sempre que penso na possibilidade de duvidar de Deus o versículo que me vem à mente é: “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas?” (Rm 9:20). Uma boa ideia também é ler os três últimos capítulos de Jó quando Deus o interpela para mostrar a loucura que é questionar os desígnios de Deus: “Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento?” (Jó 38:2).

Mas vou tentar responder a você, e não a ele. As respostas para ambas as perguntas são “Porque Deus quis” e “Porque Deus quis”. Muitas das questões que as pessoas enviam costumam ser mais uma dúvida de vocabulário do que de doutrina bíblica. O verbo “descansar” não é usado apenas no sentido de alguém parar de fazer algo por ter ficado cansado, mas pode também significar o término de uma tarefa, como no caso da Criação, uma mudança de posição (como a ordem “Descansar”! dada ao soldado) ou simplesmente o fim de um período de expectativa (“Não vou descansar enquanto meu time não ganhar”).

Costumamos também usar “descanso” como sinônimo de tranquilidade (“Crianças, parem com a agitação e me deem um pouco de descanso!”) ou até mesmo no sentido de apoio para algum objeto, como “descanso para copos” ou “descanso para ferro de passar”. Pergunte ao seu amigo se ele comprou um jogo de descanso para copos porque os copos de sua casa estavam muito cansados…

Portanto, o sentido do “shabat” ou descanso de Gênesis 2:2 é o mesmo da própria palavra hebraica que significa “parar”, “cessar”, “terminar”, etc. O descanso ali significa o término da atividade. Ao invés de explicar tudo isso para seu amigo, deixe para ele o trabalho de pesquisar na Wikipedia, que explica bem o significado da palavra:

“A palavra hebraica תבש (shabāt), tem relação com o verbo תבש (shavāt), que significa ‘cessar’, ‘parar’. Apesar de ser vista quase universalmente como ‘descanso’ ou um ‘período de descanso’, uma tradução mais literal seria ‘cessação’, com a implicação de ‘parar o trabalho’. Portanto, Shabat é o dia de cessação do trabalho; enquanto que descanso é implícito, mas não é uma denotação da palavra em si. Por exemplo, a palavra em hebraico para ‘greve’ é shevita, que vem da mesma raiz hebraica que Shabat, e tem a mesma implicação, nominalmente que trabalhadores em greve se abstêm ativamente do trabalho, ao invés de passivamente”.

Mas agora pergunto: será possível que Deus possa se cansar? Certamente, e ele próprio diz isso em sua Palavra. Mas aí não se trata de uma fadiga por lhe faltar energia para o trabalho, mas no sentido de não mais suportar algo por causa da impiedade que representa. E sabe de que Deus mostra estar cansado? Justamente da religião do homem, com seus rituais e sacrifícios vazios. Veja o que ele diz:

“De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue” (Is 1:11-15).

Porém, embora Deus não estivesse cansado do trabalho que teve em preparar a Terra para habitação do homem, hoje sabemos que ele sabe muito bem o que significa o cansaço, pois o Filho de Deus se fez Homem e experimentou aqui aquilo que todos os seres humanos experimentam, como sono, fome, sede e cansaço. Vemos Jesus cansado à beira do poço: “E estava ali a fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte” (Jo 4:6). Será que seu amigo teólogo iria também colocar em dúvida a onipotência de Jesus pelo fato de ele apresentar-se cansado e com sede? E também existe o cansaço no sentido de alguém de quem se esvaem todas as esperanças de auxílio, como no Salmos 69:3 onde o Senhor Jesus quem profeticamente apresenta seu sofrimento: “Estou cansado de clamar; a minha garganta se secou; os meus olhos desfalecem esperando o meu Deus”.

Se Deus “descansou” ou “cessou” sua obra de Criação em Gênesis, isso não significa que tenha “descansado” ou “cessado” outros trabalhos. O Senhor Jesus deixa claro que Deus tem trabalhado desde a queda do homem: “E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jo 5:17-18).

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Na Bíblia mulheres julgavam, profetizavam e ensinavam?

Muitas das perguntas que recebo têm a ver com a dificuldade em “repartir”, “dividir” ou “manejar bem a palavra da verdade” (2 Tm 2:15). A questão sobre a mulher não poder ensinar é uma delas, e vem sempre acompanhada de argumentos como: Débora e outras mulheres julgaram Israel; mulheres profetizavam tanto no Antigo quanto no Novo Testamento; anunciaram a ressurreição de Jesus, etc.

Se as pessoas lessem os livros de receita do modo como leem a Bíblia o resultado seria um desastre. Imagine fazer um bolo colocando para assar os ovos ou o leite antes de misturá-los à farinha. Tudo tem sua quantidade, ordem e lugar no preparo para o bolo ficar bom. O mesmo com a Bíblia.

Se entendermos que julgar, profetizar e ensinar são coisas diferentes, já teremos entendido três dos ingredientes da receita de Deus. Considerando que as mulheres não estão proibidas de profetizar e orar, isto é, falar da parte de Deus e falar com Deus como ensina 1 Co 11:5, mas sim de fazê-lo nas igrejas, isto é, nas reuniões dos santos conforme 1 Co 14:34, perceberemos que, como acontece na cozinha, existem etapas da receita que são feitas fora do forno e outras dentro, em diferentes momentos e lugares.

Juntando tudo, o ato de julgar, como as mulheres fizeram numa época do Antigo Testamento, não era a mesma coisa que ensinar. Além disso foi algo que Deus permitiu em um tempo de extremo abandono da verdade e covardia dos homens, como foi o caso de Baraque, o qual só concordou em sair para batalhar segurando na barra da saia de Debora, a quem ele disse: “Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei” (Jz 4:8). Portanto, naquele triste período Deus levantou mulheres, não para ensinar, mas para julgar o povo, e no cômputo final, depois de outra mulher, Jael, ter vencido Sísera, o líder inimigo, foi a Baraque que Deus deu o crédito da vitória e incluiu entre gigantes da fé como Gideão, Sansão, Jefté, Davi e Samuel em Hebreus 11:32.

Temos então o caso de Maria Madalena e as outras mulheres que receberam do anjo e também de Jesus a ordem de anunciarem sua ressurreição. Mais uma vez vemos uma atividade que não era de ensino, mas de levar uma notícia agindo como mensageiras:

“Ide, pois, imediatamente, e dizei aos seus discípulos que já ressuscitou dentre os mortos. E eis que ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis. Eis que eu vo-lo tenho dito. E, saindo elas pressurosamente do sepulcro, com temor e grande alegria, correram a anunciá-lo aos seus discípulos. E, indo elas a dar as novas aos seus discípulos, eis que Jesus lhes sai ao encontro, dizendo: Eu vos saúdo. E elas, chegando, abraçaram os seus pés, e o adoraram. Então Jesus disse-lhes: Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão à Galileia, e lá me verão” (Mt 28:7-10).

No período da Igreja encontramos Filipe, que “tinha este, quatro filhas virgens, que profetizavam” (Atos 21:9), isto é, falavam da parte de Deus na mesma condição de mensageiras, que é o que faz alguém que profetiza. Quando levo um recado a alguém não estou ensinando, mas simplesmente servindo de porta-voz da mensagem. Porém, mesmo no caso das filhas de Filipe, que profetizavam, não foi a elas, e sim a Agabo, um homem, que o Espírito de Deus deu a missão de alertar o apóstolo Paulo com uma profecia. Provavelmente Deus preferiu assim porque foi feito na presença dos varões daquela assembleia.

Ensinar tem um caráter totalmente diferente de profetizar, e encontramos mulheres no período da Igreja ensinando, não no papel e posição reservados aos homens, porém como coadjuvantes do marido, como é o caso de Priscila em Atos 18:26, que dava suporte ao seu marido Áquila e sob sua autoridade na instrução de Apolo. Vemos também mulheres ensinando por determinação apostólica em Tt 2:4-5, quando Tito é instruído a dizer às “mulheres idosas… para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos, A serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada, mulheres mais velhas deveriam ensinar as mais jovens em como viver a vida cristã no lar”.

Também vemos a mãe e avó de Timóteo, Eunice e Lóide, em 2 Timóteo 1:5 e 3:14, sendo citadas com louvor por terem ensinado a uma criança as Sagradas Letras, como acredito ser a tradução correta caso elas tenham ensinado Timóteo a ler usando a Palavra de Deus como cartilha. Paulo escreve a Timóteo:

“Estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também em ti… Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Tm 3:14).

Mas quando o assunto é o ensino da doutrina, a Palavra de Deus é categórica em proibir que a mulher exerça tal tarefa fora das esferas permitidas, como vimos nos exemplos de mulheres ensinando outras mulheres ou mulheres ensinando crianças. Repare que o Senhor não escolheu mulheres para escreverem o Novo Testamento, mas apenas homens, e não me venha com o argumento de que isso foi assim por causa dos costumes da época. Se costumes da época e lugar tivessem influência no que aprendemos da Palavra de Deus o Senhor Jesus jamais teria escolhido mulheres para servirem de testemunhas e avisarem os discípulos da ressurreição.

No trecho a seguir Paulo afirma sua posição de pregador, apóstolo e mestre dos gentios, fazendo distinção entre uma tarefa que os homens poderiam fazer em qualquer lugar, isto é, orar, apontando assim que até a oração pública, na presença de varões, está fora da alçada de uma mulher:

“Para isto fui designado pregador e apóstolo (afirmo a verdade, não minto), mestre dos gentios na fé e na verdade. Quero, portanto, que os varões orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira e sem animosidade” (1 Tm 2:7-8)

Tendo dito isto acerca dos homens, o apóstolo passa a falar do gênero feminino, primeiro quanto ao vestir e depois quanto ao ensinar:

“Da mesma sorte, que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, porém com boas obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas). A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. Todavia, será preservada através de sua missão de mãe, se ela permanece em fé, e amor, e santificação, com bom senso” (1 Tm 2:9-15). Embora outras traduções digam “não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido”, os melhores manuscritos trazem “nem exerça autoridade de homem”, isto é, assumindo uma posição que Deus autorizou exclusivamente para o gênero masculino.

É neste ponto que podem surgir argumentos, como já escutei, de que Paulo era machista e que isso era apenas a opinião dele, porém logo após dizer que as mulheres deviam permanecer caladas nas igrejas ele também diz: “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor” (1 Co 14:37).

E o que dizer das multidões convertidas pelo “ministério” de mulheres nas igrejas? Bem, a Palavra de Deus é poderosa para não voltar vazia, mas prosperar naquilo que Deus determinar, independente da boca de onde ela tenha saído. Embora Deus possa até tirar água da pedra, não existe galardão ou recompensa para aquele que age em desobediência à sua Palavra. Foi o que aconteceu com Moisés, a quem Deus ordenara que falasse à rocha, e não que batesse nela com a vara. Toda desobediência é, na verdade, incredulidade, como também foi o caso de Moisés.

“O Senhor falou a Moisés dizendo: Toma a vara, e ajunta a congregação, tu e Arão, teu irmão, e falai à rocha, perante os seus olhos, e dará a sua água; assim lhes tirarás água da rocha, e darás a beber à congregação e aos seus animais… Então Moisés levantou a sua mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e saiu muita água; e bebeu a congregação e os seus animais. E o Senhor disse a Moisés e a Arão: Porquanto não crestes em mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes tenho dado” (Nm 20:7-12).

“Cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho… Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele… E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” (1 Co 3:8-15).

Quando o rei Saul desobedeceu uma ordem clara dada por Deus pelo profeta Samuel, apesar de seus argumentos e da tentativa de defender-se, a reprimenda veio igualmente clara:

“Porém Samuel disse: Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do Senhor, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1 Sm 15:22-23).

Depois de este texto ter sido publicado alguém contestou sua validade apresentando “a razão” de as mulheres de então terem sido proibidas de ensinar. Devo aceitar a razão apresentada por essa pessoa ou ficar com a razão de Deus? Este é um ponto importante. Quando Deus diz algo podemos também descobrir a razão de ter dito aquilo. Assim, para a ordem “Não permito que a mulher ensine” (1 Tm 2:12) a razão apresentada pelo homem será “Porque as mulheres daquela época não tinham acesso à educação e por isso não eram aptas para ensinar”. Porém, a razão dada por Deus é “Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Tm 2:13). Se o que aconteceu no Jardim do Éden perdeu a validade, então podemos crer na explicação do homem. Caso contrário é melhor ficar com as razões de Deus.

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Quem pisa o Filho de Deus?

Sua pergunta foi mais no sentido de entender o que seria “fazer agravo” ou “ultrajar” o Espírito da graça, mas achei melhor responder incluindo toda a passagem onde aparece a expressão em Hebreus 10:29, pois o agravo é a terceira das três ofensas de um apóstata: “De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?“.

O autor de Hebreus está falando aqui do apóstata, que é digno de “maior castigo” por causa da gravidade de seu pecado. O argumento é que, se a Lei de Moisés exigia a pena de morte para quem a transgredisse, Deus certamente irá tratar com maior rigor aquele que pecar contra o Filho de Deus, seu sangue e o Espírito da graça, já que são coisas infinitamente superiores à Lei. Esse pecado se dá em três aspectos.

Primeiro, ao “pisar o Filho de Deus” o apóstata (que abandonou a verdade) está insultando a Deus manifestado em carne. O apóstata não é um convertido e nem está salvo. É simplesmente alguém que um dia professou seguir Jesus, mas depois voltou para a lama como a porca lavada, pois nunca foi ovelha. Seja por palavras, seja por atos, ele acaba negando a Cristo como seu Salvador e o rejeita também como Senhor (ou aquele a quem deveria prestar obediência).

Segundo, ao considerar “profano o sangue da aliança com que foi santificado” o apóstata está desprezando a grande obra consumada pelo Filho de Deus na cruz do calvário. Considerar algo profano é dar pouco ou nenhum valor àquilo. Isto decorre como consequência de ter desprezado o Filho de Deus, pois foi para derramar seu sangue que Jesus consumou a obra que veio aqui fazer.

Alguém pode perguntar como tal pessoa pode não ter sido salva se foi santificada pelo sangue da aliança? Porque santificação não é sinônimo de salvação, e é fácil de entender isso por uma passagem em 1 Coríntios 7:14, que diz: “O marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido”. Isto não significa que o cônjuge descrente seja salvo, mas que está como que dentro de uma redoma que o separa do mundo e do resto das pessoas por viver em um lar com um cristão. Por causa da fé de sua esposa ou de seu esposo, tal pessoa acaba separada (ou santificada) de coisas que desagradam a Deus em razão do ambiente em que vive.

Terceiro, ao fazer agravo, ou desprezar, “o Espírito da graça”, o apóstata estará desconsiderando a obra do próprio Espírito Santo que convence o mundo do pecado. Como poderia Deus tratar de outra maneira alguém que se faz surdo aos apelos do Espírito Santo em sua alma querendo convencê-lo do pecado? Como poderia ser salva a pessoa que, depois de ter sido iluminada (ou esclarecida) da verdade da graça de Deus, voltou as costas para a luz?

Esta passagem tem tudo a ver com aqueles que são mencionados em Hebreus 6:4-6, que o versículo diz que “uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo. E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram”. Deles a passagem continua dizendo que é impossível que “sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério”.

Esta passagem deve ser entendida no contexto da parábola do Semeador, na qual a semente cai em diferentes tipos de solo. Aquela parábola, embora seja bastante usada em evangelismo, não está falando de salvação, mas de como a semente da Palavra é recebida de maneiras diferentes por causa das diferentes disposições do coração. Na explicação da parábola em Mateus 13:19 vemos aquele que não entende a Palavra de Deus que lhe foi semeada, o que a recebe com alegria, porém sem convicção (o que chamamos de “oba-oba”), o que está tão ocupado com esta vida que, embora receba a Palavra esta fica infrutífera, e finalmente o que ouve, compreende e dá fruto.

Mesmo pessoas incrédulas podem reagir assim ao efeito da Palavra de Deus e até mudarem de vida, porque o assunto ali é o Reino dos Céus (e não o Céu), e lembre-se de que numa parábola seguinte ele irá dizer que no Reino existem pessoas que são joio e pessoas que são trigo.

Agora em Hebreus 6:7-8 temos uma ideia semelhante que fala também de semeadura e colheita: “Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos, é reprovada, e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada.”

Veja que o assunto não é salvação, mas resultados, como é na parábola do Semeador. A distinção é feita no versículo seguinte: “Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos” (Hb 6:9). Estes são os realmente salvos, pois mostram “coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação”.

É também o caso de Hebreus 10 onde, depois de descrever os apóstatas, que depois de terem professado a fé cristã (sem realmente crer), pisaram o Filho de Deus, tiveram por profano o sangue da aliança e fizeram agravo do Espírito. Destes o texto diz que “se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele”, porque alguém que recuou a este ponto é porque nunca realmente creu em Cristo. O versículo seguinte é o que fala dos verdadeiramente salvos: “Nós, porém, não somos daqueles que se retiram (ou recuam) para a perdição, mas daqueles que creem para a conservação da alma” (Hb 10:39).

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Problema de vírgula?

Você escreveu discordando de meu comentário sobre um erro grave da doutrina adventista sobre Lucas 23:43, e disse que a verdadeira tradução bíblica para essa passagem seria “em verdade te digo hoje [vírgula], estarás comigo no paraíso”, e não “em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. Segundo você, Jesus não disse que o ladrão estaria no paraíso com ele naquele mesmo dia, mas que Jesus teria dito naquele dia que ele ainda estará no paraíso apenas no futuro. Será?

Seu enviar a você uma mensagem sucinta e sem pontuação dizendo: “Podes crer hoje vou passar na tua casa”, o que você entenderia? Que “podes crer hoje” ou que “hoje vou passar na tua casa”? Seria uma bobagem eu incluir no bilhete a palavra “hoje” apenas para dizer que “hoje” é o dia de minha mensagem, mesmo porque não seria possível eu ter dito isso amanhã ou ontem. Além disso, o verbo que antecede o “hoje” está no presente. Por isso creio que Jesus quis sim dizer ao malfeitor na cruz: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Além disso outras passagens deixam muito claro que no momento posterior à morte o crente está com Cristo.

(Fp 1:23) “Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor”. Paulo não disse que “dormir é ainda muito melhor” ou “partir e esperar estar com Cristo”. Sua certeza era de um encontro imediato com seu Salvador, e não da passagem para uma sala de espera ou ser colocado em um “coma” espiritual.

Algumas religiões roubam de seus seguidores a certeza de que o verdadeiro crente em Cristo estará com ele imediatamente após a morte. Para adequarem a Palavra de Deus às suas doutrinas elas argumentam que existe um problema com os dois pontos ou a vírgula (dependendo da edição) em Lucas 23:43, que no original grego diz simplesmente: “E JESUS LHE DISSE VERDADEIRAMENTE TE DIGO HOJE ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO”. Isso mesmo, sem ponto nem vírgula, porque não existia pontuação no grego antigo que também era todo em maiúsculas.

E aí? Será que Jesus estaria dizendo “Verdadeiramente te digo hoje: Estarás comigo no Paraíso” ou “Verdadeiramente te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”? Um leitor do primeiro século que não tivesse sido reprovado em interpretação de texto no vestibular saberia associar a palavra “hoje” ao dia em que o malfeitor convertido estaria com Cristo, e não ao dia em que a afirmação estava sendo feita (como querem os adeptos dessas religiões que pregam a incerteza). Basta reparar que a pergunta do malfeitor tem um QUANDO e um ONDE e a resposta de Jesus também tem um QUANDO e um ONDE.

(Lc 23:42) “E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, QUANDO tiveres entrado NO TEU REINO”!

(Lc 23:43) “Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: HOJE estarás comigo NO PARAÍSO”.

Se você está sendo privado da certeza da imediata passagem desta vida para a presença de Cristo, sugiro que refute as doutrinas dessas seitas e agarre-se à mesma esperança do apóstolo Paulo, quando disse que o evento que vem imediatamente após o crente deixar este corpo é habitar com o Senhor, e não numa suposta ausência de sua companhia.

(2 Co 5:8) “Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor”.

Tenho mais de vinte versões da Bíblia em minha coleção e apenas uma coloca a pontuação do tipo “te digo hoje”. Qual? A corrupta versão publicada pela Sociedade Torre de Vigia das Testemunhas de Jeová, a mesma seita que adulterou outras passagens transformando Jesus em um homem comum e negando sua divindade.

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Seria o cristão individualmente igreja?

Na tentativa de justificar a igreja como uma instituição, ou as denominações como instituições, você acabou tecendo um raciocínio ímpar, afirmando que o cristão seria individualmente igreja e a igreja seria coletivamente um “pregador”.

Quando respondi mostrando que a igreja é o corpo de Cristo e o cristão, individualmente, é apenas um membro desse corpo, e que o papel da igreja não é evangelizar, mas dedicar-se à comunhão dos santos, à doutrina dos apóstolos, ao partir do pão e às orações (Atos 2:42), ficando a evangelização como responsabilidade individual do cristão, você rebateu: “Se a igreja é todo o cristão que crê, sua proposição de que o papel da igreja não é pregar o evangelho está na contramão.”

Não, igreja não é “todo o cristão que crê” porque igreja não é algo pessoal e individual. Um cristão não é igreja, a menos que você quisesse dizer que “igreja é formada por todos os cristãos que creem”, o que então estaria correto. O cristão individualmente é membro do corpo de Cristo. A igreja é um corpo coletivo formado por muitos membros. O cristão individualmente é apenas membro do corpo, ele não é o conjunto. A igreja (o conjunto) não prega o evangelho e nem ensina. Os membros desse corpo, cada cristão individualmente, pregam e ensinam. Cristo deu dons (indivíduos) à igreja para a edificação do corpo de Cristo. Ele não deu o corpo de Cristo, a igreja, para edificação de si mesma.

(Ef 4:11-12) “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo”.

Ainda assim você voltou a escrever insistindo que, se o conjunto é igreja, então o individual seria igreja também, e foi além afirmando que você é individualmente noiva de Cristo! Vamos ver se de uma vez por todas eu consigo explicar esse equívoco seu. Em Mateus 18 você tem cada coisa em seu lugar. Lá existe um irmão tratando com outro individualmente e depois ele sendo exortado a levar a questão à igreja, demonstrando assim que o cristão individualmente não é igreja. Ele ainda é exortado a levar um ou dois outros irmãos como testemunhas para resolver a questão, mas ainda assim esses dois ou três não são considerados igreja, nem cada um individualmente, nem o fato de formarem um coletivo. Se fossem, o Senhor não diria que o assunto devia ser levado à igreja, o que indica que esta, na sua forma na terra, é algo distinto de um cristão individual, ou até de dois ou três agindo em individualidade.

A igreja nunca é uma pessoa, mas o corpo de Cristo representado por dois ou três (não um apenas) congregados ao seu nome e reconhecendo sua autoridade em seu meio. Repare que não são dois ou três que se reúnem, mas que são reunidos ou congregados, o que se deduz que exista um elemento reunidor, no caso o Espírito Santo. Dois ou três que se reúnem formam aqueles que acompanham o ofendido na tentativa da reconciliação do versículo abaixo, mas eles, ainda assim, não são igreja.

(Mt 18:15-20) “Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão; mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda a palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano. Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra [como igreja, e não individualmente ou em conjunto com outros indivíduos] será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu… Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”.

Tudo é muito claro na palavra de Deus, e em um outro versículo Paulo explica o lugar de cada um, mostrando o que é igreja e o que é membro do corpo. Em 1 Coríntios 12:27 ele diz: “Ora, vós [plural] sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular”. Percebe a distinção que o apóstolo faz? O conjunto é igreja, o particular é membro. Se você achar que o crente é individualmente “igreja”, então ele será também individualmente a noiva de Cristo, o que irá gerar uma confusão ainda maior. Aí as bodas seriam com cada cristão individualmente, mas o que vemos em Apocalipse é que a igreja (o corpo formado por todos os salvos) que desce ataviada para o noivo.

Já vi muitos cristãos fazerem afirmações do tipo “eu sou igreja”, “você é igreja”, mas isso biblicamente não é correto e conduz também a outros erros. Se cada cristão individualmente fosse a igreja, então poderia ser dito que a igreja não só prega o evangelho como também ensina doutrina. Mas então teríamos uma contradição, pois a igreja é mulher (Noiva) e a mulher é proibida de ensinar em 1 Timóteo 2:12. O catolicismo romano é que acredita que “a igreja ensina”, mas o Senhor condena de forma veemente isto em Apocalipse2:20: “Tenho contra ti que toleras Jezabel, mulher que se diz profetisa, ensinar e enganar os meus servos”.

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Mario Persona é palestrante, professor e consultor de estratégias de comunicação e marketing e autor dos livros “Laura Loft - Diário de uma recepcionista”, “Coleção O que respondi…”Coleção O Evangelho em 3 Minutos”, “Meu carro sumiu!”, “Quero um refil!”, “Crônicas para ler depois do fim do mundo”, “Dia de Mudança” (também em inglês: “Moving ON”), “Marketing de Gente”, “Marketing Tutti-Frutti”, “Gestão de Mudanças em Tempos de Oportunidades”, “Receitas de Grandes Negócios” e “Crônicas de uma Internet de verão”.

Mario Persona participou também como autor convidado das coletâneas “Os 30+ em Atendimento e Vendas no Brasil”, “Gigantes do Marketing”, “Gigantes das Vendas”, “Educação 2007”, “Professor S.A.” e “Coleção Aprendiz Legal”, além de ter sido citado como “Case Mario Persona” no livro “Os 8 Pês do Marketing Digital”. Traduziu obras como “Marketing Internacional”, de Cateora e Graham, “Administração”, de Schermerhorn, “Liberte a Intuição”, de Roy Williams, além de diversos livros de comentários sobre a Bíblia.

O autor é convidado com frequência para palestras, workshops e treinamentos de temas ligados a negócios, marketing, comunicação, vendas e desenvolvimento pessoal e profissional. Alguns temas são: Gestão de Mudanças, Criatividade e Inovação, Clima Organizacional, Gestão do Conhecimento, Comunicação, Marketing e Vendas, Satisfação do Cliente, Oratória, Marketing Pessoal, Qualidade Vida-Trabalho, Administração do Tempo, Segurança no Trabalho, Controle do Stress e Meio-Ambiente

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